6ª Feira

Ontem, pouco depois da meia noite, nos canais noticiosos parecia que tinha sido derrubada uma qualquer ínvia ditadura, a propósito da reabertura de bares e discotecas, sem especiais medidas de prevenção da pandemia. Em entrevistas de fino recorte informativo, algumas jovens adultas (por qualquer razão, vi em especial raparigas), revelavam toda a sua felicidade por já poderem beber uns copos e dançar fora de casa. Viva, pois, a Pátria está salva!

Foi um ano e meio muito duro, foi quase como atravessar o deserto em busca de um bote precário no Mediterrâneo ou escapar a pé de um cativeiro do Daesh, quiçá mesmo comer amendoins com casca.

Como ontem escrevia o José Eduardo Martins, na sequência dos votos “criativos” no PAN com florinhas e árvores, realmente há alturas em que apetece fugir daqui, qual Rendeiro.

A Ler

THE TEACHERS HAVE SOMETHING TO SAY

Lessons Learned from U.S. PK-12 Teachers During the COVID-impacted 2020-21 School Year

(…)

The primary message we heard from teachers is that they have not been valued as partners in designing our educational response to COVID. Specifically, the following three themes emerged from our interviews: 1.) exclusion from decision-making processes is demoralizing to teachers, especially when combined with worsening working conditions and widening inequalities; 2.) ignoring the concerns of teachers led to policymakers and school leaders advancing several seriously ill-considered ideas over the objections of practicing teachers; and 3.) teachers have developed a variety of effective instructional strategies in response to the challenging conditions of COVID. Delta is already disrupting school openings across the country. The school systems with the most effective approaches to pandemic schooling over the next year and beyond will be those that listen seriously to the concerns and insights of teachers and include them in design and decision-making.

E Agora?

  • Abertura de bares e discotecas;
  • Restaurantes sem limite máximo de pessoas por grupo;
  • Fim da exigência de certificado digital ou teste negativo para acesso a restaurantes;
  • Fim dos limites em matéria de horários;
  • Fim dos limites de lotação, designadamente para: 
    • Casamentos e batizados
    • Comércio
    • Espetáculos culturais
  • Necessário Certificado ou teste negativo para:
    • Viagens por via aérea ou marítima
    • Visitas a lares e estabelecimentos de saúde
    • Grandes eventos culturais, desportivos ou corporativos 
    • Bares e discotecas
  • Eliminação da recomendação de teletrabalho;
  • Eliminação da testagem em locais de trabalho com mais de 150 trabalhadores;
  • Fim da limitação à venda e consumo de álcool;
  • Fim da necessidade de certificado ou teste nas aulas de grupo em ginásios;
  • Obrigatoriedade de uso de máscara em transportes públicos, estruturas residenciais para pessoas idosas, hospitais, salas de espetáculos e eventos e grandes superfícies;
  • Mantém-se obrigatório o uso de máscaras na utilização de transportes coletivos de passageiros, incluindo o transporte aéreo.

(será que no futuro decreto-lei se explicita o que se pretende para as escolas?)

Os Títulos Do Sensacionalismo

A OCDE publicou hoje o seu estudo The State of Global Education -18 Months into the Pandemic no qual faz, entre outras matérias, o cálculo dos dias que as escolas fecharam durante o período mais crítico da pandemia. Estranhamente, não faz o dos dias em que estiveram abertas, mas isso agora não interessa nada, quando o que merece destaque é afirmar que:

Confinamento durante a pandemia: escolas em Portugal fecharam durante mais dias do que a média da OCDE

Em Portugal escolas fecharam mais dias por causa da pandemia do que a média da OCDE

O que encontramos na página 11 do documento em causa?

Curiosamente, o Correio da Manhã é o menos sensacionalista:

Pandemia de Covid-19 fechou escolas portuguesas durante 97 dias

3ª Feira

Recomeçam oficialmente as aulas no Básico e Secundário com uma situação algo paradoxal. As escolas, sempre apresentadas como os lugares mais seguros à face deste Portugal em termos de pandemia – onde de afirmava existir “contágio zero” – agora são dos locais onde as regras (já de si nem sempre muito coerentes, diga-se) se mantêm mais rígidas, desde logo com a permanência da conversa idiota das “bolhas”. Já nem apetece – ou adianta – apontar tudo aquilo que continua escrito para não ser cumprido ou que faz escasso sentido. Oficialmente, tudo correu bem o ano passado, pelo que se publique a narrativa e a mesma seja afixado nos locais habituais e proclamada pelos arautos da Corte dos Costas.

Entretanto, todo contente, o ministro Tiago desdobra-se em intervenções cheias de evidências planas, enquanto o ex-Super-Mário e os sete anões dormem a sono solto.

Domingo

Parece que amanhã termina oficialmente a pandemia para muita gente. Mas acho, andando por algumas zonas mais centrais de Lisboa percebe-se que já anda tudo numa onda de “já passou… já passou”. O engraçado sem graça é que a juntar aos truques habituais de fumar, ir ao telemóvel ou etc para não usar máscara em zonas com bastante gente, hoje dei com uma nova habilidade que é a de se fingir turista, arranhando um qualquer inglês técnico. Foi assim com um par de chicas espertas nacionais que inglesavam para tuga ouvir, até que uma simples e curta frase minha (em anglo-inglês técnico) sem qualquer tipo de ofensa pessoal ou vernáculo as obrigou a deixar cair a “máscara” e a reagirem com irritação em português bem indígena a tão curto sarcasmo. Nem é que me incomodasse por aí além a coisa, mas confesso que detesto a parolice armada em outra coisa. Lá foram a rezingar, enquanto eu me ria a bom rir (ainda com máscara, que eu sou pessoa muito dada a obediências). Afinal, ainda não perdi a prática.

Mas voltando ao essencial, parece que amanhã termina a pandemia, mas as teorias da conspiração continuam em notória aceleração, disparando em todos os sentidos.

A Sério?

O que eu gostava que esta malta viesse dar aulas para o mundo real. Claro que entendo o objectivo. Assim como as portas das salas também devem estar (como estiveram o ano passado). O que estes especialistas de gabinete parecem desconhecer são algumas das implicações práticas destas medidas, que nem vale a pena estar por aqui a enumerar porque há estados de alheamento que não querem ser perturbados.

Covid-19. Janelas das salas devem estar sempre abertas

5ª Feira

Repetem-se as declarações acerca da necessidade e desejo de manter as aulas presenciais todo o tempo possível. Sim, esse é o objectivo, mas depende muito do comportamento das pessoas e, com variantes, reinfecções e as atitudes entre a pseudo-rebeldia e a pura inconsciência, essa é uma garantia que está longe de poder ser dada. Já temos muita experiência, com razoável sucesso, dos portões para dentro. Falta (ainda) o resto, que a malta tem mesmo muita falta da esplanada, um direito humano essencial por estes dias.

Colaborações

Há uns meses pediram-me um contributo para um ebook acerca do que deverão ser as prioridades de uma Educação pós-pandémica. O volume ficou agora pronto com 61 colaborações e textos de enquadramento e síntese. O meu contributo, para quem não quiser explorar o pdf (que deixo mais abaixo)fica aqui e, como em outros textos, não se baseia numa concepção da Escola como um oásis separado da sociedade envolvente. Para quem acha que eu me limito a criticar, mesmo que discordem, não evitem sempre ler as partes em que eu explicito aquilo em que acredito e apresento propostas, mesmo quando é apenas num par de páginas. Já agora, e para evitar certos comentários que sempre surgem, não faço parte do EdThink, tendo-me limitado a corresponder a uma solicitação. Do mesmo modo, não me revejo em parte dos contributos, como vários autores não se reverão no meu. Parece que o pluralismo é isso mesmo. Há quem enuncie e há quem pratique.

Aquém e Além Portões

Em termos ideais, a experiência pandémica na Educação deveria ter-nos tornado mais conhecedores e mais conscientes dos diferentes fatores que contribuem para o desempenho e o sucesso dos alunos na sua vida escolar. E ter conduzido à implementação de políticas devidamente focadas no combate à origem dos males diagnosticados.

Até porque parecem pacíficas, agora, algumas evidências que nem sempre foram assumidas com clareza quando foi necessário suspender as aulas presenciais pela primeira vez, em março de 2020. As principais passam pela constatação de que sem as portas das escolas abertas muita coisa entra em colapso na vida do país e que a sociedade está preparada de maneiras muito desiguais para lidar com um modelo de ensino remoto de base digital. Assim como pela constatação, que nem é de agora, de que as escolas são essenciais para combater a fragilidade e a falta de coesão socioeconómica que caracteriza uma sociedade ainda profundamente dual como a nossa em matéria de rendimentos e condições de vida.

O que as escolas têm feito tem sido muito para minimizar as desigualdades existentes numa população em que um quinto dos indivíduos vive, de forma endémica e com uma fortíssima transmissão geracional, abaixo do limiar do razoável em termos materiais numa sociedade que se pretende desenvolvida. As escolas abdicaram, em muitas comunidades, de parte da sua função mais estritamente educativa, para se focarem num papel predominantemente assistencial. Mais pode ser feito, em termos de rapidez e eficácia na sinalização das situações de maior vulnerabilidade e risco, mas para isso é necessário que, a um acréscimo de funções e exigências, corresponda um aumento e diversificação de meios humanos e técnicos para as cumprir.

Mais do que semanas adicionais de aulas para compensar “aprendizagens perdidas” que ainda ninguém provou de forma clara que existem unicamente por causa da suspensão do ensino presencial, há falta de assistentes sociais, psicólogos, mediadores, com formação especializada e dedicação exclusiva a funções que não podem ser sistematicamente atribuídas aos professores por comodidade ou para cobrirem as horas de redução da componente letiva, em nome de uma pretensa racionalidade da gestão dos recursos humanos.

Assim como é indispensável que as instituições de apoio e segurança social estejam em condições de corresponder a todas as situações que lhes são reportadas, em vez de se passarem meses antes de se dar sequência, em tempo útil, às sinalizações encaminhadas para as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens e que as diligências feitas não acabem em arquivamento, com base no argumento de que existe uma capacidade de resposta limitada e que há casos mais graves.

As intervenções para solucionar todos os problemas que a pandemia deixou mais expostos, não podem ater-se ao que se faz dos portões das escolas para dentro, em especial em alturas quando os alunos ficam deles para fora, 24 horas por dia, 7 dias por semana, nos seus contextos e circunstâncias de origem. Quando o enorme amortecedor que é o sistema público de ensino na sua vertente física e presencial deixa de funcionar em regime de proximidade plena. Nem pode ficar pelas promessas para consumo mediático ou por medidas avulsas para exploração demagógica.

Não chega entregar computadores aos alunos para que eles – e suas famílias – fiquem capacitados para um período de ensino não-presencial de várias semanas. É necessária uma intervenção muito mais profunda e concertada que permita minorar de forma significativa as desigualdades pré-existentes e não enveredar por meras estratégias de cosmética ou remediação superficial. É necessário rever as condições de trabalho em termos de horários e política de rendimentos. Muitas crianças e jovens não podem depender das escolas dez horas por dia e depois ficarem quase entregues a si mesmas, porque os seus familiares têm empregos precários, com horários desregulados e uma segurança social que se afunda em procedimentos burocráticos quando são necessários apoios de emergência.

As escolas podem muito, mas não podem tudo. A pandemia mostrou-nos o muito que podem, mas de igual forma as suas limitações e a medida do papel que desempenham para além da função educativa, de substituição das famílias e de apoio social. Podem aspirar a funcionar como oásis, mas não funcionam a tempo inteiro e deve ter-se em atenção que essa não deve, nem pode, ser uma aspiração sua. Os alunos quando saem dos portões, não podem sair para um deserto que assim continua, porque se considera ser demasiado difícil transformá-lo, pelo que é mais simples deixá-los o máximo de tempo dentro das escolas. E se algo não corre bem, é porque os professores precisam de “formação” nesta ou aquela área. Não, os professores precisam de não ser explorados e esgotados em múltiplas funções, para não ser contratado pessoal especializado, devidamente formado para funções demasiado específicas para ser desempenhadas com base no “jeito” de cada um.

A pandemia, não apenas na área da Educação, ajudou a desviar o espesso véu que tem coberto a dualidade que se mantém na sociedade portuguesa, assim como os elevados níveis de desigualdade que tornam impossível falar em equidade apenas a partir das medidas implementadas nas escolas. O maior problema é que se nota um esforço mal dissimulado para repor esse véu e dar a entender que tudo se acabará por resolver com uns milhares de computadores, mais semanas de aulas ou escolas de Verão. Nada de mais errado. Essas medidas não passam de panaceias de curto efeito. A “doença” só desaparecerá quando se tiver a coragem de a combater de forma continuada para além dos portões das escolas.