Domingo

Já percebemos que as escolas são os oásis no meio da pandemia e não é difícil perceber quem são os “areias”. O esforço por aparentar uma “normalidade” não resulta apenas do fracasso do ensino não-presencial modernaço do século XXI. Resulta de imperativos exógenos que obrigam a que as escolas funcionem para que o resto quase funcione. Aqui por casa vive-se num concelho promovido à categoria de “risco” e entre pais professores e filha aluna todos vão diariamente para escolas em zonas igualmente classificadas dessa forma. E é muito complicado não pensar coisas pouco agradáveis de certas personagens que por aí andam, do topo do Estado às bases nas próprias salas de professores. Por exemplo, aqueles que arranjam as mais indigentes justificações para continuarem a fingir que o modelo de avaliação do desemprenho deve decorrer como se estivéssemos em tempos normais. Dos apáticos (“se somos convocados, temos de ir não é?”) aos emproados (“antes eu do que outr@ qualquer”), passando pelos bem-intencionados (“mas se não formos, @s colegas depois é que se prejudicam…”), há para todos os gostos, incluindo os que não se confessam explicitamente predestinados para avaliar o trabalho alheio quando nem o seu fazem em condições, mas estão logo na fila da frente do “empurrão”, mesmo se isto implica que andemos a passear entre escolas de concelhos diferentes.

Confesso sem vergonha que por vezes tenho pensamentos pouco cristãos, o que até é natural num agnóstico. Porque sei que o raio do “bichinho” aparenta ser cego, apenas entra onde é mais tenro e não onde poderia fazer alguma justa comichão. Ou pelo menos que se lhes desse uma urticária generalizada a certos “artistas”, o que rima com cientistas, oportunistas, aparelhistas e quase com hipócritas.

Escrito A 12 De Março

As escolas não fecham porque se tornaram enormes espaços multifunções, em que a função assistencial se sobrepõe à educativa. Sem as escolas, não há qualquer outro tipo de “rede social” funcional. Sem as escolas a funcionar, o país entra em colapso.

É chato, mas um tipo não tem culpa de ver além do seu “quintal”.

5ª Feira

O ensino não-presencial é um remendo, nada aconselhável para a miudagem mais pequena, mesmo se a alguns só pareceu evidente quando era impossível negá-lo. A conversa do mundo digital do século XXI mostrou toda a sua vacuidade. Mas já é esticar um bocado a corda dar a entender que todos os males da Educação, este ano, resultam do confinamento. Os alunos têm problemas de leitura há muito tempo e não é apenas no 2º ano. Aliás, o raro é encontrar fluência generalizada na leitura e na compreensão de textos escritos mesmo no 5º ou 7º ano. A pandemia teve muitos efeitos negativos, mas começa a ter as costas demasiado largas. Neste momento, em muitos ambientes sociais, os miúdos crescem em famílias em que a leitura, para além de conteúdos funcionais muito simples, quase desapareceu.

Medo Ou Não Medo, Não É Bem A Questão

Um colega dizia-me como a “cultura do medo” ajuda a alimentar a indústria dos testes ao vírus a 100 euros a urgência no dito. Sim, concordo que há áreas de negócio em resplandecente prosperidade. E é verdade que já disse aos meus alunos, que não temo propriamente por mim, eles ou familiares mais próximos abaixo da minha idade ou por aqui, quando os mando meter o nariz para dentro do raio da mascarilha,

Mas há uma coisa que vos garanto… fosse vivo algum dos meus progenitores (e teriam 88, cada qual, nessa feliz eventualidade) eu não estaria na escola a dar aulas ou a fazer outras coisas, por vezes à mesma das 9 às 4 ou 5 da tarde como antigamente, apesar de me terem garantido, do alto ao baixo, que se iriam evitar cruzamentos e que isso é que justificava certas medidas.

Um Estudo A Precisar De Uma Amostra Mais Equilibrada

O estudo original é Schooling disrupted, Schooling rethought: How the Covid-19 pandemic is changing education e tem o carimbo da OCDE e a autoria do nosso conhecido Andreas Schleicher e de Fernando Reimers (Harvard Graduate School of Education). Recebi a versão preliminar, em português do Brasil que fica aqui para quem quiser consultar (School Rethought VPortBrasil). Os dados recolhidos e as conclusões extraídas são razoavelmente frágeis devido à evidente distorção do número de respostas recolhidas que, na maioria dos casos, oscilam entre uma para a maioria dos países e mais de 100 ou mesmo de 500 para outros. Nas tabelas apresentadas dá para perceber que em alguns casos os dados correspondem, no essencial, às de um país (nuns casos o México, em outros a Nigéria ou a República Dominicana), estando longe de ser um panorama global. Fica como apontamento de algo que espero que melhorem muito na versão final, pois é importante que se perceba como a Educação foi tão afectada em pouco mais de um simples trimestre.

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