Dia 66 – A História Repete-se?

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Boa parte de quem não regressa às aulas presenciais, não o faz só por questões de segurança, mas porque irá manter apoio em casa, com ou sem ensino remoto da rede pública. Basta pensar em todos aqueles alunos que nas aulas regulares se mostravam displicentes e não negavam que o seu maior investimento era no par de horas de explicações privadas.

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diario

Dia 65 – S@D (Sucesso A Distância)

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De garantir o “sucesso”, não com qualquer reformulação dos métodos de avaliação (como outro governante deu a entender em recomendações recentes, tiradas directamente de um manual de avaliação formativa de há 30 anos), mas sim de fazer uma série de avisos aos professores para a necessidade de atenderem às circunstâncias anómalas que se vivem.

Não havia necessidade. Nós sabemos.

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diario

A Ler

A imunidade dos exames do secundário à covid-19

Não podemos abraçar uma mãe ou um filho, mas temos de ir dar aulas que garantam um sistema de ingresso fétido e, neste ano, até imoral e ilegal.

La rentrée: o regresso às aulas

O ano lectivo está perdido e poucos alunos estarão em Setembro de 2020 em condições fundamentalmente diferentes daquelas em que se encontravam em Setembro de 2019.

Finger

Opiniões – Lia E António Ribeiro

Sete razões que demonstram que o regresso a esta modalidade de aulas presenciais vai, objetivamente, prejudicar a aprendizagem dos alunos.

Como está a ser concretizado o ensino à distância:

  1. Até à data os alunos da turma do 12º ano estavam «presentes», através do google meet na plataforma Classroom, nos seis tempos letivos semanais (desde a interrupção letiva que foram lecionados em interação síncrona a totalidade dos tempos letivos com a presença de todos os alunos);
  2. tinham acesso a um conjunto de recursos através de aplicações PowerPoint partilhadas (textos, mapas, gráficos, esquemas …);
  3. era possível observar vídeos educativos e realizar a posterior análise com os alunos; 4. existiu sempre uma participação ativa da maioria dos alunos da turma em todas as aulas;
  4. realizaram, com raras falhas, as tarefas propostas no final de cada sessão, para trabalho autónomo.

Com esta modalidade das aulas presenciais teremos esta «nova realidade»:

  1. não está garantido, por vários motivos, que a totalidade dos alunos compareçam no estabelecimento escolar, criando desigualdades no acesso às aprendizagens que não existiam;
  2. como a turma vai ser dividida por turnos, os alunos deixam de frequentar de 6 tempos letivos semanais para passarem a frequentar apenas 3 tempos letivos (50% de redução), sendo os restantes 3 tempos letivos na escola dedicados a trabalho autónomo que poderia perfeitamente ser realizado em casa (para se perceber melhor, os alunos vão estar todos na escola ao mesmo tempo, mas em salas diferentes, estando um turno em aula com o professor durante quarenta e cinco minutos enquanto o outro turno está a realizar trabalho autónomo, passado este tempo, o professor troca de sala e repete a aula ao outro turno ficando o primeiro em trabalho autónomo);
  3. As interações com os alunos, interpretação de documentos vários, debates, etc…, irão decorrer de forma diversa nos diferentes turnos, impedindo momentos importantes de aprendizagem que eram possíveis com todos os alunos presentes simultaneamente;
  4. Respeitando as «orientações para o regresso às aulas em regime presencial (11º e 12º anos de escolaridade e 2.º e 3.º anos dos cursos de dupla certificação do ensino secundário)», publicadas pela DGEstE, as salas de aula terão de permanecer arejadas (pontos 5 e 17, págs 2 e 4), o que não vai permitir o escurecimento parcial, impedindo a utilização eficaz do videoprojector, retirando aos alunos o acesso a um conjunto de recursos essenciais para o desenvolvimento da aula;
  5. Respeitando as referidas normas publicadas pela DGEstE, não vai ser possível distribuir recursos em suporte papel ou recolher trabalhos escritos pelos alunos (ponto 10, pág. 7 «Evitar tocar em bens comuns e em superfícies»), o que impede a distribuição de recursos ou a realização de fichas de avaliação em suporte escrito;
  6. Respeitando as referidas normas publicadas pela DGEstE, os alunos não poderão realizar atividades em grupo ou mesmo a pares (ponto 5, pág. 2 «um aluno por secretária. As mesas devem estar dispostas com a mesma orientação, evitando uma disposição que implique ter alunos de frente uns para os outros»);
  7. Respeitando as referidas normas publicadas pela DGEstE, o professor e os alunos terão de utilizar as máscaras no interior da escola e sala de aula (ponto 1, pág. 6), com todas as dificuldades inerentes para uma eficaz para a comunicação oral.

É motivo para se ficar perplexo com esta medida que não tem qualquer racionalidade económica, pelo contrário, vai implicar um enorme investimento do dinheiro dos contribuintes em material de proteção individual e na higienização dos edifícios escolares.

Este seria um momento óbvio para que as decisões pudessem ser ponderadas no âmbito da autonomia escolar. Cada escola, analisando o caso específico de cada turma em colaboração com o professor da disciplina, alunos, pais e encarregados de educação, verificaria qual a melhor solução para a continuidade das atividades letivas.

Uma medida interessante seria abrir o espaço escolar para os alunos que podem ter dificuldades, por falta de meios tecnológicos, em aceder ao ensino à distância. No recinto escolar poderiam ter acesso a esses meios e participar nas atividades.

Em conclusão, em alguns casos, o regresso a esta modalidade de atividades presenciais é contraproducente, isto é, um risco para a saúde que para além de desnecessário apenas vai dificultar o processo de ensino-aprendizagem que estava a decorrer. O regime presencial tem evidentes vantagens relativamente ao ensino à distância, mas esta modalidade, estou a referir concretamente esta modalidade de regime presencial, é extremamente limitativa.

Lia Ribeiro e António Ribeiro

Finger

Carta Aberta De Uma Encarregada De Educação

CARTA ABERTA SOBRE A REALIZAÇÃO DE EXAMES NACIONAIS NO ANO LETIVO 2019/2020 

Ex.mo Sr. Presidente da República Portuguesa

Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Ex.mo Sr. Primeiro Ministro

Ex.mo Sr. Ministro da Educação

Ex.mo Sr. Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Ex.mo Sr. Presidente do Conselho de Ministros

Ex.mo Sr. Presidentes de todos os Grupos Parlamentares

Ex.mo Sr. Presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais – CONFAP

Ex.mo Sr. Presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação – CNIPE

Ex.mo Sr. Presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas

Ex.ma Sra. Presidente do Conselho Nacional de Educação

Considerando que:

  1. A evolução da pandemia é incerta a nível nacional e internacional;
  2. O pico da doença poderá ainda não ter sido atingido, segundo os especialistas e informação da Direção Geral de Saúde;
  3. Os exames do ensino secundário, neste ano letivo, visam unicamente fazer deles um instrumento complementar de acesso ao ensino superior;
  4. O recomeço das aulas presenciais previsto para maio tem apenas como objetivo a preparação dos alunos para os exames nacionais;
  5. Essas aulas poderão atentar contra a saúde pública de toda a comunidade escolar, expondo-a a riscos desnecessários e de consequências imprevisíveis, tanto mais que os jovens, por serem geralmente assintomáticos, serão potenciais veículos de transmissão de grande risco;
  6. Existem alunos que pertencem a grupos de risco, cujas vidas verão e serão postas em causa ao terem que regressar à escola para terem aulas presenciais. Em contrapartida, a docentes e não docentes pertencentes a grupos de risco é dada a possibilidade de não voltarem às escolas sem mais;
  7. As medidas previstas pelo governo nesse âmbito determinam que o aluno poderá optar por não ter aulas presenciais, se o fizer não estará em igualdade de circunstâncias relativamente aos outros quanto à sua preparação para os exames nacionais. Prova-o a decisão do governo ao ponderar o regresso às aulas presenciais, caso contrário, as aulas a distância, como até aqui, seriam suficientes;
  8. Os alunos, ao voltarem às aulas presenciais, poderão infetar ou contrair a COVID 19, o que os afastará da escola, no mínimo 15 dias, pondo em risco a realização dos seus exames e também os dos seus colegas;
  9. Aos alunos do 12º ano, que faltarem à primeira fase de realização dos exames por consequência da COVID 19, ser-lhes-á impossibilitada a candidatura à primeira fase do concurso ao ensino superior. Significa, na prática, perderem um ano da sua vida, uma vez que na segunda e terceira fases há cursos que não têm vagas sobrantes;
  10. Estes jovens investiram os últimos 3 anos das suas vidas a preparar o seu ingresso no ensino superior, com expectativas, ansiedades e angústias que mais se agravam numa fase tão conturbada como a que vivemos;
  11. A preparação destes jovens deva ser tranquila para que tenham um desempenho à altura de todo o tempo e estudo investidos, é necessário que a conjuntura e o contexto em que estão inseridos não sejam desfavoráveis nem os coloquem em desvantagem;
  12. Ademais, o novo calendário de exames, entretanto estabelecido, irá, inevitavelmente, condicionar o início do próximo ano letivo, não se pode aceitar que a saúde dos jovens seja posta em risco por uma decisão prematura.

Face ao exposto, como Mãe e Encarregada de Educação de um aluno de 12º ano que pertence a grupo de risco, por ter duas doenças crónicas, venho por este meio:

  1. Exigir ao Ministro da Educação o cancelamento do atual calendário de exames do ensino secundário pelas razões acima descritas e à semelhança do que outros países europeus já fizeram.
  2. Solicitar aos Ministros da Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que, em coordenação, elaborem novas formas de acesso ao ensino superior válidas para o corrente ano letivo que não passem pela concretização do estabelecido no Decreto-Lei n.º 14-G/2020.
  3. Apelar à defesa da vida de todos os envolvidos neste processo, mas sobretudo dos mais frágeis, como os alunos pertencentes a grupos de risco.

Porto, 07 de maio de 2020

Ana F.

(embora tenha apresentado a sua identidade completa a autora solicitou que não fosse divulgada de forma completa, por questões de privacidade do educando)

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