A Ler

Tabelas de IRS: Não entram ricos, deficientes e parvos

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As tabelas publicadas na sexta-feira são a confirmação de que o Governo PS vai colocar toda a carne no assador fiscal este ano (ano de três eleições), à custa de rendimentos do ano passado e à custa dos de 2020.

No ano passado, depois de anunciar o aumento do número de escalões, de cinco para sete, o Governo deveria ter ajustado de imediato as taxas de retenção na fonte de IRS de forma a espelhar a baixa de IRS. Não o fez, ou melhor, fê-lo de forma parcial. Isso fez com que ao longo de 2018 todos os contribuintes estivessem a pagar mais IRS do que aquele que deveriam. O que quer dizer que em junho/julho, algures entre as europeias e as legislativas, os contribuintes vão receber o cheque do reembolso relativo aos rendimentos de 2018 mais generoso, à custa do que andaram a pagar a mais em 2018.

Money3

Nós Temos Pago a Dobrar!

Não recebendo o devido e pagando o abusivo.

Com a receita em alta, défice encolheu mil milhões até Julho

Montante arrecadado pelo Estado com impostos cresceu 5,2% nos sete primeiros meses do ano.

Carteira

(quanto às prioridades de “investimento”, parece que são em sectores com a malta certa nas administrações)

Sábado

A Autoridade Tributária é um serviço especialmente eficiente e chato desde que nos apanhe o mail. Mas o Março começou, avisou-me que tenho de pagar o IUC, um imposto particularmente abusivo e estúpido num país onde eles abundam. Um carro com 3 anos, com 1,6 a gasóleo, tem de pagar quase 150 aérios pelos vistos para poder “circular”, sendo que para o comprar já paguei um IA do caraças e para o abastecer mais de metade do dinheiro do combustível vai em taxas e impostos e se quero usar uma estradita melhor pago portagem. Quanto a “circulação” estamos falados. E para o ano tenho de ir fazer aquela inspecção em que me arrisco a não passar, enquanto alguns jeitosos andam aí a largar nuvens de fumo e ninguém os pára. Há quem diga que só assim o “Estado” tem dinheiro para nos prestar os imensos e privilegiados serviços de que dispomos. Que se não queremos pagar impostos temos de prescindir do “Estado Social”! A sério? Acabam-se escolas e centros de saúde, mais os tribunais e as reformas se quem compra um carro não tiver de pagar um iuc completamente disparatado?

E não me venham com o recurso aos transportes públicos. Aqui em casa não há qualquer possibilidade de deslocação para os locais de trabalho (qualquer deles a cerca de 20 km) através de transporte público, sem ser com um mínimo de duas ligações e perto de uma hora e meia (acrescendo o trajecto a penantes da estação de destino mais próxima), sendo que no meu caso o horário dos dois autocarros matinais é completamente incompatível com a minha entrada na escola e para regressar seria igualmente o bom e o bonito. Não uso transportes públicos porque os mesmos são uma lástima em termos de acesso e horários de/para onde vivo, não por capricho.

E já agora… em relação a este tipo de impostos, não encontro diferença entre esquerda e direita, por muitos que uns digam que querem aumentar o rendimento das famílias e os outros que querem diminuir a carga fiscal das famílias. A verdade é que uns tiram com uma mão e bastante rapidez aquilo que dão devagarinho com a outra. E os outros preocupam-se mais com a tsu dos patrões e o irc do que com os impostos sobre o mexilhão, dos quais o iuc ou o imi são uma espécie de amarras permanentes.

Choque en dibujo

O Carisma de um Buraco Negro

A CGD sempre foi uma prateleira dourada para políticos em pousio se transformarem em administradores, executivos ou não, de escassas qualidades no sector bancário. Muitos foram-no apenas para serem facilitadores ou transmissores de agendas políticas e para subsidiarem negócios das redes clientelares. A pouco e pouco vai-se sabendo a desgraça de uma gestão política do banco público, embora dificilmente eu veja a possibilidade de alguém ser responsabilizado criminalmente por uma série de crimes financeiros praticados contra o interesse público. Porque quem os fez deixou daqueles rastos ténues que se percebem, mas raramente se aguentam em tribunal por causa de umas tecnicalidades que a seu tempo foram introduzidas no nosso “ordenamento jurídico” por forma a complicar a vida a quem quisesse ir atrás desta maralha (e de outras, não sejamos pouco generosos, porque muita gente andou por ali a encher muitos bolsos directa ou indirectamente). O caso das conexões espanholas do engenheiro e do sapateiro interessa-me, porém, menos do que o sublinhado a vermelho e que se explica em poucas palavras: o BCP não faliu porque a CGD serviu de almofada à custa da sua própria instabilidade e agora vamos ter de pagar para a sua recapitalização porque, há uns anos, era uma carga de trabalhos o BCP ir de pantanas logo em cima do BPN, revelando até que ponto a nossa classe de eméritos gestores privados é globalmente um fiasco total. O resto é conversa.

pub2nov16

Público, 2 de Novembro de 2016