Flexibilidade Comercial

Depois de uma mentora do pafismo educacional publicar um manual para as flexibilizações e autonomias num grande grupo editorial, é a vez de me chegar a publicidade a um outro manual (mais virado para as “práticas”) do seu colega mentor da coisa no grupo editorial concorrente. Fizeram bem, dividiram-se e assim conseguem o melhor de dois mundos a duplicar. Chamem-me puritano, qualquer coisa assim, mas há anos e anos que critico esta forma de estar por dentro de tudo e ainda fazer a festa cá fora. Quando se criticam tanto os professores por questões menores, fica todo o campo aberto para os especialistas serem consultores do poder político, neste caso do ME, e delinearem os traços de políticas que depois aparecem a explicar em publicações de tipo comercial e não emanadas do próprio ministério com quem colaboraram. Sim, eu sei que os tempos estão para organizar a vidinha como se pode e para serem arquivadas todas as questões de tipo “ético” (ouvi uma advogada de um recente arguido que beneficiou de arquivamento da queixa contra si a dizer claramente que as questões éticas não são da competência dos tribunais e a verdade é que tem razão), mas isto começa a causar um certo incómodo, porque se repete uma e outra vez e tem quase sempre o mesmo “círculo” a desenvolver estas belas práticas. A sério, quase consigo ver já os nomes no frontispício dos manuais sobre Educação “Inclusiva” que devem estar por aí a aparecer, a ver se apanham a boleia das vendas natalícias de fim de ano.

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Reconhecido Mérito Reconhecido Por Quem?

Sinceramente, mais do que a presença de directores, temo a presença de operacionais orgânicos dos poderes que passam pelo ME, aqueles “especialistas” e “peritos” que estão mais preocupado em verificar se as escolas verdascam o sucesso estatístico do que se fazem um bom trabalho a outros níveis bem mais relevantes para o tal “superior interesse dos alunos”. Ou então teremos uma chuvada de cosmes@trindades por aí, a ver se toda a gente salta e flexibiliza de acordo com a cartilha.

Segundo o Ministério da Educação, as novas equipas de avaliação serão compostas por quatro elementos: “dois inspectores – sendo um deles coordenador – um perito e uma personalidade de reconhecido mérito com conhecimento do sistema educativo.

O SIEE teme que este novo elemento possa ser um director escolar: “Ao estarem a avaliar os seus pares fica posta em risco a isenção”, alertou a presidente do SIEE, Bercina Calçada, em declarações à Lusa, considerando esta opção “perversa e ilegal”.

cachorro

(declaração de interesses… o meu agrupamento foi avaliado muito razoavelmente o ano passado, mas a terceira pessoa da equipa de avaliação – uma espécie de avaliador@ de reconhecido mérito – fez observações nas visitas às escolas, em especial do 1º ciclo, que raiaram, mais do que rudeza de trato ou a indelicadeza institucional, uma visão pedagógica afuniladada e por demais datada, mesmo se alinhada com os actuais poderes… felizmente na sessão em que participei foi o elemento mudo…)

Capucha is Back

A tralha socrático-rodriguista está toda de volta. O PS no governo da Educação é isto, roda sempre em volta das mesmas capelinhas e dá sempre de mamar aos que sabem responder às encomendas com estudos a preceito. Chamo a atenção para a equipa de sebastiões&capuchas que, na falta de observatórios, sempre se vão desenrascando com quase 60.000 aérios por isto (com o IVA fica mesmo abaixo do limite máximo para este tipo de ajustes). Claro que por ajuste directo e porque o ME alega “ausência de recursos próprios” para este estudo.

O estudo A Dimensão das Turmas no Sistema Educativo Português, financiado pela Secretaria-Geral da Educação e Ciência, foi desenvolvido entre dezembro de 2016 e julho de 2017 – tendo-se procedido a alguns aperfeiçoamentos e esclarecimentos adicionais que se afiguraram necessários, entre agosto e outubro -, por uma equipa de investigação multidisciplinar do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL (CIES-IUL) coordenada por Luís Capucha.

Capucha

(voltamos a estar a saque?)

O Alexandre É Giro, Mas Não Tanto Assim

Gostava de ser moitadedeus, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de manter algum decoro. Por isso, gosta de introduzir termos como “medíocres” mas depois faz ali umas piruetas, porque até sabe que há que manter algum decoro e ligação à verdade. Repare-se neste exemplo:

 O mérito não pode estar refém da antiguidade e, neste momento, é isso que sucede na educação, onde a progressão dos professores é quase-automática.

O “quase” é um mimo neste tipo de discurso. Se o Alexandre Homem Cristo quer passar por investigador e especialista (com assento no CNE) sabe que não pode escrever que a progressão dos professores é “automática”. ele sabe que a net não perdoa e que, mesmo sem ser em papel, esse tipo de prosa seria guardada e voltaria para o assombrar. Como ainda não é júdice ou marquesmendes, sabe que não pode partir à desfilada. E aquele “quase” é cirúrgico, representando que não mergulhou ainda por completo na “pós-verdade” de outros assanhados comentadeiros.

Mas há algo que ele escreve e que deveria explicar de forma fundamentada porque dá a entender que valorizar as condições de trabalhos dos professores é contra o interesse dos alunos.

A terceira consequência está no dano provocado pela mensagem política associada ao acordo: a de que os interesses e calendários corporativos (também representados parlamentarmente por PCP e BE) se sobrepõem aos do sistema educativo – isto é, aos dos alunos.

Este tipo de insinuação é grave, muito grave e ele deveria saber que um dia isso poderá aplicar-se a quem seja pago apenas para “investigar” certos assuntos, sem que isso tenha qualquer impacto nas aprendizagens dos alunos. Até porque tendo os resultados dos alunos melhorado substancialmente nas comparações internacionais (em contra ciclo com os dos sistemas de ensino que AHC elogiava até há muito poucos anos), quer-me parecer que investir nos professores é investir de forma quase directa na qualidade do trabalho com os alunos.

Este tipo de discurso – o interesse dos professores é contrário ao dos alunos – é “sustentável” porque quem sustenta certos observadores é exactamente quem acha que os interesses de donos de colégios privados não são contrários aos dos alunos. E há quem seja “avaliado” com base na prestação de serviços. Que podem ser “medíocres” desde que sirvam a “causa”.

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