Continua A Ser Uma Dor D’Alma

Mais do que qualquer delírio eduquês ou eunuquès, aflige-me que gente adulta, em muitos casos com dois dígitos de certificação educativa, continue a não compreender a leitura de frases simples com palavras muito claras e conceitos que (como hoje ou amanhã) não requerem além de uma literacia hiper-básica. Assim como a não conseguir articular uma simples estrutura de sujeito e predicado com complemento directo e pouco ou nada mais. A comunicação escrita – mesmo consultável uma e outra vez em caso de dúvida – parece tornar-se uma dificuldade imensa para quem se limita a manifestar-se por emojis. O que esperar então quando se fica apenas pela transmissão oral? É que nem vale a pena. E o pior ainda é a arrogância com que se reveste a manifesta ignorância.

Como hoje ironizava perante a petizada de uma turma, parece que estarmos a ler uma história sobre o valor da leitura é o mesmo que estar a falar de dinossáurios com caudas às bolinhas. E como é evidente, este post não é sobre petizes que esses são por vezes os menos culpados de tudo.

Andará Tudo Meio Parvo?

Há gente muito preocupada em explicar que esta segunda vaga é menos letal do que a primeira e que não há razão para grandes alarmes. Porque há mais casos confirmados e menos mortes, em termos relativos. E eu sinto-me estúpido porque penso que a explicação é relativamente simples… agora as pessoas estão melhor informadas, acabam por se tratar e proteger melhor quando se sabem infectadas e os próprios cuidados médicos, apedar de todas as falhas que ainda existem, estão melhor direccionados do que antes, pois conhecem-se melhor alguns aspectos da doença.

Perante os números que afligem de novo a Europa e levam a tomar medidas um pouco diferentes do modelo “não se pode deslocar a menos que precise ou garante que precisa mesmo”, há quem ande ainda a relativizar tudo e a brincar com tudo isto, em alguns casos com algo que me faz lembrar rebeldias serôdias de quem se acha muito libertário, sejam os de filiação anti-vacinas e quiçá terraplanista, sejam os que parecem achar que isto é uma conspiração cripto-capitalista global para não irmos aos centros comerciais aos fins de semana, o que não deixaria de ser paradoxal. Leio muita coisa para tentar entender o mundo em que certas cabeças vivem e encontrar que lógicas são estas que me fazem lembrar uma espécie de delírio milenar.

Epidemias e pandemias não são uma novidade na História, mas é estranho que, ocorrendo num tempo singular em termos de avanços científicos e tecnológicos, perante a que vivemos ainda exista tanto pensamento atávico, preso a preconceitos e vendo nos outros a prisão mental da qual não conseguem libertar-se.

Esta desafeição crescente pelos teóricos do não sei quê, em nenhum momento significa que aceite como brilhante ou razoável o que não passa de mediocridade em grande parte da nossa classe política, entretida em jogos florais inconsequentes. Ou secretários de Estado que choram quando não morre ninguém, mas não quando morrem dezenas e milhares são infectados sem que saibamos as sequelas, por assintomáticos que estejam. Para não falar de outros que desaparecerem, percebendo-se a sua pequenez, pois deixam de ser visíveis atrás de qualquer “autoridade local de Saúde”.

Sinto-me estranho neste mundo estranho e quase desculpo aqueles actos de estupidez quotidiana de quem, realmente, não consegue ir mais além.

21 Conta Como “Dezenas”?

E mais de 2500 casos de contágio? É uma dúvida que tenho em relação a afirmações do PR há pouco tempo. Já o PM, depois de meses sem rumo, a querer navegar num desconfinamento em modelo imprudente, tornou-se um animal feroz, cheio de ameaças. Lamento, mas há meses que poderia ter feito mais e melhor, até porque nem sequer chegámos ao tempo frio e húmido, continuando neste doce Outono morninho e solarengo [leia-se “ensolarado”, porque é o mais correcto]. Mas preferiu navegar num discurso que tanto sim como não, de preferência que coiso, não se preocupem que nós tratamos da bazuca e o marcelo ajuda.

Perante isto, há dois tipos de atitude que me irritam e quero deixar claro que as minhas irritações são muito minhas e que quem não gostar muito delas, ou as suporta com paciência porque acabam por passear ou vai para outras paragens ler notícias requentadas. Aqui não se ganha ao clique, portanto, há liberdade para escrever sem pensar na carteira. Ou na carreira.

Ora bem… a primeira irritação é com aquela malta que agora é fundamentalista, mas há duas semanas relativizava tudo. Antes, o SNS tinha aguentado a primeira vaga, a economia não podia parar, os professores deveriam voltar às escolas com os seus alunos e fingir que se estavam a cumprir regras básicas de distanciamento e segurança. Agora… ou metem a aplicação que badala o contágio ou são contra a Pátria. E ninguém que use redes sociais nos telemóveis pode fazer críticas. Lamento, o meu Samsung ainda é do tempo pelintra da troika e não me sinto coberto pela investida trolleira dos que dizem que quem tem Instagram ou WhatsApp não se pode negar a #AppCostaPreocupadoAgora. Porque @s leio a mostrarem grande indignação, esquecendo-se que se a pessoa sabe que está positiva deve ficar em casa e não ir ao Conselho de Estado, à escola ou ao café da esquina. Até o Medina que em Agosto achava que tudo não sei quê, agora quer tudo a ser testado. E acho bem, mas tenho memória das parvoeiras que disse no espaço avençado na TVI.

(no limite, a app não passa de um macguffin – é googlar e percebe-se desde que não seja em app no zingarelho)

A segunda é com a outra facção relativizadora que acha que isto tudo é um esquema do caraças, que no hay nada, que quem morre são apenas os velhos e os fracos e que uma doença infecto-contagiosa é equivalente, no perigo de propagação, à diabetes, ao cancro ou às unhas encravadas. E que morre todos os dias muita gente. Phosga-se, morre muita gente desde o início dos tempos. Aliás, penso que quase toda a gente morreu, disto ou daquilo. Tirando o Júdice de que me lembro a advogar opiniões desde que eu ainda nem sabia muito bem o que achava disso. A questão é saber se esta doença tem potencial para dizimar muitos dos mais vulneráveis (idosos e doentes), só porque achamos que as criancinhas ficam traumatizadas se viverem uma vida familiar parecida à de outros tempos (certamente mais triste, admito), a juventude se ficar se ficar proibida de ir às raves da moda ou os papás e mamãs de desfrutarem de um sunset avec le glasse de espumante (que a champanhota a sério é mais cara) ou de uma white night quasi-pimba de tanta bibá. E não quero saber se são médicos que relativizam, se forem da estirpe dos que se benzem antes de juraram ao Hipócrates. Ou se forem articulistas como o jovem Raposo que acha que os doentes velhos é para não gastar preocupações e muito menos dinheiro.

Ahhhh … já me sinto quase melhor e com os anticorpos em alta.

(e não me venham dizer que ando intolerante, porque intolerantes é quem gosta de dizer aquilo que não aceita aos outros…)

Há Linhas Vermelhas

E esta é, para mim, uma delas. Até porque se alguém testou positivo deve estar em casa de quarentena e não na escola ou em outro local de trabalho. E se não quiser que se saiba, não activa o seu estado.

Portanto, caro PM, vá-se lixar com ph.

Até porque, caso a Assembleia chumbe, já sei que vai aparecer a dizer que não era a sério, era apenas para dar um “abanão”. Tanta coisa que podia ter feito e agora acha que é uma app que nos salva, quando o próprio criador da coisa diz que não é exequível e pode mesmo ser contraproducente?

O Governo vai colocar todas as autoridades policiais a fiscalizar os portugueses que, tendo telemóvel, não tenham instalada a aplicação “StayAway Covid”.

A Proibição Dos Ajuntamentos Acima De 5 Pessoas Inclui A Zona À Saída Das Escolas?

Eu sei que cada vez os tempos são de maior encenação ou representação da realidade, mas… a sério… será que desconhecemos o que se passa diante dos portões das escolas, à vista de pessoal docente e não docente, que na maioria dos casos nem abre a boca para não levar com ofensas de quem se acha no “direito” de estar ali como bem entende?

Há quem ande a suspender alunos por partilharem comida ou a marcar faltas disciplinares por trocarem material escolar numa aula onde estão ombro com ombro, mas depois, mal passam o portão já pode valer tudo? Será que não está bem à vista de todos que tudo parece estar como sempre esteve, mais ou menos máscara padrão ou como acessório fashion?

Calamidade é ter gente que navega à vista, com um olho na “economia não pode parar” e outro nas conveniências políticas. Calamidade é ter, nas últimas semanas, um PR que parece ter assumido a função de secretário adjunto do PM para os assuntos parlamentares em geral e aprovação de orçamentos em particular.

Calamidade é esta mediocridade em que os poderes, macro e micro, usam a pandemia como desculpa para tudo, o que me está a dar uma imensa vontade de atravessar alguns limites auto-impostos à linguagem e a temas que, pela proximidade, sempre achei melhor deixar do lado de fora deste quintal. Só que há alturas em que os abusos de poder sem qualquer rebuço, o desrespeito indecoroso por qualquer legalidade e a mentira descarada não podem passar impunes.

Ando muito irritado? Nem por isso, apenas a sentir-me algo anojado. Porque tudo isto era previsível, mas a maior preocupação é quem fica com as maiores peças da “bazuca” e o que fazer para a coisa ser o mais desregulada e menos controlada de sempre.

(o que dizer daqueles cortesãos que andaram a escrever que isto a partir de Setembro ia ser um Outono maravilhoso de desconfinamento? não deviam levar nas belas faces com o barro que andaram a atirar às paredes?)

Bom Dia

Um simpático petiz, deduzo que do 3º ciclo, frustrado com o ritmo de recuperação da economia ou, porventura, traumatizado com este regresso o uso de máscara ou alguma desidratação devida ao uso de gel desinfectante, decidiu dar cabo de uma boca de incêndio, provocando um fluxo de água assinalável pela escola, devido à ruptura causada. Corte de água e aulas suspensas, pelo menos no turno da manhã. E eu a pensar que há uma série de bocas de incêndio por aí que se me nunca ocorreram.

Coisas Que Me Parecem Simples Mas A Outr@s Nem Por Isso

Lia há umas horas uma antiga colega bem divertida, a escrever a sério sobre os perigos imensos de usar máscara e ia mesmo perguntar-lhe qual a solução que ela propões para as as aulas dela, quando a bateria do meu computador decidiu que era hora de desligar e de eu pensar duas vezes antes de chatear pessoas amigas. E fez bem, porque as máquinas têm sempre razão, mesmo se decidirem que devemos ser extintos e tratarem disso como no Descender do Jeff Lemire.

Mas, mesmo assim, gostaria de deixar claras umas quantas coisas que a mim parecem simples e evidentes, mas que parecem ser extremamente complexas para outras pessoas.

  • Gosto de usar máscara? Não.
  • Gosto de dar aulas com máscara? Não.
  • Gosto de ter os alunos de máscara na sala de aula? Não.
  • Preferia que tudo fosse como “antigamente”, com todos de cara ao léu, a perdigotar alegremente? Sim.
  • Acredito que existe uma conspiração global para usarmos máscaras sem justificação nenhuma? Não.
  • Acho que há gente que se está a passar com tudo isto e nem sequer vou distinguir entre os paranóicos de um lado e os do outro? Sim.
  • Prefiro o incómodo de usar máscara ao incómodo de transmitir (ou ser atingido por) algum contágio, sabendo que o posso evitar? Sim.
  • Acredito que somos governados por elites poíticas extremamente medíocres e que colocam os interesses particulares dos seus grupos acima do “interesse colectivo” que tanto gostam de usar como razão para as suas sacanices legislativas? Infelizmente, sim.
  • Acredito que a terra está a ser governada por uma aliança de illuminati com grupos maçónicos, seitas apocalíptico-satanistas e lagartos com origem extraterrestre e camuflagem humana, que se reúnem em florestas remotas para orgias debochadas e tramar conspirações diversas? Não, embora gostasse de ver isso.

(já agora … não gosto de escolas onde acham que não são necessários dispensadores à entrada das salas e que bastam umas borrifadelas no portão e uns quantos dispensadores à entrada dos blocos ou pelo meio da escola, como se acreditassem que isso é uma medida eficaz contra o que quer que seja…)

Positividade

Duas reuniões matinais de caracterização de turma em que se gastaram pouco mais 30 minutos (dos 120 disponíveis), mesmo com alguma conversa e risota acerca de certas regras ou da ausência de recomendações para quando o civismo não for a norma. Quando o pessoal se conhece há muito, tem bom senso e sabe preparar as coisas e dosear na conversa da treta e nas questões irrelevantes ou redundantes é toda uma outra coisa. E ainda há quem diga que eu não consigo ser positivo.

Não Consigo Alinhar…

… com aquela atitude apresentada como inevitável em situação de “crise” que postula que todos nos devemos unir, numa frente comum, contra a “ameaça externa” que no presente momento é o “vírus” e a situação de pandemia. Considero de extrema demagogia a tentativa de condicionar qualquer tipo de críticas, como se fosse delito de lesa-majestade criticar esta ou aquela posição/decisão em nome de uma “unidade” que apenas serve para desresponsabilizar quem decide, através da co-responsabilização de todos por tudo e mais alguma coisa. É em situações difíceis que se torna mais importante fazer opções e essas nem sempre são consensuais. E tantas vezes as posições que prevalecem, podendo mesmo colher apoio maioritário, não são necessariamente as mais adequadas e o abafamento das críticas ou a sua qualificação como algo quase anti-patriótico é a negação de uma democracia verdadeira ou, pelo menos, que respeite o direito a discordarmos de quem tem o poder de mando. Estou cansado de quem acha que quem desalinha do discurso oficial normalizado e formatado pela maior denominador comum da vulgaridade só o faz para criar “problemas”. Assim como desgosto de quem acha que existem fórmulas ou soluções únicas para situações complexas, a partir do momento em que o debate em circuito fechado leva a uma dada decisão. situações complexas e com alto grau de imprevisibilidade obrigam a soluções “abertas” e à consideração da necessidade de se inflectirem rumos, sem que com isso venha mal ao mundo, excepto quando antes se afirmou que só podia ser daquela maneira e mais nenhuma. E estou muito farto de quem joga na erosão da memória e na justificação truncada ou desonesta de afirmações e actos praticados apenas com intuitos de oportunidade política ou conveniência pessoal.

Em resumo, estou mesmo sem paciência para a grande e pequena política, nacional ou local, praticada por quem tem escassa vergonha na cara e carácter a roçar a nulidade. Estando convidado a enfiar o barrete quem bem o sentir à medida.