4ª Feira

A pandemia não pode ser desculpa para tudo, menos para os acessos de impaciência dos professores, não sendo excepção aquele sacramental conselho, velho como as barbas do matusalém mais antigo, de “calma, setor@!” quando qualquer coisa começa a correr menos bem e merece reparo sem direito a desculpa. Confirmei cá em casa e não só e é transversal aos ciclos de escolaridade, pelo menos a partir do 5º ano. 

3ª Feira

A minha profissionalidade não depende de aceitar tudo o que me queiram impor, mas sim do meu desempenho junto dos alunos. E da minha sinceridade. E eles compreendem quando eu fico mesmo nos limites mínimos da paciência. Eles compreendem. Mas há quem, mesmo na própria classe docente, pareça achar que um professor não pode confessar que tem estados de alma menos “positivos”, como se fosse sua obrigação, junto com a profissionalização, ter caído num caldeirão de xanax, qual Obélix, com efeitos permanentes e perpétuos ao nível das reservas de paciência.

6ª Feira

Um professor não é mágico, embora faça com regularidade falsos milagres, não é padre, embora ouça muitas confissões, não é saco de porrada, embora a leve em termos figurados com enorme frequência (e mesmo de forma literal em alguns casos). Um professor é muitas coisas que não estão escritas no estatuto, mas nem sempre é um boneco de borracha, apesar do treino e calo que se vai ganhando.

Regresso, Amanhã

Não sei bem com que estado de espírito, depois do que ouvi e li nesta semana. Sinto-me uma espécie de criminoso, quase mesmo sociopata, No período do E@D parece que os alunos não aprenderam nada, sendo que o “diagnóstico” feito pelos especialistas do IAVE, de tão preliminar, não aponta as razões de situação tão “dramática”, para recorrer a um termo muito usado em torno da questão. Hoje, leio que as “escolas deram notas sem contar com o trabalho feito ao longo do 2.º período”, o que me deixa a pensar que devo ser mesmo muito “estranho”, pois contei com o trabalho feito e não feito e não usei “testes” para isso. E além disso, ainda me lembro de ter dado umas boas semanas de aulas presenciais no 2º período e não ter permitido férias aos alunos (ou a mim) em Janeiro.

O ministério (só merece minúscula cada vez mais minúscula), depois de ter anunciado aos quatro ventos que as escolas tinham autonomia para definir os critérios de avaliação neste período, vem afirmar “que escolas que o fizeram [dar notas sem considerar “o trabalho feito ao longo do 2º período”] violaram os direitos dos alunos”. Nada como começar logo a sacudir a água do capote.

Em cima de tudo isto, há ainda a questão da vacinação dos professores, devido à qual parece que haverá uma hecatombe de mortes entre os mais idosos. Sobre isso nem me vou alongar, deixando apenas os dados do Perfil do Docente mais recente (2018/19), de acordo com o qual existem 17 malandros abaixo dos 30 anos no pré-escolar e 1º ciclo do ensino público.

Fica Para Amanhã

A parte III do Index. Ainda comecei, ainda fiz por ali uns parágrafos, mas a disposição tinha ainda duas partes de amargura legítima para cada uma de sarcasmo natural. E a verdade é que o início do século XIX tem umas letras um bocado chatas, que eu nunca fui muito de Garrett e quanto ao Herculano, tirando a parte do nascimento da nossa Historiografia a sério, sempre preferi o Walter Scott.

Missão Cumprida

Pelo menos em parte. A introdução do termo “araras” no post de sábado parece ter sido um sucesso, porque foram muit@s @s que aparentemente se sentiram visad@s e começaram a esvoaçar a a palrar, como se a ofensa lhes fosse dirigida. Reparem, eu não estava a pensar em vós, individualmente, e como já escrevi tenho bastante estima pelas araras, assim como pelas catatuas, papagaios, tucanos e outros seres alados vistosos (embora, por vezes, algo… algo…). Ter desagradado a uma parte da audiência, para mais a que reagiu da forma esperada (“ai, que eu até concordaria, mas o rom, o tom… ai, credo, cruzes, o tom, o vocabulário usado”), foi um prazer que nem sempre estas prosas ocasionais me permitem.

(foi engraçado ver pessoas que dizem ter desistido de ler o que escrevo, a demonstrarem que leram o texto quase até ao fim porque as araras só surgem já na recta final…)

Sábado – Dia 9

Ontem dediquei-me à tarefa (ingrata) de ir espreitar algumas reacções, em grupos de professores numa certa rede social, à posição comum tomada por um grupo de bloggers professores de que fiz parte, no sentido de saber se a lei do teletrabalho se aplica a nós. O texto era sóbrio o suficiente para que todos os envolvidos se sentissem identificados, pois remete apenas para as promessas políticas feitas, para as garantias dadas sobre o que estaria disponível no início do ano lectivo e, em suma, para o que diz a lei sobre o teletrabalho. Nada mais. Não é prosa adjectivada ou “sindical”, mas já sabia que iria desagradar a muit@s colegas rendid@s à Situação desde que subiram um ou dois escalões ao fim de uma década de congelador e assistiram a umas webinares sobre inclusão e/ou flexibilidade (ou às duas) e quiçá a mais uma sobre supervisão ou diferenciação pedagógica, porque poderiam estar enferrujadas as memórias dos tempos da profissionalização.

(calma, que este texto não é mais do que um desabafo pessoal… até porque o que vou referir surgiu em alguns casos na sequência de partilhas de um outro post meu de ontem em que falei de “araras”… pelos vistos terei sido pouco “corporativo” 🙂 )

Entre os “argumentos” usados para discordar da posição que o grupo assumiu gostaria de destacar uns quantos que se destacaram pela sua riqueza e sofisticação.

  • Um deles foi do tipo “ah… este não é o momento ideal para nos pormos com reivindicações dessas”. Sendo que o que se pede é o cumprimento da lei e nada mais. Ninguém pediu aumentos salariais, reduções de horário ou oferta seja do que for. Apenas que se cumprissem as promessas feitas de livre vontade em Abril de 2020 e as leis em vigor. Não percebi se o “momento ideal” para se lembrar a necessidade de cumprir a lei do teletrabalho seria durante o ensino presencial. Uma variante deste “argumento” é o de dizer “no princípio do ano é que deveriam ter colocado estas questões”. Só que as questões foram mesmo colocadas, só que ignoradas até que é mesmo impossível não as colocar de novo, porque as circunstâncias as tornaram inadiáveis.
  • Outro foi “mas é esse o principal problema que se coloca agora?” Não sei se é o “principal”, mas é um deles. As pessoas mais ilustres e esclarecidas que coloquem o “principal” (sendo que há meses que muitas pessoas, eu incluído, vieram a avisar para a falta de equipamentos para os alunos), que nós colocamos este problema “acessório” que passa por garantir que a rede pública de E@D não volta a ser garantida por meios privados e dependentes de uma infraestrutura (seja de computadores, seja de net) de que o Ministério da Educação parece ter alijado responsabilidades.
  • Uma terceira “indignação” foi a de alguém que questionou se, com tudo o que ganham”, “os professores não podem comprar um computador”. E eu fico sinceramente abismado com esta forma de pensar tão triste, tão pobrezinha. Ou seja, se um professor ganha 1000 ou 1200 ou 1500 euros, pode comprar um computador e colocá-lo ao serviço do ME. E ainda pagar a banda larga para que tudo funcione. Pena que sejam pessoas a quem nunca vi questionar se o ministro Tiago não ganha o suficiente para pagar a estadia em Lisboa, em vez de receber um subsídio de deslocação, que nenhum professor recebe quando fica deslocado a dar aulas a centenas de quilómetros do seu domicílio.
  • Uma quarta atitude, quando eu ousei colocar a cabeça de fora e comentar que só se pedia que fosse cumprida a lei que o próprio governo fez, foi acusarem-me de ter “uma agenda”. Bem… é verdade que até tenho várias, incluindo um par de Moleskines em promoção, uma do Batman e outra do Star Wars (tudo em saldos, que apesar de ganhar mundos e fundos, sou forreta). Mas quer-me parecer – sou um bocado lerdo, mas não tanto assim – que a insinuação é que eu estaria ao serviço de interesses tenebrosos e/ou a promover uma qualquer conspiração contra alguém. Não tinha dado por isso, até porque a ideia da posição comum não foi minha, mas se calhar há quem goste de avaliar as segundas intenções dos outros por aquilo com que esteja mais familiarizad@. Mas eu queria tranquilizar toda a gente: estou um bocado farto disto, mas continuo a não querer defenestrar seja quem for, muto menos invejo lugares que encararia como uma espécie de despromoção em relação a ser professorzeco. Ando há demasiado tempo nisto em nome próprio e à vista, para que ainda me apareçam com este tipo de acusação, tão pouco imaginativa.
  • Por fim, gostava de especificar melhor o meu uso do termo “araras” para designar cert@s coleg@s que comentam os assuntos de um modo automático e superficial, só na base do cartão, camisola ou afinidade pessoal ou ideológica com os poderes que estão. É indispensável esclarecer que tenho o maior respeito pelas araras e até mesmo por papagaios ou, num outro plano, por invertebrados, como formas de vida dignas de preservação e estima. O que me custa é o palreio de umas e a falta de verticalidade vertebral de outros quando se trata de defender os mais básicos direitos da profissão docente. A saída de muita gente mais velha da docência, boa parte com outra vivência política e experiência de vida, deixou-a (à docência) parcialmente orfã no que diz respeito a uma certa “cultura” crítica de debate e resistência. Mas é bem verdade que compreendo porque saíram e em muitos casos apoiei essa decisão, em nome da manutenção da sanidade que ainda lhes restava. Mas fazem muita falta nas escolas e nas salas dos professores. Pessoalmente, os “mais velhos” nunca me causaram urticária e foi com eles que aprendi muita coisa. Porque eram aves de outro porte.

(e quem não gostar do que lê por aqui, porque é pouco fofinho, tem bom remédio… há programas de manhã e de tarde na televisão com casos de vida muito interessantes…)

6ª Feira – Noite 8

Hoje, deixei o diário para o fim por motivos que me parecem óbvios, pois o destaque da questão colocada aos governo sobre o teletrabalho docente tem precedência. Não é a questão central que nos ocupa neste momento de pandemia, mas não é uma questão menor, mas já lá chegarei.

Queria recordar que Marcelo Rebelo de Sousa destacou ontem, de forma acertada, que o país – ou parte dele – parece viver em “estado de negação”.

E eu concordo.

Mas começaria pelo próprio PR que certamente negará que toda a cobertura que tem dado ao Governo nesta matéria foi bastante eleitoralista e, de algum modo, devedora da aliança que se tornou pública um certo dia numa visita à Autoeuropa. Não votei nele em qualquer das eleições, mas reconheço-lhe qualidades únicas, algumas muito positivas, outras nem tanto. Uma delas é a componente de “jogo político” que nem sempre me pareceu a mais responsável perante o que se passava.

Mas o “estado de negação” é mais grave no Governo, a começar pelo PM que diz mentiras (não há outro termo, poupem-me a “inverdades”) com a maior das calmas, tendo a certeza que o faz em situações nas quais fica sem contraditório à altura. O que se poderá dizer da negação permanente da opinião dos especialistas sobre a necessidade de confinar a sério? Ou o modo como usou UMA intervenção para alegar que havia discordância entre aqueles especialistas que se reuniram no Infarmed? E o que dizer das indescritível negação de o ministro Tiago ter afirmado – com câmaras a gravar – a proibição de todas as actividades lectivas e não lectivas, incluindo online e no ensino público e privado? Não está em causa porque o fez ou a eventual bondade da intenção. O que está em causa é que negou um facto objectivo, mas que, afinal, é “desmentível”.

O estado de negação não poupa muita gente, sendo desnecessário voltar a singularizar escribas residentes na opinião publicada (e televisionada) nacional acerca da pandemia e da “catástrofe” que decidiram atribuir à suspensão das aulas presenciais e fecho de escolas por duas semanas. Prefiro focar-me, por enquanto, num par de atitudes da própria “classe docente”, se é que verdadeiramente ainda existe tal.

A primeira é o estado de negação da realidade de todos os que, querendo ficar bem, afirmam que as escolas estão preparadas para um novo período de E@D. Não, não estão. Até poderão estar algumas ou algumas turmas ou mesmo anos de escolaridade, mas a maioria não está. Como com os números de contágios e casos positivos de covid-19 nas escolas, reina a representação coreográfica da realidade. Pior do que isso, só mesmo quem pensa que por “preparadas” se entende haver plano de contingência e começarem a convocar-se reuniões para na próxima semana “operacionalizarem” o que, em tantas situações, acabará por replicar os erros que já se se sabe terem existido no final do ano lectivo passado. Há gente que ou não aprende ou pensa mesmo ter feito bem o que se viu ter corrido mal, salvo excepções. O que em Julho se admitia ter sido um “remedeio” e há pouco mais de uma semana era “indesejável”, agora já parece recuperável. Pilecas envelhecidas têm dificuldade em arranjar novos caminhos. Não confundir com professores “velhos”, porque os há com mente aberta, mas infelizmente submetida à miopia de potentados locais.

A segunda é o estado de negação de muit@s docentes – e são muito mais do que o desejável ou mesmo aceitável – que estão pront@s para aceitarem o que lhes servirem ou exigirem, não achando por bem contestar ou fazer valer os seus direitos. Gente que “acha mal” que nos preocupemos, por exemplo, com a questão dos equipamentos para o corpo docente das escolas assegurar, do seu lado, um nível de qualidade de um novo E@D que não replique o que se passou durante a primeira vaga. Gente disposta a tudo, que acha que quem protesta e reclama só levanta “problemas” e não busca “soluções”. Pelo contrário, buscam-se as soluções que foram prometidas e repetidamente garantidas. E quando me aparecem a parafrasear o Kennedy dá-me assim uma coisinha má, porque detesto araras que se limitam a repetir citações avulsas, de que desconhecem o contexto. Até porque na maioria dos casos, nem sabem quando ou porque isso foi dito. Se lhes pedirmos para explicarem o que foi o projecto da “Nova Fronteira”, ficam logo com os circuitos baralhados e ainda mais se lhes pedirmos para explicar se a tal citação surgiu num período em que era necessário superar uma crise ou se era um desafio para o futuro. Irritam-me os citadores de ocasião. Que, quando chega o momento certo, se encolhem, amocham e agradecem por lhes pagarem ao fim do mês, como se isso fosse um “privilégio”. Como se não trabalhassem para isso.

Mas se querem citações, aqui vai uma:

A Partir De Hoje…

… é mesmo impossível qualquer tipo de contemplação com quem decidiu isto e com quem colaborou na decisão ou vai andar por aí a elogiar a “coragem” do actual PM. Porque eles vão aparecer que nem cogumelos. Não serão apenas os baldaias, raposos e tavares. E nas escolas não faltará quem demonstre “compreensão” pela decisão do Governo. A começar por quem respira Educação, flexibiliza muito e inova com copos de papel.

Para que se perceba com clareza: eu dou aulas ao 2º ciclo, já sabia que continuaria em regime presencial. Não me move uma causa “pessoal”, não estava a defender o “ir para casa” por qualquer tipo de conveniência egoísta. E escrevo isto, porque sei bem o que algumas criaturas gostam de insinuar e não gosto de deixar trastes sem resposta antecipada.

Apenas esperava que não deixassem tudo aberto, todos os ciclos, porque é a negação de qualquer confinamento a sério. Para quem diz que quer ultrapassar a “crise” o mais depressa possível, escolheram o caminho mais longo. Para quem diz que estão vidas em jogo, preferiram a opção que as reduzirá menos. Para quem muita coisa, fazem muito pouco. Para quem anunciou tanto uma “mudança de paradigma”, é realmente a admissão de um enorme falhanço. Claro que nunca admitirão que andaram a contar os tostões e dos 400 milhões pouco ou nada se viu desde Setembro.

Fala-se em “perdas irreparáveis” no ano passado, depois de meses a elogiar o “ensino do século XXI”, o #EstudoEmCasa e depois de tanto palavreado dos cortesãos do regime costista. Até se fala numa “geração” que ficaria traumatizada se ficasse uma quinzena ou um mês em casa, como já estão a ficar ingleses e alemães, por exemplo.

E o mais hipócrita é, na falta de argumentação científica válida, mesmo com distorção da opinião dos chamados “especialistas”, dizer-se que as decisões são “políticas”, mas quando interrogado sobre a vacinação do pessoal docente e não docente, remeter-se essa decisão para um “grupo técnico” daqui a uns tempos.

Isto é anedótico, mas infelizmente também é trágico. Não estritamente em termos da Educação, mas do interesse de todo o país. Porque ficou bem à mostra toda a mentira que este “combate à pandemia” se tornou. Algo que quem conhece enfermeiros e médicos já ia sabendo, mas com a esperança de que existisse a fibra mínima para não voltarmos à estratégia do pensamento mágico que dura desde Agosto.

As “associações de pais” foram ouvidas, “os directores escolares” foram ouvidos. Acredito, até porque já vi uma ou outra figurinha deprimente nos ecrãs a dizer que isto é uma manifestação de confiança nas escolas. Mas que lambe-botismo tão sem vergonha. E nem me vou estender sobre a apatia de certos “lutadores”, porque deles há muito que nada espero de relevante, em especial desde que a trela passou a ser dupla e a grande prioridade é “negociar”. Negociar o quê, pá? Os lugarzinhos na prateleira prateada, com eventual comenda por serviços prestados à Nação? No Parlamento, de manhã, o PCP já tinha usado os termos quase exactos a que António Costa recorreu.

Isto chegou a um ponto em que é um “salve-se quem puder” e o último a sair que não feche o portão.

(e não nos esqueçamos que podem haver missas para se irem benzer e actividades desportivas, para que aos fins de semana de manhã os ciclistas possam andar aos magotes pelas estradas como se nada se passasse…)