Não É O “Quem” Que Me Chateia, É O “Como”

Há quem desenvolva complexos de perseguição absolutamente incompreensíveis. E parece que estou de volta a mais de uma década para antanho. Calma, isto é um blogue e eu apenas escrevo, não vos quero tirar qualquer pão da boca ou honraria do peito (que isto no 10 de Junho do próximo ano vai ser um fartote de medalhas), apenas escrever o que penso. Não tenho nada de pessoal contra a larga maioria do pessoal que anda por aí a rondar pelas cortes costistas, apenas tenho contra a combinação de inépcia e calculismo político das “boas práticas”. Chateia-me como fazem as coisas, sejam da cor e formato que forem. Se fossem outros, achava o mesmo se as “recomendações” fossem despropositadas e mal pensadas ou se achassem que o “estado de emergência” justifica que ignoremos algumas regras básicas de legalidade e direitos de cidadania.

Vejam a coisa por este prisma… eu só vos posso chatear o neurónio, enquanto alguns de vocês têm e tiveram o poder para lixar a vida a muita gente e ainda têm a lata de se armarem em vítimas. Tenham decoro. Façam o vosso trabalho bem e acreditem que vos baterei palmas. Só que… até agora, parecem aqueles alunos que se acham o máximo e pensam escapar à crítica na base da cábula ou da espreitadela à mesa do lado. Por isso gostam tanto da “monitorização” e de “indicadores de qualidade”. Para os outros.

pepe

 

Dia 7 – Definir Limites

Os tempos de emergência que vivemos, que alguns anunciam como a “oportunidade” para estabelecer um “novo paradigma” educacional, têm vindo, dia após dia, a tornar-se cada vez mais exigentes e, sublinho-o, abusivos na forma como entraram pelo espaço doméstico e pelo tempo privado dos professores.

(continua no Educare… mais em força do que em jeito…)

diario

E Quanto A Um 102 À Distância?

O tempo que a maioria do pessoal tem passado agarrado ao computador ultrapassa em muito o “presencial” do horário tradicional. Sim, são tempos de emergência, mas isto começa a parecer uma certa neo-servidão em modelo digital. Hoje, teria um horário “presencial” até às 13.30 e, eventualmente, uma reunião à tarde. Portanto, a partir daquela hora ou, no máximo, das 16 horas, não irei responder a mais mails e solicitações ou fazer seja o que for neste novo modelo de disponibilidade total que se instalou, excepto se aparecer algo digno da série “Phosga-se” que mereça leitura.

No verbete de hoje do “diário” já desenvolvo um pouco mais o tema.

slap

5ª Feira

Socorro! Só hoje consegui comprar o Jornal de Letras (sim, tenho de comprar os jornais onde escrevo, descansem que não enriquecerei nunca) e vejo-me rodeado pela fina flor do establishment educativo costista. Mesmo quando escrevem coisas relativamente válidas (como a descrição feita pelo senhor professor doutor Verdasca do que lhe é dito pelos alunos), fico com a sensação de se ser um camelo na Antártida.

pinguim

Sábado

Chegámos ao Carnaval, mais ou menos estropiados, por dentro ou por fora. Claro que há quem tenha chegado plen@ de energia e alguma evidente flatulência ao nível do ego superior. Mas em relação ao pessoal comum, aquele com quem falo, troco mails, convivo, por muito bicho de mato que seja, adensa-se aquele manto de receio acerca do que pode ou não ser dito, escrito, assumido em público. O descongelamento acordou bactérias e vírus adormecidos. Há quem desperte para a realidade que estava parada e, vendo-a em movimento, se espante. Mas ela sempre foi assim, há uma dúzia de anos que ficou assim gravada em pedra legislativa que nos anos seguintes foi sendo acrescentada, só que, por causa do imobilismo global, tudo parecia não acontecer. A “não inscrição” de José Gil que cito muitas vezes foi uma espécie de realidade alternativa. Parece que ninguém quis perceber que mais do que estarem parados na progressão, ela tinha sido transformada em outra coisa. Acabaram formalmente os “titulares” no dealbar no segundo congelamento, mas ficou todo o resto, com um sistema de quotas que, no limite, ainda reduz mais o horizonte de progressão de 80-90% dos docentes. Isso já era notório em finais de 2009, permitindo-me a ousadia da auto-citação, como se fosse uma espécie de formador em flexibilidade a ir buscar os escritos de outros tempos. A diferença é que nessa altura eu ainda pensava ser possível eliminar as quotas, pelo menos nos seus aspectos mais gravosos, algo que não aconteceu.

Essa reivindicação não sei se é entendida pelo homem comum. Os professores não têm todos as mesmas possibilidades de ascender na carreira?

Não, porque o sistema criado pelo Ministério não o permite, justamente devido às quotas. Claro que nem todos os professores conseguem chegar ao topo [dos escalões], mas todos devem ter esse direito. O mesmo se passa com os alunos: nem todos tiram positiva, mas todos devem ter hipótese de lá chegar nas mesmas condições.

Com as normas anteriores do Ministério, o topo de carreira era também o topo salarial. Isso era errado?

Sim, profundamente errado. O efeito prático que teve foi a divisão dos professores entre titulares e os outros, em que uns mandavam nos outros.

E por que é que isso é errado?

Porque quem ganha mais e está há mais tempo na carreira não é, obrigatoriamente, mais competente.

A manutenção de um sistema draconiano de quotas, a par de um sistema de avaliação do desempenho que foi tratado de forma muito diversa ao longo d’A Idade do Gelo, fez com que, agora, ainda com as questões relacionadas com reposicionamentos de quem entrou na carreira por via extraordinária (justa ou injusta, não o estou a discutir), provocou um doloroso fim da hibernação e a consciência de que esse tempo serviu para que se cristalizassem poderes e práticas nem sempre muito transparentes e muito menos sensíveis a um espírito de democracia e tolerância. Pelo que, agora, estamos quase no ponto de partida em relação a um clima em que já nem é necessária a intimidação explícita (que existe e não em pequena escala), para que as pessoas se encolham com receio das consequências. Outrora, receava-se a distribuição de turmas e o horário (ou não) do ano seguinte. Agora receia-se mais do que isso. Não se escrevem mails, muito menos nas plataformas institucionais cuja amplitude na gestão se desconhece, e muito menos se fala alto, sem ser longe dos auriculares dos poderes.

(e ainda há quem diga… “eu leio o que escreves todos os dias, mas não posso fazer que gosto porque “xyz” também é teu/tua amig@ e depois vê… e vai contar a “kyz” e pode dar chatices…”)

Vive-se em algumas escolas/agrupamentos – sem exagero – um clima de terror branco, que pode ser do tipo “português suave”, mas não deixa de o ser, da escala central (para a qual é quase inútil recorrer dos desmandos quotidianos) à local. E daqui a muito pouco tempo quem se quiser queixar, que se dirija à Câmara Municipal, porque é onde ficaram as competências descentralizadas.

Exagero?

Olhem que não, olhem que não… porque eu não olho apenas para o meu umbigo* (por proeminente que seja…).

medo

(* piada que também direito a fazer…)

5ª Feira

Dia de ler histórias ao 1º ciclo é sempre um dia bom. Para mais se forem histórias sobre gatos, misturando a ficção, a realidade e as memórias. Mesmo se pela manhã se tiveram aulas com 6ºs e 8ºs. Porque, a menos que seja por esgotamento físico ou psíquico ou condição equivalente, me mete alguma impressão aquela gente que prefere fugir sempre que pode a dar aulas, anos a fio, embora se apresente como professor. Se o hábito não faz o monge, pelo menos o exercício da arte é que deve certificar o artesão.

running cat

Sociologia Superficial Do “Mau Ambiente Vivido Nas Escolas”

Há teses que, de forma recorrente, voltam à baila por falta de melhores pensamentos. A guerra velhos/novos, em especial quando quase não há novos é ridícula. Até porque mesmo alguns de meia idade estão mais velhos do que os velhos e os velhos são por vezes bem mais jovens do que os mais novos. Há uns anos levei o José Ruy (já na altura com mais de 80 anos) a fazer uma palestra sobre BD à miudagem de 10 anos e acreditem que há quem, com 30, 40 ou 50 tenha muito menos capacidade comunicativa e pedagógica.

Uma tese, com algum fundamento, mas que dificilmente se pode considerar que é apenas agora que acontece, é que a ADD está a contaminar as relações no interior das escolas, agora que o descongelamento começou a revelar as injustiças do “modelo”. Sim, tem o tal fundamento, mas se só agora deram por isso, onde andam desde 2008?

Temos ainda a questão da “inovação” da “flexibilidade” e da capacidade de uns se adaptarem ao que se diz serem as “pedagogias do século XXI” e os mais resistentes à coisa de alinharem com as prédicas do SE Costa e seus clones que por aí andam. Nas últimas semanas ouvi pelo menos duas prelecções (uma feminina, outra masculina) que parecem decalcadas do mesmo molde e que, no fundo, contribuem para azedar os espíritos, ao exigirem sempre mais dando em troca apenas umas palmadinhas nas costas. Sim, esse tipo de discurso, quando replicado nas escolas e sustentado em práticas de certa forma “clientelares” tem criado divisões perfeitamente desnecessárias, pois em muitas situações apenas temos quem opta por não fazer marketing do que é rotina há décadas.

Pessoalmente, acho que tudo desajuda, mais os reposicionamentos e ultrapassagens diversas, mas que o que acaba por envolver todos estes factores que, por si só, seriam insuficientes para o tal “mau ambiente” é um modelo de gestão que deixa a maior parte dos professores a sentir-se excluídos dos processos de decisão, mesmo quando é feita uma espécie de encenação de “participação”.

Quando comecei a dar aulas tive a sorte de não calhar em escolas “históricas”, daquelas em que certos “cadeirões” nas salas de professores tinham titulares reservados e em que havia “professor@s” e os “outros”, leia-se, efectivos de velha cepa e contratados em trânsito. Em que quem mandava eram pequenas cliques, podendo eventualmente existir alguma rotatividade, até porque existiram eleições a partir do 25 de Abril de 1974 e eu já cheguei bem depois disso à docência.

O que me custa é perceber que agora começam a avolumar-se os velhos “cadeirões” e que começam a enquistar-se feudos e coutos pelas escolas, em que alguns decidem por muitos e os mecanismos de “trabalho colaborativo” não passam de colocar uma correia de transmissão a fazer mover uma engrenagem de sentido único, em que se cristalizam clientelas.

Mas fala-se muito em “cidadania”, em “flexibilidade”, em “autonomia”. Mas pratica-se muito pouco uma verdadeira responsabilização e muito menos a confiança. E quanto aos “cadeirões” há uns que parecem tronos. E, isso sim, envenena qualquer ambiente em que uns passaram a ser ímpares porque deixámos de ser pares.

O resto são amendoins.

espelho2