Dever Cívico Cumprido

Já contei a história. Durante muito tempo, fui abstencionista convicto e “brincava” com o facto de a minha participação cívica ser mais relevante enquanto dador de sangue. Só que em 2005, quando muita gente pareceu distraída (ou, pelo contrário), voltei às mesas de voto para ver se o engenheiro não chegava lá, muito menos com maioria absoluta. Não resultou e o tipo lixou mesmo as coisas ainda mais do que já estavam e permitiu que outros viessem e, por causa dele, muitas outras malfeitorias acabassem por fazer. E desde essa altura, mais coisa, menos coisa, como se fosse um coincidência inconsciente, deixei de dar sangue. Hoje, voltei a fazê-lo, na minha escola. Já percebi. A outra participação cívica cada vez me parece mais inútil. Não porque a tralha tenha sido afastada mas porque se tornou uma espécie de mainstream que tudo cobre.

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Domingo à Tarde

É aquele período de fronteira em que o fim de semana termina e a semana começa a anunciar-se. É aquele tempo que não é limbo porque já é preenchido pela antecipação do que há para fazer. Uma turma de 6º para ler o Ulisses e fazer o guião de leitura em Português e para dar a oposição ao Estado Novo nos anos 50 e 60 em HGP, mais duas turmas de 9º com a Segunda Guerra Mundial e uma busca pelo par de tutorandos desaparecidos desde o início deste período. Ter quase tudo preparado – e não stressar com a parcela deixada ao improviso – ajuda a que consiga digerir um fim de semana gastronómico capaz de fazer chorar qualquer promotor de dietas pretensamente saudáveis.

fernando Namora - domingo à tarde

Não Será (no Mínimo dos Mínimos) Moderadamente Estranho?

Que algumas das pessoas que aparecem a defender a necessidade de transformar a Educação para responder às necessidade da Economia sejam as mesmas que são contra os “Exames” (mesmo quando não o são verdadeiramente). Ou que acham que os alunos devem estar preparados para reagir a situações inesperadas e a terem capacidade de adaptação rápida para reagir a “desafios”, mas depois acham que, coiso e tal, fazer um exame não se enquadra exactamente nessa lógica de necessidade de reacção rápida a um “desafio”.

Reparem que nem estou a tomar qualquer posição em defesa disto ou daquilo… apenas a apontar a inconsistência de certas teorizações e nem me restrinjo à actual presidente do CNE ou aos elementos fofinhos do ME (os homens) que são herdeiros directos daquelas inquietações pedagógicas que se perdem no labirinto das enormes boas intenções das suas ilógicas cruzadas.

CatAlice

Fora Deste Mundo

Ouço e leio demasiada gente que se quer ter como conhecedora da Educação a dizer aquelas coisas de termos escolas como há 50 anos, de tudo isto ser como no século XIX ou XX, como se nada tivesse mudado. Não percebo se estas pessoas se esqueceram de como as coisas eram há menos tempo do que isso ou se apenas lhes encheram a cavidade craniana de hélio e estacionaram na estratosfera. Ou viverão numa espécie de museu de cera da escola.

Eu lembro-me bem de como eram as escolas desde o início dos anos 70 do século XX, como aluno, e desde a segunda metade dos anos 80, como professor. Acham que as coisas são vagamente semelhantes? A sério? Ou reduzem tudo a existirem professores de um lado e alunos do outro e isso passa por ser “tradicional” e “arcaico” e defendem, então, as teses “inovadoras” e as “experiências pedagógicas” de então (algumas delas de efeitos devastadores…) como se fossem agora a última novidade no mercado das ideias, acrescendo-se-lhes apenas os zingarelhos tecnológicos como as ferramentas do “século XXI”.

Perante isso, lembro-me sempre daquele ano do início dos noventas em que, contratado a dar aulas ao 3º ciclo e Secundário, tinha como diversos colegas a fazer profissionalização e muito preocupados em “diversificar estratégias”, sendo os acetatos e os slides o último grito da “inovação”. Ao fim de umas sessões, os jovens já estavam mais do que fartos de terem de passar apontamentos com a luz apagada e com a insistência nos métodos “inovadores”. Quando eu chegava, só me perguntavam se eu também ia mandar correr os estores e fazer o mesmo que nas aulas anteriores. Ao que eu – já então um exemplo do arcaísmo – respondia que podiam estar descansados… seria tudo às claras. Sim, claro, isto é uma redução simplista das coisas, mas não totalmente inexacta.

E lembro-me – um pouco mais longe no tempo – de quando andava na “Primária” e “Preparatório” de tudo o que nos rodeava, das salas de aula asseadas (e sem mesas grafitadas) mas espartanas de recursos, de toda a vida e quotidiano que vivíamos, da naturalidade de tudo o que agora é impensável, desde as tareias de régua por ocasião dos erros ortográficos (a dislexia e disgrafia foram descobertas mais tarde…) à naturalidade com que encarávamos a morte de colegas em resultado de acidentes sortidos desde a electrocussão do A. (teria 7, 8 anos? hoje relembrei o nome em conversa com uma amiga desses tempos, mas não a idade certa) numa poça de água onde o vento tinha depositado o cabo eléctrico até ao pescoço partido do C. por ir de bicicleta agarrado à traseira de uma carrinha de caixa aberta que travou subitamente, não esquecendo, claro, aqueles que morreram em diversos acidentes de mota (os cavalinhos fizeram muitas baixas em meados de 70, como o D. no largo lá no alto, defronte da Secundária onde nem a erva conseguia crescer) ou de consumo excessivo de drogas mais durinhas. Descontemos as piedosas “estórias” de oportunas “indigestões”.

(sim, eu sei que já contei alguns destes episódios ao longo dos anos, mas alguns dos “desaparecidos” ainda me olham a partir das velhas fotos de grupo que guardo, em especial daquela quase turma pca antes do tempo, que incluía tudo o que de mais desvairado existia nas periferias da “vila”, pois a senhora directora só queria quem viesse sempre de batinha branca para as aulas….  )

E tudo isso era natural, desde pequenitos. Ainda será, mas residualmente. E se me podem dizer que isso era a vida fora da escola, é melhor não nos debruçarmos muito sobre o que se passava entre-muros ou entre paredes em que a Pedagogia era algo de que a malta do Propedêutico não fazia a mínima ideia, mesmo que desse aulas ao 9º ano ou ao Secundário. E em que a “Indisciplina” era algo que só tinha a seu favor o facto de não ser aleatória e arbitrária mas sistemática. E nem falemos do conceito de “Sucesso” quando algumas das velhas luminárias teóricas de agora estavam bem activas no chumbo aos patos.

Acham mesmo que as escolas de hoje são, em regra, assim, como dantes? Então serão próximos daqueles que foram professores um par de anos nesses tempos, assistiram ou participaram activamente em tudo isso e julgam que ainda é tudo como foi. Esses são os que não esqueceram as coisas, mas pararam no tempo e pensam que todos parámos com eles.

Não é.

Há casos em que alguns fortificantes químicos ainda podem ajudar na recuperação das memórias ou no desencalhanço, mas cada vez mais assisto a casos perdidos. Estão fora deste mundo, prisioneiros da sua própria realidade alternativa.

2classe