Felizmente…

… ainda se encontra gente boa neste processo de reclamações e recursos relativos à add. Como árbitro de 7 recursos nos últimos meses (já só falta “fechar” um), tive a possibilidade de conhecer ou (re)encontrar gente muito boa e razoável, com apenas 2 excepções. Uma marcada pela prepotência de um pcg outrora bravo sindicalistas e outra pela atroz incompetência de uma pcg que parece ter ido para o cargo com umas vagas ideias acerca do assunto, bem como de deontologia profissional. O balanço vai sendo muito positivo, porque, apesar da perversidade do modelo, ainda se encontra gente que consegue manter a sua humanidade intacta. E continuo a dizer que quem protesta, sem receio de o fazer mesmo sem apoios “institucionais” e independentemente do desfecho, está a defender os seus direitos e a dar um exemplo maior de cidadania activa a quem prefere ficar apenas pelos resmungos nas salas de professores e grupos do facebook.

5ª Feira

Leio notícias e muitas opiniões sobre as negociações em torno do Orçamento. Em alguns casos não passo do primeiro ou segundo parágrafo, porque aquilo é escrito em circuito fechado, em modo de recado, aviso, tentativa de condicionamento da opinião pública. Pouco ou nada do que se diz ou escreve se relaciona com a vida quotidiana da maioria da população sem cartão partidário, mesmo se o que está em causa é até certo ponto muito relevante para essa vida. O problema é que é raro o escriba que consigo ler ou palrador televisivo que consigo ver e ouvir, sem notar que tem uma camisola vestida e que, no fundo, não está ali para informar ou analisar, mas a defender uma causa própria, mais ou menos implícita. Cansa gramar com tantas talking heads sem talento.

Prudência Para Quê?

“Paulo, olha que há coisas que tu escreves que podem ofender certas pessoas e ainda te metes em trabalhos sem necessidade.”

O aviso é bem intencionado mas:

  1. Por vezes, estou mesmo a falar em geral, sem pensar especificamente em que tem a cabeça à medida do barrete. Por vezes.
  2. Sem necessidade? Discordo, por vezes é mesmo necessário metermo-nos em trabalhos, se ainda nos restam algumas vértebras. Claro que quem se mete na arena, tem de aturar os bovídeos.
  3. Ofender? Mas como? Nunca foram ao espelho? Eu vou e nem sempre gosto do que vejo, mas ao menos admito isso em vez de me andar a saracotear ou a exibir a ignorância em voz alta.

5ª Feira

Temos um governante que, ao fim de seis anos no cargo, diz que o problema da falta de professores é “complexo”. Realmente, ainda bem que é doutorado ou não conseguiria chegar a conclusão de tamanha perspicácia e profundidade analítica. Diz ainda que é por causa da campanha eleitoral que se nota mais. Parece que foi algo que aconteceu, assim a modos que granizo no Verão, imprevisível e acerca do qual nada se podia ter feito e agora é “complexo” avaliar os estragos no nabal. Realmente, estamos já com duas semanas de aulas e sem substituições para colegas de atestado de longa duração porque tudo isto é “complexo”.

Mas este não é o único cromo difícil da caderneta que faz do cargo coisa confortável e para dar lustro ao currículo. A nível local, é aterrador o nível de inconseguimento de certas figuras que ocupam cargos de responsabilidade na vida de colegas, mas que parecem desconhecer sequer as vogais do abecedário das funções a que se candidataram e do respeito que devem pela vida profissional dos seus “pares”. Um dia tenho de fazer a antologia dos dislates que me têm cabido em sede de recursos. Uns correm com uma correcção extrema, mas há outros que ficam entregues à bicharada.

E a indiferença vai crescendo, E instala-se, quase se entranhando. Vá lá que à porta da sala quase desaparece por completo. E ainda bem que vão sobrando uns pós de mau feitio para com gente de emproada incompetência.

O Combate Ao Conflito

Acho que poucas pessoas que passam por aqui se surpreenderão ao saber que sou frequentemente tratado como “conflituoso”. Algo a que estou habituado e que considero uma qualificação adequada e que até agradeço mas que, por qualquer razão estranha, há quem considere pejorativa e a use como se fosse ofensa.

Ora bem… eu sei que o “conflito”, a menos que seja encenação (do tipo Jerónimo na Festa do Avante a criticar o PM Costa a quem aprova todos os orçamentos há meia dúzia de anos ou aqueloutras coisas autárquicas entre os M&M que estão basicamente em acordo em tudo ao centro), está em maré baixa e que o que está em alta é a “positividade” de quem “conversa” e não confronta ou debate como outrora se entendia o termo.

Vivemos uma era chóninhas, em que a “voz grossa” já se sabe que é artifício meramente decorativo e teatral, nada trazendo de verdadeiramente substantivo. Em que “debater” é colocar gente a despejar cartilhas e guiões, sem qualquer preocupação em tentar entender o que os outros dizem e, a partir daí, repensar alguma coisa. Não é nada de novo e a decadência da conversa a sério e do debate já foram matéria para livros escritos por gente bem qualificada para o fazer.

Mas já começa a ser excessiva esta forma de desencorajar todo e qualquer tipo de verdadeiro confronto de ideias ou práticas e de crítica a quem se desvia das linhas traçadas para cada feudo que luta pelas cápsulas perdidas desta ou de qualquer outra bazuca. Agora, “fica mal”, revela “falta de espírito construtivo”, é uma falha evidente para um “trabalho colaborativo em busca de soluções”.

E a maioria acomoda-se, mesmo que incomodada.

E uma minoria gargareja tuítes como se fosse a sério o que não passa de picadas de melga.

E outra minoria grita os maiores disparates e pensa que isso é o mesmo que discutir ideias.

E até tipo da coelhinha acácia passa por ser um proto-ditador.

Phosga-se, pá!

Tem O Seu Quê De Ofensivo…

… o tom do anúncio de certas acções de formação ou webinares destinadas a docentes como se fossem uma espécie de imbecis que nunca tivessem descoberto o que andam a fazer. Sei que há gente que delira com isto e até formam “comunidades”, mas dificilmente eu lhes chamaria “de aprendizagem”. Até porque seria importante eu reconhecer em quem dá formação uma prática pedagógica “diversificada e desafiante” com um punhado de anos de experiência e demonstração, sem ser em ambientes controlados.

Já agora se acreditam que “que as crianças e os jovens são protagonistas do processo de ensinar, de aprender e de avaliar” porque será que não se dirigem aos alunos e desenvolvem formações, por exemplo, dirigidas também a alunos e encarregados de educação.

Portanto, da próxima vez que me disserem que “Pretendemos ajudá-lo a organizar a sua ação pedagógica de forma mais diversificada e desafiante”, são capazes de merecer prosa mais assertiva e acutilante com base no parlapateio que apresentam como “propostas e estratégias de ação”, ok?

Porque a roda já foi inventada e reinventada (basta olhar para as biclas do Tour) e a mim chateia esta mania de mamar com base em redundâncias. No fundo, o que querem é vender mais livros, dando a entender que descobriram o que já foi descoberto há meio século (o caso do DUA é sintomático) Ficamos entendid@s?

(eu até me inscrevi, mas foi só para deixar uma cadeira vazia, que é a minha forma de fazer resistência passiva a quem acha que será a sua ajuda a inspirar “os docentes a concretizarem práticas de organização do trabalho pedagógico cuja prioridade seja a promoção das aprendizagens dos alunos e o desenvolvimento das suas competências”)

3ª Feira

Desde que ando por isto dos blogues e das críticas públicas às medidas educativas que garanto que dia 1 de Setembro estarei na minha escola, sem cedência a tentações estranhas à docência, para além das habituais (comprar e ler muitos livros, ser curioso e querer saber mais e debater acerca de coisas que precise de conhecer melhor). Este ano, não é excepção, mas é inegável que os últimos ânimos têm sido de progressiva erosão do gosto em relação ao regresso. Razões globais ou locais, sinto que cada vez o profissionalismo é o factor com mais peso no regresso e no desempenho, a par do respeito pelos alunos. Quanto ao resto, cada vez percebo de forma mais clara que a “evolução” que tudo isto experimentou no último punhado de anos me torna um professor inadequado ao modelo de Escola Low Cost do Efémero, assim como claramente em choque com o chico-espertismo da gestão escolar feita de ouvido e baseada na crença da impunidade, desde que amochem perante a hierarquia. Amanhã, dia 1, estarei lá como estou desde que fiquei colocado em quadro de agrupamento (foram muitos os anos em que apenas me apresentava em Outubro ou mesmo Novembro, enquanto muito boa gente vivia dos favores das requisições e destacamentos à medida, pelos quais agora se exige a contrapartida a fidelidade acrítica). Mas não sei até que ponto vale ainda a pena. Mas, quando decidir ir a outra vida, acreditem que não será ao “empurrão” ou alegando superiores interesses da Nação.

(mas que não se confunda este estado d’alma com qualquer apetência por fretes autárquicos ou consultorias manhosas…)

Domingo

Chegou Agosto. Apesar de, em especial, os colegas do Secundário ainda terem muito que fazer, começa a ser o momento habitual em que se procura desacelerar e respirar algum tempo. Claro que há os afortunados que já se fazem fotografar em pose de relax por aí, mas nem todos conseguimos ter essa fortuna. Porque há quem tenha passado o ano todo a ser pacientemente moído e nem sempre é possível esquecer, por mais que se ache que a indiferença é a melhor estratégia. Só que há acções muito reais que sempre nos atingem em algum ponto mais delicado ou que, pela acumulação, merecem que se tracem limites e se comece, também pacientemente, a devolver todo o mal que nos quiseram fazer.

Chegou Agosto. Mas há quem nem seja o maior adepto de calor e areia na virilha. Portanto…