6ª Feira

Um abuso que continua a existir, em especial por causa das regras dos “profissionais”, mas que se começa a estender a outras “zonas” é a de querer que pessoas que estiveram doentes ou a fazer tratamentos, com atestado e não a passear e a colocar fotos de praias dos trópicos nas redes sociais “reponham” as aulas que não deram. Ou seja, depois de terem descontado no salários os 3 dias da praxe a ainda a percentagem relativa aos dias seguintes, há quem queira que as aulas não dadas então sejam “repostas”, mas sem reposição salarial. E há escolas e agrupamentos em que me é contado que, quando se fala na “greve ao sobre-trabalho” surge a ameaça de, nesse caso, descontarem o valor correspondente, levando a uma dupla penalização por cada “falta”. E claro que há quem faça, não lhes caia em cima no ano seguinte uma horariozinho daqueles de rachar calhaus. E ainda há quem venha dizer, com aquele ar compungido do colaboracionismo hipócrita, que não adianta “criar mau ambiente”.

(mas também há os que levaram esta malta ao colo todo o mandato anterior e agora que as coisas não correm com a feição esperada, tenham súbitos acessos de apoplética indignação, funcionando como contraponto aos representantes de directores que muito “denunciam” mas nada fazem)

Entendamo-nos… se há abusos de atestados, verifiquem-nos e não façam chuveirinho (no meu caso, o último remonta a 1998, mas como não tenho “profissionais” estou mesmo com vontade de assumir a saturação que tudo isto me está a fazer chegar ao nariz e meter o primeiro deste milénio) e não andem a castigar as pessoas por causa de regras da treta de “cursos” em que os alunos são os primeiros a faltar que se desunham e a apresentar justificações do país das maravilhas que os órgãos de gestão e “chefias intermédias” aconselham muito a aceitar para que não se registe o absentismo (e quase abandono) que efectivamente existe. O primeiro caso é de mera decência (o de não forçar as pessoas a fazer aquilo pelo qual não são pagas), o segundo de mera honestidade (admitir todo e qualquer tipo de justificação de faltas para dar a ilusão de um sucesso do escafandro na “diversificação da oferta”).

É bem verdade que me lembro muito bem de muito boa gente fugir com o lombo ao trabalho e outras habilidades nos anos 80 (como aluno e professor) e 90, quando foram “professores” vultos que por aí andam, desde opinadores mediáticos a autarcas ex-responsáveis parentais (e que quase aposto que seriam dos que mais abusavam e se puseram a andar quando perceberam que a sério não aguentavam), mas isso não justifica que quem cumpre tudo o que pode, ainda a mais seja obrigado, enquanto a quem nada faz, pouco ou nada se exige.

Com a colaboração activa dos rabos sentados.

fantastic3

6ª Feira

São poucas as pessoas que compreendem a importância que tem o silêncio ao fim de um dia ou semana de trabalho em que ruído é um elemento constante, do burburinho à berraria, sem qualquer possibilidade de colocar uns abafadores ou daquelas minorquices de silicone para atenuar o efeito. E são muitas as pessoas que se admiram com a insatisfação que se pode ter com a estridência alheia, desde quem gosta de partilhar todos os detalhes de um qualquer telefonema em plena via pública àqueles irritantes hobbys bricolentos que podem acontecer a qualquer momento que apetece a quem “está na sua casa e faz o que entende, quando entende”. Claro que a petizada que assim cresce raramente se endireita.

Grande parte das “terapias” e “meditações que por aí se andam a vender pouco ou nada trazem de valor acrescentado à liberdade de se ter o silêncio que tanto incomoda quem nada tem para dizer.

ruído

 

5ª Feira

Parabéns, vós que estais prestes a sobreviver à primeira metade do 1º período ou ao 1º terço do 1º semestre, pois ides gozar do primeiro e único feriado destes meses. Os danos já se sentem, mas a verdade é que temos de definir “objectivos intermédios” para conseguir alcançar o “sucesso” merecido, com base na expressão possível das nossas “competências” e sem exibição excessiva dos nossos conhecimentos. Sejamos “flexíveis, mas não demasiado “autónomos”. Claro que a maioria está imersa em interessantes vagas de reuniões intercalares ou de outras coisas como daques que rimam com traques (isto é o momento Sério Conceição do post – cf, conferência de imprensa de ontem), assim como noutras coisas sobejamente relevantes para as aprendizagens dos alunos e felicidade geral do Modelo Único de Inclusão. Não esqueçais que é tempo de uma “formação” que vos aprofunde a sensibilidade para o “novo paradigma” do século XXI e não vos deixais manter contaminados por resquícios do malfadado e olvidável modelo do século XX, excepção feita à declaração de Salamanca de 1994.

Vá, agora ide que aposto que já tocou para o primeiro tempo (calma, eu entro um pouco mais tarde, não façam já apitar os alarmes controleiros por verem aqui publicação matinal).

thumb

Eu Venho De Longe

De tão longe que a maioria das luminárias que por aí andam armadas em Corte Inclusiva nem uma aula tinha dado a uma criança ou jovem com as mais diversas problemáticas quando foi publicado o DL 319/91, conhecido coloquialmente como “o 319”. E não aceito que digam que sem o contributo de tão doutas criaturas eu tenha andado a “entreter” crianças e jovens.

A substituição da classificação em diferentes categorias, baseada em decisões de foro médico, pelo conceito de «alunos com necessidades educativas especiais», baseado em critérios pedagógicos;

A crescente responsabilização da escola regular pelos problemas dos alunos com deficiência ou com dificuldades de aprendizagem;

A abertura da escola a alunos com necessidades educativas especiais, numa perspectiva de «escolas para todos»;

Um mais explícito reconhecimento do papel dos pais na orientação educativa dos seus filhos;

A consagração, por fim, de um conjunto de medidas cuja aplicação deve ser ponderada de acordo com o princípio de que a educação dos alunos com necessidades educativas especiais deve processar-se no meio menos restritivo possível, pelo que cada uma das medidas só deve ser adoptada quando se revele indispensável para atingir os objectivos educacionais definidos.

Assim:

No desenvolvimento do regime jurídico estabelecido pela Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (Lei de Bases do Sistema Educativo), e nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 201.º da Constituição, o Governo decreta o seguinte:

Artigo 1.º

Âmbito de aplicação

As disposições constantes do presente diploma aplicam-se aos alunos com necessidades educativas especiais que frequentam os estabelecimentos públicos de ensino dos níveis básico e secundário.

Artigo 2.º

Regime educativo especial

1 – O regime educativo especial consiste na adaptação das condições em que se processa o ensino-aprendizagem dos alunos com necessidades educativas especiais.

2 – As adaptações previstas no número anterior podem traduzir-se nas seguintes medidas:

a) Equipamentos especiais de compensação;

b) Adaptações materiais;

c) Adaptações curriculares;

d) Condições especiais de matrícula;

e) Condições especiais de frequência;

f) Condições especiais de avaliação;

g) Adequação na organização de classes ou turmas;

h) Apoio pedagógico acrescido;

Deixem-se de m€rd@s porque em relação a isto os avanços avultam mais nas digressões terminológicas do que nos mecanismos da agora régia “inclusão” com que enchem a boca os especialistas na exegese de decretos-lei. Mas que raramente se viram numa sala de aula, todos os dias, com uma mão cheia de casos que não se podem dizer “especiais” e deles procurar tirar tudo o que é possível. E mais além.

Velho

Domingo

Ontem, uma romaria de dezenas e dezenas de governantes tomou posse aqui do pedaço, sob o olhar benevolente de um Presidente da República que de tanto desejar ser plebiscitado acima dos 90% sorri a tudo e mais alguma coisa, tudo perdoando até ao dia – a História talvez ensine – a seguir ao tal plebiscito. O governo que 2ª feira continuará a obra do anterior pouco tem de novo e o que tem de menos velho não aparenta grande coisa ou vagamente renovação. Sendo de continuidade, dificilmente poderei sentir qualquer comunhão de objectivos, sendo que há quatro anos ainda me iludi que não seriam apenas uma versão falsamente soft dos que os antecederam nos últimos 15 anos. Sim, talvez não exista agora alguém tão despudoradamente sem vergonha como o engenheiro, mas continuam a medrar quase todos os que ele elevou ou manteve no poder. Podem voar mais baixinho, não ir ao pote com tanta evidência, mas os canais continuam, menos esta ou aquela vara mais gananciosas, essencialmente os mesmos, assim como as prioridades, em especial as menos saudáveis. Nem um dedo se mexe contra os grande interesses privados que herdaram de mão beijada os monopólios públicos e cuida-se que a regulação só sirva mesmo para prateleira dourada de alguns, mantendo-se perfeitamente despojada de meios ou ineficácia. Existem formalmente entidades para que se possa dizer que existem. Reguladores que adorariam estar ao serviço dos regulados. Em matéria de Justiça, há muita coisa que quase acontece para além de algum aparato mediático. Há muitas críticas aos julgamentos na “praça pública”, mas isso só acontece porque a maioria dos restantes, quando a poderosos diz respeito, não passam de farsas a prescrever. As criaturas do pântano guterrista continuam praticamente incólumes e conseguiram cooptar parte da pseudo “esquerda radical” apenas com o doce aroma das periferias do poder e cedências em causas ditas civilizacionais. À direita, a deriva que nos levou insanamente além da troika, explica tanto o estado comatoso em que ficou depois do poder ter fugido e a estatura liliputiana das figurinhas que a disputam. como a legitimação que de forma repetida os actuais governantes apresentam para as suas políticas medíocres, pois podem sempre afirmar que os anteriores eram mesmo, mesmo muito maus.

Na segunda-feira voltamos a temos um país de que tomou posse há muito uma clique política que se reproduz nos mecanismos clientelares do nepotismo e que estabeleceu uma parceria com os principais grupos económicos que escolheu para entregar as poucas jóias semi-preciosas da República, confluindo na estratégia de produzir uma representação desfocada da realidade, conseguindo convencer muita gente que é bife kobe (ou seitan se a conversa for com o pan) a sola de sapato que lhe é servida na dieta diária de uma democracia formal.

intellectual-prostitute-nationality

 

Eu Gostava Mesmo Muito Que Tod@s @s Professor@s (E Pessoas, Já Agora) Tivessem Famílias Do Mais Amorável Que Imaginar Se Possa…

… para que, quando fizessem reuniões assim fora de horas, sentissem um apelo mais forte por voltar para casa do que perderem-se em espirais de m€rdinh@s e elucubrações esotéricas pseudo-eruditas em peganhice pseudo-pedagógica, como se fosse mesmo importante o que não passam de subprodutos imbecis de normativos idiotas, feitos por gente com alguma dose de desvinculação socio-cognitiva (seja o que for que queira dizer isto que inventei agora). Há quem devia (des)falecer sob uma pilha de grelhas, mas daquelas dos churrascos em brasa, if you pardon my sincerity.

Happy

(porque eu entendo que possa haver quem tenha um imenso vazio, mas então passeiem e vejam lojas, arranjem um pet e votem no pan, não chateiem os outros sem necessidade… há quem ainda tenha vida… e até bichos e tudo)

Inflexibilidades

Texto chegado por mail com identificação do remetente. Admiro quem ganha ânimo para o escrever. A mim, começa a faltar, mesmo quando sou obrigado a apreciar coisas semelhantes, em especial quando a mediocridade surge na ponta dos pés.

Assunto:

Na sequência da reunião efectuada em 2019-10-16, orientada por […] e subordinada ao  tema “Domínios de Autonomia Curricular (DAC)” e dados conexos com o DL 55 de 2018-07-06 e na qualidade de DT do 7C (14 horas de componente lectiva incluindo 2 de DT) é-me imperativo efectuar os seguintes esclarecimentos:

Serei de pouca servidão ao CT, quer para coordenar (dentro das atribuições de DT) quer para participar (dentro das funções de docente de EV) nas actividades decorrentes da aplicação do DL 55.

Para enquadrar a afirmação anterior é necessário algum contexto, nomeadamente sobre o meu percurso como docente contratado e as opções e convicções que ao longo dos anos fui tomando e consolidando.

Iniciei a docência em 1985, e com algumas interrupções, decorrentes de outras actividades ou por falta de trabalho, fui contratado 23 vezes em 20 escolas ou agrupamentos, tendo obtido a profissionalização em serviço apenas em 2009. A opção pela contratação foi consciente, pois preferia ter horários reduzidos que me permitissem actividades extracurriculares fossem elas noutras profissões (vendedor de material informático, formador de CAD, arquitecto, designer…) fossem elas formações (canalizador, apicultor, operador de grua, ilustrador científico…) ou fossem elas simplesmente a prática de diversos ócios. Relembro que “Escola”, vem do grego scholē, “ocupação de quem se encontra em descanso” e posteriormente do latim scholaócio consagrado ao estudo”. É este ócio que sucessivamente vem sendo retirado aos docentes e que para mim é muito mais gravoso para a sua actividade do que o congelamento da sua carreira (digo eu que não tenho carreira e podendo ser considerado um mercenário da educação), pois acabado o tempo do ócio acabou o tempo da reflexão.

Agora apresento (parte) da minha teoria da conspiração.

  1. O assunto da reunião em questão (DAC) e o seu contexto já o ouvi em diversas ocasiões e para auditórios de geometria diversa.
  2. Conheço a sua origem no ido ano de 2001 com o “No Child Left Behind“ do governo George W. Bush e conheço os seus efeitos, sejam eles aplicados por detentores de Master of Science da Boston University School of Education ou Pós-Doutoramentos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
  3. Estou cansado de ouvir Vítores Tétés, Ariánas Cosmes, Margaridas Soares e ressuscitadas Marias dos Ceús, “a todos e a cada um” como tanto gostam de afirmar como se o “todos” não incluíssem o “um”, a defenderem políticas educativas que não são mais do que propagandas ideológicas que roçam uma qualquer teologia, a cujos oponentes só falta chamar hereges e lançar para a fogueira.
  4. Descarregam sobre um corpo docente envelhecido, sem perceber que o seu alquebrar se deve não a uma perda de conhecimento mas a uma imposição horária atroz que os ocupa com ninharias. Querem sangue novo, sangue sem a história das áreas escolas e das áreas de projecto, pós modernistas do fim da história, enquanto camuflam que a criação de professores não se faz pela frequência dum curso mas na prática escolar que os leva da arrogância sapiente à humildade de quem professa.
  5. Não querem contestação, por isso os eleitos assoberbam os docentes com registos, tabelas, gráficos, grelhas, relatórios, observações e procedimentos, transformando-os em técnicos laboratoriais de bloco de papel em riste a registar os comportamentos das cobaias, perdão, dos alunos.
  6. A sua falácia preferida proclama que suas ideias não pretendem que os alunos passem sem saber, que o nível de exigência não tem de ser baixado, quando no final o que interessa é reduzir o número de retenções pois cada uma tem reflexo no orçamento da educação.
  7. Querem impor uma organização informal devoradora do pouco tempo de descanso que ainda resta e encaixar uma teoria numa estrutura rígida de horários, seja dos docentes ou dos discentes.
  8. Criaram uma agulha, perfeita, uniforme e brilhante, uma obra de arte merecedora de toda a admiração. Mas depois atiram-na para os professores para que sejam eles a descobrir a forma de lhe fazer o indispensável buraco.
  9. Os políticos, ideólogos (e teólogos) actualmente no poder, obsessivos compulsivos a brincarem ao Excel e ao SimCity, têm efectivamente o pau na mão. Quanto a mim fiquem lá a jogar com o pau, ciente de que em qualquer altura mo podem atirar. Mas no entretanto eu vou continuar a jogar com a bola, pois essa, eu não lha vou dar.

J. A.

Aplauso