5ª Feira

Dia de prova de aferição de Português de 9º ano e de exames de Economia e Alemão do 11º ano, daqueles que são de uma espécie de 2ª ou 3ª divisão em matéria de prioridades jornalísticas, pelo que não sei se teremos mais notícias do género “uns alunos acharam acessível, outros tiveram mais problemas e alguns não conseguiram fazer nada”, como parece ser o padrão dos últimos dias. O envelhecimento docente traz-nos isto… um enorme tédio com a repetição da balela, assim como com o troca-tintismo de quem diz agora uma coisa e depois outra ao contrário, como o senhor da OCDE que bate palmas num qualquer colóquio do ME em relação ao alargamento da escolaridade obrigatória em Portugal, mas se for uma iniciativa de uma fundação ligada ao “empreendedorismo” já diz que os portugueses ficam muito tempo no sistema educativo.

Sim, é verdade que por cá é o habitual, mas parece que já contagiamos quem nos visita como o nosso potencial camaleónico de ora se ser governante e não saber de nada anos a fio sobre coisas óbvias, ora se ser governante e estar-se a estudar o óbvio que antes não se tinha conseguido detectar. Não é por acaso que temos a comandar a Educação uma clique que diz defender o espírito crítico e o conhecimento, mas depois promove activamente a pseudo-ciência e as crendices pessoais. É bem verdade que a classe docente precisa de rejuvenescer, precisa de gente sem a memória do que já foi (e nem sequer há tanto tempo assim… foi há 10-15-20 anos e em alguns casos há menos), que seja permeável à demagogia e à fancaria ideológica por não ter desenvolvido ainda a resistência à treta que os mais velhotes criaram em sucessivas camadas.

Claro que para isso, também é necessário ir alimentando uma segunda geração de “gestores escolares”, alguns criados em aviário, via cursos online e encontros com uns croquetes e drinques na Gulbenkian ou outro sítio a que não estejam habituados (assim como os nossos eurodeputados quando chegam lá fora e descobrem que o mundo é maior do que Lisboa), de modo a ficarem deslumbrados e funcionarem como correias de transmissão, felizes com o seu estatuto de capatazes na roça educativa e o poder de recrutarem mão de obra dócil. Ouvem umas palestras de algumas figuras da gerontocracia no poder a falar da inovação que o era quando el@s tinham deixado de ser jovens, ali pela altura em que eu comecei a dar aulas, e ficam boquiabertos de tanta absorção de “novidades”.

Dizem que sou pessimista, que tendo a não encontrar os pontos positivos no que me rodeia. Há uma parte que não é verdade, pois eu procuro desesperadamente por esses sinais. O pessimismo chega depois.

Sábado

Terminei ontem a fase das reuniões de avaliação. Foram só duas reuniões, mas não invejem quem tem de dar 2 ou 3 disciplinas a turmas de 28, porque é o equivalente a ter 5 turmas e 140 alunos. E estou sinto vontade de dizer que terminei cansado, desanimado só qb, pois no início quase garanti que não conseguiria fazer todo o ano lectivo sem alguma interrupção menor ou maior. E até disse isso aos alunos, mas lá me fui aguentando e o covid não conseguiu ganhar a luta contra a minha sinusite, que durante boa parte do ano produz barreira natural contra qualquer germe, vírus, bactéria ou mau cheiro que se aproxime. Já sei que há que considere que confessar cansaço ou desânimo, não é compreensível (afinal, os professores trabalham pouco e têm muitas férias) ou aceitável (afinal, os professores escolheram a sua profissão e se não se sentem bem que se dediquem a outra coisa).

Claro que a primeira reacção a esse tipo de observações é mandar à [pi-pi-pi] quem as produz, mas depois dá-me sempre a vontade de explicar mais devagarinho as coisas e tentar que percebam – nem sempre é possível, há demasiada gente estúpida por aí e não digam que é só nas redes sociais – que o maior profissionalismo se demonstra em condições adversas e não quando tudo está a correr bem e de feição, que dessa maneira é fácil. Elogio em causa própria é vitupério? Que se lixe! E que se lixem aqueles que, chegados a esta altura, de tanto que não fizeram, acham que estamos todos prontos para mais uma rodada e retornam com as conversas das monitorizações, relatórios, avaliações, inventários e recuperações de aprendizagens, planos, planificações e projectos para o próximo ano, como se não tivéssemos vigilâncias para fazer, processos dos alunos (os adequadamente chamados PIA) para arquivar, matrículas para dar apoio e toda uma resma de tarefas que outrora eram administrativas, mas agora se acha serem conteúdo funcional da docência que nenhum estatuto (nem o da “reitora”) passou a lei a que se deva obediência absoluta.

Sim, estou cansado. desanimado. Com escassa pachorra para ouvir seringadelas de clichés, seja de quem só agora acedeu aos prolegómenos do ofício (mais já debita tese encartada), seja de quem ajudou a torná-lo um martírio de redundâncias e irrelevâncias, mas finge que é tudo novidade da fresca e boa. Por razões que em poucos casos serão novas, a maioria das vezes sendo apenas o repenicar da idiotice; umas vezes vindas em cascata lá do topo, em outras dando comichão pela proximidade. Seja como for, acho que tenho o direito e ainda a liberdade de neste “quintal” expressar os meus estados d’alma, sem ter de prestar contas, até porque não recebo ao caracter, à palavra ou ao post. Se os visitantes também têm o direito de se sentirem incomodados e a liberdade de expressar desacordo? Mas claro que sim. Assim como eu de replicar, caso me apeteça, sendo que agora me apetece pouco, pois ainda nem do raio do relatório da add tratei, quanto mais de umas pendurezas que ficaram por acabar do ano, que há quem só tenha uma vintena de alunos, mas mesmo assim não cumpra o que deveria e ainda se arme em grandes coisas. Nada que não se ande a tornar a regra um pouco por todo o lado. O que não significa que se tenha de aturar e calar, em nome do “bom ambiente” e muito menos porque “somos todos uma família”. Se soubessem a distância a que mantenho alguns parentes de sangue ou apenas aparentados, perceberiam o que penso dessa conversa da treta.

E agora vou ali ler uma coisa muito interessante do Eco sobre como reconhecer as falsidades (Reconnaître le faux, Grasset, 2022 para esta edição de bolso de algo com pouco mais de meia centena de páginas, mas muitas citações deliciosas sobre aldrabões e aldrabices), apenas para confirmar evidências.

Então, Dia 21, Lá Irei Vigiar…

… a inútil prova de Matemática para alunos do 9º ano. Eu e mais outro colega na mesma sala, mais umas dezenas pela escola, acrescendo o pessoal suplente, o secretariado e mais a polícia que traz e leva as provas e depois os classificadores (codificadores?), tudo multiplicado pelo país para fingir que se está a fazer alguma coisa a sério. Porque até os alunos já perceberam que é um total fingimento. Ao não terem consequências na progressão dos alunos e os “resultados” só chegarem às escolas no início do próximo ano lectivo, desaparece qualquer efeito com interesse para os alunos que fazem estas provas, pois no caso das Básicas até ao 9º nem sequer lá estarão, na sua esmagadora maioria (só algum distraído que fique retido, mas esses quase nunca aparecem sequer). E mesmo no caso de Secundárias, para quem for para áreas de estudos sem Matemática, é a mesma coisa em termos de utilidade zero. Ahhh… deixam ensinamentos para os alunos dos anos que ainda aí estão por vir… sim, pois, mas para isso não chegará “maiar” no sentido do sucesso?

Estas pseudo “provas finais”, que só servem para “aferição”, são a preparação para a eliminação de qualquer avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico, de modo a regredirmos até ao início dos anos 90 do século XX, quando esta clique ideológica já estava quase a passar do primor da idade (e agora, tirando o seu ministro Costa, já estão bem para lá do prazo de validade dos danoninhos em termos de “inovação” intelectual). E depois teremos psicólogos como os de ontem a recuperar as teses da Educação finlandesa de então, associando-a a níveis de felicidade míticos e de desenvolvimento humano que esquecem todo o contexto envolvente e um espírito ético que (mesmo que Weber não estivesse plenamente certo) por cá escasseia mais do que professores abaixo da trintena.

Mas lá irei eu (mais o colega contratado, acima da quarentena) “vigiar” algo que é de uma inutilidade atroz e que só servirá para que este envelhecido professor perca duas horas da sua vida, enquanto reprime a vontade de perguntar a quem aparecer, porque raio se deram ao trabalho de o fazer. Acaso serão éticos finlandeses disfarçados de descontraídos latinos? Lá irei vigiar uma prova que espero consiga ter sido feita sem necessidade de erratas de última hora, prova essa que, com todas as outras feitas este ano no Básico, servem mais para justificar parte da existência do Santo Iavé do que outra coisa. Não sei se, como em ocasiões anteriores, com o calor que está, os alunos só poderão levar garrafas de água descaracterizadas, para não fazerem as cábulas que o próprio enunciado fornece em forma de formulário.

Isto é tudo muito parvo, mas, como escrevi, é uma necessária fase preparatória para o decretar do fim definitivo de qualquer prova externa no Ensino Básico que não seja “de aferição”. A pandemia, a este respeito, foi mesmo uma “oportunidade”. Pena é que me façam perder duas horas da minha vida que podia levar a ler um bom livro ou a observar o movimento das nuvens ou poeiras no céu azul. Como dizia uma pessoa da minha família, gente do antigamente, “mais valia estar a ***** em pé do que a fazer isso”, se é que me é permitido o plebeísmo arcaizante.

6ª Feira

As novas regras para a mobilidade por doença já foram aprovadas. Como é costume entre nós – ainda me lembro muito bem da conversa sobre a não avaliação do mérito dos professores, quando apenas teria de ser regulamentado um artigo do ECD pré-2007 – legisla-se para todos, com base no alegado incumprimento de alguns. A medida não vai solucionar qualquer falta de professores porque os muito falados abusos parecem acontecer numa zona do país a centenas de quilómetros das zonas onde a falta de professores é mais acentuada. E nem sequer se sabe se estão em causa os mesmos grupos disciplinares, apenas que se faz uma cosmética para patego comer e oportunista rejubilar. E por oportunista designo quem, ainda há poucas semanas, clamava por mudanças e agora surge a dizer que, afinal, isto não vai resolver nada. E nem se trata apenas da mobilidade que a completa cambalhota foi dada. É muito complicado esperar qualquer tipo de eficácia (“unidade” já se sabe há muito ser impossível) em qualquer guerra ou guerrilha quando há gente que salta de posição conforme lhe parece mais popular. Ou adequada à sua “vidinha”, com as mais variadas justificações(ou nem isso). Entretanto, as organizações que ajudaram a adormecer tudo durante anos, querem agora carne para canhão para demonstrar que o descalabro eleitoral não tem correspondência “nas ruas”. Por mim, perdoem-me o franciú. podem ir à m€rd@, porque eu bem sei o que (não) fizeram em Verões passados e, mesmo que nem sempre tenha vindo á superfície, tudo o que activamente fizeram para “secar” quem não aderisse ao espírito da geringonça, mesmo no período final. O resultado, está à vista e não digam que a culpa é das bases, quando as lideranças se acomodaram e cristalizaram a um nível insuportável.

6ª Feira

Faço parte dos que acham que não se é pior profissional, neste caso professor, porque em alguns dias a paciência é menor para as coisas mais negativas do ofício ou que se tem a frontalidade de assumir frustrações e desânimos. Aquelas pessoas que estão sempre muito entusiasmadas com o que fazem ou que apontam o dedo acusador a quem faz críticas ao que existe e aos poderes de mando, provocam-me alguma urticária de tão “positivas” ou “construtivas” que se auto-qualificam. Há alturas em que, no meu entendimento que é longo na matéria, pelo menos em termos de tempo, somos melhores profissionais se soubermos ver o que está errado e apontá-lo e não entrarmos em contemporizações com o politicamente correcto ou com míticos “bons ambientes”. Em que é necessário afrontar os poderes e poderzinhos, em vez de fingirmos que está tudo bem, que nada é connosco e que o melhor é levar a vidinha sem nos chatearmos. Correndo o risco de me repetir mais uma vez… se assim é, então não me chateiem ou, por associação, não nos chateiem mais, sempre com gente que, de tanto não fazer, pensa que sabe fazer ou, pior ainda, se especializa em mandar fazer.

Desequilíbrios

Nem sempre, quem está do lado de fora da sala de aula e da escola, consegue compreender o esforço feito no interior para que 20-25-28 alun@s façam o melhor possível em condições complicadas. Há quem, por ter sido já alun@, pareça saber tudo sobre Educação. Pior, esquecem-se que antes de serem pais ou mães, muit@s outr@s já o foram. Confesso que por vezes a paciência me escasseia e o pé foge-me mais para a clareza do que para os subterfúgios e salamaleques. Porque há quem peça demais à escola, para o que faz fora dela, sendo sua obrigação. Quem não consegue com um ou dois o que quer que os outros consigam com 30-50-100 ou mais. Há quem não goste do que lê ou ouve, mas raramente é desconforme aos factos e ainda mais raramente foge à concisão. E para acabar o desabafo, nunca foi meu hábito pedir que me resolvam os problemas que possam existir fora dos portões da escola. Pelo que às vezes me apetece colocar uns patins e desandar. Ou fazer desandar. E quem achar que é muita assertividade e pouca sensibilidade, é porque não está a ver bem, nem ao longe, nem ao perto. Porque esta de sermos missionários em procissões alheias já deu o que tinha a dar.

E quem não percebeu, ainda bem, porque se calhar nem tem nada a ver com o assunto.