Domingo

Mais especificamente, domingo à tarde antes de 2ª de manhã, aquela altura em que se percebe que a “escola como fábrica” existe e foi criada pelos críticos da “escola de Manchester”, padronizada e fabril. Nada como utópicos para dar cabo da vida daqueles a quem dizem querer levar a felicidade. Perguntem a quem experimentou o quotidiano escolar antes desta clique de gente muito bem intencionada, defensora da “flexibilidade”, da “inclusão” e da “equidade”, ter tomado de assalto de forma aparentemente irreversível o ME. Esta malta, que se diz das avaliação holística e integral dos indivíduos, cada um na sua diversidade, foi a que implementou a escola mais padronizada, controlada e em massa de todas. Durante muito tempo, a escola como local de trabalho não me suscitava rejeição, não era necessariamente um dever, um sítio onde se vai ganhar o salário e se vem embora, havia um ambiente de convívio, amizade e alegria. Que se foi esboroando, a pouco e pouco, aqui e ali com uma aceleração do processo. Agora, fora da sala de aula, a “escola” deste modelo (ou ambiciosos falam em “paradigma”) não me desperta qualquer identificação. As aprendizagens reduzidas ao “essencial”, a “avaliação” em forma de simulacro, a redução dos actos pedagógicos a registos infinitos, a desconfiança em relação ao meu trabalho, fizeram que a escola se transformasse em “fábrica” no pior dos sentidos, produzindo de forma acrítica “sucesso”, a menos que se queira ter problemas e ter de justificar porque outros não aprenderam o que não quiseram ou tiveram para se esforçar em aprender. A escola como fábrica de rotinas massificadas, por muito que se afirmem “flexíveis”, como produtora de um pensamento mínimo e único, que se pretende “crítico”, sem informação que o sustente. A escola como contabilidade com colunas, agora digitais, agora só com colunas de “deve” para preencher. A escola como fábrica em que toca para entrar e para sair. e pouco mais. A escola onde ainda se permanece porque há mesmo alun@s que de nós precisam, em especial quem ainda contraria a cartilha dos futuros oficiais e comendadores das ordens da vergonha pública. A escola que nos assombra à medida que o crepúsculo de domingo se aproxima.

Transição Digital? PADDE?

Eu sei que existem experiências maravilhosas, em que tudo funciona como no século XXIII, numa utopia digital sem falhas. Mas também existe o mundo real. Um mundo real onde o ME manda para as escolas computadores imprestáveis, com cartões SIM que não funcionam ou requerem configurações adicionais dos computadores. e quem traz computador de casa, não consegue entrar na rede min.edu porque falta o diabo a ca(sete). Eu vivo no undo real, não no mundo de fantasia ou naqueles oásis tecnológicos de gente que, quando um tipo de queixa, se arma em mete-nojo, que nós é que não sabemos fazer as coisas. Nada disso, a transição digital na Escola Pública está a agravar, em vez de reduzir, as desigualdades. As provas de aferição digitais, se avançarem em modo global, vão ser um descalabro, por muito que se trabalhe até Maio. Claro que a culpa será dos professores e das escolas, claro que se dirá que é indispensável mais formação e tudo isso. O que quase chateia mais é ser tudo tão previsível.

Não chega enviar kits tecnológicos de fancaria para as escolas para se fazer uma transição digital. É preciso muito mais. É preciso levar isto a sério. ´´e preciso ter um ministério a sério e não a m€rd@ de um departamento ou direcção geral das finanças, elas próprias já um ministério de refugo, para onde se manda alguém a quem se devem favores partidários. e é melhor ficar por aqui, ou ainda escrevo umas verdades e acabo em trbunal. E nam’apetece, porque está frio, por acaso no Inverno.

Cansaço

Não sinto qualquer problema ou embaraço em admitir que estes dois feriados foram instrumentais para que eu conseguisse terminar o período sem ser aos tombos. A minha admiração para quem anda por aí com ar de frescura e muito ânimo, sendo mesmo notável quem ainda tem energia para se fotografar em passeatas formativas, ou melhor, talvez tenha essa energia exactamente porque em vez de estar no batente, ande regularmente nessas passeatas.

Mas isso agora não interessa nada.

Interessa que em torno da “luta” existe uma lamentável desinformação de um lado, impreparação de outro, para além do desejo de instalar a confusão, o que o ministro Costa agradece. Já vi isto muitas vezes e, pessoalmente, estou cansado de parvoíces como aquela que em seguida transcrevo que, independentemente do conteúdo ser uma espécie de tudo ao ao molho e fé em São Nogueira, formalmente é um tal desastre que eu pedi a quem publicou que – seja “copiado” ou não – tente que ao menos a escrita esteja ao nível de um aluno do 2º ciclo. Já nem falo em cultura política, porque é divertidíssimo ver aqueles que os velhos esquerdistas chamavam “sociais-fascistas” a chamar isso aos actuais radicais pequeno-burgueses, ou seja, esquerdistas na velha terminologia (mais fácil de entender para quem tem pelo menos uns 55 anos), E ao menos grafem bem o raio do meu nome. E podem colocar no singular, porque somos poucos e nenhum tem deriva majestática. A pessoa que diz ter “copiado” não quer citar de onde copiou, o que é apenas a forma que arranjou para de desculpabilizar e esconder que não passa de alguém com graves falhas de carácter, até porque em comentário (não em resposta ao que lhe escrevi), diz que concorda com o conteúdo e que aqueles nomes estão ali devido ao seu “relacionamento à direita”. É bom que informem o deputado Mithá disso. Ou que apaguem o meu nome da comissões de apoio às campanhas presidenciais do Manuel Alegre (para cuja revista Ops! escrevi sobre a carreira docente em 2008) e do Sampaio da Nóvoa.

Dito isto, esclareça-se desde já que amanhã não tenho actividades lectivas. Sim, tenho folga à 6ª feira e quem tiver problemas com isso poderá sempre assumir o meu horário a 100% com 5 turmas de HGP, 1 de CD e uma DT no resto do tempo. Amanhã, irei ter boa parte do dia ocupada com um par de reuniões em que sou árbitro nomeado por colegas em recursos relativos à add. No meu dia de folga, em que, portanto, não farei greve. Mas estarei a fazer o que outros que andam aí a gritar muito, não fazem, arranjando as desculpas mais esfarrapadas para não gastarem o seu tempo sem ser em proveito meramente próprio.

Na 6ª feira passada tinha outra reunião do mesmo género, mas depois de ver como todo o processo foi “cozinhado” por gente sem um pingo de sentido deontológico – com a cobertura da dgae, claro, que agora dá pareceres em que considera que as determinações legais são meramente “indicativas” – decido enviar uma declaração para a acta, descrevendo os motivos pelos quais a presidente daquele Colégio Arbitral tornou os procedimentos uma palhaçada. E parte das minhas “folgas” tem sido usada para tentar ajudar colegas, como outr@s têm feito, devido à muita deficiente ajuda de juristas avençados pelos sindicatos que elaboram reclamações e recursos que até metem dó.

Estou cansado, sim, e estes feriados foram mesmo muito importantes para manter alguma capacidade de levar o período até ao fim, sem outros truques e manhas, que por vezes existem em quem é muito vocal contra as injustiças, mas depois foge logo que pode, se alguém lhes pedir ajuda.

Estou cansado, sim, porque as “lutas” têm-se saldado nos últimos 15 anos por derrotas sucessivas, apenas se tendo conseguido reduzir ocasionalmente o ritmo das perdas. Infelizmente, há lideranças sindicais que deveriam perceber que isso corresponde aos seus mandatos e ter a dignidade de o assumir, para ganhar algum respeito dos “representados”. Mas parece que isso é sinal de fraqueza. No meu caso, admito sem grandes problemas que quase todas as causas em que me envolvi, excepto em situações particulares relativas à add, não correram bem. Quase todas tiveram um desfecho que considero desfavorável. São poucos os motivos para sorrir, em especial desde 2006. E, apesar de ser do Sporting e estar habituado a jejuns de quase duas décadas, esta é uma situação que provoca desgaste e o referido cansaço. Que não é atenuado por erupções de excitação epidérmica de pessoal que pode ser muito sincero, mas ainda não percebeu que por vezes tem ao seu lado quem, com cantos de sereia, apenas os quer fazer desaparecer da frente.

Como diria o Octávio Machado… “vocês sabem do que eu estou a falar”. A malta que anda pelos grupos de professores do fbook a disparatar certamente sabe. Se não sabem, não vale a pena explicar, porque já estão se instalaram nas vossas convicções, ora inabaláveis, ora de ocasião.

Direito De Veto

Estou envolvido em três recursos como árbitro d@s recorrentes. Num deles, tudo decorre normalmente, de modo afável, civilizado, entre colegas que se respeitam. Em outro, sei que sou árbitro porque há um mês a recorrente mo pediu; desde então, silêncio. Num terceiro caso, repetido do ano passado, a coisa arrasta-se entre a incompetência e a arrogância, a qual culminou naquele episódio a que aludi de a presidente do Colégio Arbitral apresentar uma decisão para ser votada, sem sequer reunir com os outros árbitros ou ter estabelecido qualquer contacto prévio. Respondi curto e grosso (até porque o conteúdo da proposta tem aspectos pouco adequados) e hoje exerci o direito de não abrir sequer a caixa de mail em que trato das coisas desse recurso (espalho as coisas por diferentes caixas de mail, para evitar confusões). Não me apetece ler mais disparates, mas pesporrência, mais ignorância ou simples abuso. Não quero já saber de quaisquer prazos ou procedimentos, quando há quem nada pareça aprender com a passagem dos anos sobre um processo de add que é mais ignóbil quando as pessoas se revelam falhas de carácter, vendidas aos jogos do amiguismo destinado a tramar quem ousa refilar. Há outros assuntos que ficarão por lá, à espera de resposta, mas esta é uma decisão de higiene pessoal, de defesa da minha sanidade e para adiar ao máximo a contaminação moral que será ler mais uma linha escrita por gente que me envergonho de ter como colegas de profissão.

Talvez ande repetitivo nesta forma de desabafo, mas há limites para a tolerância para a estupidez, mesmo quando está em causa a defesa de pessoas amigas. Há momentos em que a sobrevivência de algum sentido moral passa por se colocar a distância possível em relação ao que nos corrói com o mais breve e curto contacto. Que vão, há que afirmá-lo com toda a frontalidade, para o raio que @s parta.

Quanto Mais “Flexibilizamos” E Nos “Disponibilizamos”…

… menor é, em muitos casos, a qualidade do retorno.

Do que adianta estar a fornecer “matrizes” (está na moda serem pedidas pel@s ee) com temas e tipologias de questões, materiais de estudo adicionais em suporte digital, via sala virtual, fazer fichas de trabalho formativas, sem classificação formal, tudo de acordo com o livrinho das alegadas boas práticas (acreditem… fui mesmo eu a fazer tudo isso, sem ser obrigado… o que de qualquer modo não funcionaria), para depois dar de caras com o total desinteresse, falta de estudo, de empenho, de qualquer réstia de preocupação com seja o que for. Quanto maior a “oferta”, menor o respeito pelo esforço alheio e menor o esforço próprio para atingir um desempenho vagamente sofrível. Agora imaginem que nem gostavam das aulas, das quais garantem gostar.

O repetido discurso que inverteu o ónus da prova em relação ao sucesso escolar desaguou nisto e numa cultura de “eu tenho todos os direitos” (ou o talvez mais comum “@ minha/meu filh@ tem todos os direitos”) que quase se transforma em bullying sobre @s professor@s. E só coloco o “quase”, porque eu até me faço entender com alguma clareza pel@s alun@s e isso ainda serve de travão a muito disparate dos adultos, não apenas de fora para dentro da escola.

Aprendizagens perdidas? Não… o que se anda a perder é bem mais grave do que os conteúdos académicos.

A Mim Não Incomoda Nada Ensinar Os “Novos” No Labirinto

O que me chateia é que, mal se viram as costas, em vez de tentarem continuar as perceber e explorar as coisas, se agarrem aos telemóveis como a miudagem, com conversas que dão logo para perceber que vieram para a escola, em regime de ocasião e biscate passageiro. Por “novos” entendam-se quaisquer idades, mas malta que se arma em nova nisto para efeitos de meter os “velhos” a fazer-lhes o trabalho por conta. Eu sei que não acontece com toda a gente e há pessoas cheias de boa vontade e em relação a essas sinto algum dever.. Mas outras, nem por isso. Por isso, tendo a fazer-me de nhurro. Para um, um e meio. Vão ter com o costa e suas abelhinhas.

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Pelo JL/Educação

Uma conversa matinal com uma colega professora, em hora formalmente dedicada a apoiar alunos que acham, ou melhor, têm a certeza de não precisar desse apoio. Colega mais avançada na idade, ali perto das margens da reforma, mas que insiste em levar o seu trajecto até ao fim, apesar do desânimo que se foi entranhando ao longo dos últimos quinze anos, período em que tantos ideais que ainda sobreviviam foram completamente arrasados pela “boa governança” dos recursos humanos em Educação. Colega que não se inclui no lote de quem é suspeito de “padrões irregulares” em baixas médicas que não pratica. Que ainda se esforça por tentar ensinar o que muitos não querem aprender (Matemática), com a legitimação dos teóricos de que as aprendizagens só são significativas ou têm sentido se forem do “interesse dos alunos”, como se ao fim de uma década de vida, já se soubesse o que futuro pode exigir.

Conversa em modo de comparação de estados de espírito. E a admissão de, ao terminar a semana, essa colega se questionar sobre o sentido de voltar na semana seguinte, perante uma realidade que se avoluma na aspereza. Quando o discurso do “envelhecimento”, a par da evidência cronológica indesejada, agravou atitudes de desrespeito quase constante a partir de fora. Quando qualquer “explicadora” ou ocupadora de tempos livres se sente legitimada para dizer aos alunos que “a professora está errada”, mesmo se fez um 12º ano oferecido na base do “sucesso para todos”, nem que seja com 10 valores para despachar as estatísticas.

Respondo que a mim, essa sensação de inutilidade do esforço surge, não sei se pelo contrário, logo a abrir a semana quando, aberta a porta do carro, olho para o declive de acesso ao portão e observo como se evidencia a generalizada falta de civismo no espaço envolvente, por parte daqueles que deveriam a partir de casa dar o exemplo mas preferem exibir a truculência como se fosse um valor e uma injustificada arrogância como se isso compensasse as frustrações de um quotidiano precário e frágil. Do qual se pensa tirar desforço no pequeno mundo da escola, onde a quase todos é permitido descarregar tudo aquilo que, algures, fora dali, são obrigados a calar. Como se a Escola e os professores fossem alvos a abater para equilibrar todas as esperanças que lhes foram tolhidas. Mas, lá saio e faço o meu caminho, a cada 2ª feira, na certeza de dificilmente as coisas ganharem mais sentido do que no final da semana anterior.

A busca de sentido para o quotidiano escolar não é um exclusivo dos alunos, apesar do que algumas auto-nomeadas autoridades na matéria reclamam. Por vezes, com recurso a testemunho seleccionados a dedo à porta das escolas com inquéritos teleguiados. Muito pelo contrário, afirmo eu, que tenho escassa vergonha em admitir que busco um sentido para a vida escolar há mais tempo do que têm de vida quase todos os meus alunos, porventura todos, porque há uns que apenas se inscreveram para cumprir a formalidade de estarem doze anos na escola, mesmo que só lá tenham passado menos de metade, com muito boa vontade contabilística e ainda maior das autoridades que mandam arquivar as sucessivas “sinalizações”.

A perda de sentido da vida escolar tem, para os adultos que por lá andam, o peso acrescido do tempo passado e da consciência da escassez do tempo que resta para ver alguma mudança significativa, na direcção certa. Para os mais novos, essa carga é bem menor, e o horizonte de esperança bem mais alargado, mesmo se ilusório.

Ouvimos e lemos tanta coisa sobre a nossa profissão, sobre o nosso desempenho, sobre a nossa falta de adequação aos novos tempos, sobre tanta necessidade de formação, que a dado momento quase se interiorizam as acusações e se desiste de tentar compreender a incompreensão ou de tentar contrariar, esclarecendo, a ignorância. Aquela mais bruta que desagua na violência das agressões físicas, mas de igual modo a mais insidiosa violência psicológica e até moral de quem exibe pergaminhos académicos de “investigação” e “reflexão”. Não vale a pena, porque do outro lado se ergue um muro imenso de certezas inabaláveis.

Ao nível de alguma parentalidade, já se anda a lidar com uma geração que, em vários contextos sociais, cresceu sem saber lidar com o fracasso das esperanças e, na falta de coragem ou capacidade para contestar os verdadeiros responsáveis pela sua situação, descarrega nos professores as suas incapacidades de “sucesso”, aquele que lhes disseram, anos a fio, que era direito seu. Tudo isto a par de uma elite político-mediática que parece achar que o seu saber, o seu “olhar” externo sobre a Educação e a organização das escolas é mais objectivo e rigoroso, do que o daqueles que lá passam o seu tempo, hora após hora, turma após turma. Uma elite que, lá por ter passado pelas salas de aula como alunos e até eventualmente como docente ocasional, em biscate passageiro, considera que sabe tudo o que há a saber sobre o currículo, o trabalho em sala de aula, a gestão da indisciplina, os valores e atitudes a transmitir no contexto escolar.

Choca-me a forma ligeira, superficial, epidérmica, como há quem consiga ter tantas certezas quando passa o tempo a lançar dúvidas sobre o trabalho alheio. Pior ainda quando isso se passa com um manancial de “especialistas”, que gostam de se apresentar como “cientistas da Educação” de variada especialidade, da economia e gestão dos recursos humanos à organização curricular, em defesa de nichos de mercado que lhes garantam a sobrevivência e relevância junto dos decisores políticos. Gente que repete os mesmos chavões ao longo das décadas, colhidos em leituras dos seus tempos de formação, projectando no presente de agora, presentes de outros tempos, de que ainda não conseguiram curar as cicatrizes. Em alternativa, temos as novas gerações dos seus discípulos que, mal acabaram de sair do aviário académico, já prontamente se apresentam disponíveis para replicar, como “formadores” dos envelhecidos docentes, as sebentas que lhes foram servidas como o pensamento único e belo.

Sim, os tempos mudaram e os professores e o trabalho docente devem acompanhar as mudanças, mas seria interessante que fosse feita uma triagem com algum critério das mudanças a adoptar. Não me parece que o “professor do século XXI” deva ser uma espécie híbrida, combinando o burocrata cumpridor de todas as directrizes superiores com o funcionário do economato escolar.

Tanto discurso sobre a necessidade de formação dos professores para quê, exactamente? Para distribuir e receber manuais escolares, seguindo-se a exigente tarefa de apagar os rabiscos neles feitos para que posam ser reutilizados? Será para isso que se fez uma profissionalização ou mesmo um mestrado bolonhês em ensino? Para registar em tabelas de excel todo e qualquer registo, em forma de descritor, sub-descritor, indicador ou sub-indicador, numa demanda de pretensa objectividade, enquanto se defende uma avaliação “humanista”, “integral”, numa “perspectiva holística” do indivíduo enquanto um todo?

Há sentido no trabalho docente quando a maior parte do tempo é gasta, em actividades de tipo administrativo, sem qualquer vantagem para as aprendizagens dos alunos? Quando isso resultou da transferência para os docentes de tarefas que de modo algum estão no “conteúdo funcional” do seu estatuto profissional, apenas para poupar em pessoal não docente, na sequência da centralização dos serviços administrativos nas escolas-sede dos mega-agrupamentos e da “racionalização” (no sentido literal de aplicação de “rácios”) do pessoal não docente?

Viktor Frankl termina o seu posfácio de 1984, com o título aproximado de “Em defesa de um Optimismo Trágico”, do seu clássico Um Homem em Busca de Sentido, com a afirmação de que “o mundo está em mau estado, mas tudo ficará ainda pior se cada um de nós não fizer o seu melhor”. O problema é que cada vez há mais gente a fazer o seu pior e a obrigar os outros a nivelarem-se por essa sua mediocridade. O que só reforça o trágico em quem busca desesperadamente um sentido para docência reduzida a uma sua triste caricatura, que o pulular de “projectos” e pretensas “inovações” requentadas só acentua.

Um dos maiores disparates que por aí circulam, com origem conhecida, é o de termos “alunos do século XXI” em escolas organizadas como no século XIX, ensinados por professores do século XX. Tomara que assim fosse, pois, que me lembre, no analógico século XX não tinha de fazer nada destas tarefas que só servem para desqualificar a docência como actividade destinada a transmitir pelo menos o essencial do conhecimento humano.

Sábado

Sucedem-se episódios de maior ou menor violência em torno das escolas ou mesmo no seu interior. Não sei se é maior o número ou o interesse mediático pelas ocorrências. Não confio nos números oficiais, mas não sei o que há por todo o país. Apenas, olhando em redor, sinto uma maior desorientação geral das pessoas que não estavam claramente preparadas para mais de uma década de adversidades e, ao contrário de algumas teses, não saíram nada melhores de contextos como o da pandemia. Da fase final do socratismo até aos dias de hoje, talvez tenha existido um par de anos (2016-2017) em que alguns acreditaram em alguma coisa que rapidamente se percebeu ser ilusão. Depois de uma vintena de anos, de obras públicas e eventos (Expo, Euro), que serviram para dar uma aparência de desenvolvimento, caímos da realidade da sociedade que a desigualdade é um traço permanente ou mesmo em crescimento, porque a cada aumento do salário mínimo, temos maiores ganhos ao nível do topo da “cadeia de rendimentos”, enquanto parte crescente da classe média se torna média-baixa.

A sucessão de escândalos financeiros e de casos envolvendo políticos, do executivo central aos poderes locais, mima a confiança e alimenta uma descrença que aprofunda um ambiente do “cada um por si” e frustrações que se descarregam na proximidade, em desforço sobre os mais vulneráveis e fracos ou contra quem se encare como podendo servir de bode expiatório. A desorientação dos adultos reflecte-se nos mais novos que perdem pontos de referência ou modelos de conduta ou os têm de uma forma distorcida, que replicam por falta de mecanismos de controle. As escolas apenas acabam por receber no seu interior, o que transborda da sociedade envolvente, em especial nas zonas mais carenciadas e atingidas pela sucessão de “crises” que parecem passar ao lado da cabeças falantes em permanente presença nas televisões. Sim, as “redes sociais” também ajudam à amplificação de alguns fenómenos e indignações , nem sempre muito esclarecidas, mas não são a causa principal. São um sintoma.

Uma desorientação deste tipo, lembro-me de a sentir nos anos finais do cavaquismo (1993-95), quando se percebia que os poucos anos de alguma prosperidade estavam a desaguar num apodrecimento do regime instalado, Os anos que, em matéria de Educação, até levaram ao discurso da “paixão” guterrista e ao período de florescimento de um conjunto de figuras e grupos que por estes dias reflorescem em modo de segunda vaga, repetindo o passado em modo de farsa. Também por esses tempos, mesmo sem redes sociais, se multiplicavam as reportagens sobre indisciplina e violência nas escolas em zonas socialmente mais problemáticas e economicamente à margem da chuva de dinheiros europeus.

Se o rotativismo é um sistema fechado, o das maiorias absolutas ainda o é mais, porque à impunidade dos que estão dentro se junta uma certa erosão moral dos que estão fora e querem entrar a qualquer preço. E se junta a desesperança dos restantes. <e as escolas reflectem isso no seu funcionamento, porque quem lá trabalha também se encontra, na sua maioria, num período de desconfiança, desânimo e desorientação. Porque viram entrar nela muitos dos vícios que, durante umas décadas, se tinham conseguido manter do lado de fora. A mercantilização da Educação, a deriva gestionária economicista, a “fabricação” do sucesso por toos os meios e o desaparecimento dos mecanismos básicos de um funcionamento democrático foram decisivos para que cada vez mais quem está, esteja a olhar para a distância ainda a percorrer até poder sair do túnel e quem entra nem sequer veja qualquer luz nesse mesmo túnel. E todos sentem mais dificuldade em enfrentar a desorientação global e manter a vontade de servir de barreira ao desvario geral, que se agrava a cada debate parlamentar que parece tomado por uma atitude de gozo do lado dos que se sentem donos disto tudo, agora que afastaram alguns daqueles que os criaram em primeiro lugar.

De volta ao início: será que há mais violência nas escolas e ao seu redor? Talvez… mas é bem certo que a desorientação aumentou em todos os que nelas confluem.

Quase, Mas Tenho Piorado

É a entropia que me entope a paciência. Porque agora sou selectivo com a paciência e antes era mesmo paciente ao ponto de ser um grande parvo. Não é que agora seja muito esperto. mas ao menos deixei de me calar, em muitas situações, porque para mim “mau ambiente” é ter de lidar de forma hipócrita ou cínica com as pessoas. Bom ambiente é clarificar os ares e não gastar saliva desnecessária em mesuras sem um pingo de sinceridade. E há quem confunda “boa educação” com isso, não percebendo que tantas vezes não passa de falta de carácter.

Researchers have studied how much of our personality is set from childhood, but what you’re like isn’t who you are.

Havendo Crianças Com Fome E Comida Disponível…

… não há critério administrativo ou detalhe informático que me consiga convencer da impossibilidade de usar a segunda para resolver a primeira situação, em especial quando se prolonga no tempo. Deve ser de ter origem lá em baixo, onde havia colegas com fome e nem sempre comida disponível. Chamem-lhe “complexo de classe”. Também ajuda a explicar porque me mantenho onde estou apesar dos “empurrões”. Uma certa estupidez natural que não confundo com qualquer utopia.