5ª Feira

Amanheço impaciente por saber que novos conselhos irei ler ou ouvir, que novas “dicas” estarão disponíveis, a partir de gente sabedora e estudiosa, sobre a melhor forma de exercer a minha função de professor, sobre a qual toda a gente parece saber alguma coisa, mas muito pouca tem interesse em praticar. Ao menos no caso dos treinadores de futebol e seleccionadores, se lhes dessem a oportunidade, a maioria dos sábios de bancada aceitaria a função. Já no caso dos professores é tudo mais na onda do “eu ensino-te como se faz para ensinar aqueles que eu não tenho pachorra para aturar, nem sequer lá em casa durante as férias”. Nada como um contrato de consultoria, uma formação flexível a vender, um portefólio de projectos inovadores em busca de clientes.

Domingo

Na passada semana fiz a tradicional recepção aos alunos e encarregados de educação da minha direcção de turma de 5º ano. A ansiedade habitual da ida para a escola grande, em especial da parte de mães e pais. Acrescida pela curiosidade sobre saber como vai ser, se afinal faltam mesmo professores e se será como diz o governante na televisão… que só faltam colocar uns 600 e poucos horários (daria menos de um por agrupamento) e que são quase só de Informática. Tive de lhes dizer para não acreditarem em tudo o que vêem ou ouvem, pois – deve ser sina minha, todos os anos acontecerem-me “acidentes” ou incidentes peculiares – à data a turma ainda se encontrava sem três horários preenchidos (equivalendo a quatro disciplinas), porque tinha acabado de chegar uma colega para Ciências. Curiosamente, não falta professor de T.I.C., faltando Português, Inglês, Cidadania e Educação Física.

E claro que se seguiram muitas perguntas, muitas dúvidas, que respondi como pude, só lamentando que em vez de irem abrir o ano em escolas seleccionadas a dedo, os governantes (primeiro Costa e ministro Costa) não apareçam naquelas onde deveriam explicar como aquilo que dizem publicamente não corresponde à realidade de muitas escolas, alunos e famílias. Porque revelam uma assinalável falta de coragem. claro que não podem ir a todas, pois seriam muitas e a ubiquidade que lhes é reconhecida é apenas a mediática, mas ficaria bem irem a algumas onde não chovem rosas desde as 8 da manhã e é preciso planificar um início de semana cheio de incertezas e promessas de que, logo que existam novidades, as mesmas serão comunicadas para se saber a que horas a miudagem deve sair de casa, se vão almoçar a casa ou não, etc, etc. A futurologia deve ser um dos imensos “super-poderes” que os professores têm, para relembrar aquela prosa algo “idiotizada “desvinculada” que citei ontem. Mas faz-se o quase impossível para tranquilizar quem é regularmente desinformado pelas aparições públicas de um governante mais interessado em fabricar uma realidade alternativa do que responder com rigor ao que se passa no terreno.

Sim, já sei, só vejo o meu “quintal” e no resto do país é tudo maravilhas. Culpa minha, por certo, que atraio estas “singularidades”. Deve ser porque sou “excelente” a evitar as bolas curvas que me são atiradas com uma regularidade assinalável.

“Ó Paulo, Estás Tão Negativo…”

Ou cínico, tanto faz.

É o efeito de ver as mesmas caras, 30 anos a fio ou mais a debitar tretas atrás de tretas, em vários casos de gente que até teve cargos na estrutura política ou directiva do ME, mas está sempre a reinventar a mesma roda. Gente que aceitou conviver, com os dois pés dentro ou apenas um, várias soluções políticas, sempre com a devida adaptabilidade. Ou então porque reconheço, já não sei se em foto na comunicação social ou enviada pela conhecida “mão amiga” uma imagem da equipa negocial do actual ministro, algumas caras que conheço do consulado da “reitora” e que sei terem ajudado a fundamentar, alegadamente do ponto de vista jurídico, boa parte daqueles desmandos e até contribuíram para certos “entendimentos”.

Querem-me positivo?

É difícil. É que, domingo após domingo, depois da “pica” inicial, nem a Ferrari ajuda.

Domingo

Parece que o número de aposentações de docentes está a aumentar, o que nas escolas sabemos há muito e não pode ser novidade para o ME, pois ninguém se reforma de um dia para o outro, tem de fazer o pedido e esperar uns meses pela tramitação. Estranho é que se atribuam horários a quem está, com toda a certeza, a um mês ou dois da reforma. Não era essa a prática, mas em algumas “unidades orgânicas” foi isso que se fez, para corresponder ao desejo do ministro Costa garantir que os alunos estariam praticamente todos com professores atribuídos. Claro que as necessidades estão a aumentar e que “Os professores estão a sair sem adiar nem sequer um dia, aliás o que procuram é antecipar esse momento”, diz Vítor Godinho. “Até se podiam manter mais algum tempo se as condições fossem outras.”

Todos sabemos isto, mesmo quem finge não saber, foi conivente – nem que seja por cobarde omissão – com o processo que nos trouxe até aqui e agora ensaia formas mistificadoras de dar a entender que não é bem assim. Claro que o que está em causa é a degradação do exercício da docência, a falta de preparação de um futuro a curto/médio prazo, pensando-se que a não devolução do tempo de serviço congelado adiaria a debandada. Pelo contrário, o desrespeito acelerou a desafeição, a quebra de confiança e o desejo de ver esta gentalha pelas costas. Realmente, ficam os que, pela idade, não terão muita vontade de emigrar de profissão ou mesmo de país. Não é bem falta de alternativas, mas mais de energia para, porventura, ter de recomeçar uma vida profissional num país desgovernado por gente menor, de competência, de carácter, de confiança. Quem não tenta as escapatórias disponíveis – passar a ser califa ou vizir local em vez dos actuais califas e vizires, entrar na corte da mediocridade servil, tornar-se consultor autárquico ou mesmo chefe de um qualquer gabinete ou serviço municipalizador, integrar-se em equipa de investigação flexível ou apicultora, para ensinar aos outros o que não se faz – sente uma claustrofobia que a tal “demissão/desistência silenciosa” não consegue satisfazer. No mínimo, uma “demissão ruidosa”, que é para não passar despercebida. E, quem ainda o consegue, manter uma atitude de defesa intransigente das diminutas margens de liberdade que restam. “Defender o quadrado”, por menor que seja, não pactuando com aqueles que já pactuaram antes, para desenrascar a vidinha.

Afinal, a utopia que resta é a de combater os pseudo-utópicos que nos trouxeram até aqui. Pois há poucas coisas que me dêem mais voltas ao estômago, mesmo em jejum, do que ler quem há décadas faz parte do “sistema” e ajudou a instalar o “paradigma” andar por aí a anunciar que, afinal, não era bem isto que queriam, que deve haver esperança na “inovação” boa, que afinal aquelas leituras todas dos anos 80 e 90 do século XX estão vivas e recomendam-se e que – qual Verbo Divino – ainda existe a possibilidade de um paraíso terreno se tivermos paciência. Mais paciência? Vão-se lixar, que só andam a ver se conseguem manter-se do lado de “dentro”, a ver se conseguem os contratos certos ou as nomeações desejadas.

O ministro sonso não apareceu do nada. É apenas o produto do ecossistema da sonsice, que vai de vários tons de laranja “reformista” aos lilases e avermelhados “radicais”, com imensas tonalidades de rosa, do choque ao chique. Se fecharmos os olhos, tod@s cheiram a patchouly ou, @s mais sofisticad@s, a chanel grisalho ou calvin não binário.

4ª Feira

Primeiro dia oficial de férias e a partir do qual posso esboçar um veraneio descomprometido. Há uns anos, no mais quente da refrega entre professores, tutela e opinião publicada (com o inefável mst à cabeça, mas muito mais gente, em especial em blogues desde o socratismo avençado às “novas direitas” pseudo-liberais), fomos muitos os que passaram a evitar algumas palavras, incluindo a relativa às férias, usando o eufemismo de “pausa lectiva”. Com o tempo, felizmente, foi-se perdendo parte dos pruridos e recuperou-se um pouco de brio e orgulho pessoal e profissional, mesmo se as críticas continuam mais ou menos as mesmas, só que talvez com menor intensidade externa. Porque internamente, ganhámos uns quantos profissionais da racionalidade gestionária dos dinheiros públicos que há uns anos fariam corar de embaraço o pessoal do insurgente ou do 31 com quem tantas vezes andei às cabeçadas. Sempre existiu uma espécie de 5ª coluna na classe docente, no que não é fenómeno novo num grupo profissional com a dimensão do professorado. Mas acho que, até pela erosão dos que outrora andaram mais activos na contestação (claro que agora se nota melhor quem era mero “adesivo”), o peso dos que moem a partir de dentro se tornou proporcionalmente maior e, mais importante, se converteu ao “paradigma” da actual gestão escolar, mesmo quando grita ou clama pelo contrário. Aliás, basta comparar actos e palavras, palavreado ou longa verborreia para impressionar os burgueses de letras curtas.

Ao entrar em “férias”, não sei se devo assumir publicamente esse “privilégio”, juntando-o a tantos outros com que tive o azar de nascer, em matéria de “identidade”, que é como agora se diz para confessar que sou um caucasiano, de meia-idade a caminhos dos três quartos, hetero praticante (apesar deste ou aquele desvario de quem até da avózinha diria mal para ganhar pontos no “clube”) e desagradável no trato com os troca-tintas e sonsos. Parece que agora é necessário pedir desculpa por tudo, menos por se tramar os outros, pares ou ímpares, que isso passa por “sentido cívico”, ou por andar à babugem (quem desconhece o termo, que vá procurar) do belo tachinho, desde que se tenha o cartão certo (este é apenas mais um caso) ou a falta de vergonha à medida. Ou mentir de forma descarada, sabendo-se que os polígrafos funcionam apenas às vezes e quase nunca com consequências. Até porque há míngua de publicidades e a institucional, directa ou indirecta, dá imenso jeito.

Enfim, nota-se claramente que ando a precisar de “férias”, mas não sei se Agosto chega. Desde que ando nestas coisas blogosféricas educativas que sempre assumi sem problemas que no dia 1 de Setembro estaria na minha escola, para dar aulas, sem ambições diversas. Não é que deixe de garantir isso, mas confesso que é a primeira vez em que, de forma sincera, quase me apetecia dizer outra coisa.

Por tudo isto, a partir de hoje, serviços mínimos diários garantidos, com este ou aquele post adicional, a menos que dê por gente à solta com alzheimer precoce ou com leituras baralhadas de factos bem conhecidos,

Sábado

Admiro, sinceramente, quem ainda resiste e procura que o “sistema” funcione de forma menos iníqua, com menos abusos e um resto de democraticidade na vida escolar. Conhecemos o processo que nos conduziu à situação actual – curiosamente houve quem dissesse e ainda diga que é em nome de “mais democracia” e de “inclusão” – mas acho que serão poucas as pessoas que acreditam mesmo nisso. O progressivo desligamento entre quem dirige e se integra na estrutura hierárquica criada pelo ME (agora com variantes municipais) e os docentes “regulares” foi acontecendo de um modo menos acelerado do que o desejado pela agora “reitora” (ainda a ouvi lamentar isso num congresso da andaep há quase uma década, quando já deixara o cargo de mandante), mas contínuo. Temos, como em tudo, bom e mau, até mesmo excelentes exemplos de lideranças, mas parece-me que são mais os de alguma mediocridade profissional e cívica. Por isso admiro quem acredita que, quando o modelo concentracionário está em crescendo, é possível criar bolsas de “abertura”. Sei o quanto isso é e será (cada vez mais) difícil, porque os mecanismos de controlo aumentaram e desapareceram ou são quase residuais alguns dos que ainda podiam funcionar como contrabalanço. No sistema educativo público o sistema de checks and balances foi arrasado quase por completo. E não acho que o período negro tenha chegado ao seu auge. Seja a nível interno – há uma segunda vaga de director@s que em vez de renovação parece trazer mais cristalização – seja externo, pois a classe política ou é a que defende explicitamente que as escolas públicas sejam cada vez mais parecidas, na organização, à lógica das privadas (PS, IL, PSD, CDS) ou apela aos professores apenas quando isso lhe dá jeito (Chega), tendo falhado a sua oportunidade para fazer alguma diferença, devido a preconceitos ideológicos não assumidos com a docência não-superior (Bloco, PCP).

Sei que periodicamente faço este papel de arauto do pessimismo, mas é inevitável ao finalizar cada ano lectivo e ao não encontrar sinais de esperança, apesar de ver muit@s colegas, aos saltinhos ou de bracinhos no ar, em encenações de “felicidade”, de encontros “inclusivos” a “formações” ubuntizadas, não esquecendo aqueloutros mais restritos aos promotores e avaliadores em causa própria de “projectos” como os da abelha distópica ou aparentados, à escala mais global ou mais local. Digamos que dedico a essas iniciativas o mesmo desdém que me é dedicado por quem as organiza de forma a seduzir e anestesiar parte dos docentes, dando-lhes a ilusão de ainda interessarem para algo mais do que executores colaborantes e “felizes” de algo em cuja definição só por manifesta ingenuidade poderão pensar que tiveram voz activa, mesmo que tenham falado e alguém tenha parecido ouvir.

Basta um olhar apenas medianamente atento para perceber que nada bate certo, do “sucesso” de imensos programas e medidas da responsabilidade da tutela e seus emissários nas escolas nos dias pares às imensas críticas a tudo e mais alguma coisa que corre mal e necessita de mais planos e “formações” para os professores, nos dias ímpares. Chegamos ao ponto de os responsáveis pelos planos de recuperação de aprendizagens se autoavaliarem ao nível da excelência ao mesmo tempo que continuam a dizer que as aprendizagens não foram recuperadas devidamente, por culpa da falta de preparação/formação d@s professor@s que não andaram a sorrir, de bracinhos no ar para as fotos no fbook, instagram ou twitter. Chegamos ao ponto do doutor Rodrigues, pai orgulhoso do 54 (em união de facto com o então secretário Costa), continuar a dizer que a legislação foi um sucesso, mesmo se temos conhecimento da maioria das crianças e jovens com necessidades específicas de apoio terem apenas os “remendos” possíveis com abordagem low cost da “inclusão”. Chegamos ao ponto de ter a presidir ao organismo que, entre outras missões,, deve avaliar as políticas educativas, alguém que poucos meses antes andou a vender uma velha cartilha de facção, agora em uso promovido pelo ME, a um grande grupo editorial que a distribuiu com os seus manuais. Chegamos ao ponto de dizer que a “descentralização de competências” não trará intervenção na gestão do pessoal docente ou em matérias pedagógicas, mas depois temos casos concretos de imposição, em nome dos projectos locais de “promoção do sucesso”, de um modelo de organização do ano lectivo ou de opções na oferta educativa das escolas, o que se reflecte naturalmente em necessidades a satisfazer na contratação de recursos humanos.

Mas isto é apenas uma amostra do que anda a acontecer, enquanto se multiplicam artigos idiotas sobre os rankings, como se estes fossem a causa de qualquer coisa de que apenas são o retrato das consequências de políticas públicas que nas escolas procuraram mimetizar lógicas empresarias na gestão em combinação com a erosão da função pedagógica essencial, que é a preparação das novas gerações para o futuro, a qual passa por lhes dar as ferramentas essenciais para serem cidadãos activos e não apenas seres falantes, capazes de produzir uns bitaites generalistas. Há dias, lia um texto de um colega (que acredito bem intencionado, para além dos seus interesses comerciais) a “vender” abordagens “integrais” do que fazer nas aulas, como se a maioria de nós não tivesse descoberto a farinha em pó há muito tempo e ainda andássemos a dar aulas “não integrais”. E eu estou cansado deste pessoal que, tendo encontrado um nicho de negócio (um outro é o da “felicidade”, que também motiva muitas emoções virtuais nas redes sociais), depois me tenta convencer de que descobriu o caramelo mais doce da Educação, quando já estamos na fase do salgado. Ou do pessoal que, quando se começa a apontar inconsistências ao que afirma responde “eu sei do que falo porque sou [preencher qualificação, que raramente é de professor@] e estudei [colocar nome de pedagogo ou teórico da Educação a gosto, daqueles defuntos e bem defuntos que se leem em qualquer cadeira ou seminário da formação inicial ou profissionalizante]”, mesmo que tenham escrito uma barbaridade completamente desajustada ao tema que revela o contrário da autoridade que pretende exibir.

É tudo mau? Não, não é. Mas cada vez é menor o que é bom e raro o que é excelente. Por isso, admiro quem acha que pode inverter esta tendência. A resistência deve ser a última a morrer antes de desaparecer toda a a esperança.

5ª Feira

Dia de prova de aferição de Português de 9º ano e de exames de Economia e Alemão do 11º ano, daqueles que são de uma espécie de 2ª ou 3ª divisão em matéria de prioridades jornalísticas, pelo que não sei se teremos mais notícias do género “uns alunos acharam acessível, outros tiveram mais problemas e alguns não conseguiram fazer nada”, como parece ser o padrão dos últimos dias. O envelhecimento docente traz-nos isto… um enorme tédio com a repetição da balela, assim como com o troca-tintismo de quem diz agora uma coisa e depois outra ao contrário, como o senhor da OCDE que bate palmas num qualquer colóquio do ME em relação ao alargamento da escolaridade obrigatória em Portugal, mas se for uma iniciativa de uma fundação ligada ao “empreendedorismo” já diz que os portugueses ficam muito tempo no sistema educativo.

Sim, é verdade que por cá é o habitual, mas parece que já contagiamos quem nos visita como o nosso potencial camaleónico de ora se ser governante e não saber de nada anos a fio sobre coisas óbvias, ora se ser governante e estar-se a estudar o óbvio que antes não se tinha conseguido detectar. Não é por acaso que temos a comandar a Educação uma clique que diz defender o espírito crítico e o conhecimento, mas depois promove activamente a pseudo-ciência e as crendices pessoais. É bem verdade que a classe docente precisa de rejuvenescer, precisa de gente sem a memória do que já foi (e nem sequer há tanto tempo assim… foi há 10-15-20 anos e em alguns casos há menos), que seja permeável à demagogia e à fancaria ideológica por não ter desenvolvido ainda a resistência à treta que os mais velhotes criaram em sucessivas camadas.

Claro que para isso, também é necessário ir alimentando uma segunda geração de “gestores escolares”, alguns criados em aviário, via cursos online e encontros com uns croquetes e drinques na Gulbenkian ou outro sítio a que não estejam habituados (assim como os nossos eurodeputados quando chegam lá fora e descobrem que o mundo é maior do que Lisboa), de modo a ficarem deslumbrados e funcionarem como correias de transmissão, felizes com o seu estatuto de capatazes na roça educativa e o poder de recrutarem mão de obra dócil. Ouvem umas palestras de algumas figuras da gerontocracia no poder a falar da inovação que o era quando el@s tinham deixado de ser jovens, ali pela altura em que eu comecei a dar aulas, e ficam boquiabertos de tanta absorção de “novidades”.

Dizem que sou pessimista, que tendo a não encontrar os pontos positivos no que me rodeia. Há uma parte que não é verdade, pois eu procuro desesperadamente por esses sinais. O pessimismo chega depois.

Sábado

Terminei ontem a fase das reuniões de avaliação. Foram só duas reuniões, mas não invejem quem tem de dar 2 ou 3 disciplinas a turmas de 28, porque é o equivalente a ter 5 turmas e 140 alunos. E estou sinto vontade de dizer que terminei cansado, desanimado só qb, pois no início quase garanti que não conseguiria fazer todo o ano lectivo sem alguma interrupção menor ou maior. E até disse isso aos alunos, mas lá me fui aguentando e o covid não conseguiu ganhar a luta contra a minha sinusite, que durante boa parte do ano produz barreira natural contra qualquer germe, vírus, bactéria ou mau cheiro que se aproxime. Já sei que há que considere que confessar cansaço ou desânimo, não é compreensível (afinal, os professores trabalham pouco e têm muitas férias) ou aceitável (afinal, os professores escolheram a sua profissão e se não se sentem bem que se dediquem a outra coisa).

Claro que a primeira reacção a esse tipo de observações é mandar à [pi-pi-pi] quem as produz, mas depois dá-me sempre a vontade de explicar mais devagarinho as coisas e tentar que percebam – nem sempre é possível, há demasiada gente estúpida por aí e não digam que é só nas redes sociais – que o maior profissionalismo se demonstra em condições adversas e não quando tudo está a correr bem e de feição, que dessa maneira é fácil. Elogio em causa própria é vitupério? Que se lixe! E que se lixem aqueles que, chegados a esta altura, de tanto que não fizeram, acham que estamos todos prontos para mais uma rodada e retornam com as conversas das monitorizações, relatórios, avaliações, inventários e recuperações de aprendizagens, planos, planificações e projectos para o próximo ano, como se não tivéssemos vigilâncias para fazer, processos dos alunos (os adequadamente chamados PIA) para arquivar, matrículas para dar apoio e toda uma resma de tarefas que outrora eram administrativas, mas agora se acha serem conteúdo funcional da docência que nenhum estatuto (nem o da “reitora”) passou a lei a que se deva obediência absoluta.

Sim, estou cansado. desanimado. Com escassa pachorra para ouvir seringadelas de clichés, seja de quem só agora acedeu aos prolegómenos do ofício (mais já debita tese encartada), seja de quem ajudou a torná-lo um martírio de redundâncias e irrelevâncias, mas finge que é tudo novidade da fresca e boa. Por razões que em poucos casos serão novas, a maioria das vezes sendo apenas o repenicar da idiotice; umas vezes vindas em cascata lá do topo, em outras dando comichão pela proximidade. Seja como for, acho que tenho o direito e ainda a liberdade de neste “quintal” expressar os meus estados d’alma, sem ter de prestar contas, até porque não recebo ao caracter, à palavra ou ao post. Se os visitantes também têm o direito de se sentirem incomodados e a liberdade de expressar desacordo? Mas claro que sim. Assim como eu de replicar, caso me apeteça, sendo que agora me apetece pouco, pois ainda nem do raio do relatório da add tratei, quanto mais de umas pendurezas que ficaram por acabar do ano, que há quem só tenha uma vintena de alunos, mas mesmo assim não cumpra o que deveria e ainda se arme em grandes coisas. Nada que não se ande a tornar a regra um pouco por todo o lado. O que não significa que se tenha de aturar e calar, em nome do “bom ambiente” e muito menos porque “somos todos uma família”. Se soubessem a distância a que mantenho alguns parentes de sangue ou apenas aparentados, perceberiam o que penso dessa conversa da treta.

E agora vou ali ler uma coisa muito interessante do Eco sobre como reconhecer as falsidades (Reconnaître le faux, Grasset, 2022 para esta edição de bolso de algo com pouco mais de meia centena de páginas, mas muitas citações deliciosas sobre aldrabões e aldrabices), apenas para confirmar evidências.

Então, Dia 21, Lá Irei Vigiar…

… a inútil prova de Matemática para alunos do 9º ano. Eu e mais outro colega na mesma sala, mais umas dezenas pela escola, acrescendo o pessoal suplente, o secretariado e mais a polícia que traz e leva as provas e depois os classificadores (codificadores?), tudo multiplicado pelo país para fingir que se está a fazer alguma coisa a sério. Porque até os alunos já perceberam que é um total fingimento. Ao não terem consequências na progressão dos alunos e os “resultados” só chegarem às escolas no início do próximo ano lectivo, desaparece qualquer efeito com interesse para os alunos que fazem estas provas, pois no caso das Básicas até ao 9º nem sequer lá estarão, na sua esmagadora maioria (só algum distraído que fique retido, mas esses quase nunca aparecem sequer). E mesmo no caso de Secundárias, para quem for para áreas de estudos sem Matemática, é a mesma coisa em termos de utilidade zero. Ahhh… deixam ensinamentos para os alunos dos anos que ainda aí estão por vir… sim, pois, mas para isso não chegará “maiar” no sentido do sucesso?

Estas pseudo “provas finais”, que só servem para “aferição”, são a preparação para a eliminação de qualquer avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico, de modo a regredirmos até ao início dos anos 90 do século XX, quando esta clique ideológica já estava quase a passar do primor da idade (e agora, tirando o seu ministro Costa, já estão bem para lá do prazo de validade dos danoninhos em termos de “inovação” intelectual). E depois teremos psicólogos como os de ontem a recuperar as teses da Educação finlandesa de então, associando-a a níveis de felicidade míticos e de desenvolvimento humano que esquecem todo o contexto envolvente e um espírito ético que (mesmo que Weber não estivesse plenamente certo) por cá escasseia mais do que professores abaixo da trintena.

Mas lá irei eu (mais o colega contratado, acima da quarentena) “vigiar” algo que é de uma inutilidade atroz e que só servirá para que este envelhecido professor perca duas horas da sua vida, enquanto reprime a vontade de perguntar a quem aparecer, porque raio se deram ao trabalho de o fazer. Acaso serão éticos finlandeses disfarçados de descontraídos latinos? Lá irei vigiar uma prova que espero consiga ter sido feita sem necessidade de erratas de última hora, prova essa que, com todas as outras feitas este ano no Básico, servem mais para justificar parte da existência do Santo Iavé do que outra coisa. Não sei se, como em ocasiões anteriores, com o calor que está, os alunos só poderão levar garrafas de água descaracterizadas, para não fazerem as cábulas que o próprio enunciado fornece em forma de formulário.

Isto é tudo muito parvo, mas, como escrevi, é uma necessária fase preparatória para o decretar do fim definitivo de qualquer prova externa no Ensino Básico que não seja “de aferição”. A pandemia, a este respeito, foi mesmo uma “oportunidade”. Pena é que me façam perder duas horas da minha vida que podia levar a ler um bom livro ou a observar o movimento das nuvens ou poeiras no céu azul. Como dizia uma pessoa da minha família, gente do antigamente, “mais valia estar a ***** em pé do que a fazer isso”, se é que me é permitido o plebeísmo arcaizante.