Falta-me A Paciência…

… para lições de cátedra sobre pedagogias, metodologias e outras coisas como avaliação por parte de quem não consegue escrever uma frase sem tropeçar na semântica. Não é preciosismo, nem sequer coisa de desacordos ortográficos, é mesmo de defeito enraizado por muitos anos de complacência. E pileca a ir para menos nov@, por muito que se paramente e sinta do melhor, dificilmente chega a puro-sangue.

Ao fim de uma semana, já escasseia de tudo um pouco para tretas. Ouvidas, lidas ou observadas. Olha se me dá para uns “desabafos” meus, daqueles mesmo em alta definição e grandes planos.

Turd

(e nem é bom falar de quem ainda há uns anos dava as respostas aos alunos em provas de aferição, mas agora se acha do mais xalente que há e se senta no trono do rigor na avaliação de terceiros…)

 

Um Desabafo

Não é meu, mas de um colega que se identificou devidamente, mas pediu o anonimato.

Caro Paulo,

Se quiser, se lhe apetece, disponha e partilhe mais este desabafo!!!!

Estou, ao fim de dois dias, estarrecido!!! Isto é a nossa realidade: das coisas que mais me chocam, que me arrepiam os cabelos que já começam a esbranquiçar, é este regresso à escola! Turmas há, que nestes primeiros dias, exibem sem qualquer filtro as sapatilhas e roupas de marca e, especialmente, os “maquinões”, topos de gama, que custam um dos meus ordenados, aos quais chamam telemóveis!!!

Até parece inveja, certo??? Não! Não é!!! É revolta!!!

Como é que neste nosso país, onde reina o desgoverno, temos equipas ministeriais a oferecerem livros a jovens que, posteriormente, na sala de aula, não trazem sequer um mísero lápis ou caneta???

Tadinh@s!!! São carenciados!!!! Pois são…. São carenciados de valores, são carenciados do verdadeiro sentido da necessidade!!!! O tempo passa e a verdadeira essência do papel docente perde-se!!!!

No meio do circo todo ainda temos algum@s atrevidot@s que reclamam do material que “a escola dá”! Haja paciência, bom senso e, especialmente, capacidade de viver neste circo!!! Em vésperas de aprovação (ou não) do orçamento de estado, era tão bom que aquel@s que legislam, que sonham nos belos e caros gabinetes ministeriais, deixassem de dar “pérolas a porcos”! Os livros, o restante material são destruídos em menos de nada, são esquecidos, não interessam….

Não interessam estes, não interessa a figura d@ professor@!!! Interessam os “maquinões” e as marcas pagas, muitas vezes, digo eu, às custas dos nossos descontos!!!

Haddock

Domingo

Dia demasiado bonito para maus pensamentos.

Mas…

Durante muitos anos achei que aquela conversa muito melosa de cert@s colegas acerca de os alunos serem a sua razão de existir (por vezes, quase mais do que profissionalmente) era apenas isso mesmo. Chonice pura. E ainda continuo a achar que em muitos casos é mesmo gente a armar-se em pingarelh@ missionári@.

Mas…

A cada novo período, sinto que regresso quase exclusivamente pelos alunos e pelo dever (ético?) que sinto para com eles. Mesmo se isso nos tempos que correm vale muito pouco para além do reconhecimentos dos próprios. Claro que há colegas com que se estabeleceram relações de amizade fortes, mas essas resistem a bifurcações profissionais. Mas isso cada vez chega menos para contrabalançar o resto.

Porque o resto é cada vez pior e não apresenta sinais de melhoria (basta ver a inanidade das mais recentes intervenções daqueles que nos “tutelam” em toda a sua prosápia balofa). Apesar disso, amanhã estarei de volta.

Mas…

entropia

3ª Feira

Sim, hoje voltei a fazer algo que não acontecia há muito. Não sei dizer se foi algo mais do que o costume, se foi aquela pequena gota que faz a água transbordar do copo, se foi uma espécie de statement para o resto do ano. Mas parei uma aula, após ser sucessivamente interrompido por m€rdinh@s sortidas enquanto procurava iniciar um raciocínio sobre o que estava projectado – de forma muito moderna – na tela e que teria a seguir muitas coisas animadas e interactivas. Após um curto, sonoro e expressivo “desabafo” acerca do sentido da vida escolar (foi pouco tempo, garanto), achei por bem que os últimos 30 minutos fossem deixados aos alunos para que fizessem o que bem entendessem, naquela base da liberdade para descobrirem sozinhos o conhecimento e desenvolverem competências. Pareceram algo aturdidos com tamanha liberdade pedagógica. Estranhamente, ou não, foram os 30 minutos mais silenciosos (quiçá por estupefacção) até ao momento do ano lectivo. Até aos 10, ainda pensaram que seria daquelas vezes em que, depois de resmungar, um tipo recomeça pela enésima vez a explicar porque o humanismo e o antropocentrismo estão na base da civilização moderna (era uma aula sobre o Renascimento, tinha a seguir coisas giras do Leonardo e não só, mas nada com interesse para a vida futura dos alunos claro, em especial se gostarem da ignorância como métrica vivencial); aos 20 minutos já tinham percebido pelo sorriso irónico que desta vez era mesmo a sério. Ao fim da meia hora, saíram cabisbaixos, parecendo ter percebido que para os professores as aulas também podem ser uma “seca” e que fácil é um tipo não se chatear e passá-los a todos, pois nem carece de justificação ou verificação. E ainda eram 10 da manhã. O resto do dia correu com uma leveza tal, que quase me senti premiado como o pior professor do ano pelo comité dos directores-pipis.

Onde andam as arianas, os rodrigues e os costas quando ocasionalmente precisamos deles para nos ensinarem como fazer “mais” e/ou “melhor”, estabelecer um “compromisso de aprendizagem” ou um “contrato educativo”?

Haddock

(sim, sou mesmo professor dos que dão aulas, como respondi ao Ricardo Costa que de tanto ver quem não dá aulas há décadas a discutir Educação, até estava admirado; e assumo os meus estados d’alma sem confettis e perlimpimpims)