Tem O Seu Quê De Ofensivo…

… o tom do anúncio de certas acções de formação ou webinares destinadas a docentes como se fossem uma espécie de imbecis que nunca tivessem descoberto o que andam a fazer. Sei que há gente que delira com isto e até formam “comunidades”, mas dificilmente eu lhes chamaria “de aprendizagem”. Até porque seria importante eu reconhecer em quem dá formação uma prática pedagógica “diversificada e desafiante” com um punhado de anos de experiência e demonstração, sem ser em ambientes controlados.

Já agora se acreditam que “que as crianças e os jovens são protagonistas do processo de ensinar, de aprender e de avaliar” porque será que não se dirigem aos alunos e desenvolvem formações, por exemplo, dirigidas também a alunos e encarregados de educação.

Portanto, da próxima vez que me disserem que “Pretendemos ajudá-lo a organizar a sua ação pedagógica de forma mais diversificada e desafiante”, são capazes de merecer prosa mais assertiva e acutilante com base no parlapateio que apresentam como “propostas e estratégias de ação”, ok?

Porque a roda já foi inventada e reinventada (basta olhar para as biclas do Tour) e a mim chateia esta mania de mamar com base em redundâncias. No fundo, o que querem é vender mais livros, dando a entender que descobriram o que já foi descoberto há meio século (o caso do DUA é sintomático) Ficamos entendid@s?

(eu até me inscrevi, mas foi só para deixar uma cadeira vazia, que é a minha forma de fazer resistência passiva a quem acha que será a sua ajuda a inspirar “os docentes a concretizarem práticas de organização do trabalho pedagógico cuja prioridade seja a promoção das aprendizagens dos alunos e o desenvolvimento das suas competências”)

A Isto Chama-se Gozar Fortemente Com O Pessoal (Até Porque É Apenas Para Directores/Lideranças)

Tornar a Escola numa Organização (ainda mais) Feliz

O domínio do bem-estar pessoal e profissional docente, bem como o da felicidade organizacional, integram atualmente o leque das preocupações dos sistemas educativos na Europa e no mundo, tendo começado a ocupar alguma centralidade na investigação em educação a partir do momento em que se começaram a recolher evidências sobre o impacto da felicidade nas práticas dos docentes e no sucesso académico dos seus alunos (só para referir alguns exemplos).

Assim, pela sua atualidade e pertinência quis a DGAE, em parceria com a Universidade Atlântica, proporcionar aos diretores/lideranças das UOs públicas uma formação nesse âmbito, na modalidade de curso de formação, acreditada pelo CCPFC, com a designação “Ferramentas para construir uma “Happy School”: docentes, lideranças e organizações educativas”, dinamizada pelos Professores Doutores Jorge Humberto Dias, Tiago Pita e Georg Dutschke, especialistas na área da felicidade pessoal e organizacional.

São objetivos desta 1ª edição do curso:

  • Compreender o enquadramento da teoria da felicidade na formação ética do docente e sua intervenção em contexto educativo e escolar
  • Conhecer as experiências de outros sistemas educativos e organizações escolares pela análise da nova literatura/realidade sobre a importância da felicidade na administração escolar
  • Percecionar a utilidade e eficácia das ferramentas do trabalho felicitário na liderança das organizações educativas
  • Criar materiais de suporte a uma intervenção sustentável de felicidade nas organizações educativas dirigidas a resultados, como sejam, aumento de sentimento de pertença, comunicação, diminuição do absentismo, fixação do pessoal, entre outras.

Pela adesão e interesse demonstrados pelos participantes, prevê-se uma 2ª edição para o próximo ano letivo 2021/2022.

Obrigadinho, Ó Mário!

Gosto deste tipo, que não dá uma aula desde que eu sou professor, mas que tem sempre sentenças prontas. Seja no exagero de uns números, seja no rápido aconchegamento às “prioridades”.

Portanto, por ti, vacina-se quem já lá está e quem vem de fora não é preciso? Já agora, pode-se ir vacinando o pessoal enquanto vai dado aulas, não achas?

Falhaste metade da vocação. Devias ter ido para doutor médico e depois logo ias para sindicalista. Demorava mais tempo a tirar o curso, mas parece-me que tens um dom natural. Ou isso ou para contas de sumir.

Vacinar todos os professores e funcionários escolares seria o ideal, diz ao PÚBLICO o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof). Este universo ronda as 250 mil pessoas, estima. Mas se tiverem de ser definidas prioridades, Mário Nogueira não tem dúvidas: “Devem ser aqueles, professores e funcionários, que nunca saíram da escola. Estou a falar dos que pertencem ao grupo de intervenção precoce, que asseguram a educação especial e o funcionamento das escolas de acolhimento, entre outros casos de excepção, nomeadamente de apoio aos alunos que não dispõem de Internet ou computador em casa para poderem acompanhar as actividades lectivas.” Estes não devem ir além dos dez mil no total, calcula o líder da Fenprof.

Mais Uma Cavadela…

… mais uma minhoca apanhada na argumentação da economista Peralta que parece uma daquelas especialistas instantâneas em economia da pandemia, só que truncando ou adulterando a informação que depois outros papagueiam de forma acrítica. E não há nada mais divertido do que ver alguém a “armar-se”, a colocar-se em bicos de pés em cima de barro por cozer.

No seu texto de 26 de fevereiro (“Costa, Marcelo e a penitência da Quaresma”), Susana Peralta argumenta em favor da abertura das escolas, apoiando-se num editorial publicado na revista médica The BMJ. A economista não deve ter feito uma análise cuidadosa da publicação que escolheu, ou teria detetado que o trabalho não apresenta informação científica que negue às escolas impacto na propagação do vírus – explico porquê nos últimos parágrafos deste texto, para quem interessar.

Tinha-me Escapado Esta Estupidez Do “Cientista”

Jovens vão ter mais “problemas oncológicos, respiratórios, cardiovasculares e mentais” devido ao confinamento?

Depois do anúncio da decisão do Governo de suspender as atividades letivas e não letivas nas escolas, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, afirmou que “esta é a geração [em idade escolar] que vai pagar uma fatura muito maior do que a geração mais velha. (…) Sabemos que necessariamente vão ter mais problemas de alergologia daqui a 20 anos. Porque vão ser muito mais obesos. Vamos ter problemas oncológicos, respiratórios, cardiovasculares, mentais”. O Polígrafo questionou diversos especialistas sobre esta alegação.

Não É A “Vontade Dos Professores”, Porra!

O Manuel Carvalho parece que insiste em não perceber as coisas e em voltar a colar-se à tese de “os professores querem é ir para casa”. Mesmo que ache que até têm razão. Veja-se isto:

Ninguém tem dúvidas de que o fecho das escolas tem um custo terrível para os jovens, principalmente os das classes mais desfavorecidas. Foi esse preço que motivou o Governo a recusar os argumentos de uma parte da comunidade científica. Foi esse preço que nos levou a considerar neste espaço o fecho das escolas como um “mal maior”, que deveria ser evitado a todo o custo. Mas importa reconhecer a realidade e admitir que no curto período de uma semana apareceram razões para o Governo (ou o autor deste texto) mudar de opinião. A vontade dos professores tem de ser considerada. O índice de contágios nos jovens também. E a “percepção” dos portugueses que determinou um confinamentozinho com poucas regras e muitas excepções também.

Não é isso o essencial do que está em causa, c’um raio que me parta! Não é nenhum braço de ferro com “professores” de um lado e o governo e “pessoas de bem” e muito trabalhadoras e responsáveis do outro. É entre o bom senso e a teimosia idiota. Eu sou professor e pai, sendo que sou professor numa zona bem “desfavorecida” e que lida diariamente com aquilo sobre o que outros escrevem e vêem de longe. Será que pensam que o que eu quero é ir para casa passar horas agarrado ao computador que o ministério não mandou a tempo para eu ou os meus alunos “mais desfavorecidos” trabalharmos?

E não foram “os argumentos de uma parte da comunidade científica”, tal como é escrito em outra passagem lamentável, como rapidamente a esmagadora maioria se apressou a esclarecer. E essa comunidade não tem nenhuma “percepção errada” dos “perigos que ameaçam o país” como se imputa aos cidadãos.

Será que este é um professorzeco disfarçado de “especialista”?

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também um dos peritos que o Governo escuta nas reuniões do Infarmed, não tem dúvidas de que o fecho das escolas é uma medida que se impõe, perante uma situação “de emergência sem precedentes”.

“Não é tempo para estarmos em discussões académicas sobre onde os jovens se infetam. Temos de manter a proteção relativamente aos mais idosos. Não creio que consigamos desacelerar a velocidade a que vai esta epidemia com velocidade necessária para não nos encontrarmos na situação de estarmos agora muitas semanas com os casos acima dos dez mil.”

O que está em causa é um problema de segurança sanitária e saúde pública, pá! É preciso que se entenda que há quem tenha tido a percepção das coisas em devido tempo e antecipado o que se iria passar – é o que dá ser do povo e andar entre o povo e não fechado em tertúlias bem-pensantes e sensíveis a “narrativas” sedutoras do Poder – e há quem tenha falhado em toda a linha no raciocínio ou conveniências ou sei lá o quê, em grande parte com base em preconceitos sem sustentação.

Lá por ser professor não posso ter tido razão no que previ, sem que pensem que eu quero qualquer coisa para mim? Que m€rd@, estou mesmo farto desta forma pequenina e medíocre de pensar. Um gajo é “profe”, logo, quer é ficar em casa. Phosga-se! Porque será que há quem meça os professore sempre por uma bitola de desconfiança e condescendência? Onde é que esta malta se doutorou em Ética e Superioridade Moral?

Manuel Carvalho, pá, estavas errado, tão errado e entendo que não queiras que se ande agora em busca de “culpados”, porque alinhaste activamente com eles. Só que a realidade é um muro complicado de fingir que não está lá.

Dados apanhados há bocado na TVI. Não são de um “professor” no sentido de “zeco”.

Por mim, quero informação, clareza, rumo. Duas a três semanas podem evitar uma catástrofe maior do que aprenderem o Condado Portucalense depois do Carnaval.

“Chegam-me casos de escolas que ocultam casos, diretores que só disponibilizam a situação no seu agrupamento em caso de extrema necessidade. Ou seja, sabemos muito pouco do que se está a passar, nada disto é totalmente transparente e isso obviamente que não oferece segurança”, sublinha. “Devia haver uma comunicação semanal do Ministério sobre a situação nas escolas. Se não é o que se vê, além de uma disparidade de critérios sobre quem vai ou não para isolamento e afins”, acrescenta. “Compreendo que não se queira criar um alarme social, mas é preciso dizer às pessoas o que se passa para se conseguir quebrar as cadeias de transmissão”, frisa ainda Guinote, antes de rematar: “Se fechassem duas ou três semanas, até podia ser desfasado, por ciclos, já eram muito menos pessoas a circular”.

Encarar um eventual “fecho das escolas” na lógica da vitória/derrota é um enorme equívoco. Isso é a análise do político de terceira categoria. O que está em causa é muito mais importante do que isso.

Para uma qualquer próxima vez – basta uma – tenta não encarar as coisas sempre dessa forma enviesada, em que vocês é que se preocupam com os “tadinhos dos pobrezinhos” do alto da vossa sobranceria (junto com os porfírios deputados e os raposos e baldaias e o outro que é filho d’algo) e nós, professores, que trabalhamos em condições desgraçadas tantas vezes e fazemos o pino para encurtar as desigualdades no terreno, é que somos os “corporativos” e “egoístas”. Por mim, podes ficar com os meus testes, as minhas vacinas, tudo, desde que, por uma vez, mudes o raio das lentes!

E descansa, já sabemos que se pararmos um par de semanas, estarás na linha da frente a pedir mais dois meses de aulas para “mitigar” as perdas enormes nas aprendizagens.

Pensava Que O Mal Maior Seria A Perda Desnecessária De Vidas…

… e riscos para a saúde de muita gente, mas para o director do Público o “mal maior” é fechar as escolas. Se não tivesse lido o nome parecer-me-ia uma crónica do JMTavares ou do Henrique Raposo, já para não falar num diletantismo comentarístico do Baldaia ou apenas mais uma diatribe do MSTavares. Em certos momentos, nota-se mais um certo “não sei quê” de Manuel Carvalho em relação à Educação. Será que é por um mês de afastanento de aulas presenciais que se vai “criar conscientemente uma geração deslassada e ressentida”?

A sério?

Eu pensava que isso poderia acontecer porque cada vez mais a coesão familiar é colocada em causa e a solidariedade inter-geracional é substituída por calculismos diversos. Ou porque os pais precisam de trabalhar fora de horas e têm pouco tempo para acompanhar os filhos.

Nunca me tinha ocorrido que se criaria uma “geração deslassada” (o que quer que isso queira dizer… será sem “lassos”?) por causa de não irem à escola umas semanas, a tal escola que tantas vezes se apresenta como algo de que os jovens não gostam. Eu pensava que isso poderia acontecer – em especial o “ressentimento” – se a miudagem percebesse que os pais ou familiares os preferem ver na escola do que em casa. Ou que a socialização tivesse ficado praticamente toda a cargo dos professores.

Manuel Carvalho diz que, fechando escolas, estamos a desistir “dos mais jovens e, em particular, dos jovens mais desfavorecidos”. E eu questiono porque achará ele isso? Porque, ao fim de dez meses, pouco se fez para melhorar a sua situação em termos de equipamentos e acesso ao mundo digital? Porque, ao fim de décadas, continuamos a ter uma sociedade fragmentada e desigual, que tolera tudo o que é desfalque bancário mas conta os tostões sempre que se trata de investir nos professores que agora se elogiam de forma interesseira? Será que Manuel Carvalho não está a raciocinar completamente às avessas, acabando por centralizar a vida de crianças e jovens na escola, quando esse deveria ser apenas um dos seus elementos, por importante que se tenha tornado?

Eu sou de uma “geração” que passou por coisas bem complicadas, ali em plenos anos 70, com aulas quando calhava, anos lectivos a começar entre meio de Outubro e meio de Novembro, disciplinas dadas por pessoal que andava no Propedêutico e anúncios de bomba sempre que o pessoal não estava para fazer um teste mais chato. Em vários anos terei tido menos aulas do que as que a maioria teve o ano passado até meados de Março. Estou “ressentido”? Nem por isso… a minha família, por pouca instrução formal que tivesse, transmitiu-me uma capacidade de enfrentar as coisas e uma resistência psicológica que agora parecem ausentes de grande parte da sociedade e não é só dos millenials.

Justifica esse passado escolar atribulado que agora não nos preocupemos com a “geração” actual? Claro que não. Até porque sou pai e encarregado de educação e preocupa-me muito o que se está a passar e não se trata apenas da pandemia, porque muitas outras coisas más estão a acontecer na Educação, mas vão deslizando debaixo do radar de muita informação que aborda os temas pelo lugar mais comum e com o preconceito sempre à espreita. Só que eu prefiro a segurança geral a uma cenografia presencial em que a insegurança e o medo vão inevitavelmente marcar o quotidiano. Prefiro que se encare a realidade em vez de se fazer o máximo por cumprir calendários para fazer os tais “exames” que dizem ser horríveis, até haver justificação para os relativizar.

Para mim, o “mal maior” foi a inconsciência de uns (decisores) e a falta de capacidade de crítica racional e fundamentada de outros (muitos comentadores, mais preocupados com os seus dramas de babysitting, bem longe das aflições dos “mais desfavorecidos”). E acredite o Manuel Carvalho que se calhar sei do que escrevo, porque dou aulas numa dessas zonas “deprimidas” e foi por ali que cresci, não andei em liceus ou colégios de grandes cidades a ver os pobrezinhos das janelas. Não sei se é por isso que tenho um elevado pudor em falar dos “mais desfavorecidos”, a menos que seja mesmo deles que estou a falar. Mas foi certamente por isso que logo em Março avisei que o “ensino digital”, o “ensino do século XXI” era uma treta, uma envernizadela que não aguenta uma unha, uma demagogia de uma clique ideológica requentada. Que o E@D não passava de um acrónimo a fingir modernidade e o #EstudoEmCasa uma fogueira de vaidades e pouca substância que de nada serve aos tais “mais desfavorecidos”. Que o ministro da Educação é uma picareta falante inútil, que nada decide, nada faz. Que o secretário que faz, está em pousio incerto.

Enfim… já é tarde… e amanhã vou dar aulas para o país real, não para um casulo onde fica bem defender os “pobrezinhos”, se isso significar apenas atirá-los para as escolas para que os pais possam continuar a trabalhar sem horários decentes e com salários que não dariam para uma almoçarada de uns mexias.

Dispenso Certos Elogios

Ainda pensei se valeria a pena (não) reagir ao rasgado elogio que João Miguel Tavares dirigiu aos professores portugueses, no Público de ontem. Há quem sinta bem o reconhecimento, qualquer reconhecimento e há quem goste de quem faz uma espécie de mea culpa em relação a prosas anteriores. Eu incluo-me nos que gostam de alguns reconhecimentos e nos que apreciam quando alguém admite que esteve mal e emenda a mão sem ambiguidades. Ora… o texto de João Miguel Tavares não cumpre nenhum dos quesitos, acrescendo o facto de não lhe reconhecer propriamente competência para avaliar o desempenho da classe docente e declarar “que [os professores] se comportaram de forma exemplar“. Lamento, mas o meu “comportamento” não é passível de avaliação por qualquer um, só porque fui dar aulas. Essa é a lógica da espécie de avaliação do desempenho que temos e acha que bastam duas aulas para se avaliar um professor ou que o preenchimento de muita papelada com conversa fiada é sinónimo de qualidade.

No fundo, JMT considera que os professores foram “exemplares” porque foram dar aulas. A mim, que também sou encarregado de educação, isso não me chega. É escasso. Não me chega que me metam a filha numa sala de aula, durante umas horas por dia.

O resto do texto também não ajuda a achar que é sincero – ou se sequer está lá – o reconhecimento de que a prosa escrita no início de Julho esteve mal e que não era mais do que a passagem de um atestado de menoridade cívica aos professores, mesmo se quem o escreveu já comandou o 10 de Junho a pedido do presidente. Eu não fui dar aulas – como tantos outros foram – por causa de “picadelas” da treta, mas apesar delas. Aliás, aquele texto esteve na primeira linha das justificações para não dar aulas, porque a minha dignidade profissional e o meu “sentido cívico” pré-existe em muito às prosas de JMT, pois é uma consequência da diferença geracional… o meu último atestado médico terá sido metido quando ele ainda estava a começar a sua carreira nas “ciências da comunicação” e eu andava pela idade de Cristo e apanhei uma enorme gripe (coincidências!). O texto de ontem é, no fundo, uma espécie de palmada nas costas dos professores, mas também nas do próprio escriba (que parece sentir um pouco como sua a “exemplaridade” docente), com uns remoques anti-sindicais lá pelo meio.

E, claro, há ainda aquela tirada sobre os efeitos “psicológicos e académicos” do período de regime não-presencial para o Ensino Básico, como se uns meses em casa com a família fossem uma “catástrofe”. O que nos explica muito sobre mais coisas do que aqui me apetece escrever quanto à relação entre a petizada, certos ambientes familiares e o papel dos professores.

Mas não queria acabar sem referir a crítica ao encerramento das escolas em Abril para o Ensino Básico que JMT considera ter acontecido “sem que houvesse qualquer sustentação científica para tal decisão”. Por acaso, existe sustentação científica para afirmar que a abertura das escolas é um dos factores que mais multiplica o risco de contágio. O que não tem sustentação, ou diz a verdade por menos de metade é que “não são as crianças as principais propagadoras do vírus, nem as escolas o centro dos surtos”. As crianças são efectivamente propagadoras do vírus e as escolas não são o “centro dos surtos”, mas tudo o que envolve o seu funcionamento é das variáveis mais activas na contaminação e no tal valor R. O JMT é que só lê o que lhe dá jeito e se possível prosas de opinião do Observador ou do Henrique Raposo.

Covid-19. Crianças têm papel mais importante na propagação do vírus do que se pensava, indica novo estudo

Expresso, 20 de Agosto

Covid-19. As crianças podem ser um veículo de transmissão do vírus por mais tempo do que se pensa

Expresso, 31 de Agosto

(…) An increasing trend over time in the R ratio was found following the relaxation of school closure, bans on public events, bans on public gatherings of more than ten people, requirements to stay at home, and internal movement limits, especially after the first week after relaxation; the increase in R ranged from 11% to 25% on day 28 following the relaxation (figure 3). The relaxation of school closure was associated with the greatest increase in R on day 7 (R ratio 1·05, 95% CI 0·96–1·14) and day 14 (1·18, 1·02–1·36). The relaxation of a ban on gatherings of more than ten people was associated with the greatest increase in R on day 28, with an R ratio of 1·25 (95% CI 1·03–1·51) on day 28.

The Lancet, 22 de Outubro

O Senhor Sub-Director Geral César Israel Mendes de Sousa Paulo Não Tem Vergonha Na Cara?

É que nem é a questão do indeferimento, mais do que esperado, mas a “fundamentação” jurídica (???) que é usada e que é perfeitamente ridícula e nula, excepto nos serviços do ME, que se tornaram mero braço operacional do poder político e perderam qualquer autonomia (e dignidade) técnica.

Mas vamos por partes. A resposta incorpora o texto do meu pedido de escusa colocado na plataforma SIGRHE. Destaco a parte porque individualizo o aparelhista César Paulo neste post (a quem eviarei o link para que ele aprecie o que acho da sua excelente ação na melhoria do funcionamento da DGAE).

Exmo(a) Sr.(a) Prof.(a),

Notifica-se V. Exa. Paulo Jorge Alves Guinote, do despacho de INDEFERIMENTO, datado de 2020-12-09 , conforme despacho do Sr. Subdiretor-Geral, do pedido de escusa da função de avaliador externo, com a seguinte fundamentação:

1. Este pedido de escusa tem fundamentações de carácter geral e outras mais específicas que se passam a enumerar, esperando que sejam analisadas na sua substância e não objeto de resposta automática e com remissão para legislação que não se aplica ao caso concreto.

2. De acordo com o artigo 35º, alíneas j) e l) do Estatuto da Carreira Docente (decreto-lei 41/2012), o conteúdo funcional da docência contempla “Participar nas actividades de avaliação da escola;” e “l) Orientar a prática pedagógica supervisionada a nível da escola;”, mas não atividades de avaliação ou supervisão fora da escola do docente.

3. De acordo com o artigo 2º do despacho normativo 24/2012 de 26 de outubro, podem ser avaliadores os docentes que “reúnam cumulativamente os seguintes requisitos: a) Estar integrado no 4.º escalão ou superior da carreira docente; b) Ser titular do grau de doutor ou mestre em avaliação do desempenho docente ou supervisão pedagógica ou deter formação especializada naquelas áreas ou possuir experiência profissional no exercício de funções de supervisão pedagógica que integrem observação de aulas”, o que manifestamente não se verifica no caso presente, visto não cumprir nenhum dos aspetos referidos na alínea b), pois nunca foi avaliador (interno ou externo), nunca fez qualquer formação em tal área, o mesmo se aplicando ao seu mestrado e doutoramento, respectivamente em História Contemporânea e História da Educação.

4. Desta situação informou o órgão de gestão do seu agrupamento que o inseriu na Bolsa de Avaliadores de forma irregular.

5. Em nenhum momento assinou documento em que lhe fosse comunicada a sua condição de avaliador externo, na qual assinalasse a sua concordância, pelo que também lhe foi impossível manifestar a sua discordância formal.

6. De acordo com o seu horário para o ano lectivo de 2020/2021 não estão assinaladas quaisquer horas para a função de supervisão pedagógica ou avaliação. Nem sequer esse tipo de função surge entre as que lhe foram atribuídas, ao abrigo ou não da redução resultante do artigo 79º do ECD em vigor, nomeadamente as de director de turma e representante de disciplina.

7. Acresce a estes factos que, no atual contexto de pandemia e de acordo com os protocolos em vigor, o avaliador está impedido de sequer se deslocar a outras escolas do seu agrupamento por razões de segurança sanitária, pelo que ainda é mais inadequada e potenciador de risco para a sua saúde e de terceiros a sua deslocação a uma escola a que não pertence e a sua entrada em salas de aula com turmas que não as suas.

8. Por todas estas razões, considera-se que está devidamente fundamentado e deve ser aceite este pedido de escusa que ora se apresenta.

Pede deferimento,

Baixa da Banheira, 10 de novembro de 2020.

Agora apreciemos a resposta:

O exercício das funções de avaliador externo impõe-se nos termos da alínea g) do n.º 2 do artigo 10.º e alínea j) do n.º 3 do artigo 35.º do Estatuto da Carreira Docente, não se verificando circunstância pela qual possa razoavelmente suspeitar-se da isenção ou da retidão da conduta de V. Exa, o que garante o cumprimento do princípio da imparcialidade da atuação administrativa, com consagração no artigo 266.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa e reafirmação no artigo 9.º do Código do Procedimento Administrativo.

Com os melhores cumprimentos,

Diretora de Serviços de Gestão Recursos Humanos e Formação

Maria João Ferreira

Esta resposta é ridícula a vários níveis. Começando pelo fim: em que parte é que eu refiro a minha eventual falta de isenção ou rectidão no meu pedido? Resposta chapa 5?

Mas a parte “jurídica” é que é mais divertida, embora se desculpe por ser assinada por alguém que não tem qualquer formação em Direito (o mesmo se aplica ao aparelhista César Paulo).

O que se afirma na “alínea g) do n.º 2 do artigo 10.º e alínea j) do n.º 3 do artigo 35.º do Estatuto da Carreira Docente“:

Ora bem:

Alínea d do nº 2 do artigo 10º: “g) Desenvolver a reflexão sobre a sua prática pedagógica, proceder à auto-avaliação e participar nas actividades de avaliação da escola;“. Mas o que tem isto a ver com ser avaliador externo? O que é que vocês andam a beber ou fumar? È assim que se safam?

E a alínea j) do nº 3 do artigo 35º: “j) Participar nas actividades de avaliação da escola;”.

Em qualquer dos casos refere-se “da escola”. Da minha escola. Artigo definido. Não é indefinido. Não é de uma escola qualquer. Não é da escola do concelho ao lado ou do outro lado da estrada.

Acham que é assim que se safam? Em que tribunal? Pena que existam organizações que ainda não tenham usado os seus departamentos jurídicos para torpedear isto de uma vez por todas. Assim, terá de ser um interessante exercício individual.

Claro que na DGAE sabem que isto é de uma absoluta falta de vergonha na cara. Mas acham que se safam. E têm-se safado.

Ainda se lembram do “jovem” César Paulo a pedir para lhe publicarmos os textos contra a a ADD?

Já teria o cartão milagroso?

(mesmo sabendo que é chover no molhado e que o despudor é a regra desta malta, claro que seguirão as reclamações e recursos que tenha o engenho de descobrir…)