Sábado

Nos dias de Natal, o ME decidiu fazer chegar a algumas redacções, a notícia de que decidiu testar 30.000 alunos do 3º, 6º e 9º anos “para perceber de que forma a suspensão das aulas, durante o ano lectivo passado, afectou as suas aprendizagens”, tendo o cuidado de tranquilizar o país que “não se trata de um exame nem de uma prova de aferição, mas de um estudo”.

À primeira vista parece uma decisão sensata. Assim para quem olha de fora e para produtores de opinião apressada e “preocupados” com o que se passou no 3º período de 2019-20, apostando eu em especial nos que têm estado muito activos na defesa da continuidade das aulas presenciais a qualquer custo, manipulando ou ocultando esta ou aquela informação e intimidando de diversas formas quem, nas escolas, ousa desalinhar, com a complacência de quem afirma “representar os professores”, mas os desencoraja, no concreto, de qualquer acção mais firme.

Mas voltemos ao “estudo” entregue ao IAVE e que será implementado nas primeiras três semanas de Janeiro, com resultados a ser conhecidos em Março (será que vão pedir aos professores do #EstudoEmCasa para os classificar ou vão requisitar pessoal que está a dar aulas, a meio do período, assim quase sem pré-aviso?), não sabemos bem se para desenvolver estratégias de remediação a partir de Abril.

Claro que o estudo teria de ser feito por amostra e, preferencialmente, nos anos em que não se fazem provas de aferição (o que deixa o pessoal do 9º ano que as fizer na situação de fazer uma duplicação de provas no mesmo ano, mesmo que uma seja só de estudo e não tenha implicações em nada… com as de aferição, já agora). Mas essa amostra será representativa da realidade do país? Que critérios serão usados para seleccionar os alunos (a nível de escolas e turmas)? Terão em conta os diferentes contextos em que se desenvolveu o E@D? Porque a mera distribuição geográfica e por tipo de estabelecimento está longe de permitir um retrato credível do que se passou.

O teste vai ser aplicado em 154 agrupamentos públicos (que totalizam 1247 estabelecimentos de ensino) do continente, e outras 79 escolas nos Açores e Madeira, bem como 102 colégios. A escolha da amostra teve em conta três aspectos, de modo a manter a representatividade da população escolar: o número de alunos por região (NUT II), os que frequentam escolas públicas e privadas e ainda os estudantes com Acção Social Escolar.

Mais importante, em termos de coerência interna das políticas do ME: afinal, havendo “autonomia” na definição de uma parte do currículo e na “flexibilidade” da leccionação dos conteúdos, qual será o “padrão” usado para determinar o que se perdeu ou não, já os mesmos conteúdo0s poderiam estar planificados para alturas (ou mesmo anos) diferentes conforme as escolas e os “projectos educativos”? Qual o referencial que vai ser usado? O das “aprendizagens essenciais”? Mas não é verdade que “As Aprendizagens Essenciais estão ancoradas numa cultura de escola de autonomia e de trabalho em equipa educativa dos docentes, nomeadamente ao nível do conselho de docentes e de turma, em que as disciplinas cruzam o que deve ser ensinado e que ações estratégicas devem ser concretizadas para que os alunos aprendam melhor e de forma mais significativa”

Se vão ser usados como referenciais as “aprendizagens” para o 2º, 5º e 8º anos (porque é óbvio que não podem ser as definidas para o 3º, 6º e 9º), no que diferirão estas provas das de aferição que este ano estão calendarizadas para esses anos de escolaridade? Não poderia ser o desempenho em tais provas servir de base para este “estudo”?

Este “estudo” terá o seu valor, mas o momento em que surge (quase a meio do ano e não em Outubro, por exemplo, quando se estariam a recuperar as “aprendizagens não consolidadas”, e não venham dizer que estavam mesmo marcadas inicialmente para os dias que acabaram por ser de “pontes” anti-pandémicas, como se quer dar a entender) e a metodologia da escolha da amostra levantam muitas reservas sobre a sua utilidade, apenas parecendo que se quer transmitir a sensação de que algo se está a fazer. Um bocado como os 400 milhões para a Transição Digital, de que nem 10% terá sido gasto nos 100.000 kits tecnológicos que só começaram a chegar às escolas a poucos dias do fim do 1º período.

Em outras circunstâncias diria que tudo isto resultaria de “desorientação”. Conhecendo os truques já de sobra desta malta, lamento dizer que acho que isto, por muito bom que esteja o relatório “técnico”, não servirá para muito mais do que “manipulação” ao nível da comunicação política.

Dados Da OCDE Sobre As Condições Para Um Ensino À Distância Em Portugal

A síntese sobre Portugal baseia-se em dados anteriores à pandemia, colhidos nas bases de dados do PISA e do TALIS. Para começar, destacaria os dois primeiros quadros que revelam alguns dados interessantes.

No primeiro, pode perceber-se que os professores portugueses até estão bem acima da média quanto ao apoio ao uso de meios digitais por parte dos alunos e da percepção de os poderem ajudar, mas sem que isso tenha feito parte da sua formação inicial. Ou seja, foram competências que os professores desenvolveram na sua formação pessoal e profissional posterior.

No segundo, temos a admissão pelos directores de que os meios (equipamentos, banda larga, plataformas específicas) das escolas são insuficientes para desenvolver um ensino de qualidade com meios digitais, entre outras evidências.

Mas foi assim que se fez o falso “milagre”. E é assim que ainda se continua. Independentemente da segunda vaga que nem o ministro cientista ou o seu secretário (e respectiva corte), sempre tão previdentes e com uma visão tão prospetiva) parecem ter previsto.

Será Que O Vírus Ataca Preferencialmente Não Escolarizados?

Em três semanas, o país somou mais quase 66 mil casos. Em números absolutos, a população entre os 20 e os 49 soma mais casos. Mas foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu.

Com os dados que temos hoje os investigadores arriscam dizer que o contágio nas escolas e na comunidade a partir dos casos que vão sendo confirmados nos estabelecimentos de ensino não serão a maior preocupação das autoridades de saúde.

5ª Feira

O ensino não-presencial é um remendo, nada aconselhável para a miudagem mais pequena, mesmo se a alguns só pareceu evidente quando era impossível negá-lo. A conversa do mundo digital do século XXI mostrou toda a sua vacuidade. Mas já é esticar um bocado a corda dar a entender que todos os males da Educação, este ano, resultam do confinamento. Os alunos têm problemas de leitura há muito tempo e não é apenas no 2º ano. Aliás, o raro é encontrar fluência generalizada na leitura e na compreensão de textos escritos mesmo no 5º ou 7º ano. A pandemia teve muitos efeitos negativos, mas começa a ter as costas demasiado largas. Neste momento, em muitos ambientes sociais, os miúdos crescem em famílias em que a leitura, para além de conteúdos funcionais muito simples, quase desapareceu.

Se Há Coisa Que Admiro Em Alguns Estudos São As Conclusões Quase Todas Absolutamente Inesperadas

Embora neste caso exista uma que contraria por completo uma série de teses de sociologia tipo-isczé (e não só) sobre a (in)capacidade da escola pública ajudar os mais desfavorecidos. O resto são daquelas evidências que todos sabemos, mas é preciso alguém vir validar com selo de “ciência”. Tudo isto é mais do que óbvio, só é pena toda a encenação feita em seu redor para justificar “nichos de mercado” académico subsidiodependente. Já agora, nada disto começou em 2005 ou 2011. Ou sequer em 2015.

Desempenho e Equidade: uma análise comparada a partir dos estudos internacionais TIMSS e PIRLS

(…)

Nessa medida, destacam-se algumas das conclusões do estudo: i) “Alunos com origem em famílias com elevado Capital familiar têm melhores desempenhos do que os alunos com origem em famílias com menos recursos económicos e sociais”; ii) “Quanto melhor os alunos dominarem ferramentas básicas de literacia e de numeracia antes de iniciarem a escolaridade, maior é a probabilidade de terem bons desempenhos em Leitura, em Matemática e em Ciências no 4.º ano de escolaridade”; iii) “Uma frequência mais prolongada de Programas de educação e cuidados para a primeira infância é mais relevante para os alunos de famílias com menos recursos”; iv) “Portugal apresenta a percentagem mais elevada de alunos provenientes de escolas de meios maioritariamente desfavorecidos que conseguem alcançar, em todos os domínios, pontuações acima da média internacional”; v) “Os alunos que frequentam escolas mais orientadas para o sucesso escolar obtêm melhores desempenhos”.

Todos Os Anos É O Mesmo

Aparece sempre um destaque oportuno do estudo anual da OCDE a dizer que os professores portugueses isto e aquilo, são uns privilegiados que ganham que se fartam e tem montes de regalias. É mais do que evidente que um professor ganha mesmo mais do que outros profissionais com qualificações idênticas… até porque os professores, na sua larga maioria, tiveram de fazer formações pós-licenciatura. Estou mesmo a ver um médico com 30 anos ou mais anos de carreira a levar 1500 euros limpos para casa. Ou um advogado. Ou um engenheiro. Ou um economista, mesmo no mais falido dos bancos.

Mas mesmo que assim fosse, garanto que o mereceria e só tenho pena que estes estudos do Education at a Glance deixem muito a desejar em algumas comparações que fazem sempre com base numa tabela salarial e estrutura de carreira que são uma ficção. Adoro quando eles fazem aquela de colocar um professor com 15 anos de serviço a ganhar pelo 4º escalão, quando quase todos estão no 2º. Mas é o que fazem passar para a opinião pública.

E depois há coisas incompreensíveis, quando a tabela salarial é única para todos os níveis do Ensino Não-Superior. O que quer isto dizer?

Quanto aos salários auferidos, os professores portugueses dos primeiros anos de ensino ficam a ganhar ligeiramente na comparação, mas recebem menos do que a média na OCDE nos níveis de escolaridade mais avançados.

Um Estudo A Precisar De Uma Amostra Mais Equilibrada

O estudo original é Schooling disrupted, Schooling rethought: How the Covid-19 pandemic is changing education e tem o carimbo da OCDE e a autoria do nosso conhecido Andreas Schleicher e de Fernando Reimers (Harvard Graduate School of Education). Recebi a versão preliminar, em português do Brasil que fica aqui para quem quiser consultar (School Rethought VPortBrasil). Os dados recolhidos e as conclusões extraídas são razoavelmente frágeis devido à evidente distorção do número de respostas recolhidas que, na maioria dos casos, oscilam entre uma para a maioria dos países e mais de 100 ou mesmo de 500 para outros. Nas tabelas apresentadas dá para perceber que em alguns casos os dados correspondem, no essencial, às de um país (nuns casos o México, em outros a Nigéria ou a República Dominicana), estando longe de ser um panorama global. Fica como apontamento de algo que espero que melhorem muito na versão final, pois é importante que se perceba como a Educação foi tão afectada em pouco mais de um simples trimestre.

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Dia 62 – Um Estudo Pela Manhã

O dia começa com a divulgação pública de um estudo da O.M.S., essa mesma que tem estado em todos os noticiários por causa da pandemia e das teimosias entre Trump e a China. De acordo com o dito, os nossos jovens com 15 anos são, ao que parece, dos que menos gostam da escola, ficando em 38% lugar (entre 45) na tabela da satisfação neste aspecto. O valor de 9,5%, obtido a partir de alguns milhares de inquéritos realizados em 2018, é uma queda muito acentuada em relação aos 29% (2.º lugar) verificados em 1998.

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Sim, estamos mais infelizes nas escolas e é bom que os alunos o digam, porque aos professores ninguém toma a sério.

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Em Termos Pessoais, Tenho Deixado Os Meus Parentes Em Paz

Só passaram dois meses e já está tudo exausto com a miudagem em casa. E o que dizer d@s professor@s que também são mamãs e papás? É o chamado “duplo impacto”, a lembrar um filme de culto duvidoso do velho Jean-Claude.

Estudo internacional avalia impacto da pandemia na exaustão parental

Um consórcio internacional, que reúne cientistas de 40 países, incluindo Portugal, está a estudar o impacto da pandemia da COVID-19 na satisfação e exaustão parental no mundo, anunciou hoje a Universidade de Coimbra (UC).

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Em Circuito Fechado

Estou a ler um relatório municipal (e é bom que se perceba isso) sobre a divisão do ano lectivo em semestres. Amanhã devo incluir umas passagens daquelas que me fazem rir. Por agora, apenas notar que há um claro problema de credibilidade (e imparcialidade) quando se vai buscar para consultor externo um dos principais defensores da medida naquela área cinzenta entre o mundo académico e o activismo político, e o resto da equipa parece um grupo de prós&prós. Assim, não admira que se conclua o que é suposto concluir-se. Naquela linguagem arrevesada a que estamos habituados em documentos desta estirpe.

Ouroboros