Considerem-se Avisados!

Ou pensam que a OCDE diz estas coisas, nesta altura, por cósmica coincidência? Só acredito se convidarem o SE Costa para em prime-time desmentir que o governo português nada teve a ver com este assunto e que ele, himself, muito menos.

A municipalização da Educação poderia ir mais além do que aquilo que o Governo planeou, defende a OCDE no seu mais recente estudo sobre gestão de recursos educativos em Portugal, divulgado esta quinta-feira. No documento, argumenta que uma “divisão sensata seria atribuir aos municípios a responsabilidade por todos os assuntos operacionais”.

Neste cenário, as escolas “receberiam mais controle sobre todos os recursos (financeiros e humanos) que contribuem diretamente para a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos”. Embora não aponte diretamente essa solução, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico destaca que a contratação de pessoal docente é uma das pastas que não foi passada para os municípios. E diz que a autonomia das escolas, tal como foi desenhada, ainda deixa de fora “formas mais amplas de autonomia como a responsabilidade local pelas finanças e recursos humanos”.

As notícias continuam a sair. O relatório continua sem estar onde deveria poder ser consultado. Curiosamente, a recente recomendação do CNE sobre este assunto não teve o mesmo tipo de interesse mediático. Será porque tem, globalmente, um conjunto de reservas que não interessa espalhar?

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School Resources Review (OCDE)

Tem anúncio governamental e já me apercebi de noticiário, mas… no site respectivo Portugal, até à data ainda não apresenta qualquer relatório consultável. Deve estar sob embargo para que saiam os títulos adequados (será por essa razão que saiu o 54/2018?) e depois, quando estiver tudo disponível, já ninguém se preocupar em ir letras as letras pequenas. O costume?

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Ao Fim De Uns Anos Nisto, Um Tipo Acerta na Baliza Por Instinto

É absolutamente impensável que uma instituição supra-nacional produza recomendações com base numa conversa feita em visita turística, sem direito a qualquer outro tipo de informação.

É verdadeiramente vergonhoso que se façam críticas ao que se desconhece, só porque algum amigo de uma ONG (ou o presidente fofinho da APH) acha qualquer coisa.

É completamente ridículo que andemos a ouvir, dias a fio, este tema, quando quem escreveu o tal do relatório nem abriu um dos manuais que critica.

O “parece-me” nas minhas declarações era caridoso. Afinal, o que parecia, é mesmo.

O “espantoso” é que esta malta produz este tipo de barbaridades, mas ninguém os responsabiliza pela falta de rigor e pela imensas carências do ponto de vista da ética na forma de “trabalho”.

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Sábado, 11/Out/2018 (a página seguinte tem declarações do João Pedro Marques, especialista em escravatura, em sentido próximo das minhas, nomeadamente quanto à necessidade de se equilibrarem as coisas, referindo que a escravização de outros povos existia em África antes de os portugueses lá chegarem)

Já Agora, O Que Se Pode Encontrar no Relatório da OCDE Sobre As Vantagens de Estender a Escolaridade em Termos de Emprego?

Há lá muita coisa e algo é adquirido… quem consegue mesmo emprego compatível com as suas habilitações ganha mais do que quem tiver menos anos de escolaridade. O problema é outro e relaciona-se muito com a incapacidade da própria economia absorver mão-de-obra qualificada, pelo que a probabilidade de emprego é praticamente a mesma tendo feito apenas o 12º ano ou um primeiro ciclo de estudos bolonheses (bacharelato, já que a licenciatura nem aparece).

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Reparem que o nível de emprego de quem fez apenas o 9º ano ou menos é dez pontos acima da média europeia (68% contra 58%) e treze acima dos 22 países europeus da OCDE (média de 55%), mantendo-se mais alta do que a média também para quem concluiu o 12º ano. Depois, começa a descer e fica em cima da média para quem fez estudos universitários.

Quanto à evolução entre 2007 e 2017 do nível de emprego, verifica-se que subiu 4 pontos para quem não seguiu estudos universitários (de 78% para 82%), mas apenas um ponto para quem os fez (de 85% para 86%). O que significa um fenómeno parcialmente paradoxal.

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Tudo isto se relaciona ainda com as vantagens relativas de se seguirem estudos universitários em Portugal, por comparação a ficar apenas com o 12º ano.

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Nada disto levantou o mínimo interesse à comunicação social, embora esteja no mesmo relatório que traz os salários dos professores. Só que não aparecia no resumo. O resumo é que foi uma selecção “criteriosa” do que interessava à “actualidade”. Claro que aborsar outros temas pode levar a uma visão muito negativa para uma economia que dá escassas oportunidades aos trabalhadores qualificados que ou saem do país ou se submetem a salários comparativamente inferiores aos praticados em outras economias, para terem a mesma possibilidade de não ficarem no desemprego do que quem não seguiu estudos superiores. Temos um mercado de trabalho que privilegia mão-de-obra com baixas qualificações e salários baixos.

Mas sobre isto os daniéisbestas e outros “empreendedores” não escrevem. Porque não convém.

TALIS

A Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência é o organismo responsável pela condução do TALIS 2018 (Teaching and Learning International Survey) em Portugal. O TALIS 2018 é o terceiro inquérito da OCDE sobre ensino e aprendizagem, refletindo principalmente, sobre os ambientes de aprendizagem nas escolas e as condições de trabalho dos docentes. As duas primeiras edições ocorreram em 2008, com 24 países, e em 2013, com 34 países (posteriormente, em 2014, mais 4 países aderiram e aplicaram o inquérito). Devido ao seu sucesso e relevante contribuição para as políticas de desenvolvimento educativo nos países participantes, e o interesse demonstrado por outros países, foi decidido continuar a desenvolver o estudo, pelo que, com a coordenação da OCDE, será realizada a 3.ª edição – TALIS 2018.

(…)

O que é:

Os países participantes determinaram as políticas investigadas no TALIS. A edição de 2018 debruça-se sobre o contexto profissional do docente, as suas condições de trabalho e o impacto da escola na sua eficiência. O TALIS 2018 pesquisará:

Como é desenvolvido:

Em cada país, será selecionada uma amostra de escolas. Em cada uma serão, aleatoriamente, selecionados cerca de 20 professores, juntamente com o seu Diretor.

Quem vai ser inquirido:

Os questionários do TALIS destinam-se a:

A seleção das escolas e dos docentes que participam no estudo é realizada de forma aleatória. À exceção dos pequenos países, para o estudo principal, foi selecionada uma amostra de cerca de 200 escolas e de 20 docentes por escola em cada país.

TALIS

O Relatório da OCDE Induz Mesmo Em Erro, Não É Apenas Má Vontade Nossa

Já percebi que a generalidade da comunicação social, em especial televisões, se ficou pela leitura e quadros do “Country Note” de 9 páginas da autoria de uma Camila de Moraes do Directorate for Education and Skills.

As falhas resultam em especial de um longo quadro na última página que vou incluir em seguida. O problema é que os valores foram convertidos em dólares americanos (USD) usando as paridades de poder de compra (purchasing power parities) e foram divulgados em Portugal sem se fazer essa referência.

Ou seja, as televisões (e não só) fizeram quadros com valores que não são os reais, mas os relativos a paridades do poder de compra que só deveriam servir para comparações internacionais, mas nunca para apresentar como se fossem valores efectivos.

Exemplificando: de acordo com o quadro final do resumo, os professores ganham em início de carreira  32.887 dólares, o que às taxas de câmbio de hoje dá 28.182,68€. Na verdade, em termos reais, de acordo com a tabela salarial da carreira docente, no 1º escalão o salário mensal é de 1518,13€. Multiplicando por 14 meses dá 21.260€ brutos. O desvio é quase “colossal” (c. 7.000€).

Após 15 anos, de acordo com o relatório, o salário de um professor português será de 42.489 dólares o que dá 36.411,16€. Só que em Portugal um professor com 15 anos de carreira deveria estar no 4º escalão a ganhar  1.893,74 €. Multiplicando por 14 meses daria 26.512,36€, mas a verdade é que isso não se passa e não é referido no relatório. Devido ao congelamento de quase 9,5 anos, com 15 anos de carreira um professor está apenas no 2º escalão a ganhar 1.566,37€ que multiplicando por 14 dá 21.929, 18€. Em termos reais a diferença é brutal (14.500€).

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Claro que a OCDE dirá que deu todas as indicações para que os leitores do relatório entendessem os valores usados. Claro que alguma comunicação social dirá que se limitou a transcrever os valores efectivamente inseridos no relatório. Claro que, pela conjugação das circunstâncias astrais, a opinião pública foi enganada, pois em nenhum quadro apresentado nas televisões se fez a ressalva devida de tais valores não serem reais mas apenas uma conversão para efeitos comparativos internacionais.

Quanto ao tempo lectivo e não lectivo que são apresentados como muitos favoráveis aos professores portugueses, isso resulta do simples facto de se terem contabilizado as horas semanais e multiplicado pelo número-padrão de semanas de aulas. Ora… como em Portugal há teoricamente 38 semanas de aulas, enquanto em outros países há casos com 39 ou 40 semanas (em especial no caso do 2º e 3º ciclo, tendo de descontar uma semana no 9º ano, por exemplo), é normal que o valor obtido seja menor. Infelizmente, não é feita qualquer estatística do tempo gasto em reuniões das maias variadas modalidades e extensões.