2ª Feira

Começa mais uma semana com a perfeita noção de que nenhum problema sério relativo à carreira docente e ao seu tão repetido “envelhecimento” tem perspectiva de resolução. Quanto àquela conversa da “transição digital”, a mesma coisa. Embora se saiba que mesmo que os contágios sejam galopantes, as escolas estarão proibidas de encerrar, nada chegou às escolas para as equipar para a eventualidade de períodos de ensino não-presencial para um número elevado de alunos. Estão a ver como as coisas evoluem, para os milhões ficarem na sua maioria pelo anúncio, esperando que como no ano passado sejam famílias e professores a avançar com o material. Realmente, nestas alturas percebe-se melhor o nível de fancaria com que somos obrigados a viver.

Polícias E Professores

Sou um bom cliente de séries policiais (até vi alguns episódios do Duarte & Companhia) e é interessante a queixa recorrente, mesmo em ambiente ficcionados, sobre o tempo gasto em burocracias e relatórios, em vez de ser feito “trabalho policial a sério” (é capaz de se notar que estou já na temporada 5 do The Wire, com anos de atraso). Muita papelada, muito registo, muito arquivo morto e defunto. Muita necessidade de provas e evidências.

Faz-me lembrar o papel de professor e como “evoluiu” ao longo das décadas na forma de ocupação do tempo. Há quem – com a nossa velha “amiga” MLR à cabeça, mas muitos distintos colegas seus a querer ficar também com alguns dos louros – ache que foi um grande ganho os professores deixarem de ter “apenas” as 22 horas de aulas nos seus horários, para passarem a ter 25, 26, 27 (conforme os gostos) que devem estar na escola. Raramente dizem que, para os alunos, aquelas 22 eram bem mais empregues que agora 26, pois muitas delas são gastas a produzir, recolher, rever, verificar papelada em duplicado ou triplicado, que são uma enorme perda de tempo de trabalho de gente qualificada para um pouco mais do que verificar números de telefone, moradas ou mesmo mails.

Criam-se plataformas onde as informações dos alunos são colocadas, mas depois é necessário recolher tudo de novo em papel e colocar no dossier respectivo. E se muda o programa, lá se corre o risco de ter de verificar ou introduzir tudo de novo, porque a migração dos dados e coiso e tal. Estou devidamente informado que algumas das novidades são óptimas e que há sítios onde tudo (de)corre Às duas mil maravilhas. Acredito. Mas acreditem, também, que em muitos mais sítios tudo se tornou um emaranhado de procedimentos burocráticos que tira a paciência para o que importa.

A queixa não é nova. É reconhecido pelos decisores em tempos de discursos ou promessas que é necessário desburocratizar. Mais do que desmaterializar, seria mesmo importante alterar a lógica de procedimentos redundantes, repetitivos, desnecessários e que deveriam ser afastados das responsabilidades de quem quer ensinar e não andar a arquivar. Um director de turma, por exemplo, não pode passar a maior parte do tempo a fazer de amanuense. Todos os anos a repetir caminhos, com esta ou aquela alteração mínima ou média. A ter uma nova camada de registos a acrescentar aos processos dos alunos e aos seus próprios elementos de registo. Sei que há quem rejubile com isto e sinta um entusiasmo que me transmite a ideia que falharam a profissão. Ou não, se pensarmos bem. Porque agora é muito melhor quem faz um perfeito trabalho de auxiliar administrativo do que quem se preocupa em transmitir aos alunos uma visão do mundo que vá para além dos manuais e sebentas.

“Inovar” chega a ser usado, de forma indecorosa, como termo elogioso para quem se limita a mudar formulários e a torná-los mais adequados a cada nova tempestade (ou mera ventania) normativa.

Tal como o McNulty, o “Bunk” Moreland, o Lester Freamon ou o Ellis Carver querem fazer “bom trabalho policial”, eu também quero fazer “bom trabalho de professor”. Mas quase tenho de pedir por favor.

A “Mudança” E A “Educação Para O Século XXI”

Há alturas em que a formação em História vem mesmo ao de cima, em particular quando se fala com pessoas que, mesmo de gerações diferentes, a partilham. E isso aconteceu ontem. E depois é impossível não traçarmos paralelismos no tempo e pensar que em 1920, quando o mundo ocidental atravessava um momento de forte “aceleração” para os padrões de então e tenha experimentado uma catástrofe terrível, ninguém concebia a mudança nos termos das teses em voga em 1870, 1880 ou 1890. E quando às “lideranças”, todas elas tinham sido renovadas a um ponto extremo. Era um “novo mundo”, com novos conceitos, novos protagonistas, conscientes de uma nova realidade não imaginada uma duas gerações antes.

Mas em 2020, quando a a “aceleração” ainda é maior e após uma fortíssima crise económica e financeira global, forçando mudanças muito mais rápidas, há quem insista em enquadrá-la nos conceitos de 1970, 1980 ou 1990. E quem, criticando a dificuldade de uma “escola para o século XXI” com “professores do século XX”, não perceba o ridículo paradoxo de não reservar para si a mesma análise crítica, quando são “lideranças” herdadas do século XX e “pensadores” que ainda não conseguiram ultrapassar as suas próprias concepções do século passado.

Ainda não temos, neste século XXI já bem entrado, nenhum equivalente ao Democracy and Education (1916) de John Dewey pelo que continuamos a regressar a ele (ou a variantes suas, porque haverá quem nunca o leu, embora produza réplicas). Nem ao Schools of To-Morrow de 1915 pois, apesar de se editarem actualmente muitos livros com títulos similares, poucos são os que vão além do que está escrito há mais de um século, mais ou menos apelo a gadgets de validade efémera.

Different schools have worked the matter out in different ways. In the Montessori schools there is still a good deal of effort to control the growth of mind by the material presented. In others, as in the Fairhope experiment, the material is incidental and informal, and the curriculum follows the direct needs of the pupils.

Most schools fall, of course, between these two currents. The child must develop, and naturally, but society has become so complicated, its demands upon the child are so important and continuous, that a great deal must be presented to him. Nature is a very extensive as well as compact thing in modern life, including not only the intricate material environment of the child, but social relations as well. If the child is to master these he must cover a great deal of ground. How is this to be done in the best way? Methods and materials must be used which are in themselves vital enough to represent to the child the whole of this compact nature which constitutes his world. The child and the curriculum are two operative forces, both of them developing and reacting on each other. In visiting schools the things that are interesting and helpful to the average school teacher are the methods, and the curriculum, the way the pupils spend their time; that is, the way the adjustment between the child and his environment is brought about.

“Learning by doing” is a slogan that might almost be offered as a general description of the way in which many teachers are trying to effect this adjustment. The hardest lesson a child has to learn is a practical one, and if he fails to learn it no amount of book knowledge will make up for it: it is this very problem of adjustment with his neighbors and his job. A practical method naturally suggests itself as the easiest and best way of solving this problem. On the face of it, the various studies—arithmetic, geography, language, botany, etc.—are in themselves experiences. They are the accumulation of the past of humanity, the result of its efforts and successes, for generation after generation. The ordinary school studies present this not as a mere accumulation, not as a miscellaneous heap of separate bits of experience, but in some organized way. Hence, the daily experiences of the child, his life from day to day, and the subject matter of the schoolroom, are parts of the same thing; they are the first and last steps in the life of a people. To oppose one to the other is to oppose the infancy and maturity of the same growing life; it is to set the moving tendency and the final result of the same power over against each other; it is to hold that the nature and the destiny of the child war with each other. (pp. 69-71)

Isto significa uma de duas coisas:

  • Ou as questões que enfrentamos actualmente pouco “mudaram” em cem anos e, portanto, há qualquer coisa que falhou desde então em algumas análises e na forma de resolver os problemas diagnosticados.
  • Ou as coisas “mudaram” e o século XXI necessita de todo um novo modo de pensar que vá para além do que já é conhecido.

A tentação de alguns vai ser a de dizer que ao fim deste tempo todo a Educação e a Escola não mudaram, pelo que as questões permanecem as mesmas. Não é verdade. Todos sabemos que a escola actual é muito diferente da que vivemos como alunos. Pelo menos, é muito diferente da minha e só muita miopia ou má vontade negará tal evidência.

Portanto, há que encarar o século XXI, a terminar o seu primeiro quartel, de um modo novo, em que exista a coragem de certas figuras entenderem que, se nada mudou, ao fim de décadas em posições de liderança (política, académica, escolar) é porque falharam e seria boa ideia tirarem consequências disso.

Só assim será possível mudar de “paradigma”, a palavra que tanto usam sem entenderem exactamente o que significa. A menos que tragam alguma ciência extraordinária para fundamentar as vossas pretensões de novidade.

Dewey

FEM 2020: 2 – (Novas) Tecnologias

Não sou o mais rigoroso defensor da utilização de terminologias fechadas ou hiper-especializadas, mas cansa-me ouvir a utilização de certos termos de modo generalista e conforme as brisas e oportunidades. Hoje, um deles foi “tecnologia(s)” com o “nova(s)” apenso ou não.

Ora bem… em relação à Educação (como a tanta outra coisa há milénios) existem “tecnologias” pelo menos desde (ou mesmo antes) que o primeiro primata atirou com um pau ou pedra a outro para o afastar de algum fruto apetitoso. O biface foi a tecnologia de ponta (literalmente) no Paleolítico Médio. As “novas tecnologias” existiram sempre e sempre foram ultrapassadas por outras “novas” algum tempo mais tarde. O pergaminho demorou a tornar-se arcaico na Europa como suporte da escrita, mas a dada altura o papel era o que de mais moderno se poderia achar (menos no caso dos chineses que o fabricavam há século).

A roda dentada foi uma inovação tecnológica e a sua aplicação aos aparatos destinados à medição do tempo trouxe os relógios até ao final do século XX, quando os mecanismos digitais se vulgarizaram.

Na Educação, pelo menos desde as últimas décadas do século XX, as “novas tecnologias” sucederam-se a um ritmo cada vez maior e a sua popularidade e “domínio” foram-se tornando progressivamente mais efémeros. O retroprojector e o projector de slides eram a grande moda nos anos 70, quando fui aluno e ainda nos primeiros anos como professor. A partir daí foi sempre a acelerar.

Por isso, talvez porque já vi muita coisa passar-me diante dos olhos, guardo o entusiasmo qb para cada “nova tecnologia”, mesmo no mundo maravilhoso do “digital” e observo com a devida contenção as excitações alheias com o mais novo zingarelho ou app. Em especial quando sei que a degenerescência dos equipamentos está programada e “descontinuidade” dos componentes uma certeza. Até à próxima geração “tecnológica”.

tecno

(calma, a imagem não é qualquer piada subliminar à parlamentar de quem o Livre desconfia)

Karma Is A Bitch

Junho de 2011:

O eurodeputado Rui Tavares anunciou que passou à condição de independente integrado no grupo dos Verdes europeus, depois de Francisco Louçã não lhe ter pedido desculpas.

Janeiro de 2020:

Joacine Katar Moreira exaltou-se no Congresso do Livre, que discute a confiança política da deputada. Joacine garante que não vai renunciar ao cargo no Parlamento. E diz que lamenta informar que tenham elegido uma mulher que gagueja, que é negra e foi útilpara a subvenção.

Karma

Greve A 31 De Janeiro?

Mas o PCP e o Bloco não viabilizaram o Orçamento sem especiais (nenhumas) condições e referências relativas ao pessoal docente?

É a luta? Pura e dura? Que nos vai levar a novas e gloriosas “conquistas” como as dos últimos 4 anos?

Bora lá lavar a consciência!

Agora sim, damos a volta a isto
Agora sim, há pernas para andar
Agora sim, eu sinto o optimismo
Vamos em frente, ninguém nos vai parar

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5ª Feira

Eu ainda me lembro do que se passou entre finais dos anos 90 do “velho” século XX e o início do famigerado século XXI. Ainda me lembro da sequência dos factos, das teses dominantes, dos seus efeitos, do que provocou imensas queixas entre os docentes e degradou o quotidiano escolar, com o aumento da indisciplina e a desorientação instalada. Passaram 15-20 anos e muita gente parece desmemoriada ou então decidiu alinhar na nova cavalgada daquela junção pouco recomendável entre laxismo avaliativo (porque avaliar é mau!), muita teorização pedagógica das transversalidades e flexibilidades, fragmentação curricular e desresponsabilização disciplinar. Há quem se tenha esquecido do benaventismo e daquele estatuto do aluno de 98 que tanto desajudou, ao mesmo tempo que se queria gerir flexivelmente o currículo e se desvalorizava o papel do professor enquanto detentor de um saber que não fosse “comunicacional” e pronto para o século XXI. Eu ainda me lembro disso tudo e lembro-me, apesar da diferença de meios, do clima de “alarme” mediático em torno de diversos episódios e lembro-me de, num debate televisivo (RTP1), um@ governante considerar como pouco grave se um aluno cuspisse num professor.

Serei o único a, mesmo não acreditando no eterno retorno da História, ver com clareza os sinais de um processo semelhante com o costismo? Com o problema de estarmos 15-20 anos mais velhos e ainda sermos tidos como culpados por termos envelhecido?

memoria

4ª Feira

Depois das promessas, o que esteve escondido até 6 de Outubro, pois “em vez do excedente nas contas públicas que projectava há seis meses, agora espera, no cenário base antes da introdução de novas medidas, um saldo orçamental nulo em 2020, apontando para a existência de uma margem de manobra menor para as negociações do próximo Orçamento do Estado com os partidos à sua esquerda.”

spin

 

António Sérgio Em 1918

Há pois necessidade inadiavel de duplicar a produção do País, assegurando ao mesmo tempo um melhor equilíbrio das suas classes, uma mais justa distribuição dos encargos e beneficies, e actividades mais  concordes para o bem da comunidade.
Isto exige, imperativamente, transformações profundas e imediatas na estrutura social e na do Estado (onde tantíssimos elementos, e de vária espécie, concorrem para tolher e comprimir as saudaveis fôrças de produção, e agravar a voracidade do parasita a cada novo esfôrço do seu hóspede) e entre elas, em primeiro togar, a difusão do crédito, pondo-o ao alcance de todas as classes produtoras e operárias. De aí se desfiaria, ponto por ponto, uma série de medidas financeiras (reforma do Banco de Portugal e da Caixa Geral dos Deposites; desvio para as actividades produtoras dos capitais confiados aos estabelecimentos bancários do país, etc., etc.), a que se ligariam sistematicamente certas medidas de fomento (fornecimento de maquinismos, materias e garantias ás actividades agrícola, industrial e mineira; incitamento á exploração dos jazigos carboníferos e cursos de agua; desenvolvimento dos transportes e reforma dos contractos de serviços públicos, etc.), correspondentes reformas sociais (generalização da riqueza com maior justiça distributiva dentro dos princípios da propriedade; desenvolvimento do mutualismo, e outras) correlativas medidas pedagogicas (transformações nas escolas normais, no ensino primário, secundário e técnico; colaboração íntima da indústria e das escolas superiores, no sentido de estimular as iniciativas e as suas capacidades de criação ; adopção de novos metodos de ensino, e, finalmente, preparação social do professor, do padre, do medico de aldeia) porisso que cada uma dessas medidas não poderá atingir o seu pleno efeito sem o concurso convergente de todas as outras.  (Pela Grei, nº 1, p. 5)

Ouroboros