Muito, Muito Bom

Não apenas em termos de qualidade absoluta, mas como bálsamo para a cabritice retórica de um ser que se elogia como o ministro que ocupou a sua pasta mais tempo desde o 25 de Abril.

Quando a generalidade das soluções de continuação de séries dos “bons velhos tempos” da bd franco-belga tem optado pelo respeito mais (sendo os casos mais notáveis os de Blake e Mortimer e Astérix, Mas também de Bruno Brazil, Bob Morane, Michel Vaillant, Corto Maltese até agora) ou um pouco menos (Ric Hochet) evidente pelo original, até agora só com o Lucky Luke e com o Spirou se tinham aventurado soluções um pouco diversas, nos álbuns mais recentes.

Neste caso, é uma experiência completamente nova em termos gráficos e cronológicos (a história passa-se em 2001), mas ao mesmo tempo o mais reconfortante encontro com o “velho” Corto. Até agora, olhava-se, reconhecia-se, mas não se entranhava.

Este é, de longe, o melhor álbum de bd que li este ano, sendo que a “colheita” de 2021 tem sido de “grande reserva”.

As Minhas Séries

Uma pérola absoluta. Um clássico imediato. Mesmo se a certa altura, para manter a coerência da passagem do tempo, entra pelo visual de finais dos anos 60 e quebra um pouco aquele encantamento das três primeiras temporadas. Poucos episódios de cada vez. Inícios sublimes dos episódios, num modelo que depura o que já tinha acontecido nas últimas temporadas do Lewis.

As Minhas Séries

Os anos 90 acabavam em grande, com o anúncio do muito que estava para vir. Enquanto os filmes se infantilizavam para as audiências das pipocas e selfies, na televisão apareciam coisas muito boas, não apenas como raríssimas excepções. Os anos 2000 acabariam por ser, contra velhos preconceitos, o refúgio da maior parte dos bons guiões, com histórias para gente adulta, produtores, realizadores e actrizes e actores a preceito.

As três primeiras temporadas e a última são excepcionais. As outras são “apenas” muito boas.

Because you woke up this morning
Got a blue moon in your eyes
Woke up this morning
You got a blue moon in your eyes

E Melhores Alunos? Com Melhores Condições Em Casa?

Voltamos à discussão da treta acerca do que são “melhores” professores. Algo que muda de acordo com preconceitos ideológicos, manias pessoais ou interesses de grupos de pressão.

Os bons professores fazem bons alunos, mas grupos de bons alunos também não ajudam a ser-se bom professor? Que indicadores são considerados? Apenas os resultados em exames ou final de período? E o que dizer do insucesso que resulta do puro absentismo ou ostensivo desinteresse?

E um bom professor consegue contrariar um mau ambiente escolar ou más condições de trabalho? Ou um sistema que define que só 5% podem ser excelentes? Mas, se a excelência está oficialmente definida como residual, qual o estímulo para todos serem excelentes? E terão sido esses excelentes definidos pela add os que são mesmo os mais excelentes entre os excelentes?

Se todos os docentes tivessem o impacto dos melhores colegas, os resultados dos alunos podiam subir. Estudo da Edulog mediu pela primeira vez o efeito que um professor tem no desempenho dos estudantes das escolas públicas.

O Que Interessa É A Quantidade?

Confesso que nunca considerei que o “pensamento” ou a a “acção” de Alexandra Leitão primassem pela subtileza ou complexidade. Não são qualidades que lhe assentem no perfil. Pelo que não me espanta este regresso à lógica de associar a excelência no trabalho à quantidade de tempo nele gasto e não à qualidade ou produtividade no mesmo. E querer premiar a assiduidade como se ela fosse um critério determinante para a excelência. Pode ser e pode não ser. Trabalhar mais dias não significa trabalhar melhor; em muitas situações é exactamente o inverso. Mas há quem pense de forma simplória e demagógica e dê nisto. Já a a ex-ministra MLR no seu modelo original de ADD só permitia as melhores classificações a quem não faltasse, como se 750 fracas ou medianas aulas por ano fossem melhores do que 749 ou 745 medianas ou boas. Ou mesmo 740 globalmente muito boas. Como o modelo de avaliação era uma treta e os critérios uma porcaria, buscava-se objectividade na “medição” possível da assiduidade. Temos agora a mesma “narrativa”.

Alexandra Leitão faz, a vários níveis, lembrar MLR, assim como o programa deste governo, em matéria de controlo da administração pública começa, a fazer lembrar cada vez mais os tempos do engenheiro. O que interessa é a aparência da excelência. Basta comparecer ou este é apenas um pretexto para dar a sensação de que se vai premiar o mérito, quando não é nada disso de que se trata? Até porque há quem defina a assiduidade em causa própria, sem controlo externo. Não apenas nas escolas… basta ter a sacrossanta “isenção de horário” de certas chefias.

eu-sou-o-burro

 

Todos ao Molho Parecemos Iguais?

Nestes últimos finais de ano lectivo tive a má sorte de notar como existe uma forte ideologia pretensamente igualitária que para além de defender o sucesso a qualquer preço ainda defende que o reconhecimento do mérito académico é algo mau, elitista e mesmo “anti-democrático”. É aquele pessoal que acha que a existência de quadros de valor, mérito ou excelência é um mal imenso que só promove a competição e o reconhecimento da desigualdade entre os alunos.

Há duas maneiras de lidar com esta visão estreitinha das coisas. Como hoje é dia do Senhor e Ele diz que o Céu será dos pobres de espírito (a sério? como eu gostava de saber ler as escrituras no original!), vou optar pela via construtiva, dentro das minhas reconhecidas limitações.

Vejamos então a coisa de uma maneira que penso ser de entendimento acessível:

Se já estamos numa fase em que o sucesso é garantido com um mínimo de esforço, com um grau de exigência cada vez mais cá para baixo, se achamos que todos merecem transitar na escolaridade obrigatória desde que apareçam e levantem a mão ao reconhecer o chamamento pelo nome, que raio vos incomoda que possamos distinguir um pouco que faz mais do que isso e tem gosto em estudar e em ter um desempenho académico acima do sofrível? O que vos custa que se distinga o que não é igual? O que é que vos dói exactamente? Que raio de ideologia é essa que faz pessoas que rejubilam e vão para as redes sociais publicar tudo o que seja prémio ou feitos das suas turmas, escolas, alunos, filhos, parentes depois criticar os tais quadros de valor?

Reparem que já escrevi em letra impressa publicada que já nem me choca que passe toda a gente, desde que se inscreva com que média fez o seu trabalho. Que já estou pronto para flexibilizar critérios de avaliação até aos limites do elástico mais lasso. Agora, em troca desse levantamento artificial da base, dessa transformação de quase tudo em sucesso, acho que o mínimo que se deve exigir é que consigam entender que os bons alunos, os excelentes alunos, também têm direito a que seja reconhecido aquilo que fazem e que é diferente e, não tenhamos vergonha nas palavras, melhor do que os mínimos dos mínimos que agora equivale a sucesso.

(se subimos a base da escala, devemos subir toda a escala… há quem não pareça saber ou perceber que os sistemas que quase não têm retenções, não abdicam de um sistema que diferencia de forma clara os desempenhos académicos “positivos”…)

Esta cultura do igualitarismo à força, esta pedagogia da igualdade forçada, não só de oportunidades mas também do desempenho, esta ideologia que nivela pela mediocridade e se horroriza com a excelência (que considera elitista, subjectiva, relativa, etc, a menos que seja no desporto com os aspirantes a ronaldos metidos nas academias pagas, ou nas artes nas candidatas a rianas e actrizes mirins enviadas para audições ou sessões de fotos em qualquer produtora de vão de escada nas esperança de serem @s próxim@s bimb@s num espectáculo de triste realidade), é algo que só pode conduzir a Escola Pública para uma inevitável segunda divisão do nosso sistema educativo, pois se os próprios professores se negam a distinguir os seus melhores alunos, que confiança podemos ter em que explorem as suas capacidades?

Vamos deixar-nos de teorias da treta… a desigualdade é injusta quando resulta de mecanismos discriminatórios que reduzem as oportunidades dos indivíduos com base nas suas origens (sociais, culturais, de género, etc), mas a igualdade forçada também é injusta quando pretende indiferenciar de modo artificial o que é diferente e que resulta de capacidades e aptidões diferentes. Eu bem poderia estar 8 horas por dia a treinar que nunca seria um atleta, cantor ou um artesão de topo, faltam-me qualidades para isso ao nível de coordenação, vontade, inclinação, talento. Seria uma injustiça tremenda um sistema que me dessem uma classificação equivalente a quem não é mal jeitoso para essas coisas como eu. Seria desmoralizar essas pessoas ou, pior, talvez mesmo impedir as suas qualidades. Em contrapartida, sei que há gente que mesmo após décadas a dar aulas (e muitos anos de estudo e diplomas e formações creditadas) ainda tem dificuldade em conjugar verbos como o simples “haver” ou em fazer frases complexas com as conjunções apropriadas numa mera acta.

A Educação deve promover, ao mesmo tempo, o sucesso e a excelência, permitindo a todos melhorar o seu desempenho e ver isso reconhecido. Promover a excelência, esquecendo o resto, agrava fossos e promove o aumento da desigualdade; promover o sucesso, anatemizando a excelência, acaba por nivelar por baixo, impedindo o progresso dos melhores. a solução está em tentar que todos, de forma colaborativa mas sem eliminar a competição (já repararam que há desportos em que nem pode haver empates?), possam desenvolver as suas capacidades e ver isso reconhecido.

Claro que não me admira que entre alguns dos lutadores de feicebuque contra os quadros de valor nas escolas públicas estejam aqueles que também se afirmam contra a avaliação tout court e que estão contra a avaliação de qualquer desempenho concreto. Não entendem que a igualdade à força só produz sistemas distópicos. Aquela ideia de que um carpinteiro é equivalente a um médico funciona na parte da dignidade de cada trabalho, mas que não funciona mesmo se colocarem um programador de computadores a fazer-vos uma operação ao pâncreas.

Mas o que lhes falta em lógica e observação da realidade e da natureza humana, sobra-lhes em agressividade, adjectivação e, curiosamente, em valorização da sua própria opinião em relação à dos outros. Porque se há coisa que caracteriza algumas destas pessoas que defendem a igualdade à força dos alunos é a defesa intransigente da desigualdade do valor das opiniões. As suas são as únicas que têm mérito e são dignas do reconhecimento da excelência dos seus princípios. Quem pensa de outra forma é um ser moralmente inferior.

Brain