Princípio do Contraditório

Comecei (ou recomecei) uma colaboração com o Educare. Esta semana sai a primeira parte de um texto a completar no início de Dezembro e que já conhecerão, no essencial, aqui do blogue. A partir do início de 2019, os artigos sairão na primeira semana de cada mês.

Estou consciente de que o poder que está não se incomoda muito com palavras e que a estratégia da indiferença é a regra, quando não se mandam umas cortesãs ou cortesãos contraditar sob pseudónimo, mas… quem cala, consente. E enquanto puder ter “voz”, usá-la-ei.

Uma Mistura Explosiva – Parte I

Assistimos à promoção de uma Educação Mínima (talvez a possamos chamar de “aprendizagens essenciais”) que tem como efeito a promoção activa da Ignorância, disfarçada por retóricas que apresentam os “Conhecimentos” como algo “empilhável” e muito relativo, em que Ciência e Crença são apresentadas quase (ou mesmo) como equivalentes.

Educare

Ler Ou Não Ler Os Maias, Qual É A Questão?

Li, no Secundário, não por ser obrigatório, mas porque comecei e gostei, embora a descrição do Ramalhete me pusesse à prova (mas preparou-me, salvo as devidas distâncias, para a descrição da abadia a que Eco faz chegar Guilherme de Baskerville). Obrigatórias também tinham sido outras obras que não li, embora parecendo que lera, d’A Abelha na Chuva (9º) ao Eurico, o Presbítero (11º), passando pelas Viagens na Minha Terra, que só viria a ler vários anos depois.

Os Maias, como muita outras coisas, deixaram de ser de leitura ou conhecimento obrigatório há bastante tempo, como tudo o que alguns herdeiros desgovernados de algumas pedagogias acham ser chato. A Filosofia foi amputada no currículo há uns anos porque deve ser chata, A História vai tomando esse caminho (desde reduzi-la a uma sucessão semestral esquelética às queixas sobre as classificações nos exames). As Artes são o simulacro que se sabe em toda a escolaridade obrigatória e a Literatura também só interessa se não ocupar muito tempo mais de dois neurónios. Relembremos há uns anos quando alguns manuais se preocupavam mais em reproduzir diálogos de reality shows do que qualquer autor d’antanho. Por acaso, tanto na altura como agora, encontramos algumas figurinhas comuns em todo este processo.

São Os Maias uma peça essencial para que se seja um bom pai de família, marido extremoso ou cidadão exemplar? Não necessariamente, mas lá por isso há muita coisa que também não fará imensa falta. Só que os tempos são mais propícios à exaltação do corpo são em mente vazia ou de cientistas “jovens” que acham que a literatura é uma chatice (ocorrem-me passagens de uma ou outra entrevista do João Magueijo) e contrários a tudo o que pareça passado, coisa enterrada, impressa ou passível de obrigar a um esforço que ultrapasse o deslizamento dos polegares pelos ecrãs. Sim, felizmente, a miudagem até lê bastante e ainda em papel (é umas das poucas áreas ainda em expansão editorial), mas acreditem que é a contragosto de quem acha que só os capitães cuecas ou os bananas com desenhos podem interessar até para lá da adolescência.

Pode-se ler O Crime do Padre Amaro ou A Tragédia da Rua das Flores com ganho equivalente? Ou A Ilustre Casa de Ramires como se propunha nas metas curriculares anteriores às aprendizagens “essenciais”? Depende… se tomarmos por boa a análise da sempre especialista Maria Filomena Mónica, os professores de hoje, em especial quem não convive com ela ou não respirou o ar de Cambridge ou Oxford, estão “formatados” e são incapazes de ir além de ensinar os alunos a ler guiões, pelo que nada conseguirão fazer de útil.

Pessoalmente, discordo, mas difícil seria eu – que de Oxford nos anos 60, por exemplo, apenas estou habituado a ver, com embevecimento, a série Endeavour – alinhar com a perspectiva catastrofista de MFM sobre tudo em geral e particular. Claro que eu sou mais pel’As Farpas como forma de descrição sarcástica e menos incestuosa da sociedade oitocentista. Com a vantagem de serem textos mais curtos, mas a desvantagem de implicarem alguns conhecimentos prévios de contextualização histórica que, seguindo-se o currículo padrão, em especial no actual período joanino, não fazem parte do que se considera “essencial” o aluno do século XXI saber para a sua vida prática, fruição social e empregabilidade precária.

Só que lutar com Os Maias foi durante muito tempo uma espécie de rito de passagem que parece afligir muitos pedagogos cheios de compreensão para com o esforço causado por tudo o que provoca esforço (se querem que vos diga A Vida Mágica da Sementinha para 5º ano é crueldade bem mais intolerável).

Se a obra pode ser substituída por outra de Eça? Sim, se não substituírem o Eça e o que ele significa – com Ramalho, Fialho e todos os outros que tinham a competência do humor quando olhavam em sua volta com desânimo – em capacidade de análise crítica de um sociedade decadente, atrasada e endogâmica em todo o tipo de favores.

Claro que seria mais fácil o Medina interceder junto da Madonna e, requisitado o Paulo Branco e após o subsídio para um champô que nunca recebeu, transformá-la numa nova Maria Eduarda e a Belluci numa Gouvarinho morena, podendo o bíblico Diogo Morgado fazer de Carlos, numa variante de Abraão. Convidava-se o Donald Sutherland para Afonso da Maia e fazia-se uma festa no casting para o Ega e o Salcêde. O Cantona teria de aparecer (nem que fosse como Pedro da Maia).

E prontosss… tudo ficaria a contento da modernidade, da facilidade e da legibilidade da obra que fica melhor depois de digitalizada nas partes “essenciais”.

A bêmdezere, a Literatura serve exactamente para quê, se não for para boa para o comércio rápido e indolor?

Eça

Os Verbos das Aprendizagens

Quem passou por profissionalizações entre final dos anos 80 e os anos 90 do século XX sabe que havia ali uma parte nas planificações que determinava que se deveriam escolher com cuidado os verbos para iniciar as frases com as quais se identificavam os “objectivos gerais/específicos” nas planificações feitas naquelas grelhas cheias de colunas para preencher (havia as dos conteúdos, das metodologias, actividades, materiais, avaliação, etc).

E havia por ali um preocupação com o “rigor” na utilização dos diversos vocábulos e na sua relação com o que significariam no processo de ensino/aprendizagem. “Identificar”, “indicar”, “referir”, “enumerar” correspondiam a uma espécie de grau inicial de dificuldade; seguiam-se “descrever”, “caracterizar”, “destacar” ou mesmo “definir” e, num plano de maior dificuldade, “analisar”, “sintetizar” ou mesmo “relacionar”. E deveria existir uma espécie de progressão na sua utilização. Outra regra… nunca colocar duas “tarefas” numa mesma linha de objectivos.

(e lembro-me da diferença entre colocar o verbo no infinitivo ou na 3ª pessoa, uma bizantinice entre o delicioso e o irritante)

A partir dessa altura, um dos exercícios que costumo fazer é observar a “verborreia” (no seu sentido mais literal) deste tipo de documentos “orientadores”. As metas curriculares tinham a sua. No caso da HGP, pelo menos, com a curiosidade de cada meta mais geral iniciar-se sempre com “conhecer”, “compreender” ou, quebrando uma das regras acima mencionadas, “conhecer e compreender”.

No caso das aprendizagens essenciais de HGP, quando chegamos à parte dos “conhecimentos, capacidades e atitudes” levamos com uma revoada de verbos, em alguns casos com duas funções na mesma aprendizagem (na primeira é logo “identificar e localizar”), de que passo a fazer a lista para as aprendizagens do 5º ano, acreditando eu que possa ter falhado algum e excluindo aqueles se referem a “identificar/aplicar” conceitos:

  • Analisar (3)
  • Aplicar (2)
  • Apontar (1)
  • Caracterizar (1)
  • Compreender (1)
  • Contextualizar (1)
  • Descrever (2)
  • Destacar (1)
  • Distinguir (1)
  • Evidenciar (1)
  • Identificar (11)
  • Interpretar (1)
  • Localizar (4)
  • Mobilizar (1)
  • Reconhecer (1)
  • Referir (6)
  • Relacionar (1)
  • Sublinhar (2)
  • Utilizar (1)
  • Valorizar (1)

Se contei mais ou menos bem… predomina o identificar e referir, estranhando eu a escassez de localizar quando se trata de Geografia; nas metas eram 4 só para o primeiro conteúdo relacionado com a “localização” da Península Ibérica. O que querem? Sou tradicionalista. O resto é uma espécie de nuvem de verbos usados de um modo que não direi arbitrário (a taxonomia de Bloom parece o referencial mais óbvio), mas mais preocupado em encontrar sinónimos do que outra coisa. E uma certa aversão a “compreender”. 🙂

Verborreia

A Perda do Sentido de Humor…

… ou da percepção da ironia ou mesmo sarcasmo é um traço preocupante do estado mental de muita gente, velha,. nova ou no entretanto. As salas de professores há muito que estão demasiado sisudas, mas o mais grave é já quando nem têm capacidade para deixar de o ser e é preciso explicar tudo, sílaba a sílaba.

O Equilíbrio Depende da Idade

Mas a obsessão com a mecânica da gramática pode ter efeitos nefastos e eu prefiro, de longe, manter o maravilhamento da leitura da escrita o mais possível, só que nem sempre isso é bem entendido e muito menos pelos produtores de programas de Português a cada ano bissexto com as suas listinhas de obras para ler com falta de imaginação e ainda menor capacidade para entender que o tempo não é perdido mesmo quando as aulas não “produzem” imediatamente efeitos.

Eu não deitaria a gramática fora. Mas colocá-la-ia (tento colocá-la pelo menos) ao serviço de algo mais importante… a capacidade de imaginar, criar, comunicar.

Writing stories is a craft that is crucial for life. And if the government insists, you can test it, measure it and use it in commerce, too.
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