A Ler – 2

Quando se é professor e se está por “dentro” da coisa, percebe-se melhor a desonestidade do pessoal político. No meu caso, que como encarregado de educação levei com a falta de professores muito antes de ela ser “oficial”, identifico-me com a desesperança do André.

Não está tudo bem, antes pelo contrário, o ensino está moribundo, não pelos docentes ou assistentes operacionais, mas sim por parte de quem faz a gestão do mesmo.

A “Fabricação” Do Caos Como Oportunidade Para A Total Desregulação

Lá fora, há quem admita sem grande receio o objectivo de tornar a docência um trabalho como outro qualquer, naquela lógica de indiferenciação da mãos de obra, típica do neoliberalismo. Um trabalho “generalista”, com o eventual apoio remoto de “especialistas”. Mas ao menos ainda têm a “delicadeza” de qualificar o nosso tempo como “precioso”.

The national teacher shortage presents a once-in-a-generation opportunity to rethink the shape of schools and the delivery of teaching, which has changed little over the past 100 years, in a way that brings them more into alignment with modern workforce design.

Modernising the delivery of education would also have knock-on benefits in freeing up time and resources that would ultimately benefit the educational progression of Australia’s school students.

Mike Hennessy, chief research and insights officer with school workforce analytics company PeopleBench, says schools need to consider experimenting.

“We need to look at different models, which is going to mean more flexibility and experimentation with how the school workforce is structured. If we are going to make the best use of precious teachers’ time, then education needs to look at adopting organisational processes used by other sectors,” he said.

This might, for example, include hybrid models which have generalist teachers in schools and some specialist teachers working remotely to deliver courses to students across a wide number of schools.

E lá por fora, o fenómeno também não é novo, nem sequer as razões são muito diferentes.

The real reasons behind the U.S. teacher shortage

There’s a teacher shortage across the United States — but that’s not exactly news. The U.S. Department of Education maintains an annual list — state by state — showing the subject areas in which there are too few teachers going back to the 1990-91 school year. What’s new is the size of the shortage and the reasons for it.

(…) The reasons why this is happening are important. Teachers always come and go, but in recent years there are some new reasons for the turnover. Polls show that public school teachers today are more disillusioned about their jobs than they have been in many years. One 2013 poll found that teacher satisfaction had declined 23 percentage points since 2008, from 62 percent to 39 percent very satisfied, the lowest level in 25 years. Fifty-one percent of teachers reported feeling under great stress several days a week, an increase of 15 percentage points reporting that level in 1985.

Report: National Teacher Shortages A Result Of Low Wages, Tough Political Environments

A new report has found that a combination of low salaries, tough political environments and accountability measures are contributing to a national teacher shortage, leading some classrooms to be led by instructors with little experience.

Em outras paragens ainda há uma discussão sobre o tema, ao contrário de cá, onde a larga maioria dos políticos está de acordo, pois aquilo que o ministro Costa apresentou poderia ser qualificado como ir “muito além da troika”. Imaginem que em 2012 alguém propunha quadros de professores intermunicipais, sem vínculo permanente a qualquer escola/unidade orgânica.

NSW parliamentary report reveals deep political divisions over fixing teacher shortages

(…) Inquiry shows ‘disdain’ to teachers

(…) The committee heard from teachers whose mental and physical health was suffering, and one who said they had become dependent on alcohol to cope with burnout.

Interessante

Mas não seriam preciso dez pessoas para escrever um “comentário”. Ok… será uma espécie de manifesto. Também lá por fora se começa a perceber que a narrativa sobre a “falta de professores” serve outros propósitos que não o interesse dos alunos, a melhor qualidade do ensino ou sequer uma decente gestão dos recursos existentes.

From “Teacher Shortage” to Resistance: A Critical Perspective on Political Discourse, Education, and Imagining Otherwise

Political discourse shapes how we understand society. It is therefore crucial for us to pay particular attention to how we use language to portray social problems. This commentary employs a critical perspective, enabling us to unpack how logics and assumptions are embedded in recent “teacher shortage” discussions, debates, and policy forums. Critical scrutiny reveals how “teacher shortage” discourses often reproduce individualism, neoliberalism, and deficit understandings of marginalized groups and workers. We call for a departure from this framing toward one that transforms the teaching profession by addressing the exploitative nature of teaching under capitalism and a fundamental shift in the economic conditions shaping our line of work.

6ª Feira

Cada vez estou mais convencido que o caos crescente nas substituições dá um imenso jeito a quem quer arranjar desculpas para “mudar o paradigma dos concursos”. Aquela coisa de exigir a atribuição de horários a que se sabia não estar em condições de leccionar, empurrando a sua substituição para depois de meados de Setembro trazia água no bico. Quando observo a forma como se “diagnostica” erradamente uma falta de docentes profissionalizados, alegando-se que é preciso recorrer a qualquer tipo detentor de umas dezenas de créditos bolonheses e ao aumento dos alunos dos cursos de formação inicial de professores (quando ao mesmo tempo, de forma menos vocal, se anuncia a redução do número de alunos no sistema), fico com a clara sensação que esta é a desculpa desejada para introduzir alterações desnecessárias, mas muito apetecíveis para quem quer desregular de vez a colocação de professores e atomizar as contestações, quebrando os poucos laços de solidariedade profissional que ainda sobrevivem.

É verdade que existe uma situação problemática, mas observando de perto o que não foi feito, pelo menos desde 2017, 2018, é muito difícil não achar que este é um fenómeno de clara degenerescência programada.

Não É A Verdadeira Solução

Porque existe muita gente profissionalizada que se candidata no concurso externo. Não está é para fazer biscates, à hora e ao mês. Enquanto não perceberem que o problema é esse, bem podem formar fornadas de professores, que eles aparecem uns anos nos concursos de contratação e desaparecem pouco tempo depois.

Já agora… a “valorização da profissão” é para abranger quem ainda anda com o barco às costas?

Segundo Rui Fonseca, diretor da Escola de Educação e Desenvolvimento Humano do ISEC Lisboa (Instituto Superior de Educação e Ciências), formam-se 1500 novos professores por ano. Mas, diz, seria necessário duplicar esse número para poder dar resposta às necessidades identificadas para os próximo anos. E, claro, valorizar a profissão.

Ou Então O Ministro Anda A Arredondar Os Números

Não seria a primeira vez. Nem se adivinha que seja a última. Porque ele é de Letras e tal e os números confundem-se-lhe na cabeça… 10.000, 15.000, 20.000 é tudo o mesmo desde que pareça muito.

Consultando as listas das reservas de recrutamento já efectuadas, verifica-se que desde o seu início só cerca de 900 docentes saíram deste concurso por, entretanto, terem aceitado colocação em contratação de escola. Supondo que os 13.530 colocados nas reservas aceitaram o lugar, o que muitas vezes não acontece, e somando estes aos 900 professores com habilitação profissional que saíram para a contratação de escola, pode-se tirar esta conclusão: dos 20 mil professores colocados em substituição apontados pelo ministro, pelo menos cerca de seis mil não têm qualificação profissional, que actualmente é atribuída pelo mestrado em ensino.

Foram 13 Minutos A “Abrir”

Nunca se sabe quando será a última vez 😉

Agradecendo a insistência da CNNP, depois de algumas indisponibilidades porque, estando os alunos em primeiro lugar, só nos intervalos ou períodos sem aulas. Mais tarde vejo de aparece a gravação.

(já agora… quem consegue localizar o Stan Lee? No outro dia, noutro sítio, estava o Oliveira de Figueira, que hoje ficou encoberto)

No DOC SIPE

Desonestidades

(…)

A medida que o ministro encontrou foi a de permitir a contratação e vinculação directa de docentes pel@s diector@s de escolas e agrupamentos, recusando as críticas a tal modelo “localizado” de recrutamento de “proximidade” por ser permeável a “padrões irregulares” ou “distorções” (para recuperar termos usados em outras circunstâncias), pois ele considera considera – lá estamos de novo – que “todos somos honestos”, só que neste caso nem sequer coloca a possibilidade de criar “instrumentos de vigilância” para prevenir seja o que for.

Ou seja, a “honestidade” é enunciada em duas situações, mas com conotações diferentes. Em relação aos professores vem com o “mas” acoplado, mas em relação aos directores surge sem quaisquer reservas. Porque o ministro considera que todos são honestos, claro, mas uns serão mais honestos do que outros. E ele sabe bem quem deve incluir e a quem dar “autonomia”.

Finalmente, No JL/Educação

O texto escrito a 30 de Agosto e que só acabou por ser publicado, esta quinzena, à 3ª tentativa, já depois de o ter divulgado aqui pelo blogue. O curioso – ou nem por isso – é que faz tanto sentido agora como há mais de um mês. Ainda mais curioso foi ver, nestas últimas semanas, uma alegre pilhagem do que escrevi em pelo menos duas prosas em outros “meios” que, mais do que inspiração, buscaram a poupança de transpiração. Mas ainda bem, porque o mais importante é que essas ideias se disseminem, certo? 😉