Já Vos Contei A Minha Teoria Sobre A Ficção Científica?

Penso que não e acreditem que não sequer se destina a chatear ninguém, apesar de quem se possa sentir visado. É só porque hoje arranjei mais uns clássicos, como se fossem da Argonauta, mas sem as más traduções. Que não se confunda a boa, velha e clássica FC com adaptações do Star Wars ou coisas quejandas.

Vamos lá então:

  1. Nunca leu FC:
    1. Nunca teve oportunidade. Está (quase) desculpado.
    2. Se teve oportunidade, mas recusou por preconceito, aguardam-no as penas eternas do Inferno.
  2. Já leu FC:
    1. Mas não gostou, porque não consegue encaixar aquilo na sua forma de pensar. Está destinado a ocupações como pedabobo do século XXI ou conceptualizador de grelhas para registos diversos.
    2. Mas não gostou, porque acha que aquilo é só para putos e gente sem bom senso. Lamento informá-lo, mas faleceu e não lhe mandaram mail ou sms a comunicar-lhe o facto.
    3. Gostou, mas acha que há uma idade para tudo e agora é tempo para literatura a sério. Lamento, mas entrou de forma precoce na senilidade e agora já não há remédio.
    4. Gostou e dá-lhe sempre prazer revisitar alguns dos clássicos (Asimov, Bradbury, Clarke, Dick, Farmer, Heinlein, Herbert, Le Guin, Simak, Vonnegut, etc)  ou explorar alguns dos novos autores. Parabéns, os seus neurónios ainda não morreram e aposto que não precisa de formações em tolerância e flexibilidade intelectual.

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6ª Feira

Há quem goste de apontar aos professores o facto de aparentemente estarem sempre a queixar-se das suas condições de trabalho e que deveriam pensar que todos os que trabalham têm razões de queixa. Nada contra, mas nesse caso os outros que se queixem dos seus males e façam algo de acordo com isso (mas, por favor, não formem sindicatos alternativos ao establishment nem proponham “formas de luta” sem autorização dos comités autorizados e certificados para o efeito). Os professores têm todo o direito de demonstrar a sua insatisfação com aquilo que lhes cai em cima todos os anos e que pouco ou nada tem a ver com o trabalho com os alunos, para além da cosmética. Quem adormecer dois anos e voltar a uma escola depois disso entra logo num mundo novo de siglas, procedimentos e “conceitos” que renomeiam a pólvora seca pedagógica. Sim, há temas e problemas recorrentes que já deveríamos ter, em conjunto, procurado resolver de forma mais eficaz, como é o caso da indisciplina. Mas o problema maior é que nos foram dividindo, enfraquecendo e desanimando, enquanto uma minoria foi vulnerável a seduções diversas, seja da tutela em relação aos órgãos de gestão, seja destes em relação a cliques seleccionadas. E não é raro que baste um par de infiltrados para lixar uma organização bem pensada (desconfiai sempre de quem se oferece para ser muito útil, quando nunca lhe ouvimos um pio ou visto um acto de “assertividade”, mas sim de alinhamento com os ventos). E cada vez é mais difícil travar lutas, “comprar guerras” de proximidade ou distância quando se sabe que as tropas andam estropiadas.

Mas é importante que deixemos de ficar tolhidos pelo embaraço ou vergonha e continuemos a denunciar a nova camada de disparates e excrescências com que os costismos-arianismos-rodriguismos cobriram o trabalho docente neste mandato, agravando o que já era intolerável. Recolher manuais e apagar-lhes os apontamentos, tratar de toda a papelada administrativa que em tempos eram as secretarias a tratar só porque com a febre dos megas cada vez há menos pessoal para o fazer ou acompanhar a criançada ou juventude a cada iniciativa que algum colega muito empreendedor e convencido de ser excelente organiza desde que sejam os outros a fazer o trabalho terreno, vai muito para além do conteúdo funcional da profissão. Não é uma questão de “sobretrabalho”, é um fenómeno de desprezo pela especificidade da docência que assim se torna uma espécie de “acompanhamento de crianças e jovens na escola em tudo o que a a alguém se lembre de mandar fazer”.

Sim, devemos continuar a arranjar forças para protestar e reagir, como @ colega que escreveu o texto do post anterior e responder na cara, em directo e a cores a gente que gosta de mandar para depois colocar no relatório que coordenou ou que adora acumular medalhas com base em façanhas que todos desconhecemos. O triste é que num contexto de desqualificação da docência, quem mais sofre são os que têm maior orgulho no seu trabalho, sobrevivendo muito melhor os medíocres, pois as coisas ficaram ao nível em que se sentem mais confortáveis. E ainda melhor quem aceita colaborar, entre a crença em qualquer coisa com que nem sabe se concorda, mas convém.

Felizmente, a mediocridade que há em mim ainda me permite não desanimar por completo e enfrentar, olhos nos olhos, quem considera que cada novo nível de irracionalidade burocrática e impresso para registo da irrelevância é um sinal de muitobonzice. Ou quem critica por fora, para ver quem adere às críticas, mas vai logo buscar a corda para ajudar ao enforcamento alheio. Ou quem está sempre a dizer que é mesmo assim ou talvez possa ser de outra forma a menos que seja da maneira que mandaram fazer de início, caso liguem o lume no mínimo.

E quem quiser enfiar o barrete que enfie. Já não me rala muito se pensam que estou a falar disto mesmo agora ou no senhor geral. Ninguém vos manda vir aqui controlar.

Barrete

 

3ª Feira

A nossa comunicação social de referência está quase toda absolutamente completamente preocupada com o fenómeno das fake news. Em vez de reflectirem no que fizeram de modo a quetal se multiplicasse a partir dos media convencionais, desdobram.-se em denúncias do presente. Mas, nos seus espaços, abrigam um híbrido de “(ex?)jornalistas-comentador@s” que dizem o que lhe lhes apetece sem qualquer verificação sob o manto a “opinião”. Que deve naturalmente ser livre mas ter alguma substância em factos. Sei disso por experiência própria porque já tive de me ir defender em tribunal de coisas desse género, “salvando-me” os factos que aduzi serem verdadeiros e a outra parte apenas fingir o ultraje pela porcaria feita exactamente por emitir juízos de valor sem os ter (aos valores, aos factos). Mas os tempos estão escorregadios e agora parece bem dizer (de novo) que a “verdade” é apenas uma questão de perspectiva que 800 ou 600 ou 400 ou 200 é tudo o mesmo, ou quase, sendo sempre “muito” ou “insustentável. Algumas dessas cabeças (ou em alguns casos beiças) falantes beneficiam de estar em tempo de antena nobre, sem contraditório, como se fossem elas as descodificadoras legítimas das situações, quando não passam de manipuladoras ao serviço de causas que, em “muitos” casos, precisam da simpatia dos poderes para sobreviver. Se em tempos endeusaram zeinais, granadeiros, berardos e salgados e alguns até os doutoram por causa da “honra”, querem que alguém minimamente informado lhes dê crédito. A sorte é que tudo anda a ser feito para que o maior número de cidadãos seja o mais desinformado e consequentemente acrítico possível. E nesse particular há quem ande a prestar inestimáveis serviços à causa.

Exclusivo Cósmico – A Transcrição De Uma Hipotética Reunião De Um Gabinete De Inexistente Emergência/Crise – Parte 3

Última parte da gravação obtida por meios já antes descritos – fortíssima rede de espionagem doméstica, alicerçada em três primos do enteado de um vizinho meu de há 30 anos – da dramática reunião do gabinete de crise do actual PM. Para detalhes técnicos e acrónimos dos presentes, remeto para a primeira parte. Neste caso trata-se da quarta cassete, porque a terceira ficou preenchida quase em exclusivo pelos pedidos de comida, sua chegada e ruídos subsequentes de consumo de saladinhas dietéticas, águas minerais, sem cataplanas, lampreias ou cristinas ferreiras com sushi no umbigo (ok, ok, estou a divagar…). O que se segue, sublinho de novo, é uma transcrição o mais fiel possível, podendo conter imprecisões ou partes cortadas, devido ao uso de vernáculo em açlguns momentos.

Última cassete. Hora de início: 13.30

AC: Então, já estão mais satisfeitinhos? Já podemos voltar à [pi-pi-pi] do assunto do [pi-pi-pi] dos professores?

SS: António, calma… deixa essas partes para mim… que sou há muito o especialista em zurzir nesta malta armada em esperta, não te destrambelhes, já lá diria a preclara no espesso da meia noite.

TBR: Eu ainda tenho aqui um buraquinho…. mas a haladinha estava muito intereshante, com os crotões e aquelas lashquinhas de fiambre de peru. Não é leitão, mas…

VS: Leitão? Mmmrrfff…. A sério? O que perdi eu?

MVS: Nada, paizinho, eu já mando vir um sandes de carne assada e uma mine para ti.

VS: Isso era uma boa ideia… acorda-me quando chegar.

MC: As contas são por conta de quem? Querem que faça a divisão?

AC: Deixa-te ficar quieto que tu só sabes somar e multiplicar. Há dias que pareces o sousadostavares a dizer números à balda. Fica-te pelos 600 e 800. ok?

ACM: Não deveríamos chamar mais alguns elementos habituados a estas coisas? O João das Gambas, por exemplo, era óptimo naquele programa do canal oquê e nos tempos daquele que não podemos nomear. E que tal o marquêsdoslopes que não é dos nossos mas até parece? Ou o centeiopereira que também sabe fazer contas e sabe sempre aplicar a “equidade e justiça” em tudo o que diz? Sei que ele agora diz que é mais independente do que era, mas talvez fosse útil. Ou o tipo que tem nome de loja dos anos 80 e que se irrita e fala alto com muita facilidade?

AC: Nada disso, isto aqui é o núcleo duro e mais nada. O Augustíssimo sabe mais do que essa malta toda junta, não é?

SS: António, até me embaraças, mas é verdade. Essa malta ainda precisa de aprender muito. Falta-lhes aquele tom suave e impassível com que eu consigo dizer a maior barbaridade e ainda sorrir para a câmara. Eles ainda se entusiasmam muito. O João das Gambas está muito bem lá onde está a desenrascar aqueles negócios de que diria o pior se fossem os laranjinhas a fazer.

AC: Mas, pensando bem… aquele tipo que é deputado e diz que é alpistemo… eprotemo… epistalom… filósofo ou qualquer coisa assim parece-me dos bons. Já merecia uma secretaria de Estado. Fica para a próxima. Ele e o Atão e Surfes são valores seguros. Nem precisam de guião, aquilo está-lhes no sangue.

PNS: Então e eu? Pensava que eu é que era a estrela em ascensão?

AC: Tu? Só tinhas de manter as gajas do bloco quietas e nem isso conseguiste. Fica sossegado.

DC (ainda se lembram dele? tem estado caladinho a ver as nomeações que pode fazer de mulheres de gente amiga com boas casas para passar férias): E eu?

AC: Tu o quê?

DC: Não sou também uma estrela em ascensão?

SS (em voz baixa): Tu és mais um cometa…

AC: Acaba lá a tua salada, DC, e não se fala mais nisso. Nomeia, que isso fazes quase tão bem como o Merdinas.

MC: Estive aqui a fazer umas contas e dão 60 euros de despesa a cada um do almoço.

Os outros todos em coro, até o VS em sobressalto: O quê? 60 euros por umas saladas e água?

MC: Sorry, friends… é do hábito de meter zeros nas contas… é só 16 com impostos, sobretaxa, encargos sociais e IRS.

Os outros todos, de novo: O quê, mas um almoço completo aqui em São Bento nem chega a 6 euros… [confirma-se]

MC: Sorry, sorry… é que lá no Eurogrupo é mais caro… 6 euros a cada um, pronto, mas vou ter de descontar isto a uma outra despesa qualquer… logo se vê… enfim… o país há-de conseguir ultrapassar este desvio orçamental.

SS: Mas vamos lá… já passaram quase três horas e não decidimos nada.

AC: Já sei… digo que me demito mesmo e vou falar ao Marcelo! Isto é firmeza! Isto é ser responsável! O eleitorado verá o animal feroz que também sou.

SS: Olha-me o coração do Pater Cesare! O que lhe digo?

AC: Não quero saber… voltarei a ganhar as eleições e fica tudo na mesma… até haverá mais lugares porque o Merdinas manda fora da Câmara toda a malta do Bloco. Ainda dá umas dezenas, nem que seja como fiscais da EMEL.

SS: Tens a certeza? E como queres fazer isso? Uma declaração oficial?

AC: Tenho… o Rio fica todo acagaçado e o Justinho está lá para lhe dizer que isto é inconstitucional e o Montepreto vai logo aproveitar para dizer qualquer coisa. E a Cristinha não vai aguentar ser vista a votar ao lado das esganiçadas… E o Marcelo que não se meta com coisas se quer ser eleito outra vez. Depois de falar com ele, apareço aos jornalistas e lanço a bomba… e chamo irresponsáveis a todos… apontem isso. Quero toda a gente a dizer “irresponsabilidade” frase sim, frase não.

SV/PNS/FA/TA/MVS/TBR/DC: Grande primeiro dos ministros é mesmo assim.

VS: mmmrrrrfffff Ahrrrummmm !!!

SS: E quem vai às televisões explicar as coisas? E avisamos logo que não queremos pivôs armados em jornalistas… aquilo é para passar a mensagem, que não se armem em coisos.

TBR: Eu gosto de ir à televishão… acho que tenho uma fotochenia natural e um dishcurso claro.

(seguem-se alguns segundos em que ninguém diz nada, sentindo-se um embaraço capaz de colar a cassete ao tecto)

ACM: Adiante… Eu acho que deveria ir pelo menos uma mulher para dar um ar de igualdade de género…

SS (em voz baixa): Desde que não meta medo ao susto… (em voz alta) Vai a Maria Ana que é menos conhecida… um rosto fresco, pode ser à TÈVI que o programa daquele gajo que acha que tem graça já acabou e assim não gozam com ela.

MC: Eu tenho as contas, eu acho que deveria ir!

AC: Ora bem… na SIQUE não há risco de ter fazerem perguntas difíceis… o gajo de hoje detesta ainda mais os chungas dos profes do que eu e a Santa de Lourdes juntos… podes ir… não digas muita coisa e tenta não sorrir com aquele ar do costume… ou melhor, sorri dessa maneira que parece que estás a ter um esgar de sofrimento e que a crise é mesmo grave. Augustíssimo, tu vais, claro, à RTP, certo?

SS: Sim, tenho o maior apreço pela Televisão Pública, mesmo se for o periscópio a estar por lá. São muitos anos a assar franguinhos no espeto. Entretanto vou telefonar ao Pater Cesare para ficar calmo que está tudo controlado. E tu, PNS, manda dizer ao Gerominho e à Katrina que ou baixam a bola ou demitimo-nos duas vezes. E chamamos-lhes irresponsáveis em todas as intervenções.

AC: Está decidido. Esta foi uma reunião muito produtiva, sim, senhoras e senhores. Sinto-me revigorado. Sinto-me firme. Sinto-me hirto. Sinto-me responsável. Sinto-me capaz de fazer uma cataplana à Cristinha, mesmo sem caril. Sinto-me anti-corporativo. Sinto-me o líder predestinado que a mamã sempre disse que eu era. Sinto que acabamos de salvar a Pátria.

Todos em coro: Sim, senhor primeiro dos ministros!

Fim da cassete. Hora: 14.27 (esta era das de 60 minutos…)

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