Eu Ainda Não Recebi O Inquérito Da Torre De Controlo De Qualidade E Quantidade! E @s Colegas DT?

Já vi (há versões para os vários níveis de escolaridade e tudo) e é incrível como quem levou duas semanas a produzir um plano com 8 orientações vem agora inquirir o que os DT fizeram, com quem comunicaram e o quê, o que calendarizaram, o que articularam, etc, etc. Confesso que quando ouço ou leio o que pode parecer um elogio aos professores, já sei que vem aí marretada da séria. E ficamos numa no-win situation, porque se dizemos que nada ou pouco fizemos, somos uns ineptos, se dizemos que fizemos é porque as orientações iniciais do ME são geniais e, afinal, é possível fazer tudo e mais alguma coisa.

Podem não ser grande coisa como decisores, mas como controladores é difícil encontrar gente menos dedicada. Phosga-se… quando se pedia um “rumo”, não era uma trela…

Torre

E Dizem Que A Municipalização Não Interfere Com A Autonomia Das Escolas E Com A Gestão Pedagógica?

Veja-se o caso de Odivelas e do projecto “Repensar o ano letivo como forma de melhorar a aprendizagem dos alunos”. Deixo aqui todo o documento (Semestres_Odivelas_Relatório), porque até me cansa estar a copiar aquelas passagens típicas da escrita de um certo tempo de final do século XX, tão lido por ocasião das profissionalizações feitas nos anos 80 e 90.

Chamo apenas a atenção para o organograma implícito nesta apresentação:

Odivelas1Odivelas2

A Câmara (do PS), com a benção do governante (do PS) nomeia uma comissão (ver parte sublinhada) para proceder ao acompanhamento e avaliação de um projecto implementado a nível municipal, convidando para consultor um especialista e ex-governante (do PS).

Essa comissão, formada principalmente por elementos da Equipa de Acompanhamento da Autonomia e Flexibilidade Curricular da Região de Lisboa e Vale do Tejo (nomeada em modelo de dependência clara da tutela), acha por bem dar a sua opinião sobre o funcionamento dos órgãos internos de gestão das escolas, apontando-lhes forças e fraquezas, presentes e futuras naquele modelo muito apreciado da análise SWOT (prefiro a versão portuguesa-brasileira de análise FOFA, mas são gostos).

OdivelasPodem dizer-me que é apenas um olhar “externo” para “ajudar”, mas mim parece toda uma outra coisa. E tem muito pouco a ver com “autonomia” e ainda menos “diferenciação” pois promove metodologias e modelos únicos de intervenção.

O Triunfo Da Flexibilidade Grelhadora E Micro-Avaliadora

Dá quase sempre nisto. Falam em abordagem holística, criticam a rigidez pedagógica e o carácter redutor da avaliação e depois transformam tudo numa grelha absolutamente mirabolante (revelando ao mesmo tempo um fraco domínio do design de tabelas em word para o século XXI).

Quem elaborou isto que me perdoe (ou não)… até podem ser excelentes colegas a vários níveis, mas, numa qualquer curva do caminho, espalharam-se ao comprido na coerência, para não dizer em várias outras coisas. Sorte vossa que isto não seja avaliado por alguém com olhos de ver e conhecimentos a sério do que deve ser uma pedagogia diferenciada e individualizada.

Assim, talvez ganhem uma medalha do SE Costa e palmadinhas nas costas de um qualquer guru do pafismo educacional quando o forem visitar.

GrelhaNTA

 

O Problema É Que Não Há Meios Para Todos

E depois as experiências são muito interessantes, mas restritas a algumas salas, algumas turmas e a uma minoria de alunos.
Se estas opções me agradam muito? Claro que sim… Tomara eu não ter cadeiras e mesas quase do século XIX na maioria das escolas não intervencionadas durante a “festa” da senhora reitora.

Designing flexible learning spaces

Uma Espécie De Selecção Nacional…

… mas aparentemente sem o Ronaldo do pafismo educacional.

Inclusão e Flexibilidade na Escola reúne especialistas nacionais em Portimão

(…)

Serão oradores David Rodrigues, presidente e fundador da Pró-Inclusão/Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, Adelino Calado, ex-diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos, Dulce Gonçalves, doutorada em Psicologia da Educação, Ariana Cosme, doutorada em Ciências da Educação, Rui Correia, professor de História e vencedor do Global Teacher Prize Portugal 2019, Edson Natario, escritor e trainer, conhecido como “cientista da comunicação”, e ainda Carlos Neto, professor catedrático na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e autor de vários livros.

(…)

A Câmara de Portimão adianta também que «é esperada a presença do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, na sessão de encerramento do seminário, agendada para as 18h15, na qual também participarão a presidente da Câmara Municipal de Portimão, Isilda Gomes, e o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção».

A menos que apareça em vez/nome de…

EscuteirosEscuteirosEscuteiros

As Condições Materiais Das “Reformas”

Seria interessante escavar um pouco as razões da recente falta de docentes em alguns grupos disciplinares. Há mais do que aqueles que vieram mais à superfície das notícias das últimas semanas, basta andar pelas escolas e perceber que há mais disciplinas em que os alunos permanecem sem aulas ou em que não se arranjam substitut@s interessad@s. Mas entre as que mais deram nas vistas, há uma disciplina cuja associação de professores conseguiu nos últimos 20 anos um peso assinalável no ME, seja na dgidc, seja em gabinetes, não sendo de admirar que o seu peso no currículo tenha aumentado (há um particular desejo de paridade com a História que chega a ser aflitivo) progressivamente, absorvendo mesmo conteúdos programáticos que antes eram de outras áreas para justificar esse “espaço” ampliado. O problema? Não há docentes para assegurar essas horas todas, muito menos de professores profissionalizados. E nem é bom falar em alguns casos que aparecem para “tapar buracos”. Porque o que interessou foi exercer um poder de influência e conseguir um peso para o qual depois falta o correspondente “capital humano”. Diferente é o caso de TIC em que deveria ter existido algum cuidado na formação de professores e não apenas em arranjar habilitações que servissem para dar umas aulas. Faltam professores e quem chega, parece chegar a um mundo desconhecido, em especial quando se trata de petizada pequena, pois há um evidente desajustamento entre quem define o programa da disciplina e aquilo que resulta em sala de aula.

Mas… os “reformistas” andam por aí e não se calam com as mesmas conversas e cedendo às mesmas pressões e amiguismos. Sem se preocuparem em perceber se andam a fazer “reformas” no vazio das condições concretas da sua implementação. E as carências não se resolvem com especializações ou formações instantâneas do tipo café solúvel em água morna. Mas as reformas pós amigos são assim… não interessa se funcionam, desde que satisfaçam as capelinhas.

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Inflexibilidades

Texto chegado por mail com identificação do remetente. Admiro quem ganha ânimo para o escrever. A mim, começa a faltar, mesmo quando sou obrigado a apreciar coisas semelhantes, em especial quando a mediocridade surge na ponta dos pés.

Assunto:

Na sequência da reunião efectuada em 2019-10-16, orientada por […] e subordinada ao  tema “Domínios de Autonomia Curricular (DAC)” e dados conexos com o DL 55 de 2018-07-06 e na qualidade de DT do 7C (14 horas de componente lectiva incluindo 2 de DT) é-me imperativo efectuar os seguintes esclarecimentos:

Serei de pouca servidão ao CT, quer para coordenar (dentro das atribuições de DT) quer para participar (dentro das funções de docente de EV) nas actividades decorrentes da aplicação do DL 55.

Para enquadrar a afirmação anterior é necessário algum contexto, nomeadamente sobre o meu percurso como docente contratado e as opções e convicções que ao longo dos anos fui tomando e consolidando.

Iniciei a docência em 1985, e com algumas interrupções, decorrentes de outras actividades ou por falta de trabalho, fui contratado 23 vezes em 20 escolas ou agrupamentos, tendo obtido a profissionalização em serviço apenas em 2009. A opção pela contratação foi consciente, pois preferia ter horários reduzidos que me permitissem actividades extracurriculares fossem elas noutras profissões (vendedor de material informático, formador de CAD, arquitecto, designer…) fossem elas formações (canalizador, apicultor, operador de grua, ilustrador científico…) ou fossem elas simplesmente a prática de diversos ócios. Relembro que “Escola”, vem do grego scholē, “ocupação de quem se encontra em descanso” e posteriormente do latim scholaócio consagrado ao estudo”. É este ócio que sucessivamente vem sendo retirado aos docentes e que para mim é muito mais gravoso para a sua actividade do que o congelamento da sua carreira (digo eu que não tenho carreira e podendo ser considerado um mercenário da educação), pois acabado o tempo do ócio acabou o tempo da reflexão.

Agora apresento (parte) da minha teoria da conspiração.

  1. O assunto da reunião em questão (DAC) e o seu contexto já o ouvi em diversas ocasiões e para auditórios de geometria diversa.
  2. Conheço a sua origem no ido ano de 2001 com o “No Child Left Behind“ do governo George W. Bush e conheço os seus efeitos, sejam eles aplicados por detentores de Master of Science da Boston University School of Education ou Pós-Doutoramentos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
  3. Estou cansado de ouvir Vítores Tétés, Ariánas Cosmes, Margaridas Soares e ressuscitadas Marias dos Ceús, “a todos e a cada um” como tanto gostam de afirmar como se o “todos” não incluíssem o “um”, a defenderem políticas educativas que não são mais do que propagandas ideológicas que roçam uma qualquer teologia, a cujos oponentes só falta chamar hereges e lançar para a fogueira.
  4. Descarregam sobre um corpo docente envelhecido, sem perceber que o seu alquebrar se deve não a uma perda de conhecimento mas a uma imposição horária atroz que os ocupa com ninharias. Querem sangue novo, sangue sem a história das áreas escolas e das áreas de projecto, pós modernistas do fim da história, enquanto camuflam que a criação de professores não se faz pela frequência dum curso mas na prática escolar que os leva da arrogância sapiente à humildade de quem professa.
  5. Não querem contestação, por isso os eleitos assoberbam os docentes com registos, tabelas, gráficos, grelhas, relatórios, observações e procedimentos, transformando-os em técnicos laboratoriais de bloco de papel em riste a registar os comportamentos das cobaias, perdão, dos alunos.
  6. A sua falácia preferida proclama que suas ideias não pretendem que os alunos passem sem saber, que o nível de exigência não tem de ser baixado, quando no final o que interessa é reduzir o número de retenções pois cada uma tem reflexo no orçamento da educação.
  7. Querem impor uma organização informal devoradora do pouco tempo de descanso que ainda resta e encaixar uma teoria numa estrutura rígida de horários, seja dos docentes ou dos discentes.
  8. Criaram uma agulha, perfeita, uniforme e brilhante, uma obra de arte merecedora de toda a admiração. Mas depois atiram-na para os professores para que sejam eles a descobrir a forma de lhe fazer o indispensável buraco.
  9. Os políticos, ideólogos (e teólogos) actualmente no poder, obsessivos compulsivos a brincarem ao Excel e ao SimCity, têm efectivamente o pau na mão. Quanto a mim fiquem lá a jogar com o pau, ciente de que em qualquer altura mo podem atirar. Mas no entretanto eu vou continuar a jogar com a bola, pois essa, eu não lha vou dar.

J. A.

Aplauso