As Condições Materiais Das “Reformas”

Seria interessante escavar um pouco as razões da recente falta de docentes em alguns grupos disciplinares. Há mais do que aqueles que vieram mais à superfície das notícias das últimas semanas, basta andar pelas escolas e perceber que há mais disciplinas em que os alunos permanecem sem aulas ou em que não se arranjam substitut@s interessad@s. Mas entre as que mais deram nas vistas, há uma disciplina cuja associação de professores conseguiu nos últimos 20 anos um peso assinalável no ME, seja na dgidc, seja em gabinetes, não sendo de admirar que o seu peso no currículo tenha aumentado (há um particular desejo de paridade com a História que chega a ser aflitivo) progressivamente, absorvendo mesmo conteúdos programáticos que antes eram de outras áreas para justificar esse “espaço” ampliado. O problema? Não há docentes para assegurar essas horas todas, muito menos de professores profissionalizados. E nem é bom falar em alguns casos que aparecem para “tapar buracos”. Porque o que interessou foi exercer um poder de influência e conseguir um peso para o qual depois falta o correspondente “capital humano”. Diferente é o caso de TIC em que deveria ter existido algum cuidado na formação de professores e não apenas em arranjar habilitações que servissem para dar umas aulas. Faltam professores e quem chega, parece chegar a um mundo desconhecido, em especial quando se trata de petizada pequena, pois há um evidente desajustamento entre quem define o programa da disciplina e aquilo que resulta em sala de aula.

Mas… os “reformistas” andam por aí e não se calam com as mesmas conversas e cedendo às mesmas pressões e amiguismos. Sem se preocuparem em perceber se andam a fazer “reformas” no vazio das condições concretas da sua implementação. E as carências não se resolvem com especializações ou formações instantâneas do tipo café solúvel em água morna. Mas as reformas pós amigos são assim… não interessa se funcionam, desde que satisfaçam as capelinhas.

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Inflexibilidades

Texto chegado por mail com identificação do remetente. Admiro quem ganha ânimo para o escrever. A mim, começa a faltar, mesmo quando sou obrigado a apreciar coisas semelhantes, em especial quando a mediocridade surge na ponta dos pés.

Assunto:

Na sequência da reunião efectuada em 2019-10-16, orientada por […] e subordinada ao  tema “Domínios de Autonomia Curricular (DAC)” e dados conexos com o DL 55 de 2018-07-06 e na qualidade de DT do 7C (14 horas de componente lectiva incluindo 2 de DT) é-me imperativo efectuar os seguintes esclarecimentos:

Serei de pouca servidão ao CT, quer para coordenar (dentro das atribuições de DT) quer para participar (dentro das funções de docente de EV) nas actividades decorrentes da aplicação do DL 55.

Para enquadrar a afirmação anterior é necessário algum contexto, nomeadamente sobre o meu percurso como docente contratado e as opções e convicções que ao longo dos anos fui tomando e consolidando.

Iniciei a docência em 1985, e com algumas interrupções, decorrentes de outras actividades ou por falta de trabalho, fui contratado 23 vezes em 20 escolas ou agrupamentos, tendo obtido a profissionalização em serviço apenas em 2009. A opção pela contratação foi consciente, pois preferia ter horários reduzidos que me permitissem actividades extracurriculares fossem elas noutras profissões (vendedor de material informático, formador de CAD, arquitecto, designer…) fossem elas formações (canalizador, apicultor, operador de grua, ilustrador científico…) ou fossem elas simplesmente a prática de diversos ócios. Relembro que “Escola”, vem do grego scholē, “ocupação de quem se encontra em descanso” e posteriormente do latim scholaócio consagrado ao estudo”. É este ócio que sucessivamente vem sendo retirado aos docentes e que para mim é muito mais gravoso para a sua actividade do que o congelamento da sua carreira (digo eu que não tenho carreira e podendo ser considerado um mercenário da educação), pois acabado o tempo do ócio acabou o tempo da reflexão.

Agora apresento (parte) da minha teoria da conspiração.

  1. O assunto da reunião em questão (DAC) e o seu contexto já o ouvi em diversas ocasiões e para auditórios de geometria diversa.
  2. Conheço a sua origem no ido ano de 2001 com o “No Child Left Behind“ do governo George W. Bush e conheço os seus efeitos, sejam eles aplicados por detentores de Master of Science da Boston University School of Education ou Pós-Doutoramentos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
  3. Estou cansado de ouvir Vítores Tétés, Ariánas Cosmes, Margaridas Soares e ressuscitadas Marias dos Ceús, “a todos e a cada um” como tanto gostam de afirmar como se o “todos” não incluíssem o “um”, a defenderem políticas educativas que não são mais do que propagandas ideológicas que roçam uma qualquer teologia, a cujos oponentes só falta chamar hereges e lançar para a fogueira.
  4. Descarregam sobre um corpo docente envelhecido, sem perceber que o seu alquebrar se deve não a uma perda de conhecimento mas a uma imposição horária atroz que os ocupa com ninharias. Querem sangue novo, sangue sem a história das áreas escolas e das áreas de projecto, pós modernistas do fim da história, enquanto camuflam que a criação de professores não se faz pela frequência dum curso mas na prática escolar que os leva da arrogância sapiente à humildade de quem professa.
  5. Não querem contestação, por isso os eleitos assoberbam os docentes com registos, tabelas, gráficos, grelhas, relatórios, observações e procedimentos, transformando-os em técnicos laboratoriais de bloco de papel em riste a registar os comportamentos das cobaias, perdão, dos alunos.
  6. A sua falácia preferida proclama que suas ideias não pretendem que os alunos passem sem saber, que o nível de exigência não tem de ser baixado, quando no final o que interessa é reduzir o número de retenções pois cada uma tem reflexo no orçamento da educação.
  7. Querem impor uma organização informal devoradora do pouco tempo de descanso que ainda resta e encaixar uma teoria numa estrutura rígida de horários, seja dos docentes ou dos discentes.
  8. Criaram uma agulha, perfeita, uniforme e brilhante, uma obra de arte merecedora de toda a admiração. Mas depois atiram-na para os professores para que sejam eles a descobrir a forma de lhe fazer o indispensável buraco.
  9. Os políticos, ideólogos (e teólogos) actualmente no poder, obsessivos compulsivos a brincarem ao Excel e ao SimCity, têm efectivamente o pau na mão. Quanto a mim fiquem lá a jogar com o pau, ciente de que em qualquer altura mo podem atirar. Mas no entretanto eu vou continuar a jogar com a bola, pois essa, eu não lha vou dar.

J. A.

Aplauso

Porque Será…

… que num livro onde até se afirma que a História e a memória são importantes para as aprendizagens e para tudo aquilo que fica bem proclamar (mas nem sempre praticar) se apague por completo a experiência da Gestão Flexível do Currículo quando se aborda a questão da flexibilidade curricular? Será esquecimento (é verdade que nem toda a gente passou por ela) ou incómodo em admitir que nada está a ser inventado de novo e que, na altura realmente na viragem para o século XXI, a experiência falhou? Mas não interessa analisar (criticamente, claro) as razões… ou sequer relembrar o passado…

una-memoria-colectiva

(sim, já li quase todo o livro dos JC’s, mas estou a dar um espaço para respirar antes de ir às partes mais demagógicas…)

A Lei É Para Cumprir Quando Calha

Não é a mim que é preciso explicar que somos governados por uma clique de hipócritas em matéria de legalidade. Mas é sempre ultrajante para um cidadão ter um governo em que o nº 2 (cf. lei orgânica) diz que há leis que não devem ser aplicadas de forma literal quando se trata das negociatas da família dos colegas, enquanto o nº 1 diz que irá aplicar a lei até aos seus cantos mais recônditos quando se trata de controlar uma greve. Não é nada de novo, mas um tipo nunca se habitua… hã sempre um vómito a formar-se.

VOMI

 

O Meu Balanço Dos Maiores Défices Do Ano Lectivo No Sistema Educativo Na Perspectiva Do Cidadão Professor

Flexibilidade, autonomia e inclusão

A Escola como instituição social em que os futuros cidadãos possam observar, em primeira mão, a Democracia e a Cidadania em funcionamento está em adiantado estado de decomposição.

PG PB