O Bananal

O Estado português contratou, por ajuste direto, serviços de consultoria para a escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa a uma empresa sem funcionários e sem evidência pública de experiência no setor. A Asa Aviation Consulting tem sede em Londres e não dispõe de qualquer forma de contacto.

O Negócio

Bem nos podem envolver em conversa fofinha, mas o que está em causa é sacar uns dinheirinhos ao pessoal, com base na construção de narrativas sobre lacunas e carências que implicam necessidades de formação. Por exemplo “surge a necessidade de capacitar os órgãos das escolas e os educadores e professores, no sentido de adotarem novos modelos de organização e gestão pedagógica“. Portanto, cria-se uma “Pós-Graduação em Inovação Pedagógica e Mudança Educativa”, destinada a “Diretores de escolas, coordenadores de departamento, líderes intermédios das escolas, diretores de centros de formação de associações de escolas, educadores e professores e técnicos superiores de Educação (psicólogos, assistentes sociais, entre outros)”. Ou seja a toda agente que põe os pés numa escola. A garantia? Que “é lecionada por um corpo docente com sólidos conhecimentos científicos e reconhecido mérito no campo das Ciências da Educação, integrando elementos que têm vindo a colaborar com o Ministério da Educação no âmbito da Autonomia e Flexibilidade Curricular”. aposto que não faltarão candidatos, independentemente das propinas (1830 euros por ano+232 de taxas de candidatura e matrícula).

Escolhi este exemplo, mas podia ter escolhido outro, da mesma instituição ou outras. O negócio da certificação em coisas novas em Educação, em especial nos locais certos é um bom negócio, ao que parece, para quase todas as partes.

Os Cromos Para A Troca

A Educação não passa de moeda de troca da barganha financeira entre o Estado central e as autarquias. E mesmo os que bateram muito no peito contra a quebra da “unidade” e da “equidade” do sistema, andam já com a mão estendida, vendendo os princípios por uns milhares de euros. E a alguns, ouvi eu em primeira mão.

Expresso

2ª Feira

Nada como começar a semana com a descoberta da solução para a falta de professores, mesmo se a notícia é de sábado.

Nesta escola não há professores nem aulas. “O conhecimento é a base, mas há muito mais do que isso”

Reparemos nos locais onde está instalada a Brave Generation Academy. E a diversidade da equipa. A notícia fala de um hub no CCB.

Mesmo sem professores ou aulas a coisa não fica assim muito barata. O curioso é que com apenas 140 learners conseguiu publicidade gratuita no Público em forma de notícia.

As Habituais “Tecnicalidades”

Dinheiro para o Iscte saiu das Finanças, mas não foi Leão quem assinou o despacho

Assinaturas no diploma são da secretária de Estado do Orçamento, Cláudia Joaquim, e do ministro do Planeamento, Nelson de Souza. O “contrato-programa” que a reitoria pediu ao ministro da Ciência foi chumbado por falta de enquadramento legal.

Os “Bazuqueiros”

Ouviram falar em milhões e tudo tilintou. Aos do costume. Aos que falam muito no “tecido económico”, nas “empresas” que, apesar de 35 anos de fundos comunitários, parecem estar quase sempre mal preparadas para qualquer contingências. Muitas destas vozes afirmam-se “liberais” desde que o Estado lhe financie os liberalismos. São “empreendedores” sempre em busca da crise que lhes encha os bolsos. A saga é antiga e é curioso ver como dançam e quem se associa para apresentar a óbvia necessidade de dirigir os dinheiros da “formação” para fora do sistema público de ensino. A diferença é que agora até têm apoio em organismos que deveriam ser os primeiros a explicar que uma maior formação dos adultos só é necessária se a formação de base, na escolaridade obrigatória, for deficiente. Apostar em algo mais do que num currículo fragmentado e dominado pela para-ciências ou modas passageiras é que é “essencial” para que, ao fim de 12 anos, não tenhamos jovens adultos que pouco ou nada sabem do mundo real, sendo então necessário “apostar mas competências [o que quererá dizer “ajustadas”?] dos adultos”.

Se a formação ao longo da vida para uma necessidade natural, diferente é ela resultar da fraca formação no início da vida. Por isso, é importante apostar nos alicerces, na base. Reforçar o telhado, sem isso, só serve para encher os bolsos dos formadores em telhados. Muito disto é explicado por uma nova vaga de ganância de que se acuaria o “neo-liberalismo da direita”, se não estivesse a ser promovido pelo que se adivinha vir a ser toda uma década de “esquerda”, que vai para a sua terceira estirpe, cada vez mais encapsulada e alérgica a “radicalismos”.

Jornal de Notícias, 25 de Março de 2022