O Rejuvenescimento Da Formação?

Que investigadoras tão jovens! Já terão quanta experiência em fazer isto um ano inteiro com meia dúzia de turmas? E 53 euros “preço de lançamento!) por 2 sessões de 2 horas? Estarão a gozar com quem? Com quem se inscreve e paga é mais do que certo. Basta ir ver o currículo oficial das duas jovens para percebermos que isto é tudo criado em aviário (com verniz de projecto maia, consultorias para o Mé e coisas desse género) com o devido respeito pelo profissionalismo de ambas, claro. Mas que isto me parece só “negócio”, não posso negar. Avaliação por “rubricas” com esse ou outro noem já eu fazia quando elas iam a caminho da escola primária.

No NOVO workshop da academia.pt – Avaliar com rubricas –, irá entrar em contacto, de forma prática, com atividades para estruturar e construir rubricas analíticas e holísticas, uma ferramenta que apoia a observação, a reflexão e a orientação das aprendizagens dos alunos.

Não perca a oportunidade de participar neste curso de curta duração, orientado por Daniela Ferreira e Louise Lima, investigadoras do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE). Aproveite o preço especial de lançamento!

Foi Assim Há Tanto Tempo?

Em Abril de 2015, o Conselho Nacional de Educação realizou um seminário sobre a Formação Inicial de Professores na Universidade do Algarve, cujas intervenções tiveram publicação em Novembro desse ano. Recomendo a leitura, tanto sobre o que lá está, como sobre o que lá não está. E o que não está? Qualquer antevisão de falta de professores. Pesquisem no documento e o que lá mais encontram é “falta de articulação”. O resto é um debate “interno”, pouco aberto à realidade das escolas e das suas necessidades. Está ausente qualquer prospectiva sistemática das necessidades futuras de professores. Pelo contrário, em algumas intervenções refere-se a legislação vigente desde os anos 80 como sendo marcada por uma falta de professores qualificados que se considera já não existir. Sobram reflexões sobre a necessidade de debater a formação inicial de professores, mas em termos de “modelo”. Nenhuma urgência se sente em formar mais professores. Eram os tempos que antecediam a aplicação pelo ministro Crato da PACC legislada por Maria de Lurdes Rodrigues.

Na sua maior parte, são estas pessoas que agora querem resolver um problema ao qual estavam cegos ou para o qual não tiveram qualquer sensibilidade até que ele se tornou incontornável. E acreditem que em 2018, apenas 3 anos depois deste seminário, já havia turmas a ficar sem professores meses a fio.

Eu Acho Que O Que Faz Mesmo Falta É…

… uma formação para formadores de formadores de formadores de professores. A ser dada por aqueles que diagnosticaram agora a situação que os próprios criaram. Se possível com financiamento generoso ao abrigo dos programas da famigerada bazuca e ainda uns apoios privados de fundações amigas (acreditem, que eu vi uma nesga do funcionamento da coisa). Com decisão após consulta dos mais interessados e bem localizados no acesso a este tipo de envelopes financeiros e prebendas conexas. Porque a situação é grave e há ganâncias e sofreguidões que se não forem satisfeitas ainda produzem algum colapso nervoso e muita agitação mediática.

Já agora… não sei se repararam, mas depois dos especialistas em ensino à distância e recuperação das aprendizagens, surgiram imensos especialistas em “ser professor” no ensino básico e secundário, com destaque para quem nunca o foi ou por lá passou em modo de biscate e algum nojo pela camaraderie. Tenho de ir ver se @s economistas da minha maior estima não se pronunciaram já sobre o assunto (uma ainda está encravada nas máscaras, não percebendo o bem que lhe fazem).

Parece Que Finalmente Estão A Aproximar-se Do Principal

Sou um crítico muito, muito antigo, da formação de professores em aviário por gente que do ofício percebe muito pouco. Tive demasiadas experiências em tempos passados de gente que dava formação sobre Pedagogia que era uma nódoa em termos pedagógicos. Relembro sempre um emissário do ME a uma sessão na minha profissionalização em que já falava de flexibilidade, mas só aceitava que o questionassem depois das duas horas de descarga de chavões e propaganda. Conheço directamente gente que forma professores porque fez tudo para escapar a ser professor do Básico e Secundário e poder colocar “Ensino Superior” na chancela ou oráculo. Na maior parte das vezes, fingem que não ouvem, clamam que fazem o melhor que sabem, mas a verdade é que sabem pouco e nem isso, tantas vezes, conseguem ensinar. Recomendam sebentas, apresentam powerpoints e é tudo. Leram, com sorte, um punhado de livros de fio a pavio sobre a matéria em dado momento da vida e encalharam.

Há gente boa, de qualidade, dedicada, actualizada?

Há. Mas há também muita tralha pelas Universidades e Politécnicos deste país, de onde saem boas professoras e bons professores à própria custa, do seu interesse, do seu esforço, da dignidade. Desde meados dos anos 80, com as naturais excepções em termos de instituições ou de departamentos em algumas instituições, enquistaram-se mini-feudos com origem nos Ramos de Formação Educacional, onde se alapou muita gente que nem ensinar sabe. Apenas sabe produzir a papelada necessária para a certificação do curso. Até porque são inspeccionados, em muitas situações, por outros como el@s.

Estou a ser injusto? não, por acaso até acho que estou a ser meiguinho com a complacência que marcou as últimas décadas na formação inicial de professores, em que não é raro que a maior preocupação seja arranjar as cadeiras necessárias para ter os créditos indispensáveis para assegurar o lugar. Em muitos casos, para não ser recambiado para aquele inferno de onde se livraram e para o qual mandam (quando lá conseguem chegar) professores certificados por quem chegou ao lugar na base de um ou mais dos três C’s (a cunha, a cama ou o cartão).

A Universidade é assim mesmo, não apenas na formação de professores? Quiçá… mas que tal irmos tratando de uma coisa de cada vez, sendo que é esta que agora parece afligir tantas almas omissas durante tanto tempo? O que fez, por exemplo, o agora omnipresente em todos os think tanks fundaciuonais, ex-ministro David Justino quando esteve na 5 de Outubro, no CNE e arredores?

Só um terço dos docentes que formam professores tem experiência na área

Um Documento Que Alguns Conhecem, Citam E Discutem, Mas A Que Poucos Tiveram Acesso

Não tem data ou assinatura, mas chegou a CRUP enviado a partir do ME. Os metadados datam a coisa de 23 de Novembro de 2021, com origem no gabinete do então SE Costa, mas o mais certo é ainda dizerem que foi um espírito qualquer que o fez. Está na origem da posição publicada no post anterior.

Sobre A Formação De Professores – Carlos Ceia

Texto que era para ser inserido em comentário ao post “Domingo”, mas que achei ser mais interessante destacar como texto autónomo. Acrescento apenas que, tal como critico, não me incomodam críticas à minha forma de ver as coisas, pois sei o quanto posso ser ácido.

O QUE FALTA FAZER NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES

Permitam-me entrar nesta discussão, de forma construtiva. Passo ao lado da questão da culpabilização, porque não me parece ajudar a resolver o problema.

Há muita falta de estudo a quem se pronuncia sobre a formação inicial de professores (não me refiro a si, mas os comentários que leio nos seus posts revelam isso mesmo). É fácil generalizar, quando não se tem a mínima consciência do que foi feito nos últimos 15 anos pelo menos. Se ignorarmos as alterações introduzidas ao sistema em 2007 (Bolonha) e depois em 2014 (a lei actual), as opiniões generalistas não passam de palpites infelizes.

Após o DL 43/2007, tudo mudou. Até hoje, os planos de estudos dos mestrados em ensino foram sendo ajustados, corrigidos, actualizados, após 3 processos de avaliação externa (A3ES) muito exigentes e muitas vezes até com algum excesso de zelo. Muitos cursos foram simplesmente reprovados e nada a dizer disso, porque é sinal de que o sistema de controlo de qualidade funciona. A cada processo de avaliação externa (o último, de 2021, está praticamente concluído e muitos planos de estudo foram mais uma vez corrigidos), tentamos melhorar o que nos parece não funcionar bem. Não nos escondemos em modelos de perfeição que não existem. Mas o que temos feito é bem feito, assumo isso e repito. Não me diz nada posturas de dizer mal por dizer mal. Quando um sistema funciona bem, parece que é um crime dizer que funciona bem. Prefiro encontrar sempre formas de aperfeiçoamento do que formas de achincalhamento gratuito e sem fundamento (uma vez mais, não me refiro aos seus comentários, mas a algumas reacções aos seus comentários).

O que tenho tentado defender é que o problema da falta de professores não se explica por uma má legislação sobre a formação inicial. Podia contar-lhe aqui algumas histórias de falta de crença de vários ministros da educação no problema, que verdadeiramente foi ignorado no passado, porque eles acreditaram que nunca chegaríamos à situação actual. Sempre avisei, quando me pediram a opinião, que estavam enganados e que mais valia prevenir naquele momento do que mais tarde, quando o tempo não permitisse resolver a situação rapidamente. Em vão, pois tal aviso foi sempre ignorado.

Agora o que falta fazer? Se for para mexer no DL 79/2014, que seja para melhorar a velha questão da prática profissional. Em 2007, não quiseram assumir que um professor em formação também podia ser professor e ser pago por trabalho em full time nas escolas onde se formavam. Um estudante de um curso de formação de professores era isso mesmo: um estudante e não um professor, por isso não podia ser pago. Essa lógica falhou, até hoje. Esse é o ponto fraco, nunca resolvido, dos mestrados em ensino. O segundo ponto fraco foi também o ter sido retirado aos orientadores (chamados agora professores cooperantes) não só as horas de redução para poderem orientar como qualquer remuneração por esse trabalho difícil. Ainda conseguimos que o Valter Lemos publicasse um despacho, ainda em vigor, autorizando 2 horas de redução, após muita pressão que fizemos. Mas não chega.

O documento enviado pelo ME ao CRUP em Novembro de 2021, se se transformar em lei, vai complicar ainda mais a situação, porque prevê que a responsabilidade da prática profissional passe exclusivamente para os CFAE (já assumi publicamente que deviam ser todos extintos) e os conselhos pedagógicos das escolas cooperantes, sem mencionar, uma vez mais quaisquer contrapartidas financeiras e de redução de horário para os professores cooperantes. Será uma trapalhada jurídica, como já tentei explicar. Vai estragar o que funciona bem e que podia ser melhorado de outra forma, reforçando verdadeiramente a prática profissional (nada a opor a isso), mas implicando um investimento sério por parte da tutela (e não sei se o próximo ministério das Finanças quer assumir esse investimento).

Para não me alongar mais, repito o que disse: retire-se dos 900 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência verba para apostar a sério em bolsas de formação (inicial e contínua) e subsídios para os professores colocados/deslocados da sua área de residência e muita coisa mudará.

Carlos Ceia

Domingo

Na 6ª feira ouvi algumas críticas, baseadas em estudos que uns conhecem e outros não, nessa interessante assimetria de circulação da informação, acerca da qualidade da formação inicial de professores, mas também da formação contínua. Claro que em surdina, quando eu comentava que andamos sempre a ouvir os mesmos a dizer uma coisa e o seu contrário, sem nunca saírem de cena, ouvi quem dissesse que não interessa agora ir em busca dos culpados. Algo que estou exausto de ouvir. Da obsessão judaico-cristã com a culpa passou-se para a total desresponsabilização hiper-moderna. Ora, a mim custa ouvir quem apoiou as asneiras aparecer agora a admitir que as coisas não correram bem, mas que quem fez a asneira não deve ser culpabilizado porque a não fez por querer, pois não tinha informação suficiente para antecipar o desfecho.

Sejamos claros: é mentira. Tinham informação mais do que suficiente para saber que a formação inicial de professores em aviário bolonhês não era a melhor solução. Já em 1987 eu sabia disso e era ainda finalista de História, vindo Bolonha muito longe, e esta malta que tem acesso a todos os estudos e mais alguns não sabia? Só agora é que aparecem a dizer que dois terços dos professores que formam outros professores não têm qualquer experiências dos níveis de escolaridade para que preparam docentes? Que muita formação inicial de professores é um exemplo dos maiores de pedagogias inactivas, transmissão de saber livresco e preconceitos vários? Basta falar com os alunos desses cursos quando temos a sorte de nos aparecerem, fresquinhos, nas escolas, em substituições. E ficamos a saber tudo aquilo que não lhes ensinaram, até porque nem saberiam o quê e o como. Se esta minha crítica, generalista, é injusta? Porventura será, mas parece que até já há estudos a confirmarem o que afirmo desde que decidiram que se profissionalizam professores antes de eles terem um ano de aulas a sério, tudo certificado por professores que nem esse ano tiveram. Agora querem recuperar o modelo que ajudaram a enterrar e não querem que lhes digamos isso? O tanas ao quadrado!

Quanto à formação contínua temos de tudo, bom, mau, razoável e excelente. O problema é que o muito bom e excelente é quantas vezes feito à revelia do sistema montado em torno de Braga e do centro da certificação das formações, aprisionado pela corte costista que o tornou um dos pontos nevrálgicos do controlo ideológico da formação disponibilizada aos professores. O que na lei se determina é que a formação seja dada a partir das solicitações da “base”, das escolas e professores no terreno e não imposta a partir da super-estrutura político-burocrática que só valida créditos e financiamentos para aquilo que está de acordo com as conveniências políticas dos senhores do momento (que já vai longo) e das inclinações ideológicas dos nichos académicos que fazem parte da constelação daqueles. Porque será que não se diz com clareza que os CFAE são, em tantos casos, profundamente condicionados nas suas propostas e que os que escapam a isso é com base em muita resistência e imaginação para dar a volta ao novelo? Por causa disso, nascem ao lado propostas de formação interessantes, mas pagas e bem pagas, se alguém quer mesmo aprender alguma coisa de novo e não a cartilha a parafrasear os decretos. Há quem se amofine com o “negócio das explicações” para os alunos, mas faça vista grossa ao “negócio da formação” para os professores. Porquê? Se querem mesmo saber é fazer uma pesquisa nem muito exaustiva acerca dos nomes e linhagens. Olhem… façam um estudo que coloque o nome nas alimárias, que sempre serviria para alguma coisa.