Pensamentos Da Pandemia – 11

Há quem elabore teorias sobre a forma como “sairemos” desta situação de pandemia e como isso vai influenciar a Humanidade e a forma de sermos e nos com portar os, como se grandes alterações fossem acontecer e tivesse acontecido uma mudança radical em menos de um punhado de meses na natureza humana. Talvez isso aconteça a uma minoria. Mas quem já tinha um fundo bom, de compreensão, empatia e solidariedade, assim continuará e até poderá melhorar, mas quem o não tinha, muito dificilmente se transformará numa madre teresa ou num mandela. Basta olhar à volta… a proporção de comportamentos idiotas ainda se nota mais, agora que há linhas que separam com maior clareza o bom senso da imbecilidade. Antes ainda poderiam beneficiar de fronteiras difusas entre o aceitável e o estúpido. Agora, fica tudo bem à vista.

Human

(disclaimer: i’m no mandela…)

Dia 59 – Mês E Meio A Treinar (Para) O Quê?

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Afirmou o primeiro-ministro, de acordo com vários órgãos de comunicação social, que este 3.º período é “essencial” para “treinar a comunidade educativa” e para “preparar” o próximo ano lectivo. O que, como escrevi, em si até parece razoável e lógico. Sim, estes meses deveriam ser de preparação do futuro a médio prazo, de avaliação do que tem sido feito, o que pode ser mantido em caso de nova emergência, o que deve ser mudado porque não está a correr bem e o que deve ser feito de completamente novo, pois algumas das soluções actuais foram de recurso e não devem ser para manter, com ou sem emergência.

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O “treino” do próximo ano lectivo é necessário, mas não se é para replicar o que está a ser feito com base no voluntarismo e improviso. Ou se é para servir de base a um modelo de Ensino Básico ainda mais truncado, desigual e de “sucesso” por decreto. Os alunos merecem muito mais do que isso.

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Dia 42 – Sinais Confusos

Quanto às escolas, anuncia-se um regresso do Secundário nas disciplinas com exame do 11.º e 12.º ano, mas em regime “voluntário” por parte dos alunos. O que pode parecer razoável, mas levanta mais questões do que lhes responde. E quem optar por não regressar às aulas presenciais? 

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Há duas semanas para que tudo isto seja devidamente esclarecido. Porque definir datas deveria ser depois de o essencial estar devidamente preparado. Mas parece que o importante é fazer anúncios. O resto, logo se vê.

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Dia 26 – A Semana De Todos Os Perigos

Deveria ter sido publicado ao fim da manhã, mas…

Depois dos ensaios das últimas semanas do 2º período, da chegada de documentação e recomendações diversas do ministério da Educação, dos avisos da Comissão Nacional da Protecção de Dados e da produção pelos agrupamentos e escolas de Planos de Ensino à Distância (E@D), entre outras peripécias que preencheram os últimos dias da tradicional pausa pascal, eis que chegamos à semana em que começarão a ser testadas as redes locais que foram sendo tecidas em tempo recorde para colocar professores e alunos em contacto no 3º período. Os tutoriais para uso das plataformas disponíveis começaram a circular embora, apesar de toda a boa vontade dos envolvidos, se saiba que a “formação” mais necessária seria a dos próprios alunos e muitas famílias, para não insistir nas que assim terão muita dificuldade em realizar tarefas e desenvolver aprendizagens significativas e passíveis de uma avaliação consequente conforme o desejo expresso do primeiro-ministro.

As soluções adoptadas começaram a concentrar-se num leque mais restrito das opções disponíveis, apesar de, pelos planos E@D que pude ler nos últimos dias, as metodologias de trabalho propostas estarem longe de ser uniformes. Umas vezes isso explicar-se-á pelos contextos específicos de cada comunidade educativa, mas em outros resulta de concepções muito diferentes do que deve ser um modelo de ensino/aprendizagem. Já vi grelhas de “aulas virtuais” que replicam quase fielmente o horário das presenciais e as que deixam uma relativa margem de liberdade a cada conselho de turma e docentes, atribuindo, por exemplo, um turno/dia a cada disciplina (Secundário) ou par de disciplinas (Básico) e deixando em aberto a forma de as desenvolver (sessões síncronas ou apenas horários de distribuição/recolha de tarefas).

Tudo é válido até prova em contrário, mesmo se há em alguns casos uma deriva para tentar decalcar o modelo presencial no modelo à distância. Não me parece que seja essa a melhor forma de desenvolver uma forma diferente de pensar a “Educação para o século XXI”, pois não basta adicionar o digital a concepções de fazer as coisas que são directamente herdeiras do modelo tradicional. Se queremos autonomia e flexibilidade, devemos ter confiança num modelo mais “aberto” e menos espartilhado do ensino, que permita aos alunos (em especial do 3º ciclo e do Secundário) seguirem ao seu próprio ritmo e não ficarem encerrados numa grelha saídas dos estágios das últimas décadas do século XX. Resta saber se quem tem o poder de definir alguns destes planos já aprendeu algo mais do que isso.

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