Inutilidades

É perfeitamente errado pensar que algo que se escreva ou diga, mesmo que seja com a maior das razões e fundamentações, terá algum peso na escola da futura equipa do ME. Mesmo que seja um elemento “independente” como o dependente ministro Tiago, isso resultará de cálculos e equilíbrios políticos internos ao PS e às suas prioridades para este mandato, apenas havendo a ponderar algumas eventuais peculiaridades pessoais deste ou aquela potencial candidat@ ao cargo de secretári@ de Estado das Finanças para a Educação, Quanto aos cargos de secretariado de Estado, a distribuição das subpastas há muito que depende quase por completo desse tipo de jogos, raramente resultando de escolhas pessoais d@ futur@ titular da pasta. Como ainda recentemente se demonstrou, há quem como secretário mande mais do que o tipo que lá foi posto para enfiar o barrete dos façanhudos sindicalistas mais de dois anos. Agora se fosse uma cara feminina, mais ou menos laroca, nem sequer me admirava de ir dar ao mesmo (se o Super-M até elogiou os dotes “negociais” da Alexandra Leitão, estou pronto para quase tudo). Resta apenas saber se continua a privilegiar-se uma cortina de fumo sobre os bastidores ou se alguma dessas figuras resolve assumir as suas vaidades. Mas escusam de pensar que em termos mediáticos existe qualquer margem de pressão eficaz sobre as escolhas. Eu tenho as minhas ideias (e em 2015 acertei em quem mandaria na sombra), mas prognósticos só depois das nomeações.

Quanto À Educação

A maioria absoluta significa que tudo ficará como está, consolidando-se processos como a municipalização das competências (incluindo o recrutamento de elementos para a docência, só que com o manto já existente de técnicos especializados para cursos profissionais, mas que a curto prazo estão a dar disciplinas “regulares), o esvaziamento do currículo e dos mecanismos de avaliação externa em nome da inclusão, da equidade e da “justiça social”, a gestão escolar hierarquizada, a avaliação do desempenho por quotas, etc, etc, etc, que sabemos. Como também sabemos, com muitos dos mais antigos e críticos, por idade, saúde ou desânimo, a sair da docência, ficarão as “novas lideranças” em ascensão após o fim dos mandatos daqueles que esgotarão o seu tempo (no cargo e mesmo de carreira) que, por amostras que se vão conhecendo, parecem já estar imbuídos do “espírito” desejado por MLR, ou seja, de um “corpo” que já não reconhece os pares naqueles que o eram. A malta mais nova, com a sua natural boa vontade, mas algum desconhecimento do passado, irá entrando na profissão e até na carreira como matéria-prima à medida dos novos senhores feudais. Os serviços centrais do ministério, implodidos por uns e instrumentalizados por outros, já pouco passam de extensões administrativas dos caprichos políticos, sem qualquer autonomia. Ahhh, claro… teremos ainda a “formação” amestrada e formatada, graças ao controle dos cordões da bolsa para o seu financiamento. E muita interacção com os senhores da ocde, em especial pessoal de terras frias que gostem do nosso sol em fins de semana prolongados de intercâmbio de experiências.

Claro que, não vale a pena negá-lo, isto não desagrada a toda a gente e haverá sempre quem, achando que não há volta a dar, arranje maneira de embelezar o garrote, juntando-lhe umas grelhas coloridas e uns penduricalhos retóricos a puxar ao “mérito” e à “justiça”. Basta ver como (a)correm às dezenas e centenas às formações sobre supervisão pedagógica e administração escolar, mesmo as que se fazem pagar bastante nem para reciclar as sebentas em powerpoints.

(e nunca menosprezemos ou menorizemos o tão conhecido nacional-vira-casaquismo…)

E a modos que é assim e desculpem qualquer coisinha, se não fui muito “positivo”. Da má fama já não me livro, que me reste o proveito de dizer e escrever o que penso e pratico, neste quintal ou em geral.

Sábado – Ano Novo

Após as saídas e entradas, sem balanços ou grandes previsões, resta-me repetir que não guardo grandes (ou pequenas) esperanças acerca de qualquer mudança significativa na área da Educação. podem fazer aqui ou ali uma cosmética, mas não mais do que isso. PS e PSD são, naturalmente, as opções, para a liderança de qualquer governo e partilham no essencial a lógica de muito do que tem sido feito nos últimos vinte (trinta? anos na Educação, mais ou menos prova final ou disciplina no currículo. Se ganhar, o PS apenas “aperfeiçoará” ainda mais o seu “paradigma” de produzir sucesso a qualquer custo, mistificando a opinião pública com o que chama equidade e inclusão, enquanto o PSD tem muito pouco a oferecer de diferente, sendo um quase total deserto em matéria de figuras com algum peso nesta área da governação para além de um pequeno grupo que, implícita ou explicitamente, orbita a galáxia Isaltino. Há o histórico “senador” Justino que talvez almeje algo mais do que voltar a ser ME e há o aspirante Patacho, ainda em tirocínio para SE. Claro que há uma outra possibilidade, menos claramente associada pela opinião pública a este grupo, que eu gostaria sinceramente de ver no cargo, até para provar que, ao contrário de Crato, será capaz de fazer o que tanto diz de forma tonitruante.

Mas o mais certo será ficarmos com mais do mesmo, não valendo sequer pensar que qualquer opção alternativa é viável, quando se teve um governo suportado à esquerda pelo PCP e Bloco e nada mudou, nem sequer na gestão escolar. À direita, o vazio é imenso, apesar das tentativas de alguns se “achegarem” aos professores, tentando capitalizar a sua insatisfação. Mas, por muito que o Gabriel Mithá pense que é possível arregimentar os professores, isso só acontecerá aos que aceito serem crentes de pseudo-lideranças anti-sistémicas de natureza caudilhista ou a gente mesmo muito distraída. Quanto aos “liberais”, tirando umas coisas sobre economia que leram nos seus estudos sobre a “liberdade”, são uma espécie de Bloco de Direita, só que com camisas de melhor corte.

Portanto, e não o digo com qualquer satisfação, 2022 será um ano em pouco diferente dos anteriores, até na forma inábil de lidar com as consequências da pandemia nas escolas, entre os constantes anúncios de que tudo está ou vai acabar bem e a obsessão por agradar a meia dúzia de “influenciadores” mediáticos. “Mudança” só se for em parte das moscas que se alimentam no monturo.

E reparem que nem falei em E@D.

2ª Feira

Ontem escrevi que “O despacho 6605-A/2021 é o elemento final (ou quase) do trabalho de “reconfiguração” da Escola Pública como Escola Mínima”. O “ou quase” relaciona-se com algo que parece faltar acrescentar a todo este “trabalho”, e que é a questão da avaliação. Não tanto o facto de a retenção já ser considerada como anomalia e excepção, mas mais a natureza das aprendizagens a avaliar. Repare-se que no sumário do recente despacho 6605-A/2021existe uma referência á “avaliação externa”. O que em princípio significa que provas de aferição e finais, bem como exames, deverão ser classificados de acordo com as aprendizagens essenciais.

Resta a “avaliação interna”. Ora, se bem repararam, no dito despacho, o primeiro referencial curricular é Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Que tem aquelas dimensões todas que, em coerência, deveriam merecer avaliação para que os alunos pudessem ter o “perfil” certo. Por isso… não me espantaria muito se um destes dias se considerasse que a avaliação por disciplinas se tinha tornado obsoleta e deveria ser substituída por um processo mais… “holístico”.

Domingo – Dia 56

De acordo com a mesma notícia “esta solução foi admitida pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, numa audição no Parlamento, esta terça-feira”, esclarecendo que “o Governo afasta também que o plano de recuperação passe por dar mais tempo de aulas aos alunos, seja através de reforços de horário ou de escolas de Verão”. O que dá a entender que, no essencial, já está mais ou menos decidido o que se vai fazer, apenas se encenando aquela parte da consulta a “todos os outros contributos dos actores normais nas nossas escolas”, para citar o ministro.