2ª Feira

Ontem escrevi que “O despacho 6605-A/2021 é o elemento final (ou quase) do trabalho de “reconfiguração” da Escola Pública como Escola Mínima”. O “ou quase” relaciona-se com algo que parece faltar acrescentar a todo este “trabalho”, e que é a questão da avaliação. Não tanto o facto de a retenção já ser considerada como anomalia e excepção, mas mais a natureza das aprendizagens a avaliar. Repare-se que no sumário do recente despacho 6605-A/2021existe uma referência á “avaliação externa”. O que em princípio significa que provas de aferição e finais, bem como exames, deverão ser classificados de acordo com as aprendizagens essenciais.

Resta a “avaliação interna”. Ora, se bem repararam, no dito despacho, o primeiro referencial curricular é Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Que tem aquelas dimensões todas que, em coerência, deveriam merecer avaliação para que os alunos pudessem ter o “perfil” certo. Por isso… não me espantaria muito se um destes dias se considerasse que a avaliação por disciplinas se tinha tornado obsoleta e deveria ser substituída por um processo mais… “holístico”.

Domingo – Dia 56

De acordo com a mesma notícia “esta solução foi admitida pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, numa audição no Parlamento, esta terça-feira”, esclarecendo que “o Governo afasta também que o plano de recuperação passe por dar mais tempo de aulas aos alunos, seja através de reforços de horário ou de escolas de Verão”. O que dá a entender que, no essencial, já está mais ou menos decidido o que se vai fazer, apenas se encenando aquela parte da consulta a “todos os outros contributos dos actores normais nas nossas escolas”, para citar o ministro.

Se O Oráculo Do Regime O Afirma…

… é porque vamos mesmo ser vacinados. Agora só quero ver quem vai afirmar que não quer, por isto ou aquilo, não esquecendo o medo de “picas” e argumentos que vão além do cepticismo para entrar numa variante light do negacionismo, usando mesmo aquela coisa dos direitos individuais e, quiçá, clamando pela Constituição com mais força do que se fossem do PCP em tempos pré-geringonceiros.

Esperar Para Ver

O anúncio da possibilidade de adaptar o calendário de provas e exames até dia 12 de Fevereiro resulta da velha estratégia de tentar ver para onde sopra o vento na próxima semana. O vento epidemiológico, mas também a borrasca de um novo E@D que, para o Ensino Básico, terá poucas diferenças em relação ao do ano passado, sendo que algumas dessas (o nº de aulas síncronas) são no sentido de mais rapidamente fazer parte do sistema entrar em colapso. Se era possível fazer diferente? Só com a devida preparação, que não passa apenas por papelada e promessas. Mas quando se fala nisso, até o falinhas mansas fica de verniz estalado.

A maioria vai tentar fazer o seu melhor, mas nem o mais virtuoso e dedicado condutor consegue fazer uma carroça velha e com três rodas andar muito depressa e sem tombos.

Sábado – Dia 2 Do Re-Re-Confinamento

Começou ontem a contar o tempo para um novo ajuste de contas com os professores, não tenha qualquer dúvida. Porque estas duas semanas de “férias” irão ser pagas a dobrar daqui a não muito tempo. Pois, vão-se percebendo – claro que há ingénuos, verdadeiros ou nem por isso, que dizem que não é assim – os contornos da “narrativa” em construção para, sacrificando uma parte (a opinião pública começou a ter uma “percepção” errada dos riscos e/ou o governo teve uma “percepção” errada dessa outra “percepção”, numa espécie de jogo de espelhos), salvar o essencial (a bondade das intenções do governo, que reagiu tarde porque tudo tentou fazer para evitar os maiores problemas, não podendo prever o que se está a passar).

Sendo mais claro: o governo não poderia ter feito de outra forma o que fez, pois tudo isto ganhou uma dimensão imprevisível e a opinião pública “forçou” a que se tomassem medidas que esse mesmo governo estava convicto de não serem necessárias.

Bullshit (caca de boi em português).

Desde há mais de um mês que se sabe que a evolução da pandemia não podia ser medida apenas pelos dados de Março-Abril, seja por causa das variantes do vírus, seja por causa da procrastinação de medidas mais firmes para travar a progressão dos contágios.

E é aqui que entra a necessidade do encerramento das escolas – óbvio pelo que implica de mobilidade da população, não por ter focos virais nas salas – que foi apresentado de modo errado como uma espécie de fronteira final de combate à pandemia, quando deveria ter sido encarado como a primeira barreira a erguer (e que no caso da primeira vaga, sem estirpe britânica, se revelou bem eficaz).

E é aqui que surgem aqueles sinais, nem sequer especialmente difusos, em que o “fecho das escolas” começa a ser um problema de que o governo que alijar responsabilidades. E começam a surgir expressões como “a vontade dos professores” ou tiradas completamente despropositadas como a do economista Aguiar-Conraria que já começou a acenar contra a “corporação dos professores e sindicatos” (só quem não viu o estado do Mário Nogueira nas últimas intervenções é que pode ainda apresentá-lo como bicho-papão) a propósito da posterior necessidade de compensar estas duas semanas de “férias”. Que até podem ser mais.

Em que se vai sublinhar que os professores nem estão a trabalhar. Porque nem há “ensino à distância”, como se isso fosse culpa deles e não da falha grosseira da equipa do Ministério da Educação e do governo. E basta ler o que foi sendo escrito por mais um punhado de “opinadores” para se perceber que o fecho das escolas é o “símbolo maior do falhanço nacional”. E não a acumulação de cadáveres em contentores nos hospitais, porque já não existirem condições para os ter nas instalações. Um deles fica a pouco mais de 1 km da minha escola, talvez por isso eu dê mais atenção a esses “detalhes”. Mas há quem ache que a culpa das escolas encerrarem é das próprias, dos seus directores e professores (parece que era ontem a tese na TVI24de um dos comentadores, mas ainda não confirmei) por não terem preparado um novo período de E@D. Como se a culpa de não aparecerem omoletes fresquinhas pela manhã fosse do cozinheiro a quem não deram os ovos.

A estranha e permanente raiva mal disfarçada contra os professores irá voltar à superfície de modo mais claro em pouco tempo. Ui, que eles estão de férias e fizeram tudo para fechar as escolas e nem sequer dar apoio aos alunos, essa matilha se parasitas da sociedade. O ministro da Educação, pisca-piscando de nervoso, já começou a desresponsabilizar-se de tudo, afirmado que mandou comprar paletes de computadores. Os pontas de lança alinhados com a Situação lançaram as primeiras farpas, a ver se algumas pegam.

Por mim, já estou convencido que este ano não terá “férias” de Verão. Ou quaisquer outras que não forçadas. Se essa é uma necessidade de corrente destas paragens de aulas, não tenho qualquer problema em as compensar. E digo-o desde já, apenas garantindo que não estou disponível para outros “fretes”.

Não preciso que venha alguém espicaçar-me o “espírito cívico” ou equivalente. Ou fazer elogios hipócritas aos professores quando isso dá jeito. Só quero que guardem lá já as facas que andam a afiar.

6ª Feira, 1 De Janeiro

Num cartoon que circulava pela net ontem, viam-se dois extraterrestres a comentar as festividades de passagem de ano (em especial lá mais para Oriente) e o facto de elas terem origem no facto do planeta completar mais uma volta ao Sol, algo para que os humanos em nada contribuem. E parece-me bem verdade que, se precisamos desta espécie de “marcas” da passagem do tempo desde tempos muito antigos, algumas delas são apenas isso, marcadores úteis, mas que não correspondem a qualquer especial mudança, porque 2021 será a continuação de 2020, não se sabendo se chegará sequer a ser epílogo. O número de contágios divulgado ontem ainda não é – nem poderia – ser consequência de regras mais leves de confinamento em torno do Natal, mas mais de uma eventual flutuação dos testes feitos (poucos dias antes tinham-se alcançado números muito mais baixos) e talvez dos efeitos de alguma concentração em áreas comerciais em compras pré-natalícias antecipadas. Porque é ridículo pensar que existe maior segurança com menos gente no interior das lojas se as restantes ficam do lado de fora, em zonas de passagem, acabando quase toda a gente por se cruzar na mesma, em particular nos centros comerciais. Num caso, observei como uma fila para uma loja se estendia por uma escada próxima, sendo perfeitamente inútil manter um ou dois metros de distanciamento, quando essa mesma escada estava a ser usada permanentemente por quem subia/descia.

(o problema não é apenas nosso, em outros países atingiram-se novos máximos de contágios e mortes devido à conjugação da irresponsabilidade individual com a miopia ou ambiguidade das convicções e prioridades das lideranças políticas)

Se 2021 continuar em ziguezague, à espera que as vacinas produzam efeitos só de olharmos para as embalagens das peças televisivas, vamos ter más notícias durante muito tempo. O “equilíbrio” entre medidas de segurança e os imperativos económicos tem oscilado claramente para o lado destes e é inútil estarem a afirmar o contrário e particularmente hipócrita entre os defensores do “supremo valor da vida”, se acabam por o submeter ao circunstancialismo das convenções económicas e financeiras. Qualquer mediano conhecedor de História Económica sabe que quase tudo aquilo em que se suporta actualmente a “Economia” se liga mais ao sistema financeiro do que à produção e mesmo comercialização dos produtos; a “produção de riqueza” depende muito pouco do “trabalho” convencional, mas muito mais de manobras bolsistas, fluxos financeiros e esquemas contabilísticos, mas não me apetece vir neste dia dar uma de pós-marxista ou ainda levo uma bazucada dos especialistas instantâneos em “economia global”.

Resumindo… olhando daqui, 2021 não me parece muito diferente da segunda metade de 2020, quando ao medo real do vírus sucedeu o medo de uma “crise” que até dá algum jeito dramatizar para melhor ocultar velhas incompetências e antigos pecados, que se tentam fazer passar desapercebidos. E é isso que serve para alimentar e quase dar alguma substância à miríade de teorias que apontam a culpa de tudo (e mais um par de cuecas rotas) do “capitalismo global” ao “marxismo cultural”. Porque o tal “equilíbrio” desapareceu de quase todo o lado e agora passa por “radical” quem não alinha em nenhuma das narrativas em confronto.