Onde É Que Eu Já Li Que O Problema São As Pessoas, Não O Modelo Conceptual?

Matias Alves escreve uma carta aberta ao novo ministro – que de novo tem apenas o estatuto fornal – sobre o que é preciso mudar no sistema de ensino. Até estou globalmente de acordo com o que lá vem, porque é suficientemente vago para se prestar a diversas apropriações.

Talvez por isso mesmo é que acho especialmente irrelevante a parte que é dedicada às “lideranças tóxicas” (sim, há outros temas, mas agora gostaria de me concentrar neste quinto e último ponto do seu texto), porque descrevendo-as, mas não colocando em causa o modelo que as torna mais fácil a sua existência, é como aquela de dizer que a culpa é dos humanos que não sabem colocar em prática ideias brilhantes, só que eventualmente não apropriadas a esses mesmos humanos.

Escreve Matias Alves:

São modos de liderar que coartam a liberdade de pensar e de organizar, que fazem do controlo o modo de afirmação da autoridade, que desprezam as inteligências que poderiam iluminar os problemas concretos e as soluções possíveis. Lideranças que são, por isso, a sua negação concetual, pois não lideram, não estimulam, não ativam vontades e recursos, não construem comunidade.

Não é a primeira vez que leio ou ouço alguém admitir a existência de lideranças abusivas ou tóxicas, mas sem ter a coragem de avançar para a contestação clara do modelo único de gestão escolar. gente que defende o trabalho colaborativo entre os professores, mas que nega a possibilidade de lideranças colegiais com base na Lei e não apenas na “luz” das boas lideranças. Gente que acha que o modelo está certo, há é quem não o saiba aplicar. Pessoal que defende a “descentralização” do sistema educativo, mas depois insiste na sua centralização a nível local.

E que negam haver uma evidente contradição nas suas posições. Dirão que é “flexibilidade”, claro. Não é bem assim.

Como caricatura… a culpa das guerras (intra e inter) religiosas ao longo da História não é das religiões, em especial as de tendência universalista/totalitária, mas de quem nelas acredita, sem aparentemente as perceber. E assim se justificam massacres ao longo dos séculos. Ou que a culpa foi do Estaline e do Mao, não das teorias que procuraram aplicar e levaram ao morticínio de milhões (claro que agora podem dizer que os gulag ou a revolução cultural foram construções dos media ocidentais).

Vamos lá ser claros:

  1. Lideranças tóxicas existem em todo o tipo de modelos de gestão, escolar ou outra. Isso é óbvio.
  2. Mas há modelos que, pela sua natureza e características, se prestam com maior facilidade ao aparecimento de fenómenos tóxicos.
  3. O actual modelo de gestão escolar presta-se mais ao abuso pela sua natureza unipessoal, centralista e pela lógica de dependência hierárquica que gera, com uma pessoa a estar presente em todos os órgãos de administração das “unidades orgânicas”, colocando em causa a independência de alguns desses órgãos e permitindo uma “porosidade” da circulação de informação. Como se, por exemplo, o primeiro-ministro pudesse estar sempre presente nas reuniões das lideranças dos grupos parlamentares ou tivesse assento permanente em órgãos como o Conselho Superior da Magistratura ou no Tribunal Constitucional, mesmo que apenas com o estatuto de observador.
  4. Um bom líder não precisa de um processo de entronização e é aquele que não se sente inseguro no contexto de uma equipa que não esteja na sua dependência pessoal.
  5. Pelo que este modelo de gestão necessita urgentemente de uma reforma, antes que se perca por completo a memória do que foram as direcções colegiais, em que se sabia desde logo quem ia fazer o quê, escolhidas fora de órgãos em que parte dos elementos fica na sua dependência em matérias como horários (via presidência do CP) e avaliação do desempenho (via presidência da SADD).
  6. Essa reforma deveria ser, necessariamente, no sentido de alargar as alternativas em termos da constituição da equipa directiva, do universo eleitoral e da limitação de mandatos na direcção e não apenas no cargo de director@. Fora outras “minudências” no sentido de evitar evidentes oportunidades de tráfico de influências ou de protecção dos abusos pela tutela, desde que não façam algo demasiado escandaloso.

Enquanto nos mantemos nas generalidades, nos retoques, nos enxertos a preceito, estaremos sempre vulneráveis a direcções abelhudas que abusam dos seus poderes, instrumentalizando os CP e CG ou, pura e simplesmente, negando-lhes o poder de se pronunciar de forma vinculativa, e não apenas consultiva, sobre certas matérias.

No seu texto, Matias Alves usa termos como “refundação” ou expressões como “profunda revisão”. Acho bem, mas devemos ser claros quanto às linhas vermelhas que estamos dispostos a traçar ou atravessar.

Contra Os Relativismos E Tibiezas!

Nada como como factos “objectivamente verificáveis”.

Ainda estou a sorrir, em tons amarelados muito desmaiados, de uma comunicação interna de uma “unidade orgânica” em que se admite que uma decisão avança, apesar do parecer contrário do CP e do CG, porque @ director@ entende que deve ser assim e prontosssss. E perante uma realidade que assim é, “objectivamente verificável”, nada a fazer no reino deste modelo de gestão escolar do “quero, posso e mando”, mesmo quando se diz para efeitos de demagogia que não deveria ser assim.

Foi Você Que Pediu Uma “Gestão De Proximidade”?

Agora calculem quando for tudo municipalizado. São apenas 2 de 4 páginas, em que se demonstra que os ímpares devem ter o seu tempo gerido sem pressão, que é para trabalharem bem e de forma eficaz. E tomarem o seu cafézinho para manter a boa disposição. Apaguei, mas o documento integral é assinado e rubricado por todos os elementos da direcção deste agrupamento, algures no país.

Correndo O Risco De Incorrer Na Fúria Dos Deuses Das Leis… 2

Ia orgasmando intelectualmente quando cheguei ao ad libitum até perceber que era apenas a versão extensa do corriqueiro ad lib e nada libidinoso. Não duvido que tudo esteja de acordo com as vírgulas reticências de todos os normativos, constituindo uma peça antológica da burrocracia escolar nacional. Se vivem num regime assim, lamento e percebo que queiram fugir mais depressa do que através da estrada de Lviv. Mas quer-me parecer que é mesmo isso que @ escriba deseja. Até porque é fácil perorar-se sobre a pontualidade e assiduidade alheias quando se tem a possibilidade de definir o próprio horário.

Obviamente, retirei desta “informação operacional” a identidade d@ autor@, porque ainda levo com mais alguma insinuação de processo por causa de qualquer coisa que não me lembro. A vitimização até já lá está nos meandros do “tratado”. E nem sequer ainda explorei bem se por aqui não andará nada que possa ser contestado ao abrigo da alínea b) do artigo 45º do C.P.A.

Percebe-se assim melhor ao que pode chegar a volúpia do poder sobre quem se detesta e se quer atingir na dignidade pessoal e profissional, ao abrigo de um legalismo e de um modelo de gestão escolar que se diz querer combater.

Está-se aqui a perder um@ grande director@-geral é o que é.

Já Quanto A Isto, Por Cá Não Vejo Grande Êxodo No Horizonte

Há quem não largue os cadeirões por nada e há quem os almeje com a força de uma ambição adiada. É esperar por 2023 e ver o tipo de “renovação” que teremos. Se não passará tudo de uma passagem de testemunho ou se a “nova geração” de lideranças trará algo que valha a pena e não passe apenas por se verem livres do quotidiano com aqueles alunos que, da boca para fora, tanto afirmam adorar e ser o sentido de todas as suas “inovações”.

School Leader Crisis: Overwhelmed by Mounting Mental Health Issues and Public Distrust, a ‘Mass Exodus’ of Principals Could be Coming

Divergências

Estava a ler mais uma petição parlamentar do Luís S. Braga, neste caso no sentido da “limitação a 3 mandatos da possibilidade de reeleição consecutiva de Diretores/as de Escolas e Agrupamentos de Escolas”. Concordando com a bondade da ideia original, discordo, contudo, desta alteração demasiado “cirúrgica”, quer no plano político, quer num aspecto mais técnico da proposta, mesmo não sendo jurista, aspirante a tal ou sequer interessado em fazer um novo curso na área

A discordância política é a de se considerar que mais ou menos um mandato d@s director@s é o problema prioritário deste modelo de gestão escolar. Eu discordo do modelo de gestão unipessoal e muito mais ainda por ser o único modelo disponível, não discordo apenas de um dos seus detalhes operacionais. Assim como discordo da lógica da escolha em modelo de colégio eleitoral, num órgão onde @ própri@ director@ tem assento em todas as sessões, mesmo que não tenha direito a voto nas decisões. E não me parece que, lá por ser mais fácil mudar um artigo do que uma lei, se deva centrar o debate num ponto único de uma lei que, desta forma indirectamente se considera aceitável. Não acho que as energias devam ser canalizadas, em especial quando a maioria d@s director@s mais antig@s no cargo já esgotaram os seus mandatos, mesmo com a leitura muito benigna que o ME fez da legislação, para este detalhe. Ou bem que se enfrenta o erro da gestão unipessoal como modelo único ou bem que ficamos pelas “pintelhices”, como diria o catroga.

A discordância técnica tem a ver com o facto de, com o resto do articulado, o quarto mandato não ser uma “eleição”, mas sim uma recondução. Pelo que quando se sugere que não deve ser “permitida a eleição para um quarto mandato consecutivo ou durante o quadriénio imediatamente subsequente ao termo do terceiro mandato consecutivo”, o que está em causa (basta ler todo o artigo 25º do 75/2008 para perceber que há 2 eleições e 2 reconduções) não é uma eleição, que só pode acontecer (por via do Conselho Geral) no 1º e 3º mandatos. Nos 2º e 4º mandatos o que existe é uma recondução. Pelo que, em termos práticos, a proposta contém uma imprecisão relevante, pois não existe qualquer “eleição para um quarto mandato”. Se com coisas claras a tutela e os operacionais do modelo no Parlamento retorcem por completo as coisas, o que farão quando elas vão retorcidas de origem.

Mas o essencial é que eu não concordo com medidas que tornem mais aceitável a utilização do garrote. Sou contra o garrote, ponto final.

(apostilha em jeito de declaração de interesses: nunca quis, não quero ou sequer consideraria qualquer possibilidade de vir a participar num órgão de gestão executiva, vulgo direcção, que não seja escolhido de forma colegial, com uma lista a votos em colégio aberto… logo eu que sou acusado de individualista extremo; já fiz parte de um Conselho Geral, mas foi integrado em lista, colocada a votos de todos os docentes do meu agrupamento… e não interessa aqui desenvolver porque me pus a andar a meio do segundo mandato)

Um Inegável Aroma A Podridão- 2

Confesso que nem sei bem como ou por onde começar. Digamos que, para evitar desentendimentos, pedi a documentação disponível acerca desta situação para confirmar o que me foi d(escrito) por colega que lidou de perto com tudo isto. Irei transcrever o que me enviou e anexar uma imagem apenas para efeitos de demonstração da existência (e meu conhecimento) dos elementos de prova do que refere. Adicionalmente, confirmei os nomes entre a lista das progressões, a sinalização das classificações de “mérito” e os nomes que ocupam os referidos cargos de gestão. Como é óbvio, não divulgo nenhuns elementos nominais, para não dar azo a azares.

Tudo isto é triste, tudo isto é aviltante, mas, curiosamente, não é propriamente “ilegal”, no sentido mais restrito do termo e muito menos para os conceitos largos dos serviços centrais do ME que tutelam estas matérias. Se for feita qualquer denúncia ou é arquivada ou nem sequer é considerada digna de averiguações. É o resultado de um modelo de gestão com um pecado original que, quando cruzado com o de avaliação do desempenho, desagua nesta coisa pútrida.

Sobre o seu último post: no meu agrupamento foi pública a ADD, em documento afixado na sala dos professores a propósito das datas de progressão, e nenhum “zeco” teve direito a classificação de muito bom ou excelente (apesar de vários terem tido excelente na avaliação externa pois pediram aulas assistidas) acima de bom foi a Diretora, o marido desta e subdiretor, duas das adjuntas, a assessora jurídica e a coordenadora do 1 ciclo de uma escola (haverá ainda um outro muito bom que será de uma ex-coordenadora que mudou para outro QA). Em conversa com a amiga de outra escola, que é coordenadora e teve o seu muito bom, ela explicou que na escola dela também é assim, o Diretor até aconselha as adjuntas quando hão-de pedir a avaliação para que possam ter mais que bom e progredir mais depressa. Haverá forma de se saber se de facto é assim todas as escolas, e se os cargos de chefia e os membros da SADD escolhem estrategicamente ser avaliados pelo geral ou não e a sua avaliação é manipulada para lhes garantir que as magras quotas ficam para si.

Podem confirmar que existem apenas 6 vagas de “mérito” para os vários universos dos docentes de carreira, tendo eu confirmado que 4 foram para os membros da direcção que, para isso, terão passado para o “regime geral” (a directora entra em outro regime de avaliação), sacando a maioria das vagas do resto do pessoal. Resumindo… a maralha que fique pelos Bons que as lideranças é que são munta boas.

4ª Feira

Estou com um acesso de demagogia matinal, a propósito desta altura do ano em que há sempre quem destaque o tanto que as direcções necessitam preparar para o arranque do ano e como os “incentivos” são escassos para assegurar tais funções. Antes de mais, uma forte redução da componente lectiva para todo o ano (há quem fique com apenas uma ou duas turmas) e o tal suplemento remuneratório (que não me choca, desde que depois não se queixem do irs e tal), são umas pequenas ajudas para tamanhas responsabilidades. Em seguida, gostava mesmo de saber se há muitos agrupamentos ou escolas com tantos lugares directivos por ocupar (proporcionalmente, claro) quanto horários de professores com horários “normais” por preencher. Porque pelo que observo, há turmas sem professores em várias disciplinas o ano quase todo, mas não me consta que o mesmo se passe a nível da “gestão”.

A Pontinha De Um Enorme Icebergue

Porque o que aí anda de resvalanços na legalidade, com palmadinha nas costas dos serviços do ME, é uma coisa assustadora. A sensação de impunidade, em especial de quem tem o cartão certo ou um par de números de telefone directos, é algo que repugna. Ainda me lembro de quando era preciso mandar foto bem clarinha da lista de pessoas presentes em reuniões para as quais eram requerido quórum para tomar decisões. Agora… basta uns likes no tapete de Arraiolos e segue para bingo.

A aposta é que ninguém queira levar com as consequências de levantar ondas ou tenha a pachorra, tempo e dinheiro para ir para tribunais a sério. Mas, quando a coisa vai por aí, como neste caso e na Madeira, percebe-se até que ponto a tutela pactua com ilegalidades óbvias.

Tribunal manda repetir eleição de director escolar que ministério tinha homologado

Alguém Andou A Dormir…

… no Conselho Administrativo. Porque é demasiado dinheiro para se assinar de cruz. No Conselho Geral as contas já aparecem cozinhadas e com escassa capacidade de verificação. E quem quiser verificar bate com a cabeça no muro ou mandam berrar-lhe.

Funcionária apropriou-se de 267 mil euros do carregamento dos cartões escolares e transferiu quase 170 mil euros para a conta bancária pessoal.