4ª Feira

Estou com um acesso de demagogia matinal, a propósito desta altura do ano em que há sempre quem destaque o tanto que as direcções necessitam preparar para o arranque do ano e como os “incentivos” são escassos para assegurar tais funções. Antes de mais, uma forte redução da componente lectiva para todo o ano (há quem fique com apenas uma ou duas turmas) e o tal suplemento remuneratório (que não me choca, desde que depois não se queixem do irs e tal), são umas pequenas ajudas para tamanhas responsabilidades. Em seguida, gostava mesmo de saber se há muitos agrupamentos ou escolas com tantos lugares directivos por ocupar (proporcionalmente, claro) quanto horários de professores com horários “normais” por preencher. Porque pelo que observo, há turmas sem professores em várias disciplinas o ano quase todo, mas não me consta que o mesmo se passe a nível da “gestão”.

A Pontinha De Um Enorme Icebergue

Porque o que aí anda de resvalanços na legalidade, com palmadinha nas costas dos serviços do ME, é uma coisa assustadora. A sensação de impunidade, em especial de quem tem o cartão certo ou um par de números de telefone directos, é algo que repugna. Ainda me lembro de quando era preciso mandar foto bem clarinha da lista de pessoas presentes em reuniões para as quais eram requerido quórum para tomar decisões. Agora… basta uns likes no tapete de Arraiolos e segue para bingo.

A aposta é que ninguém queira levar com as consequências de levantar ondas ou tenha a pachorra, tempo e dinheiro para ir para tribunais a sério. Mas, quando a coisa vai por aí, como neste caso e na Madeira, percebe-se até que ponto a tutela pactua com ilegalidades óbvias.

Tribunal manda repetir eleição de director escolar que ministério tinha homologado

Alguém Andou A Dormir…

… no Conselho Administrativo. Porque é demasiado dinheiro para se assinar de cruz. No Conselho Geral as contas já aparecem cozinhadas e com escassa capacidade de verificação. E quem quiser verificar bate com a cabeça no muro ou mandam berrar-lhe.

Funcionária apropriou-se de 267 mil euros do carregamento dos cartões escolares e transferiu quase 170 mil euros para a conta bancária pessoal.

A Ler

Sentir a injustiça na pele é muito pedagógico. Aliás, seria uma forma da acabar com a patologia silenciosa que destrói o clima relacional na administração pública — com um pico inquestionável no exercício dos professores — e que nem a pandemia atenuou.

Phosga-se – Série “As Presenciais” – 3

Uma boa síntese do “processo democrático” do debate em muitas escolas.

Amigo, o diretor começou o pedagógico a dizer que ia ser assim. Um colega perguntou se já estava decidido pois o CP é um órgão consultivo, como bem sabes; antes de ele responder eu pedi para falar e lembrei o aumento de casos diários e acumulados, bem como as indicações
da DGS. Estivemos mais de 1 hora [a discutir, mas] como ele já tinha decidido, decidido ficou.
Opinião final: neste modelo de gestão o Reitor é soberano.

Outro caso, não muito diferente, mas pelo menos com votação, que parece ter sido ganha por quem não terá assim muitas turmas.

 Durante este ano letivo, temos tido reuniões online, mas também presenciais. As reuniões de avaliação serão presenciais. Não tivemos, ou não há explicação. Houve quem tenha pedido esclarecimentos à Direção e foi chamado à atenção. A decisão foi tomada em Conselho Pedagógico e só um Coordenador votou a favor de serem online.

(como nas duas localidades em causa, até há Sé Catedral, dá sempre para fazer uma forte benzedura antes da ida para as reuniões)

A Antiguidade É Um Posto Na Avaliação Dos Directores!

Ou seja, quanto mais tempo sentados nas cadeiras do poder, melhor, de acordo com o artigo 14º da Portaria n.º 266/2012 de 30 de Agosto.

Dizem-me que este ano houve umas dezenas de notas máximas (10), mas só 5 tiveram direito a Excelente e 21 a Muito Bom, vindo os restantes parar ao Bom, um pouco à imagem do que acontece com o pessoal mais raso. E tudo abaixo de 10 teve de ficar pelo Bom, pelo que percebo deste post do Arlindo.

O que a mim espanta nem é o aumento que se verificou nas notas máximas este ano (afinal, há por aí tanta gente xalente a mandar), mas sim o facto de ainda ninguém se ter queixado de o desempate ser feito com base no tempo no cargo ou de serviço. Afinal, não querem rejuvenescer a classe? Poderiam começar pelo topo e não dar o “prémio” a quem está quase mumificad@ no lugar.

(e não haverá uma chuvita de recursos?)

Por outro lado, eu até acharia de “interesse público” conhecer quem foram os 5 e os 21 que ganharam os “prémios” em disputa, seja para seguirmos o exemplo de tais faróis da gestão escolar, seja para termos uma espécie de edição de um Global Director Prize ou um Diretor do Ano, com menções honrosas e tal e direito a fotos e chamadas à imprensa nacional para exporem a sua visão sobre a Educação e como a sua vocação foi estarem tanto tempo longe das salas de aula.

Não me levem muito a mal… é que Portugal ia empatando contra 10 croatas (não fosse a ajuda do guarda-redes deles) e apeteceu-me descarregar um pouco a bílis.

6ª Feira

Como a semana está a terminar vou-vos aqui contar uma história sobre o modo como na “nova normalidade” se pode fazer tudo e mais alguma coisa, ignorando todo e qualquer resquício de democracia interna.

A coordenadora de departamento dessa colega colocou atestado médico no início do ano por causa da covid por ser manifestamente de risco. Sendo necessário substituí-la no cargo – até porque a situação que levou ao atestado está longe de ter resolução à vista – deveria ser feita a tal eleição entre três elementos designados pela direcção.

Só que o director, cada vez mais habituado a um regime feudal de fidelidades, decide nomear para o cargo um colega, sem qualquer consulta do departamento e muito menos eleição, parece que com o argumento de ser tudo “temporário”. Só que o colega em causa, apesar de vassalo fidelíssimo, nem sequer poderia entrar na referida eleição, a ser cumpridas as regras mínimas que estão na lei. Ou seja, é das pessoas em posição mais baixa na carreira. E, em boa verdade, vai ser coordenar (temporariamente, claro) pessoas que poderiam ser na larga maioria suas avaliadoras. E exercer uma posição de superioridade hierárquica formal em relação a delegad@s de disciplina um ou mais escalões acima deste “temporário” coordenador.

Mas tudo acontece “naturalmente”, sem contestação, sem prestação de contas e com muita sensação de impunidade porque, a bem dizer, há quem tenha chegado há tanto tempo ao topo e sentindo que pode fazer o que entende sem qualquer risco, até porque se por hipótese surgisse alguma questão, poderia sair sem perda material nenhuma.

A colega contou-me a história, pediu anonimato, claro, e sabe que esta é a “nova normalidade”, pelo que nem estranhou que eu lhe tivesse respondido o que respondi, o que por agora não vou partilhar, excepto que tem muito a ver com o que chamo “xalência de largo espectro”.

Uma Natural E Esperada Vítima Da Pandemia…

… foi o último resquiciozinho de democracia participativa em muitas escolas. Com a desculpa da emergência, a preparação do próximo ano lectivo foi feita sem qualquer tipo de colaboração a partir das “bases” ou com qualquer verdadeira verificação “exterior” aos grupos muito fechados e iluminados que tudo quiseram que ficasse a seu cargo. Mas, como o exemplo vem de cima, tudo o que possa correr menos bem a partir de Setembro será responsabilidade de quem não soube “operacionalizar” as brilhantes instruções superiores. Eu sei que isto já era assim em muitos lados, mas agora as excepções são ainda mais excepcionais.

Com mais ou menos conversa de afectos e abnegações, o modelo napoleónico impôs-se. MLR rejubila em seu gabinete de reitora, pois conseguiu que a tal “elite” dirigente, separada dos zecos, se tornasse a norma. Mas a detestada História ensina que todas as derivas totalitárias têm o seu fim à espera.

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Meu Caro Filinto, Andas A Ver O Filme Quase Às Avessas

Como o título da prosa remete, de forma que me parece evidente (mesmo se há um outro principal visado no texto), para um texto meu publicado há menos de duas semanas, gostaria de fazer alguns reparos sobre o que fica escrito, pois me parece que quem anda a abrir a porta à intromissão de não-professores nas escolas é quem está a aceitar sem grande resistência a “descentralização de competências” que coloca a direcção dos agrupamentos e escolas na dependência directa das autarquias, para além da já existente em relação ao ME.

Claro que falo por mim, que há muitos anos (vai para uma dúzia e o Filinto sabe bem o que eu disse num congresso da andaep) estou contra este modelo de gestão e defendo o regresso à possibilidade – repare-se que é a mera possibilidade – de existir uma direcção colegial e eleita como equipa por toda a comunidade escolar. O Filinto sabe que eu conheço o modelo, pois estive a presidir a um Conselho Geral durante meia dúzia de anos, até achar que a reforma a partir de dentro se vai tornando praticamente impossível.

Vamos lá então ler partes da argumentação do colega director Filinto Lima, que aprecio pessoalmente, mas a quem já disse sem filtros ou intermediários que ele e tantos outros deveriam ter a coragem de voltar a dar aulas. Escreve ele:

Queremos ter nas escolas uma administração e gestão por nomeação política? Queremos ter gestores como diretores nas nossas escolas sem experiência de docência? Eis algumas das questões essenciais e às quais urge dar respostas ponderadas e justas.

Não, não queremos, mas quem é que está, na prática, a deixar cristalizar uma situação em que @s director@s cada vez estão mais distantes do exercício efectivo da docência? Para quando um estudo sobre o tempo médio de permanência no cargo d@s director@s em exercício? 10 anos? 20 anos? Ou ainda mais? Qual a mediana e a moda da distribuição? Sim, entraram uns quantos depois de 2008, mas esses podem ficar, como os anteriores, pelo menos até 2025. É muito tempo. E o facto de se desenvolverem formações específicas para as “lideranças” cada vez as afastam mais dos professores comuns. A “gestão escolar” é cada vez mais uma função distinta de ser professor. Sim há quem tenha já sido professor. Mas quando?

Sim, o Filinto tem uma certa razão na ferroada que espeta no líder da Fenprof ao afirmar “recuso  veementemente o pressuposto de que falte “gestão democrática nas escolas” e estranho tal declaração quando o responsável máximo da entidade que a expressa tem sido sucessivamente eleito por delegados representantes de sócios”.

Mas seria interessante que as organizações representativas d@s director@s (Andaep, Ande, Conselho de Escolas) dessem um exemplo de que estão claramente contra o modelo único de gestão e que tiram consequências do que fica escrito:

(…) queremos ter nas escolas uma administração e gestão por nomeação política? Queremos ter gestores como diretores nas nossas escolas sem experiência de docência? Com a extensão do processo de descentralização a todo o país, desejamos correr o risco da aplicação imposta dos “jobs for the boys”?

Não queremos, nós, a maioria dos professores nas escolas. E, pela parte que me toca, estou farto de avisar que o actual modelo de gestão se adequa que nem uma luva à subordinação hierárquica unipessoal. E que a municipalização trará isso em larga escala. Mas tenho pregado para a parede.

Se o Mário Nogueira (que não é nomeado, mas que é que está a ser visado em parte da prosa) anda a tentar fazer prova de vida com petições que podem acabar mal, é questão pela qual só ele e quem o mandou eleger se poderá responsabilizar, quando ainda há pouco tempo mandava desconfiar de iniciativas deste tipo, por abrirem a porta a mudanças imprevisíveis e indesejadas.

Mas, é por isso mesmo que a Andaep, a Ande e o Conselho de Escolas deveriam apresentar propostas suas, detalhadas, claras e abertas ao regresso do modelo colegial e à eleição pelos pares.E teriam o meu – ínfimo – apoio e aplauso.

Em vez de se lamentarem se algo se passar de mau. E se a imparidade aumentar.

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