Meu Caro Filinto, Andas A Ver O Filme Quase Às Avessas

Como o título da prosa remete, de forma que me parece evidente (mesmo se há um outro principal visado no texto), para um texto meu publicado há menos de duas semanas, gostaria de fazer alguns reparos sobre o que fica escrito, pois me parece que quem anda a abrir a porta à intromissão de não-professores nas escolas é quem está a aceitar sem grande resistência a “descentralização de competências” que coloca a direcção dos agrupamentos e escolas na dependência directa das autarquias, para além da já existente em relação ao ME.

Claro que falo por mim, que há muitos anos (vai para uma dúzia e o Filinto sabe bem o que eu disse num congresso da andaep) estou contra este modelo de gestão e defendo o regresso à possibilidade – repare-se que é a mera possibilidade – de existir uma direcção colegial e eleita como equipa por toda a comunidade escolar. O Filinto sabe que eu conheço o modelo, pois estive a presidir a um Conselho Geral durante meia dúzia de anos, até achar que a reforma a partir de dentro se vai tornando praticamente impossível.

Vamos lá então ler partes da argumentação do colega director Filinto Lima, que aprecio pessoalmente, mas a quem já disse sem filtros ou intermediários que ele e tantos outros deveriam ter a coragem de voltar a dar aulas. Escreve ele:

Queremos ter nas escolas uma administração e gestão por nomeação política? Queremos ter gestores como diretores nas nossas escolas sem experiência de docência? Eis algumas das questões essenciais e às quais urge dar respostas ponderadas e justas.

Não, não queremos, mas quem é que está, na prática, a deixar cristalizar uma situação em que @s director@s cada vez estão mais distantes do exercício efectivo da docência? Para quando um estudo sobre o tempo médio de permanência no cargo d@s director@s em exercício? 10 anos? 20 anos? Ou ainda mais? Qual a mediana e a moda da distribuição? Sim, entraram uns quantos depois de 2008, mas esses podem ficar, como os anteriores, pelo menos até 2025. É muito tempo. E o facto de se desenvolverem formações específicas para as “lideranças” cada vez as afastam mais dos professores comuns. A “gestão escolar” é cada vez mais uma função distinta de ser professor. Sim há quem tenha já sido professor. Mas quando?

Sim, o Filinto tem uma certa razão na ferroada que espeta no líder da Fenprof ao afirmar “recuso  veementemente o pressuposto de que falte “gestão democrática nas escolas” e estranho tal declaração quando o responsável máximo da entidade que a expressa tem sido sucessivamente eleito por delegados representantes de sócios”.

Mas seria interessante que as organizações representativas d@s director@s (Andaep, Ande, Conselho de Escolas) dessem um exemplo de que estão claramente contra o modelo único de gestão e que tiram consequências do que fica escrito:

(…) queremos ter nas escolas uma administração e gestão por nomeação política? Queremos ter gestores como diretores nas nossas escolas sem experiência de docência? Com a extensão do processo de descentralização a todo o país, desejamos correr o risco da aplicação imposta dos “jobs for the boys”?

Não queremos, nós, a maioria dos professores nas escolas. E, pela parte que me toca, estou farto de avisar que o actual modelo de gestão se adequa que nem uma luva à subordinação hierárquica unipessoal. E que a municipalização trará isso em larga escala. Mas tenho pregado para a parede.

Se o Mário Nogueira (que não é nomeado, mas que é que está a ser visado em parte da prosa) anda a tentar fazer prova de vida com petições que podem acabar mal, é questão pela qual só ele e quem o mandou eleger se poderá responsabilizar, quando ainda há pouco tempo mandava desconfiar de iniciativas deste tipo, por abrirem a porta a mudanças imprevisíveis e indesejadas.

Mas, é por isso mesmo que a Andaep, a Ande e o Conselho de Escolas deveriam apresentar propostas suas, detalhadas, claras e abertas ao regresso do modelo colegial e à eleição pelos pares.E teriam o meu – ínfimo – apoio e aplauso.

Em vez de se lamentarem se algo se passar de mau. E se a imparidade aumentar.

MAfalda1

 

A Ler

Leitura muito interessante (e cuja referência agradeço à AC) para quem fala muito em “mudanças de paradigma”.

Mudança na permanência em educação: Os agrupamentos de escolas e a reemergência do sentido identitário

(…)

O agrupamento emerge, assim, como um chavão conceptual, uma realidade sombra que serve fins essencialmente racionalizadores, mas que é secundarizado ou mesmo descartado enquanto contexto real de escolarização. No fundo, quando tudo parece mudar no interior da instituição escolar – gestão, liderança, avaliação, relações de poder, trabalho em rede, articulação organizacional –, o peso da “forma escolar” impõe-se como pilar estruturador das representações e das práticas.

(…)

A heterogeneidade dos contextos que compõe o agrupamento desafia a sua governação quotidiana, exigindo uma estrutura de gestão em rede, processos de organização do trabalho mais descentralizados e de proximidade às escolas agrupadas. Porém, perante uma instituição cada vez mais plural, instituiu-se um modelo de gestão singular, personificado na figura do Diretor. A malha de atuação alarga, mas o exercício da gestão estreita. E no centro desta dissonância ressurge mais um sloganno léxico educativo – a liderança enquanto radar capaz de tudo transformar, incluindo a cultura e a identidade do agrupamento. Mas até que ponto será possível, no contexto de um (mega)agrupamento, desenvolver uma efetiva liderança para além do mero exercício de gestão (Bush, 2019)? Não estaremos, uma vez mais, a recorrer a uma “anda conceptual” para retratar uma realidade que já não existe? Ou se existe, em que termos se expressa e a partir de que mecanismos?

Funil

Sociologia Superficial Do “Mau Ambiente Vivido Nas Escolas”

Há teses que, de forma recorrente, voltam à baila por falta de melhores pensamentos. A guerra velhos/novos, em especial quando quase não há novos é ridícula. Até porque mesmo alguns de meia idade estão mais velhos do que os velhos e os velhos são por vezes bem mais jovens do que os mais novos. Há uns anos levei o José Ruy (já na altura com mais de 80 anos) a fazer uma palestra sobre BD à miudagem de 10 anos e acreditem que há quem, com 30, 40 ou 50 tenha muito menos capacidade comunicativa e pedagógica.

Uma tese, com algum fundamento, mas que dificilmente se pode considerar que é apenas agora que acontece, é que a ADD está a contaminar as relações no interior das escolas, agora que o descongelamento começou a revelar as injustiças do “modelo”. Sim, tem o tal fundamento, mas se só agora deram por isso, onde andam desde 2008?

Temos ainda a questão da “inovação” da “flexibilidade” e da capacidade de uns se adaptarem ao que se diz serem as “pedagogias do século XXI” e os mais resistentes à coisa de alinharem com as prédicas do SE Costa e seus clones que por aí andam. Nas últimas semanas ouvi pelo menos duas prelecções (uma feminina, outra masculina) que parecem decalcadas do mesmo molde e que, no fundo, contribuem para azedar os espíritos, ao exigirem sempre mais dando em troca apenas umas palmadinhas nas costas. Sim, esse tipo de discurso, quando replicado nas escolas e sustentado em práticas de certa forma “clientelares” tem criado divisões perfeitamente desnecessárias, pois em muitas situações apenas temos quem opta por não fazer marketing do que é rotina há décadas.

Pessoalmente, acho que tudo desajuda, mais os reposicionamentos e ultrapassagens diversas, mas que o que acaba por envolver todos estes factores que, por si só, seriam insuficientes para o tal “mau ambiente” é um modelo de gestão que deixa a maior parte dos professores a sentir-se excluídos dos processos de decisão, mesmo quando é feita uma espécie de encenação de “participação”.

Quando comecei a dar aulas tive a sorte de não calhar em escolas “históricas”, daquelas em que certos “cadeirões” nas salas de professores tinham titulares reservados e em que havia “professor@s” e os “outros”, leia-se, efectivos de velha cepa e contratados em trânsito. Em que quem mandava eram pequenas cliques, podendo eventualmente existir alguma rotatividade, até porque existiram eleições a partir do 25 de Abril de 1974 e eu já cheguei bem depois disso à docência.

O que me custa é perceber que agora começam a avolumar-se os velhos “cadeirões” e que começam a enquistar-se feudos e coutos pelas escolas, em que alguns decidem por muitos e os mecanismos de “trabalho colaborativo” não passam de colocar uma correia de transmissão a fazer mover uma engrenagem de sentido único, em que se cristalizam clientelas.

Mas fala-se muito em “cidadania”, em “flexibilidade”, em “autonomia”. Mas pratica-se muito pouco uma verdadeira responsabilização e muito menos a confiança. E quanto aos “cadeirões” há uns que parecem tronos. E, isso sim, envenena qualquer ambiente em que uns passaram a ser ímpares porque deixámos de ser pares.

O resto são amendoins.

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O Grande Cisma Escolar

Que se vai agravando a cada ano (ou mesmo mês) entre as cúpulas e as bases, acabando por satisfazer de forma “póstuma” a actual “reitora” do iscte que eu ouvi, num congresso da andaep, lamentar que os directores tivessem resistido até então (já lá vão uns anos, ainda não se sabia que iam ter corda solta de mandatos até 2025, mesmo os que são contemporâneos da dinastia de bragança) a constituir-se como um “corpo” próprio no interior das escolas. É um cisma profundo entre o que sente o corpo docente e o que agora passa por ser a “voz das escolas”.

No recente inquérito da Fenprof acerca da aplicação do dl 54 veja-se a forma diametralmente oposta como respondem uns e outros.

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Mas como se sabe… quem acha que está mal é porque não teve “formação” ou não a compreendeu, porque a desqualificação profissional dos docentes tem passado muito por dar a entender que eles não compreendem as mudanças em curso, coitados, pois foram formados no século XX com teses do século XIX, só faltando acrescentar que se o foram foi com aulas dadas por esta mesma malta que agora se diz muito século XXI. Ou tendo-os como colegas de “estágio”, só que não souberam aplicar as coisas.

Autonomia Para Quem?

Discordo, por exemplo, daquela ideia de poderem contratar 25-30% do corpo docente, porque se qualquer professor”zeco” tem a obrigação de motivar os 100-150-200 alunos que lhe entram pela porta dentro, também @s ilustres senhor@s director@s deverão mostrar o que valem com o material humano de que dispõem.

Quanto à “autonomia” perdida para o poder local, têm algo a dizer?

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) pediu hoje coragem ao ministro da Educação para renovar a escola pública e devolver-lhe “alguma da autonomia perdida”.

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Das “Escolas”?

Está a decorrer hoje e amanhã.

2.º Congresso das Escolas

O evento realiza-se nos dias 14 e 15 de Novembro, na Fundação Calouste Gulbenkian, com o objetivo de discutir a pedagogia das escolas, com o sistema educativo e os alunos como foco central do debate.

Organizado pela Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, pela Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, a Associação Nacional de Dirigentes Escolares e Associação Nacional de Escolas Profissionais, o 2º Congresso das Escolas terá um conjunto de conferências sobre “A escola num mundo de inteligência artificial”, com Paulo Novais, presidente da Associação Portuguesa de Inteligência Artificial enquanto orador.

O programa. O painel 4 de hoje desperta-me receios. Ou o painel 9, amanhã.

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