A Cada Nova Temporada De Avaliações Que Chega…

… é impossível não pensar na enorme transformação burocrática do processo de avaliação dos alunos, com cada nova camada de procedimentos registados em impresso adequado a transferir mais uma parcela da responsabilidade pelo sucesso dos alunos para os professores, ao ponto que quase nada resta para aqueles. O aluno não aprende? É de quem ensina! O aluno falta às aulas? A culpa é dos conteúdos chatos e das pedagogias arcaicas! O aluno está-se nas tintas para as matérias? É porque os conteúdos são enciclopédicos e dá-se História em vez de Gaming Holístico! O aluno nem coloca os pés na escola? É porque o professor não fez os contactos que deveria para o trazer!

É tema velho, mas não perde actualidade, antes ganhando vernizes novos ao serviço da demonstração da inovação (impressos 1 a 3c), da flexibilidade (documentos 4a a 7h) e da inclusão (anexos 8 a 10, não esquecendo a apostilha que vai identificada com o novo logotipo da república, da paróquia ou da freguesia). Estes são os dias em que aos professores é pedido que apresentem prova de que andaram a fazer alguma coisa e, de preferência, que tenham registado tudo ou estarão sujeitos a queixa, requerimento ou apenas ameaça ou assédio moral em diferentes modalidades.

E então quando há, a um ritmo quase anual, aquele prazer perverso de quem tem um tempinho de sobra para fazer um novo “desenho” do impresso de preenchimento obrigatório, passando as cruzes de alinhamento horizontal para vertical ou em vez de se fazerem cruzes em quadrados considerar-se melhor círculos em torno de cruzes?

Cruzes!

burr

Está De Volta A Rubrica “Phosga-se” – Série “A Idiotice À Desfilada”

O Joaquim Colôa encontrou e publicou no facebook. E eu acho que merece o destaque merecido por todos os disparates de quem defende abordagens holísticas e do aluno “como um todo”, mas depois aparece com grelhas deste tipo que são uma aberração desde a ideia à falta evidente de uma literacia gráfica digital que permita fazer uma coisinha que, ao menos, tenha bom aspecto.

Por acaso, este ano não vou aplicar a minha grelha para os alunos me avaliarem e caracterizarem. Anonimamente. Isso é que é giro.

Grelha 3P

Anuncia-se Uma Inaudita E Inovadora Chuva De Grelhas…

… a partir de hoje, com os grelhadores do costume no seu elemento a produzirem escalas de serviço para o tele-trabalho a desenvolver com denodo e abnegação. Aguarda-se a nomeação de voluntários para a verificação porta a porta. Ainda há pouco vi uma e ia tendo uma síncope (e foi a pensar nos alunos).

Grelha

O Triunfo Da Flexibilidade Grelhadora E Micro-Avaliadora

Dá quase sempre nisto. Falam em abordagem holística, criticam a rigidez pedagógica e o carácter redutor da avaliação e depois transformam tudo numa grelha absolutamente mirabolante (revelando ao mesmo tempo um fraco domínio do design de tabelas em word para o século XXI).

Quem elaborou isto que me perdoe (ou não)… até podem ser excelentes colegas a vários níveis, mas, numa qualquer curva do caminho, espalharam-se ao comprido na coerência, para não dizer em várias outras coisas. Sorte vossa que isto não seja avaliado por alguém com olhos de ver e conhecimentos a sério do que deve ser uma pedagogia diferenciada e individualizada.

Assim, talvez ganhem uma medalha do SE Costa e palmadinhas nas costas de um qualquer guru do pafismo educacional quando o forem visitar.

GrelhaNTA

 

Continuo A Interrogar-me

Não por ignorar a saída do paradoxo, mas porque observo diariamente (não necessariamente em proximidade, ok? quietem-se os que buscam pistas na evaporação do éter) quem diga promover a diversidade mas só usa abordagens e ferramentas formatadas há décadas e quem defenda muito a inovação e criatividade, desde que não se lhe conteste a fórmula. Abstenho-me – ou quase – de referir – a avaliação da tais competências para o século XXI com muitas cruzinhas e quantificações parametrizadas. Quem queira abordagens holísticas, desde que percentualizadas as partes.

Sei que me repito, mas é um maravilhamento que insiste em não me abandonar.

Mirror

@s Grelhador@s Nunca Deixaram de Estar Entre Nós

A operacionalização da Cidadania e Desenvolvimento (entre outras coisas do pafismo curricular) está a alimentar aquela estirpe de pessoas com um distúrbio bem identificado e que é o da grelhice crónica. Relembremos que a nova disciplina terá pouco mais de 30 aulas ao longo do ano lectivo. Sim, claro, a CD é uma área que se pode transversalizar e perpendicularizar numa perspectiva secante à tangente da inter/multidisciplinaridade. E vai daí, começam a sair coisas destas /atenção que isto faz parte de um pacote de sete documentos despejados sobre os operacionalizadores.

CidadaniaGrelha

(entretanto, vou começando a fazer um novo compêndio antológico de toda esta impetuosidade conceptualizadora-grelhista)

Eu Ainda Sou Do Tempo…

… em que quando se preparava uma reforma educativa com alguma profundidade se produzia mais do que legislação e powerpoints. Em que quem preparava a “reforma” produzia para o ME documentação explicativa (folhetos, pequenos livrinhos, “manuais” de maior dimensão) para distribuição (gratuita) pela escolas e professores ou, nos casos mais restritos, pelos Centros de Formação, como no caso de publicações do I.I.E. (se não souber o que significa é porque é um millenial). Sim, à medida que os anos 90 foram avançando, foi possível encontrar muita publicação (na Asa, na Porto, na Texto, etc) em que essas pessoas depois também assinavam obras de multiplicação do que estava escrito nos outros documentos.

Sim, havia casos em que parecia a mesma coisa, com outra roupagem. Nem de propósito, alguns dos nomes que se liam nessas obras são reencontráveis agora ou então até já passaram pelas secretarias do poder (ocorre-me coisas sobre o sucesso pelo inefável gualter e amig@s, quando ele ainda pensava ser do cds). Mas existia toda a documentação que o próprio ME disponibilizava. Lembro-me de passar pelo rés-do-chão da 5 de Outubro, pela Biblioteca e por lá existirem obras que podíamos trazer, até com estatísticas, sem ser necessário recorrer a fundos extra. Agora as coisas mudaram e com o pretexto da revolução digital, a única coisa que se desmaterializou – ao ponto da evaporação – foi o material de apoio, conciso, claro, sobre as reformas em implementação.

Circulam os tais powerpoints e em nome da “autonomia” espera-se que as elites da conceptualização grelhística produzam os documentos “locais” sobre o assunto. E, em alguns momentos, acontece o descalabro, mensurável pelo volume da documentação produzida em forma de exibição de saberes esotéricos que transformam o que deveriam ser instruções claras e “abertas” (ousaria qualificar como “flexíveis”) num arrazoado imparável.

Incluo em anexo o texto de um dos principais nomes (Joaquim Colôa) ligados à Educação Especial/Inclusiva que denuncia exactamente esta nova deriva de quem, por certo, terá menos aulas para dar do que a maioria e, sem qualquer dúvida, menos alunos em quem concentrar a sua atenção e esforço.

Acabei de descobrir uma organização que para implementar o tal de 54 já tem disponíveis 9 documentos/formulários + um novo manual interno… isto só para a “educação especial” (sim que isto das inclusões não é para devaneios multidisciplinares muito menos de toda a escola…. arrumadinhos na tal gavetinha é que ficam bem) + uns 3 ou 4 para o SPO (que estas coisas multidisciplinares não se misturam)… Se “inventarmos” que a “coisa” necessita de monitorização…. pressupomos que nascerão mais uns 3 ou 4 documentos/formulários (sim que isto do multiníveis é muito inovador e diz que a monitorização é muito importante)… Se o antes era muito burocrático… fico entusiasmado a imaginar quantos formulários/documentos conseguiram “abater” com tamanha inovação… pelas movimentações grupais e inspirações formativas já desconfiava mas agora tenho quase a certeza…. HÁ ZONAS DO PAÍS COM UM VINHO MUITA BOM!!!

Ainda bem que não sou apenas eu a escrever que a comitiva vai com velhas novas roupagens que só podem ter saído de cabeças preocupadas com tudo, na prática, menos com os alunos.

Stupid2