Dúvida Mesmo Parva

As pessoas de Direita não terão também direito à greve? E a ter sindicatos? Ou são obrigadas a pertencer a sindicatos ditos de “Esquerda” e a obedecer à sua lógica? A pergunta tem apenas um pouco a ver com a questão dos motoristas (é apenas a parte em que surgem aquelas tenebrosas e patuscas associações a um potencial financiamento “obscuro” da “direita internacional”) e muito mais com a liberdade que deve existir para todos exercerem direitos completos de cidadania. Se uma greve é de “direita” ou “esquerda” não é muito relevante, mas sim se os direitos dos cidadãos são respeitados de igual modo, independentemente da sua ideologia. Já é relevante que o pessoal muito de “esquerda pura” e que se reclama praticamente dono do código genético das liberdades se cale quando essas liberdades são atropeladas por um governo que apoiam, apenas porque os atropelados mesmas não são da sua cor.

E esta não é mesmo uma questão menor, porque ao longo dos últimos 15 anos, para não ir mais longe, a maioria das portas abertas aos abusos laborais por parte dos patrões (privados ou públicos) o foi pela mão do PS. Se depois outros aproveitaram isso? Talvez tivessem tido muito mais dificuldade se o ferrolho não tivesse sido retirado e a porta deixada ali entreaberta, mesmo à mão do primeiro empurrão. Nestes dois anos (2018-19) assistiu-se a um retrocesso evidente no respeito pelo direito à greve, fosse no sector público como no privado. Algo que vai ao encontro de reclamações antigas de alguma “Direita”, mas que está a ser uma pretensa “Esquerda” a colocar em prática. Até porque, no momento actual, o PSD e o CDS não podem com um hamster pelo rabo quanto mais com um gato de tamanho médio. O “papão” acenado é o de um PS “terceira via” que à maneira do Blair adoptou como suas muitas políticas conservadoras. Mas, nesse caso, tinha sido a Thatcher e o Major a abrirem a porta toda. Agora… é ao contrário.

Com isto, o PS consegue seduzir boa parte do eleitorado de um PSD à deriva e não perde grande coisa à esquerda visto que o PCP é o primeiro a perfilar-se contra “interesses obscuros” de cada greve mais incómoda (e a correr a assinar acordos) e o Bloco foi a banhos médio-burgueses como convém nos tempos que correm.

Rosas2

(já agora… lembram-se dos “serviços mínimos” no caso da greve dos professores, aceites pelo próprio representante dos sindicatos, os quais vieram a ser tardiamente declarados ilegais pelos tribunais? pois… foi o treino para os “serviços máximos” que a partir de agora terão precedente em qualquer reacção a greves chatas…)

32 Requisições Civis (1976-2019)

O balanço foi feito pelo DN na altura da 30ª requisição civil que recaiu sobre os enfermeiros (o Observador apenas retoma essa cronologia) . Acrescento as duas sobre os motoristas de matérias perigosas às contas.

Resumo por ano e primeiro-ministro:

  • 1976 – 1 (Mário Soares)
  • 1977 – 5 (Mário Soares)
  • 1978 – 1 (Mário Soares)
  • 1979 – 1 (Mota Pinto)
  • 1980 – 2 (Sá Carneiro)
  • 1981 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1982 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1983 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1986 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1988 – 2 (Cavaco Silva)
  • 1989 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1990 – 3 (Cavaco Silva)
  • 1992 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1997 – 1 (António Guterres)
  • 1998 – 1 (António Guterres)
  • 2000 – 1 (António Guterres)
  • 2004 – 2 (Durão Barroso/Santana Lopes)
  • 2005 – 2 (José Sócrates)
  • 2014 – 1 (Passos Coelho)
  • 2019 – 3 (António Costa) 

Anos com mais requisições: 1976 (5), 1990 (3) e 2019 (3).

Por décadas:

  • 1976-1979: 8.
  • 1980-1989: 9
  • 1990-1999: 6
  • 2000-2009: 5
  • 2010-2019: 4

Primeiros ministros com mais requisições civis:

  • Cavaco Silva com 8 (em 10 anos),
  • Mário Soares com 7 (em 2 anos no seu primeiro mandato, nenhuma no segundo, no governo do Bloco Central)
  • António Costa com 3 (em 4 anos).

Partidos a liderar governos com mais requisições civis:

  • PSD com 16 em 22 anos;
  • PS com 15 em 21 anos;
  • Uma em governo de iniciativa presidencial.

Períodos mais longos sem requisições civis: 1993-1996, 2001-2003, 2006-2013, 2015-2018.

clio

O Contributo Da Greve Dos Motoristas Para A Salvação Do Planeta

Detalhe nada irrelevante que tem passado ao lado de todo este debate. Porque ao limitar a utilização dos transportes, em especial os privados, está-se a reduzir a emissão de gases poluentes. Se fosse uma qualquer iniciativa, controlada à distância pelas jotas, em defesa do planeta A, sugerindo um ou dois dias sem recurso ao transporte automóvel até engalanariam o Terreiro do Paço. Mesmo quem anda, anda bem mais devagar para gastar menos. Basta ver como eu, longe de ser o pepe rápido nas auto-estradas, agora quase não saio da faixa da esquerda, mesmo indo bem abaixo do limite legal de velocidade. Uma coisa curiosa é que não tenho visto tantos ciclistas pelas estradas secundárias por onde passo.

Portanto, esta até pode ser vista como uma greve de interesse mundial.

PlanetaA

(já agora, a teoria da conspiração (do lado contrário) de que a corrida aos abastecimentos levou ao aumento da receita de gasolineiras e Estado é uma falácia, porque só se consome o combustível quando se anda e se andarmos o mesmo ou menos por estes dias… o saldo é nulo ou mesmo negativo. Porque depois de atestar, não é possível atestar de novo e aos aflitos de jerrycan na bagageira aplica-se o mesmo princípio)

6ª Feira

Quem o impacto ou eficácia de uma greve que não não tenha efeitos “negativos” que pressionem quem decide (seja o patronato formal ou informal)? Uma greve meramente simbólica vale tanto como um cravo na lapela no dia 25 de Abril. Fica bem, mas vale de pouco. É triste ver o direito à greve ser sucessivamente demonizado e espezinhado pelo nosso governo mais à “esquerda” desde 1976. Se era para isto, declaro-me mais do que arrependido por ter achado, em 2009 (primeiro manifesto em defesa de uma solução PS/PCP/BE) e 2015, que valia a pena experimentar.

cravo murcho