Os Bonifácios Encobertos

Espanta-me parte do alarido acerca de um texto de Maria Fátima Bonifácio que deveria ser acerca das quotas para candidatos a deputados de algumas etnias e acabou a resvalar para uma polémica sobre o racismo. Parte das pessoas mais exaltadas foram alun@s de MFB como eu e podem dizer muita coisa, mesmo sobre a sua inflexão ideológica, mas dificilmente que ela foi alguma vez não disse ou escreveu o que pensa, por muito desagradável que fosse. Tod@s ouvimos aquilo que em outros tempos passavam por ser aspectos de idiossincrasias pessoais e que nos nossos tempos do politicamente correcto se tornaram menos toleráveis. MFB sempre se esteve um bocado nas tintas para os efeitos do que dizia nos outros e isso não li nas prosas escritas sobre o seu texto e a sua personalidade. Li outras coisas. Mas isso agora não me interessa por aí além.

Incomoda-me mais que existam outras personalidades que pensam o mesmo, o dizem em privado, mas não tenham a coragem de o assumir em público. Que para “fora” passem a imagem de tolerância com tudo e mais alguma coisa quando são uns imensos hipócritas que ouvi (e não apenas eu) tecer considerações e adjectivações, em outros tempos e espaços, bem mais insuportáveis do que agora parece ter sido o texto de MFB. Ouvi tratar como “prostituto” um aluno homossexual por parte de quem não muito tempo depois apareceu associado a organizações defensoras dos direitos dos homossexuais. Mudou de crenças na idade madura? Duvido. Assim como ouvi (fui só eu?) a uma pessoa da mesma área académica (coloquemos as coisas assim) dizer, logo que um bom negócio editorial lhe colocou uma bela quantia na conta bancária, dizer que ia comprar um apartamento numa zona nobre de Lisboa, acrescentando em risota que só não queria ter ciganos por perto.

E é bom que se note que eu nem sequer era dado a “retiros”.

Acho curioso que muita gente ande a rasgar vestes porque MFB escreveu o que pensa (algo entre um Rui Ramos em dia mau e um André Ventura todos os dias), o mesmo que pensam outras personalidades notáveis da sua geração política e académica, só que  com a cautela de encobrirem nas sombras essas opiniões. É nestas alturas que se aplica o “eu sei que vocês sabem que eu sei que vocês sabem” como muita gente chegou onde chegou, o que passou, o que tolerou, o que calou e cala. O que MFB escreveu fica nos limites do (in)aceitável? Sim, mas eu também acho que outras pessoas fizeram coisas que passaram muito para além do aceitável.

E, parafraseando outro grande vulto do nosso tacanho país, vocês sabem bem do que e de quem estou a falar… mas nunca quiseram falar disso porque ainda hoje não querem queimar-se, passado tanto tempo desde a vossa iniciação à hipocrisia como modo de ascensão na horizontal. Ou transversal. Whatever titillates them…

malandro

(por exemplo, alguém que passou pela fcsh com os olhos abertos nos anos 80-90 não sabia de certas tendências e gostos de um nosso brilhantinado filósofo? foi preciso chegar a escândalo nacional televisionado?)

 

Aconselho Vivamente…

… e sem quase nenhuma ironia a leitura do início da crónica (online está só mesmo esse início, mas a versão completa é digna de moldura, mais uma) do intocável MST no Expresso de hoje contra a independência do Ministério Público. Depois dos lamentos e remoques pessoais, diz que a sua posição sobre um dos pilares do Estado de Direito é fruto de “longa e ponderada reflexão” e não das suas birrinhas. E um tipo nem chega a rir-se porque ele é mesmo capaz de acreditar no que escreve e esse é o maior problema.

hipocrisy

É Nestas Alturas Que Apetece Dizer… “Façam Como Eu Digo, Não Façam Como Eu Faço…”

E talvez seja melhor não desenvolver o tema pois “pimenta nos olhos dos outros é colírio nos meus”. Porque a hipocrisia atinge os píncaros quando se aconselha o que não se quis enquanto “utente” do sistema. É como a outra que meteu os seus no privado, porque “dá mais oportunidades”. Uma outra alternativa é, agora que me safei, os outros que se lixem.

E quanto “aos bons olhos até ao 9º ano” muito haveria a dizer sobre o processo de mistificação em curso, mas depois aparecem aqui os controleiros oficiais e dizem que eu sou má língua e mau carácter apenas porque aponto factos concretos, nada alternativos e muito menos com relativismos pós-modernos e truques de linguagem.

“As escolas devem olhar para o que se aprende e não para a avaliação”, defendeu hoje João Costa, lamentando que o programa de autonomia e flexibilidade curricular continue a ser visto com bons olhos apenas até ao 9.º ano.

João Costa tentou hoje desmistificar os receios de insucesso académico dos alunos nos exames nacionais por frequentarem escolas com flexibilidade curricular.

Frade

(depois das “semanas de chumbo”, voltou à superfície… mas não é por não ter andado por aí a espalhar o Verbo não praticado… só que tem tanto medo de dar a cara em tempos agrestes quanto de perder o ar de grande amigo dos professores)

 

 

 

E O Meu Caro, Excelentíssimo Henrique Monteiro, O Que Fez A Esse Respeito?

Afinal, é um senador da comunicação social do regime, com espaço privilegiado e fixo para denunciar todas estas coisas… o que fez? Sim, sabíamos de onde Berardo vinha, mas há uma assimetria imensa entre o acesso de uns e outros ao espaço mediático para o dar a conhecer. Com tanta oportunidade podia ter feito alguma coisa, mas o que fez, caro comendador fictício das cartas a tentar a pilhéria?

Toda a gente se indignou com o modo de estar, a fanfarronice, o desbragamento de Joe Berardo no Parlamento. Não sou exceção. Há, no entanto, uma diferença substancial entre as indignações que se ouvem: aquelas de quem nada podia fazer e aquelas de quem podia ter feito alguma coisa. A estes, recomendo que se interroguem como foi possível alguém cujo passado era de todos conhecido, chegar ao ponto a que chegou.

Vanishing