António Sérgio Em 1918

Há pois necessidade inadiavel de duplicar a produção do País, assegurando ao mesmo tempo um melhor equilíbrio das suas classes, uma mais justa distribuição dos encargos e beneficies, e actividades mais  concordes para o bem da comunidade.
Isto exige, imperativamente, transformações profundas e imediatas na estrutura social e na do Estado (onde tantíssimos elementos, e de vária espécie, concorrem para tolher e comprimir as saudaveis fôrças de produção, e agravar a voracidade do parasita a cada novo esfôrço do seu hóspede) e entre elas, em primeiro togar, a difusão do crédito, pondo-o ao alcance de todas as classes produtoras e operárias. De aí se desfiaria, ponto por ponto, uma série de medidas financeiras (reforma do Banco de Portugal e da Caixa Geral dos Deposites; desvio para as actividades produtoras dos capitais confiados aos estabelecimentos bancários do país, etc., etc.), a que se ligariam sistematicamente certas medidas de fomento (fornecimento de maquinismos, materias e garantias ás actividades agrícola, industrial e mineira; incitamento á exploração dos jazigos carboníferos e cursos de agua; desenvolvimento dos transportes e reforma dos contractos de serviços públicos, etc.), correspondentes reformas sociais (generalização da riqueza com maior justiça distributiva dentro dos princípios da propriedade; desenvolvimento do mutualismo, e outras) correlativas medidas pedagogicas (transformações nas escolas normais, no ensino primário, secundário e técnico; colaboração íntima da indústria e das escolas superiores, no sentido de estimular as iniciativas e as suas capacidades de criação ; adopção de novos metodos de ensino, e, finalmente, preparação social do professor, do padre, do medico de aldeia) porisso que cada uma dessas medidas não poderá atingir o seu pleno efeito sem o concurso convergente de todas as outras.  (Pela Grei, nº 1, p. 5)

Ouroboros

Exige-se Alguma Honestidade Intelectual A Quem Parece Defender O Mesmo…

… que eu defendo, mas o faz de forma tendenciosa e falacciosa. Irene Flunser Pimentel clama em defesa da História, da Filosofia, da Memória, etc, mas afirma que o faz “num momento em que estão sob o fogo da extrema-direita e do nacional-populismo”.

Ora bem… em Portugal a recente reforma flexibilizadora do currículo permitiu fatiar a História no Ensino Básico aos semestres, manteve a Filosofia na sombra e elevou a Educação Física a disciplina dominadora ao serviço do Homem Novo e Saudável, enquanto um governante considerava “enciclopédicas” disciplinas como as atrás nomeadas, defendendo transversalidades praticamente sem conteúdo substantivo em nome de um “perfil do século XXI”. Essa reforma foi feita por um governo do PS, com o apoio do Bloco e do PCP. O que eu gostava mesmo é que quem bate muito no peito como sendo de “Esquerda” me explicasse esta situação à luz dos seus conceitos.  Adianto desde já que não me choca nada classificar o regime costista como uma espécie de “nacional-populismo”. O que tem a historiadora Irene Pimentel a dizer acerca disso ou, como aqueles que critica, vê as coisas apenas preto e branco?

Até porque escreve que:

O populismo — lembro — caracteriza-se por dividir o mundo a preto e branco, entre, por um lado, o “povo” (bom), entidade colectiva perfeita e trabalhadora, e, por outro lado, as elites (más), sejam elas culturais, sociais, profissionais e/ou políticas, pois todas seriam corruptas e nada fariam pelo “bem comum”.

Ora… isto aplica-se que nem uma luva a muita da governação actual e à retórica política que a suporta. O ataque à História, Filosofia, Artes e Humanidades é transversal ao espectro político e é comum a todo o tipo de mentalidades tacanhas, parolas e pretensamente pós-modernas. Mas com o ponto comum da deriva censória. A que não são estranhas as práticas de cert@s historiador@s de um lobby situacionista que eu conheço mais do que bem.

bla bla

 

O Depoimento Para O Educare (Com Direito A Uma Espécie De Adenda Ministerial)

Embora esteja muito bem transcrito na peça sobre as reservas de Tim Oates acerca do trajecto do sistema educativo finlandês, fica aqui todo juntinho.

Quando se analisam os resultados de um sistema educativo com bom desempenho devemos ter sempre em consideração um conjunto de variáveis que, por definição, não são invariáveis para todas as sociedades e momentos históricos.
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Em países como a Finlândia, o “sucesso” ficou a dever-se à conjugação de diversos factores como:
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  • Uma alfabetização quase total da população desde o início do século XX, o que permite que as famílias funcionem como um “activo” para os alunos sempre que precisam de acompanhamento para as suas tarefas e estudo fora da escola.
  • Uma grande homogeneidade cultural e étnica da população, que remete a questão da “inclusão” para nichos específicos de problemas de aprendizagem e não para a necessidade de incorporar minorias que têm maior dificuldade em assimilar um modelo curricular pensado para uma realidade específica.
  • Um baixo nível de desigualdade socio-económica que permite que os alunos partam numa situação de razoável igualdade de oportunidades, sem necessidade de fortes mecanismos compensatórios nas escolas.
  • A opção, até por razões geográfico-demográficas, por escolas com uma dimensão média ou pequena que permitem uma relação de proximidade entte as escola e as comunidades.
  • Uma forte consciência ética e de responsabilização pessoal pelo desempenho académico (ou profissional) que torna redundante legislações de tipo impositivo.
Este modelo lida muito bem com sociedades de países desenvolvidos, com baixa diversidade étnica e cultural ou crescentes bolsas de pobreza, assim como, curiosamente, está pouco preparado para lidar com uma verdadeira diversidade. O leque de “diferença” nas escolas finlandesas é muito mais baixo do que nas nossas, assim como as necessidade de mecanismos “inclusivos”.
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Quando se elogiou muito o modelo finlandês (ou outros do norte da Europa) esqueceu-se este tipo de realidade que começou um processo de forte erosão nos últimos 20 anos. A Suécia, ainda antes da Finlândia, demonstrou que a chegada de grupos culturais minoritários e algum agravamento da desigualdade socio-económica levava a uma pressão sobre o sistema educativo para o qual ele não estava preparado, começando os resultados a declinar (como aconteceu com a própria Alemanha).
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O século XXI não é, por paradoxal que isso seja para algumas ideologias, o mais adequado ao modelo finlandês, exactamente porque o seu dinamismo está limitado pela natureza da sociedade finlandesa tradicional.
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No caso de Portugal, nunca se reuniram as condições acima referidas, pelo que nunca se atingiu um patamar de desenvolvimento educacional semelhante ao finlandês durante o século XX e quando se insiste em tentar emular algumas das suas soluções estamos a fazê-lo no momento errado, nas circunstâncias erradas.
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Por falta de conhecimentos de História dos sistemas educativos, os nossos “especialistas” e diversos governantes têm tomado opções erradas por isso mesmo, tal como Tim Oatees refere:
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brainstorm
Mas eis que o nosso ministro Tiago nos anuncia ao mundo (a partir de Castela) como o novo farol da Educação mundial:
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“No hay que ser impositivos: cuando confías en las escuelas, responden”

Portugal se ha convertido en un referente mundial en mejora educativa y pedagogías innovadoras. Es la nueva Finlandia.

A História (Lá Fora)

Fewer Students Are Majoring in History, But We’re Asking the Wrong Questions About Why

(…)

Commentators have asserted that economics are driving this trend. Since the recession of 2008, the conventional wisdom goes, students and parents are exercising cost-benefit analyses when it comes to higher education, determining that the high costs of attending college necessitate pursuing degrees with higher earnings potential upon graduation. In response, some universities have undertaken cost-benefit analyses of their own. The University of Wisconsin-Stevens Point plans to eliminate its history major. Other schools have reduced funding and eliminated positions.

Mas nem todos por lá são como os flexibilizadores costistas de cá:

First and foremost, we should not mistake the headline for the entire story. Despite the downturn in undergraduate enrollments, history as a discipline remains vibrant in many respects.

At Yale University, history is the top major among its the class of 2019. At the graduate level, public history — a field focused on communicating the subject to a non-academic audience — is blossoming, with more than 150 Masters programs nationwide. The number of new history PhDs has increased steadily over the past 30 years. And history majors get hired for numerous jobs in numerous sectors, earning good salaries in the process.

clio