Porque Será…

… que num livro onde até se afirma que a História e a memória são importantes para as aprendizagens e para tudo aquilo que fica bem proclamar (mas nem sempre praticar) se apague por completo a experiência da Gestão Flexível do Currículo quando se aborda a questão da flexibilidade curricular? Será esquecimento (é verdade que nem toda a gente passou por ela) ou incómodo em admitir que nada está a ser inventado de novo e que, na altura realmente na viragem para o século XXI, a experiência falhou? Mas não interessa analisar (criticamente, claro) as razões… ou sequer relembrar o passado…

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(sim, já li quase todo o livro dos JC’s, mas estou a dar um espaço para respirar antes de ir às partes mais demagógicas…)

O Que Me Interessa Muito…

… é detectar os nacos de hipocrisia de quem ao sair, quer dar a entender que não disse e fez uma série de coisas que efectivamente fez e disse, ao contrário do que agora escreve, recorrendo a malabarismos, truncagens e silogismos diversos. É por isso que ler um confuso elogio dos conhecimentos de história (assim, escrita à moderna com minúscula) dos alunos (pp. 28-32 do livro de que o actual SE Costa é co-autor) me bate mal, quando confronto essas páginas com declarações públicas produzidas há menos de três anos já quando era governante.

O currículo foi sendo vítima do empilhamento de conteúdos. Nas últimas duas décadas nunca se produziu tanto conhecimento e a escola foi absorvendo. A disciplina História é exemplo disso, passam dez, quinze anos e lá vem mais um capítulo para o programa de História. São conteúdos sem fim que não dá para fazer mais do que despejar e esquecer no dia a seguir, descartando o conhecimento”.

Mas depois escreve-se, pelo meio de alguma verborreia de trabalho breve para a cadeira de Teoria da História de curso bolonhês, o seguinte (p. 31, mas podia ter usado outra passagem):

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Repare-se que eu não estou contra o que se escreve agora, mas sim contra o que se disse (que a cada 10-15 anos era preciso saber mais conteúdos de História recente)  e o que se fez antes, nomeadamente ao nível da salamização curricular da História, semestralizada em aprendizagens anedóticas que fazem lembrar aqueles livros para totós. Se a História progride em conhecimentos, a solução é reduzi-los ou ao tempo disponível para construir o “conhecimento histórico” que se elogia em 2019 depois de em 2016 se afirmar que era para esquecer no dia seguinte?

E temos todo um primeiro capítulo em que é possível encontrar este tipo de “desconformidades”, como o elogio das artes depois de se ter concretizado a total terraplanagem desta componente no currículo. Nos dois casos com o colaboracionismo, mais ou menos consciente, de certas organizações “académico-profissionais”.

Nem sempre o verbo pode apagar a práxis. As palavras são importantes, mas quando correspondem aos actos.

Por Itália

Parece que por cá (e não só) há gente espantada com o poder que a extrema-direita vai tendo no país onde surgiu o Fascismo (o original), onde depois da Segunda Guerra Mundial existiu uma operação clandestina com apoio internacional para manter a Democracia Cristã no poder durante décadas, se necessário com o envolvimento de uma milícia secreta com contornos neo-fascistas para afastar as pretensões da esquerda, onde o MSI foi legalizado logo em 1946 e apoiou diversas soluções governativas até aos anos 90 graças a votações entre os 2 e os 3 milhões de eleitores (sendo em 1992 eleita deputada Alessandra Mussolini, neta de Benito sem complexos em assumir a sua herança política), onde Berlusconi foi primeiro ministro por três vezes entre 1994 e 2011, com duas vitórias eleitorais já neste século e depois de tudo o que se sabia sobre ele.

Pelos vistos, nem foi preciso semestralizar a História, para muita gente ter apenas as lombadas do Círculo dos Leitores na estante da sala e não perceber nada do que nos rodeia ou como chegámos aqui. A perda da Memória tem coisas destas, surgem espantos quando apenas temos continuidade; pode ser uma continuidade infeliz, mas não deixa de o ser. banging-head-against-wall

(se calhar, acham que certos massacres feitos nos anos 30 e 40 – de judeus e não só – não foram feitos com a colaboração activa de muita gente de países exteriores ao “Eixo”, que com ele colaboraram de forma voluntária… da Checoslováquia à Ucrânia, não esquecendo a própria França, Holanda…)

32 Requisições Civis (1976-2019)

O balanço foi feito pelo DN na altura da 30ª requisição civil que recaiu sobre os enfermeiros (o Observador apenas retoma essa cronologia) . Acrescento as duas sobre os motoristas de matérias perigosas às contas.

Resumo por ano e primeiro-ministro:

  • 1976 – 1 (Mário Soares)
  • 1977 – 5 (Mário Soares)
  • 1978 – 1 (Mário Soares)
  • 1979 – 1 (Mota Pinto)
  • 1980 – 2 (Sá Carneiro)
  • 1981 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1982 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1983 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1986 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1988 – 2 (Cavaco Silva)
  • 1989 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1990 – 3 (Cavaco Silva)
  • 1992 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1997 – 1 (António Guterres)
  • 1998 – 1 (António Guterres)
  • 2000 – 1 (António Guterres)
  • 2004 – 2 (Durão Barroso/Santana Lopes)
  • 2005 – 2 (José Sócrates)
  • 2014 – 1 (Passos Coelho)
  • 2019 – 3 (António Costa) 

Anos com mais requisições: 1976 (5), 1990 (3) e 2019 (3).

Por décadas:

  • 1976-1979: 8.
  • 1980-1989: 9
  • 1990-1999: 6
  • 2000-2009: 5
  • 2010-2019: 4

Primeiros ministros com mais requisições civis:

  • Cavaco Silva com 8 (em 10 anos),
  • Mário Soares com 7 (em 2 anos no seu primeiro mandato, nenhuma no segundo, no governo do Bloco Central)
  • António Costa com 3 (em 4 anos).

Partidos a liderar governos com mais requisições civis:

  • PSD com 16 em 22 anos;
  • PS com 15 em 21 anos;
  • Uma em governo de iniciativa presidencial.

Períodos mais longos sem requisições civis: 1993-1996, 2001-2003, 2006-2013, 2015-2018.

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Meta-Nazismo

Em especial, mas não só, sobre o papel da meta-anfetaminas (em especial por via do “medicamento” Pervitin) na deriva hitleriana e na forma como foi possível uma guerra-relâmpago da Polónia a Paris.

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A Douta Ignorância

Uma senhora doutora “psicóloga das organizações”, investigadora e docente algures surgiu há uns dias a afirmar coisas que dão vontade de rir para quem não chumbou todos os anos na disciplina de História. De acordo com a senhora doutora psicóloga investigadora “o tempo do emprego para a vida foi um momento de exceção na história”.

E eu não percebo de que “História” está ela a falar? Da do tempo dela?

Mas ela acha mesmo que na História a “regra” foi a da flexibilidade e da mudança rápida de emprego?

Será que os escravos na Roma Imperial o eram só durante alguns meses? Ou os agricultores da Mesopotâmia ou do Antigo Egipto estavam em permanente mobilidade laboral? Os soldados espartanos tinham contrato a termo certo? E os camponeses e artesãos ao longo dos séculos da Idade Média e Antigo Regime? Terá a senhora doutora da organizações e psicóloga da investigação a noção de que não se devem tomar 50 anos por toda a História?

Pelo contrário, até ao século XX, a “regra” foi a da permanência da larga maioria da população na profissão dos pais e avós, a qual transmitiam a filhos e netos.

Mesmo no período da Expansão, com deslocação de muita gente para os impérios coloniais, isso foi não passou de uma pequena minoria à escala europeia e mundial. O único período em que se deu uma mudança mais massificada da mão-de-obra entre sectores de actividade (a industrialização, com o êxodo rural para as cidades industrializadas da Inglaterra e algumas zonas da Europa continental) foi circunscrita inicialmente no espaço e decorreu ao longo de várias décadas. E depois dessa mudança, voltou a “estabilização”. O antigo agricultor, lavrador ou artesão tornou-se operário e assim ficou. A mobilidade social e profissional foi quase sempre muito limitada. E mesmo no século XX, as mutações causadas pelas guerras não conseguem, em perspectiva histórica, alterar a “regra”. Sendo que o mundo ocidental “atlântico” até foi “historicamente” mais dinâmico do que a generalidade das outras sociedades. Pelo que a situação vivida nas últimas décadas é que é uma novidade.

Mas o forte da senhora doutora psicóloga não é claramente a História. Ou então foi aluna de alguma esquecida experiência-piloto de semestralização.

Idiotas

António Sérgio Em 1918

Há pois necessidade inadiavel de duplicar a produção do País, assegurando ao mesmo tempo um melhor equilíbrio das suas classes, uma mais justa distribuição dos encargos e beneficies, e actividades mais  concordes para o bem da comunidade.
Isto exige, imperativamente, transformações profundas e imediatas na estrutura social e na do Estado (onde tantíssimos elementos, e de vária espécie, concorrem para tolher e comprimir as saudaveis fôrças de produção, e agravar a voracidade do parasita a cada novo esfôrço do seu hóspede) e entre elas, em primeiro togar, a difusão do crédito, pondo-o ao alcance de todas as classes produtoras e operárias. De aí se desfiaria, ponto por ponto, uma série de medidas financeiras (reforma do Banco de Portugal e da Caixa Geral dos Deposites; desvio para as actividades produtoras dos capitais confiados aos estabelecimentos bancários do país, etc., etc.), a que se ligariam sistematicamente certas medidas de fomento (fornecimento de maquinismos, materias e garantias ás actividades agrícola, industrial e mineira; incitamento á exploração dos jazigos carboníferos e cursos de agua; desenvolvimento dos transportes e reforma dos contractos de serviços públicos, etc.), correspondentes reformas sociais (generalização da riqueza com maior justiça distributiva dentro dos princípios da propriedade; desenvolvimento do mutualismo, e outras) correlativas medidas pedagogicas (transformações nas escolas normais, no ensino primário, secundário e técnico; colaboração íntima da indústria e das escolas superiores, no sentido de estimular as iniciativas e as suas capacidades de criação ; adopção de novos metodos de ensino, e, finalmente, preparação social do professor, do padre, do medico de aldeia) porisso que cada uma dessas medidas não poderá atingir o seu pleno efeito sem o concurso convergente de todas as outras.  (Pela Grei, nº 1, p. 5)

Ouroboros