Há Quem Diga Que Não Mudou

(mas é verdade que é gente com mais de 120 anos… pelo menos mentalmente…)

Children at Millbank Primary in Cardiff are celebrating its opening in 1902 and learning what school was like at the start of the 20th century

Outras Alcateias

Um excelente e muito documentado artigo do António Araújo sobre a juventude fascista em Itália. Curiosamente, dos 4 aos 8 anos, os Balillas eram conhecidos como “filhos (ou filhas) da loba”. E não que em outras paragens também havia “pioneiros”? Deve ser por isso que me desgostam sempre este tipo de organizações.

Os rapazes Balilla vestiam farda de camisa negra e calção verde e, desde muito cedo, recebiam doutrinação política e formação paramilitar. As meninas Balilla, denominadas Piccole italiane (Pequenas Italianas), vestiam camisa branca e saia negra. O lenço azul era comum.

Com diferenças de vocabulário e estilo, os comunistas soviéticos também arregimentavam as crianças. Aí, os  Balillas chamavam-se Pioneiros. Na Coreia do Norte ou em Cuba ainda hoje existe a organização dos Pioneiros.

A História Cercada – 2

Texto escrito antes do que foi divulgado há cerca de uma semana no blogue da FFMS, mas que acabou por ficar para trás, por causa da actualidade da guerra. O “díptico” acaba por aparecer na ordem inversa, mas percebe-se a ideia. É provável que ainda seja por lá publicado, mas fica desde já por aqui, nem que seja para dar a ideia de que sou relativista, mas apenas q. b.

A História enquanto área de estudo e descrição do passado humano, encontra-se mais uma vez num período crítico, cercada por tendências opostas que alegando a sua defesa, apenas a procuram instrumentalizar e esvaziar, quer da sua capacidade de descrição e compreensão do passado, quer do seu contributo para a contextualização do presente.

Por um lado, temos o retorno de movimentos nacionalistas, fortemente identitários e exclusivos, que procuram radicar na História as suas opções actuais no sentido de expansionismos, separatismos ou isolacionismos, enquanto por outro temos as tendências auto-proclamadas “críticas”, herdadas de um pensamento pós-moderno, pós-colonial, neo-feminista e o que mais possamos identificar, que reclama a rescrita da História à luz de um conjunto de valores contemporâneos que se apresentam como universais, no tempo e espaço, mesmo se servidos numa bandeja relativista. O que só é paradoxal até certo ponto. Em especial se cruzarmos tudo com as “guerras da linguagem” que se têm travado nas últimas décadas em torno do vocabulário “certo” a usar na comunicação e ensino da História.

Vou recuar quase um quarto de século (Maio de 1998) e recordar uma sessão, em Paris, da Conferência Internacional Vasco da Gama e a Índia, destinada a assinalar os 500 anos da abertura da rota do Cabo e da chegada dos portugueses por via marítima ao litoral indiano, em busca de “cristãos e especiarias”, sendo que aqueles já se sabia não existirem por lá, sendo estas o verdadeiro motivo de uma viagem longamente preparada. Na mesa, um historiador português exaltava o feito de Vasco da Gama e prosseguia com o elogio da singularidade da instalação lusitana no Oriente, que ele caracterizava como tolerante e pacífica, por comparação com as práticas posteriores de outras potências europeias. A assistência, formada por portugueses, franceses, ingleses, canadianos, australianos, indianos, entre outros, mantinha aquela compostura protocolar própria deste tipo de iniciativas que funcionam em circuitos fechados, quase sem verdadeiro debate, em que a cortesia é a de se cumprimentar muito os palestrantes, o seu contributo (sempre brilhante ou estimulante ou inovador ou…), cumprir-se a formalidade de uma questão mais ou menos técnica e quase sempre muito específica colocada por um elemento do público, e seguir em frente para o próximo utilizador do microfone. Coisa que comigo funciona mal, sempre com um défice claro nestas coisas do verniz académico. E questionei, chegada a minha vez, o orador sobre essa “singularidade” da presença portuguesa, pois, desde o primeiro momento, o Gama deixou claro que ou lhe arranjavam as especiarias ou descarregaria pólvora sobre Cochim, tendo cumprido a sua palavra até satisfazerem o seu pedido. Ou seja, os portugueses tinham sido tolerantes (e foram-no em muitas ocasiões, mas quase sempre por mero pragmatismo) desde que fosse feito o que pretendiam. Caso contrário, bombarda neles. O que era típico da época e da prática dos que se sentiam mais fortes.

Notou-se embaraço no inquirido, enquanto os sorrisos se espalhavam no rosto de vários participantes indianos (e não só). A resposta foi sendo dada com a lentidão e circunlóquios típicos nestas ocasiões até o “moderador” declarar que o tempo estava esgotado e era mesmo necessário passar à apresentação seguinte. No intervalo, senti-me fulminado por alguns dos presentes, enquanto era cumprimentado pelos outros, os sorridentes.

Pretendia eu com aquela intervenção apoucar a figura de Vasco da Gama e dos seus feitos, nomeadamente da sua viagem de descoberta de uma longa rota até então nunca feita por europeus? Estava a retirar-lhe a aura de um dos obreiros da grande abertura comercial do mundo que marcaria o século XVI? Nada disso. Estava apenas a tentar que fosse feita uma descrição equilibrada dos factos, interpretados à luz dos valores daquele tempo. O Gama fez o que tinha ido fazer, da forma como então era suposto ser feito, de acordo com as circunstâncias. Nos dias de hoje, podemos considerá-lo um “imperialista”, um “militarista”. Em 1498, esses conceitos nem existiam e as práticas que lhes associamos eram consideradas de outra forma, muito mais positiva, heróica mesmo. Devemos esconder isso, recorrendo a artifícios de linguagem, a conceitos contemporâneos, sem explicitar essa divergência de contextos?

A leitura do passado à luz do presente não é algo novo, mas já deveríamos ter ultrapassado essa tentação, em especial se o fazemos de forma selectiva. Porque ouço e leio muita gente a querer derrubar estátuas de “imperialistas” e “racistas” e a rever a História da Expansão europeia, mas não encontro uma vontade equivalente na caracterização de outras sociedades. Ainda me lembro do escândalo provocado pelo filme (certamente exacerbado na sua brutalidade quase demencial) Apocalypto de Mel Gibson, como se fosse ficção a existência de sacrifícios humanos nas sociedades pré-colombianas. Recentemente, foram descobertas centenas de crânios nas ruínas da antiga capital asteca [i], deixando pouca margem para dúvida a respeito destas práticas. Devemos ocultá-las, para não passarmos por produtores de visões “colonialistas”?

Em outras longitudes, estaremos preparados para caracterizar as grandes sociedades e culturas do Extremo-Oriente (China, Japão) como extremamente xenófobas no seu isolacionismo e enorme desconfiança em relação a todos os que não consideravam como seus durante séculos e séculos? Estarão os “purificadores” da História Ocidental, disponíveis para uma abordagem das relações entre os povos asiáticos (como dos africanos) à mesma luz aplicada ao Gama, a Colombo ou a Albuquerque?

E qual é o papel do professor de História perante isto? Perante os seus alunos? Qual é o seu “dever”? Perante alunos de diferentes idades, condições, credos, origens culturais? Procurar apresentar uma verdadeira “História Global”, com origem nos anos 60, em que todas as culturas merecem ser tratadas com igual dignidade, mas também com igual imparcialidade em relação às suas características? Ou fugir aos temas complexos, procurar versões assépticas, para ninguém incomodar, ninguém perturbar, ninguém ofender?

Nem de propósito… como reagir quando os alunos, mesmo muito novos, nos inquirem sobre os acontecimentos no leste europeu? Com toda a dificuldade que isso acarreta, procuro em muitos momentos seguir o que há 2500 anos Tucídides já descrevia como as exigências da sua missão, que era a do “historiador”, tal como ele ajudou a defini-la na prática. Que se aplicam a quem escreve, mas também a quem ensina, História e não tem dela a ideia de uma disciplina que só interessa instrumentalizar de acordo com os sabores e conveniências do dia.

“Deve-se olhar os fatos como estabelecidos com precisão suficiente, à base de informações mais nítidas, embora considerando que ocorreram em épocas mais remotas. (…) O empenho em apurar os fatos se constituiu numa tarefa laboriosa, pois as testemunhas oculares de vários eventos nem sempre faziam os mesmos relatos a respeito das mesmas coisas, mas variavam de acordo com suas simpatias por um lado ou pelo outro, ou de acordo com sua memória. Pode acontecer que a ausência do fabuloso em minha narrativa pareça menos agradável ao ouvido, mas quem quer que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em consequência de seu conteúdo humano, julgará a minha história útil e isto me bastará”. (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso; Brasília/São Paulo: Editora Universidade de Brasília; e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001)


[i] “Feeding the gods: Hundreds of skulls reveal massive scale of human sacrifice in Aztec capital”, Science, 21 de Junho de 2018 (cg. https://www.science.org/content/article/feeding-gods-hundreds-skulls-reveal-massive-scale-human-sacrifice-aztec-capital, consultado em 27 de Fevereiro de 2022). Sobre os sacrifícios na cultura Maia, entre muitos outros exemplos, “Death as a human sacrifice awaited some travellers to a Mayan city”, Nature, 17 de Julho de 2019, (cf. https://www.nature.com/articles/d41586-019-02175-6, consultado em 27 de Fevereiro de 2019).

Leituras Que Me Ocorrem Sempre Que Vem Uma Nova Vaga De Críticas Aos Manuais De História

Como se algures não se ensinasse também a “sua” História antes da dos outros. Por vezes, nem mesmo essa. As referências não são sempre as mais recentes, porque esta é uma velha “guerra”. E olhem que nem é por eu ser o maior fã de muitos manuais que tivemos ou temos por aí. A questão é que o ensino da História parte sempre de um olhar localizado e nunca existe uma História perfeita em nenhum manual. Por todo o mundo, o assunto é polémico, com exclusões, manipulações, instrumentalizações e tudo o mais. Por cá, ciclicamente voltamos ao tema, sendo que na maior parte dos casos a critica aos enviesamentos, vem ela própria carregada de preconceitos. Porque há “perspectivas” que condicionam muito as “investigações” quando optam por ignorar que há “centrismos” a partir de mais de um centro. Ora, desse tipo de “boas intenções”, estou farto. A História (no currículo, nos programas, nos manuais) está cercada e truncada, mas não é porque se destaca o papel de “descobridor” do Vasco da Gama, pois já sabemos que a Índia já lá estava e não é isso que está em causa. Todas as mitologias nacionais têm os seus heróis, a sua selecção de conteúdos; a questão está em saber até que ponto vai o condicionamento ideológico do ensino da disciplina, seja em que sentido e contexto for.

China’s Textbooks Twist and Omit History

Examining the Japanese History Textbook Controversies

Japan’s ‘nationalist’ school books teach a different view of history

The History Textbook Controversy in Japan and South Korea

Learning history through textbooks: Are Mexican and Spanish students taught the same story?

What the Textbooks Have To Say About the Conquest of Mexico: Some Suggestions for Questions to Ask of the Evidence

Teaching violence, drug trafficking and armed conflict in Colombian schools: Are history textbooks deficient?

Slavery in Secondary History Textbooks from the United States and Brazil

Banal Race‐thinking: Ties of blood, Canadian history textbooks and ethnic nationalism

Why Indian history textbooks are in absolute and urgent need of revision

Textbooks, Nationalism and History Writing in India and Pakistan

Nationalism of History Education: A Perspective on Indonesian History Text Books

Egypt strikes two revolutions from history textbooks

Nation-Building in Kenyan Secondary School Textbooks

The way history is taught in South Africa is ahistorical – and that’s a problem

Colonized Curriculum: Racializing Discourses of Africa and Africans in Dutch Primary School History Textbooks

Mas há muito mais. Entretanto, uma interessante perspectiva mais global:

History Textbook Writing in Post-conflict Societies: From Battlefield to Site and Means of Conflict Transformation

Leituras interessantes (incluindo críticas) acerca da construção de um Afrocentrismo no ensino da História: aqui, aqui e aqui.

Churchill

Foi escolhido para primeiro-ministro num momento em que as estratégias apaziguadoras de Chamberlain tinham dado o resultado que sabemos. Mas também é sabido que a sua escolha terá sido, em certa medida, para o “queimar” num momento muito difícil, para, de algum modo, o despachar na sua truculência e assim um seu sucessor poder negociar uma paz que mantivesse a guerra na Europa Continental. John Lukaks descreveu-nos os famosos “cinco dias em Londres” em que a teimosia de um político se sobrepôs a calculismos diversos.

O bom e velho Winston – na altura longe de ser um jovem impulsivo – tinha um currículo ideológico e político do qual não vale a pena expurgar as suas visões imperialistas, colonialistas e até racistas. Parte da sua carreira, pelo menos até aos anos 20, está longe de ser do agrado dos palatos mais sensíveis da actualidade.

Mas foi ele que impediu a Alemanha Nazi de dominar toda a Europa e de concentrar todas as suas tropas na frente oriental. Sem a resistência dele, será que a Operação Barbarossa não teria começado na hora “certa”? O que nem sempre a Leste lhe reconhecem, preferindo queixar-se por ele ter criado a expressão “Cortina de Ferro” num discurso de Maio de 1946.

Agora imaginemos que, em Maio de 1940, a decisão de não fazer a paz com Hitler e de continuar a guerra, no que agora se designa como uma “escalada” que trouxe tantos milhares de mortos às cidades inglesas durante os bombardeamentos de Julho a Outubro desse ano, tinha sido contestada porque, afinal, tanto o Adolfo como ele eram dois imperialistas, militaristas e que, no fundo, não havia grande diferença entre ambos, pelo que mais valia chegarem a um acordo. Imaginemos que os discursos que fez aos britânicos, com toda aquela bravata, eram acusados de ser meras incitações ao belicismo e não deveriam ser seguidos, atendendo aos erros do seu passado.

E que os britânicos se tinham rendido, mesmo que fosse com outra designação, porque a sua posição parecia desesperada.

(o curioso é que houve muita gente que até fez esse tipo de apreciações…)