Interessante

Embora ande um pouco pela superfície, em nome da divulgação.

Un an après l’assassinat de Samuel Paty, nous avons souhaité retracer l’histoire de cette profession dont la place est si particulière dans la République française, à laquelle on prête beaucoup et à laquelle on demande tant.

Outubro 2021

As Aprendizagens Essenciais – O Caso Da Grécia Clássica

Quando se fala tanto em cidadania e democracia, nada como ver de que modo a sua origem clássica é tratada nas “aprendizagens essenciais”, comparando com as “metas” que foram revogadas. Se estas eram extensas para o tempo lectivo disponível, aquelas podem ser “despachadas” num ápice.

As metas de História para o 7º ano ainda aqui estão. Sobre o “mundo Helénico” pretendia-se:

  1. Conhecer e compreender o processo de formação e afirmação das cidades-estado gregas originárias (séculos VIII a IV a.C.)
    1. Localizar no espaço e no tempo as principais cidades-estados gregas e os povos com quem estabeleceram contactos, por referência às civilizações já estudadas.
    2. Relacionar a adoção do modelo de cidade-estado com as características do território e com a fixação de grupos humanos no espaço da Antiga Grécia.
    3. Comparar a organização política da Polis ateniense com a da Polis espartana.
    4. Caracterizar o modelo de democracia ateniense do século V a.C. no seu pioneirismo e nos seus limites.
    5. Explicar as clivagens no modo como Atenas e Esparta encaravam a educação e o papel da mulher na sociedade.
  2. Conhecer e compreender a organização económica e social no mundo grego
    1. Identificar as principais atividades económicas da maioria das cidades-estado atenienses (ver o caso ateniense – comercial, marítima e monetária).
    2. Conhecer a organização social das poleis gregas, tomando Atenas do século V a.C. como referência.
    3. Demonstrar as profundas diferenças sociais existentes na sociedade ateniense.
    4. Descrever o quotidiano dos membros dos diversos grupos sociais da polis ateniense.
    5. Reconhecer a situação de subalternidade das mulheres nas cidades-estado gregas, problematizando a questão com os debates atuais sobre a igualdade de género.
  3. Conhecer o elevado grau de desenvolvimento atingido no mundo grego pela cultura e pela arte
    1. Reconhecer a importância assumida na cultura grega por formas literárias como aepopeia (poemas homéricos) e o teatro (tragédia e comédia).
    2. Descrever a religião politeísta grega, destacando o papel dos jogos como expressão de religiosidade e factor unificador do mundo helénico.
    3. Identificar as principais características da arquitetura, da escultura e da cerâmica gregas.
    4. Referir a autonomia e o grau de sofisticação alcançado no mundo grego pela filosofia e pelas ciências.
  4. Conhecer o processo de estruturação do mundo grego e de relacionamento do mesmo com outros espaços civilizacionais
    1. Descrever o processo de criação de colónias e identificar os respetivos limites geográficos.
    2. Referir a instituição de alianças entre cidades-estado, as rivalidades e os conflitos que se verificaram entre as mesmas.
    3. Conhecer as relações estabelecidas entre as cidades-estado gregas e as populações da Península Ibérica, localizando vestígios arqueológicos dessas interações.
  5. Avaliar o contributo da Grécia Antiga para a evolução posterior das sociedades humanas
    1. Referir a democracia grega do século V a.C. como um dos grandes legados do mundo ocidental.
    2. Exemplificar a influência da arte grega até ao tempo presente.
    3. Confirmar a importância da língua como fator de unificação dos gregos e como vetor de transmissão de cultura erudita até aos nossos dias.
    4. Confirmar a cultura e educação gregas como fundamentais para a evolução futura dos sistemas culturais ocidentais.

Comparemos com as aprendizagens essenciais, consultáveis aqui:

  • Analisar a experiência democrática de Atenas do século V a.C., nomeadamente a importância do princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei, identificando as suas limitações;
  • Identificar manifestações artísticas do período clássico grego, ressaltando os seus aspetos estéticos e humanistas;
  • Reconhecer os contributos da civilização helénica para o mundo contemporâneo;
  • Identificar/aplicar os conceitos: cidade-estado; democracia; cidadão; meteco; escravo; economia comercial e monetária; arte clássica; método comparativo.

Nem 80, nem 8.

A Hipocrisia Dos Falsos Mártires

Nunca fui sócio da Associação dos Professores de História, mesmo quando colaborei com textos para o seu site há uns bons anos. Não sei se de acordo com certas “lógicas” poderei criticar a enorme hipocrisia da actual direcção da APH em relação à “situação do ensino da História”. Mas é disso que se trata. Houve quem colaborasse de forma activa e empenhada, até subscrevendo abaixo-assinados próprios de vassalos, na altura em que acharam que a flexibilidade curricular estava em risco, com o estraçalhamento do ensino da História no Ensino Básico. Agora, dizem que desde 2018 que não sei o quê, não sei que mais. É tudo treta. Houve quem estivesse mais preocupado em arranjar contratos para fazer manuais, com o “crédito” de estar no inner circle das AE (que são uma aberração, desde o 7º ano, uma verdadeira destruição de qualquer possibilidade de compreensão histórica em diacronia ou sincronia). Desde 2017 (e antes) houve quem tivesse avisado para o que já se estava a passar. Mas nem se dignaram responder, mesmo quando pediam para divulgar as suas posições, ou deram respostas públicas de arrogância imensa.

O ensino da História no Ensino Básico está reduzido a fatias de 90 minutos semanais (ou 2×50) em grande número das escolas, para dar espaço à disciplina dilecta de um governante. Consta que o “pai” da disciplina prometeu coisas à APH e não cumpriu.

Em Julho de 2017, foi-me reencaminhado o seguinte mail:

Caros associados:

Em audiência concedida à APH e à APG no dia 17 de julho pelo Sr. Secretário de Estado, João Miguel Marques da Costa, foi-nos confirmado que o tempo máximo semanal estipulado para a lecionação da nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é de vinte e cinco minutos. Ambas as associações solicitaram ao Sr. Secretário de Estado para que se proceda a uma retificação do despacho 5908/2017, colocando-se aí, de forma explícita, essa informação, de forma a não dar origem a interpretações menos corretas por parte das escolas, nomeadamente retirando tempos de lecionação à disciplina de HGP ou de História

A direção da APH

A verdade é que depois do apoio acrítico a boa parte das políticas do SE Costa nos primeiros anos do mandato anterior, alguém na APH abriu os olhos. Abriu tarde. E não abriu mais cedo porque não quis. As razões porque não quis escapam-me e não quero entrar em grandes teorizações acerca disso. A ver vamos se percebem que a História está a ir pelo caminho da Filosofia, sendo ambas consideradas algo anacrónicas para os “modernizadores do currículo”. Se os representantes dos professores de algumas disciplinas, em especial na área das Humanidades, se preocupam mais com outras questões do que em defender o ensino dessas disciplinas e dos respectivos professores não venham depois carpir mágoas.

Há muita gente boa na APH e nos corpos sociais tenho várias pessoas amigas. Lamento.

Inbox

O contributo pessoal foi curto, mas permitiu descobrir melhor uma figura sobre a qual pouco ou quase nada conhecia (Chrystal Macmillan). E completei a trilogia das cores nesta colecção, pois fui coautor de um de capa azul, autor de um de capa verde e agora colaborador de um com capa vermelha.

Às muito atentas, rigorosas, diligentes coordenadoras, deixo aqui o meu agradecimento e elogio público.

Arqueologia Da Escola Digital – 1

O excerto que em seguida transcrevo, é de 1996 e faz parte de uma peça da revista Exame Informática em que já na altura se fazia o lamento pela forma desconexa, aos arranques e paragens, como a Informática (ou Tecnologias de Informação) estava a ser promovida nas escolas básica e secundárias, do Projecto Minerva (acrónimo de Meios Informáticos no Ensino: Racionalização, Valorização, Actualização, com arranque em 1985) ao EDUTIC (Programa de Tecnologias de Informação e Comunicação para a Educação, com início em 1995), passando pelo IVA (Informática para a Vida Activa, 1990) ou o FORJA (Fornecimento de Equipamentos, Suportes Lógicos e Acções de Formação de Professores, 1993).

Ler o que então se escrevia faz-nos perceber o quanto não foi feito do modo certo, ou seja, com continuidade e de forma consolidada, preferindo-se a demagogia e propaganda. Há por aí muita gente que ainda se lembra de tudo isto, que viviu isto (eu só muito de raspão, apesar de me ter metido em algumas coisas ainda na primeira metade dos anos 90), mas raramente é quem anda por aí a anunciar como lebre nova e fresca o que não passa de coelho cansado.

Mas, no que diz respeito à informática – onde não é assim tão fácil recorrer a “explicadores” – o que pode acontecer é mais perverso. É aquilo a que Roberto Carneiro (…) considera os «sem-abrigo digitais»: crianças que saem da escola se, domínio das novas tecnologias, essencial para sobreviverem no mercado de trabalho, independentemente da sua formação de base.

Na verdade, a situação pode ser ainda pior, uma vez que o acesso (ou não) ao computador é factor de diferenciação ao nível da igualdade de oportunidades. Ou seja, uma vez que não é a escola que fornece o conhecimento digital, será o nível socio-económico a estabelecer (ainda mais) a diferença – quem tem dinheiro, tem computador em casa ou põe o filho a estudar em colégios particulares onde a Informática seja tão natural como a Educação Física.

(Exame-Informática, Outubro de 1996, p. 90)

É fácil perceber-se que muito do que andou a ser dito ou escrito no último ano nada tem de novo. As desigualdades causadas pelo recurso ao digital não foram descobertas com a pandemia. Há muito que são conhecidas. Assim como não foi a publicação dos rankings a dar a conhecer que os meios entre escolas privadas de topo e a rede pública são muito diferentes. Se há gente que é muito nova nisto e certamente ignora porque não achou por bem estudar a matéria em perspectiva histórica (que horror!) para saber como falharam os ímpetos digitais anteriores, há quem tenha a obrigação, pela idade ou funções desempenhadas, de não nos querer fazer passar por parvos ou desmemoriados.

Se economistas peraltas ou conrarias andaram lá por fora e não passaram por nada disto, o que ajuda a perceber a arrogância com que nos querem fazer acreditar que descobriram sózinhos o século XXI digital (e nem falo de outros plumitivos parlapateiros), já há quem tenha tido cargos de destaque neste período (em especial nos anos 90 do século XX) no próprio Ministério da Educação e não tenha desculpa para aparecer como se trouxesse consigo um Verbo Digital desconhecido dos comuns zecos. E há dos dois lados do Centrão quem tenha tido poder efectivo para não ter deixado cair o Minerva ou transformado o EDUTIC numa espécie de nado-morto. Que andem agora a vender projectos, consultorias ou formações sobre estas coisas, roça uma certa obscenidade.

Estamos quase sempre de volta ao ponto de partida porque, em muitos casos, há quem tenha a ganhar com isso. Uma, outra e outra vez ao longo das décadas.

História Escreve-se Com H…

… e não é bem a mesma coisa que o storytelling dos filmes ou documentário meio ficcionados. Mesmo que seja uma “narrativa” e tenha muitos episódios rocambolescos, são registos um “pouco” diferentes, não devendo a História depender (embora por vezes aconteça, admito) dos humores de financiadores. E muito menos deve “torcer” pelos “personagens principais”, sejam quais forem os seus “estados de alma”.

A história conta-se a partir das emoções e estados de alma das personagens principais, por quem naturalmente passamos a torcer. Fazer diferente é um desafio de storytelling que deveria mobilizar historiadores, professores e governantes.

Em Defesa da História e da Memória Histórica – Jorge Santos

…e outras opiniões pessoais!

Este modesto artigo, visa abrir debates em torno do seu título, em função do tempo disponível de cada um, das prioridades e do (in)cómodo para os pensadores que realmente queiram reequacionar certezas efémeras ou ver só a ponta do iceberg.

Tenho para mim a ideia clara que quando nascemos, não somos uma folha em branco. Transportarmos genes, grupos sanguíneos, cores de olhos, cabelos e padrões de comportamento… herdados dos nossos pais, avós, bisavós, etc. Como disse o Sr. Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, “Não há portugueses puros” em termos étnicos.

Tenho também a ideia metafórica que a (nossa) História acompanha-nos sempre, tal como a nossa sombra, quer quando caminhamos em direção ao sol, ou quando caminhamos em sentido oposto. Nunca nos abandona!

Tem havido um certo alheamento, desvalorização e relativização da História e do saber científico que mentes brilhantes produziram, quando no seu labor exaustivo e hercúleo, folhearam milhares de páginas, investiram anos ou várias décadas de estudo, entrevistando centenas ou milhares de protagonistas e testemunhas oculares, cruzando declarações, afirmações, com fotografias, filmes e marcadas deixadas na pele, nos ossos, sangue e no cérebro. A imagem vale por mil palavras (nos tribunais é ouro e na medicina ajuda a diagnosticar e prognosticar males e terapêuticas). Podiam citar-se inúmeros exemplos e noutras ciências ou áreas do saber. Na História (des)monta e (des)constrói narrativas e opiniões mal fundamentadas ou enviesadas. Para o historiador rigoroso, objetivo, neutral, independente, ouve todos (da esquerda, do centro, da direita), apura tudo, consulta as fontes primárias, o tal “documento é monumento” como Jacques Le Golff dizia. Uma vez tocadas e lidas as “fontes”, o historiador submete-as ao crivo do método científico-histórico e publica o seu trabalho, com centenas ou milhares de documentos probatórios do que pretende defender e… contra factos e números, não há argumentos. Milhares de provas seriamente reunidas e corretamente identificadas e referenciadas, não podem ser levianamente questionadas! É essa a grande vantagem e contributo da História e do Saber Histórico, alavancada pelo enorme contributo da Escola dos Annales, quando indelevelmente apela a uma abordagem nova inter ou multidisciplinar da História. A Psicologia, a Sociologia, a Economia, a Antropologia, a Ciência Política, a Demografia, a Religião, a Neurociência, a Neuroimagem, as TIC, cada uma destas áreas, veio auxiliar e reforçar o valor da História.

Reparem ilustres leitoras e leitores, que desde a zona do Crescente Fértil, os berços da nossa civilização ocidental, com matrizes identitárias judaico-cristãs e greco-romanas (e levemente islâmicas), a essência do Homem, pouco mudou. Em termos de avanços tecnológicos, sabemos daqui a pouco mais de Marte e dos exoplanetas do que do nosso “próximo”. O sábio José Saramago, disse em 1998: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”.

Muito antes deles, outros vultos maiores do pensamento mundial escreveram no papel e na pedra, o que passo a citar:

“A vida começa verdadeiramente com a memória”. (Milton Hatoum)

“Se queres prever o futuro, estuda o passado.” (Confúcio)

“A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. (Miguel Cervantes)

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.  (Edmund Burke)

“Eu conquistei a Europa pela espada, os que vierem depois de mim, conquistarão pelo espírito.” (Napoleão)

– “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”. (Bismark)

“História é passado e presente; um e outro inseparáveis.” (Fernand Braudel)

“Se você não conhece a História, não conhece nada. Você é uma folha que não sabe que é parte de uma árvore.” (Michael Crichton)

Hoje, dia em que escrevo este modesto artigo, o Instituto Sueco V-Dem, na Universidade de Gotemburgo, denúncia que a “Democracia global retrocedeu para níveis de há 30 anos e denuncia uma aceleração das tendências autocráticas”. Deveras preocupante!

– No passado e no presente cometemos erros. Expulsamos os judeus! Não estabelecemos relações ainda mais estreitas, sólidas e verdadeiramente irmãs, com o Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Santo Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Goa, Macau, Timor, etc. Muito já foi feito, mas ainda está muito por fazer!

Ainda não soubemos captar o contributo dos povos acima mencionados, assim como não soubemos estabelecer parcerias ou colaborações mais estreitas com a Rússia (já que alguns europeus não tem tratado bem os russos e descurados os grandes cientistas, escritores, matemáticos e artistas nascidos na Rússia, Ucrânia, e noutras repúblicas da ex-URSS). Nós queremos trabalhar com eles, em prol da ciência, da tecnologia e por um mundo mais “sustentável”! Queremos trabalhar com a Índia, o Iraque, o Irão, a Arábia, o Dubai, os Emirados Árabes Unidos, com a Austrália, com a Suíça, o Canadá, o Japão (fomos os primeiros europeus a chegar a esse país pelo qual nutrimos enorme estima), a China (ligações desde o século XVI) e manter as ligações umbilicais à União Europeia e à Inglaterra. A propósito, fiquei muito triste com a saída do Reino Unido da União Europeia. Espero que um dia, regresse novamente à União Europeia. Não concebo uma União Europeia sem o Reino Unido!

Com os Estados Unidos, a nossa ligação é fidagal, coronária e cerebral, pois fomos o 1º país do mundo a reconhecer a Independência dos EUA.

É meu desejo deixar uma certa distopia em que vivemos e direcionamo-nos para uma utopia tipo norueguesa!

Distinções simbólicas:

– Diamante azul: para o Papa Francisco, pela viagem ao Iraque, pelas palavras e pelas ações praticadas;

– Rubi vermelho: pela ação marcante do Engenheiro António Guterres, enquanto Secretário-Geral da ONU, num mandato cheio de espinhos e entraves. Revelou uma coragem inexcedível. Orgulho-me de si!

– Esmeralda: para a jornalista da TVI24, Catarina Canelas pelo seu Excelente e Maravilhoso Documentário: “Plástico: o Novo Continente”, entronca na perfeição nas afirmações de Pitágoras (570 a.C. – 490 a.C.) quando disse: “Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor.” Ainda alguém duvida da importância da História?

Jorge Santos

P.S. Espero que nos novos manuais de História venham um suplemento, com 5 ou 6 páginas, dedicados às epidemias e pandemias que assolam a Humanidade há mais de 2 500 anos. E já agora, mais outras tantas páginas, dedicadas à História da Vacinação, aos entraves, obstáculos naturais, aos Inventores e as pessoas negacionistas. Este é um filme que  já tem séculos. Não basta explicar ou retratar a crise do século XIV e a chegada da Peste Negra à Europa. Nós, os professores de História, queremos ligar e articular melhor o presente ao passado e vice-versa, para tornar a História o mais realista possível. Afinal, os médicos, os investigadores, cientistas e inventores, passam pelas nossas aulas na adolescência e talvez comecem a acreditar mais no valor incomensurável da História.

 Desculpem a não referência a países, a quem muito devemos (ex: França, Alemanha, Luxemburgo e tantos outros)! Ficará para outra oportunidade. O meu país quer contribuir com toda a gente que luta pela valorização do conhecimento, fonte de luz, do progresso, em direção a mundo mais justo, humano, solidário e mais sustentável (ecológico). A nossa “espécie” do homo sapiens sapiens, ou homo digitalis, não pode querer caminhar para a 6ª extinção em massa, ou quer?

Jorge Santos

A História E O Humor Importam

O texto deste mês para o JL/Educação.

JL/Educação, 4 de Novembro de 2020

No dia 16 de Outubro, o professor francês de História e Geografia Samuel Paty foi decapitado por ter mostrado duas caricaturas de Maomé numa aula sua, alguns dias antes. Não conheço o contexto específico em que essa apresentação aconteceu, mas nunca poderá justificar o que se passou, desde logo porque se baseou em parte no alegado sentimento de ofensa de uma aluna que se veio a saber nem ter estado na referida aula (cf. “Attentat de Conflans : qui a informé le bourreau de Samuel Paty?”, Le Parisien, 20 de outubro de 2020[i]).

O caso levanta mais questões do que apenas o dos excessos do fundamentalismo islâmico, porque questiona directamente o papel do professor na sociedade e na própria escola, bem como aquilo que cada vez mais lhe é vedado fazer sob risco de diversas ameaças, das menos problemáticas às mais perigosas, como o despertar da fúria intolerante de grupos que se revelam incapazes de lidar com a diversidade, o confronto de olhares sobre a realidade ou mesmo o humor.

Como professor de História e fã confesso de banda desenhada e cartoons, costumo usar caricaturas em apresentações em algumas das minhas aulas, particularmente no caso da História Contemporânea. É verdade que, talvez por um mecanismo de censura inconsciente, não uso esse tipo de materiais quando abordo temas relacionados com a religião. Mas uso-as com alguma extensão em temas de tipo político, incorporando o humor na abordagem de questões polémicas e sobre as quais é importante ir para além das leituras áridas e maniqueístas. Apenas a título de exemplo, recordo as caricaturas que, desde finais do século XVIII caracterizaram a luta ideológica entre liberais e absolutistas, mais tarde entre as correntes socialistas ou de inspiração marxista e os seus adversários burgueses ou entre as diversas potências em conflito na I Guerra Mundial, não esquecendo a fortíssima componente visual da propaganda nos regimes autoritários de entre as guerras ou dos tempos da Guerra Fria.

Da caricatura mais descomprometida, como comentário à actualidade, à sátira que visa estereotipar de forma negativa os adversários, num contexto de luta ideológica (desde a tentativa de ridicularizar as sufragistas à oposição entre republicanos e monárquicos) esta é uma prática que em Portugal tem, desde as últimas décadas do século, tradição no combate político. Claro que o vulto maior foi e será sempre Bordallo, mas muitos se lhe seguiriam e muitas foram as publicações que deram espaço crescente à sátira política, com maior ou menos alinhamento político-partidário. Durante a I República, em especial nos anos da participação na Grande Guerra, assim como nos anos da Ditadura Militar e do Estado Novo, o jornal humorístico Os Ridículos foi uma das maiores vítimas da censura menos discreta (as “bexigas” durante o período republicano, com os espaços em branco das imagens cortadas) à mais hábil (que exigia, no período da ditadura, que os conteúdos censurados fossem substituídos por outros ou pelo menos por anúncios).

Não é por acaso que os regimes autoritários são os que mais dificilmente lidam com o humor, pois este representa a realidade sob um prisma que a intolerância considera criminosa ou blasfema. Seja no plano religioso ou no político, o riso aberto ou o simples sorriso aflorado é algo que atemoriza quem quer encenar um poder forte e sem contestação, pois causa insegurança, porque ridiculariza o que se pretende sério. Muito sério. Os fundamentalismos de qualquer tipo não deixam espaço para a auto-crítica, pelo que não admitem a derisão, a menos que seja dirigida aos que quer amesquinhar ou demonizar.

O que se passou com o professor Samuel Paty resultou da confluência de fenómenos que estão longe de ser modernos, como a intolerância, a distorção dos factos para diabolizar e “construir o inimigo” ou o incitamento a fenómenos de violência “justiceira” contra as alegadas ofensas ou blasfémias, com os mecanismos modernos da transmissão rápida das mensagens destinadas a acicatar a súria das massas até que alguém (indivíduo ou grupo) decida passar a uma acção de que nem sempre é assumida a responsabilidade, sendo comum a afirmação de ter sido um acto de inspiração divina. Foi uma “voz de Deus” que deu a ordem, foi a “mão de Deus” que a executou, sendo os indivíduos meros agentes de uma vontade que os transcende. Mas Umberto Eco também alerta para o facto de esta construção do inimigo ser quase uma necessidade identitária, difícil de ultrapassar em grupos que se procuram afirmar num ambiente que sentem como hostil.

«Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.” (Umberto Eco, Construir o Inimigo e outros Escritos Ocasionais. Lisboa, Gradiva, 2011, p. 12)

Samuel Paty, professor de História que a tentou abordar através do humor foi o “inimigo” que alguém decidiu construir para, na sua comunidade, afirmar a sua identidade e os seus valores. Acusando-o de mostrar “desenhos pornográficos” aos seus alunos, alegando a ofensa de alguém que nem esteve presente na aula, exigindo castigo do pecador blasfemo, até que esse incitamento acabou na sua decapitação.

Literal e simbólica, porque para além do Homem, também o Humor e a História foram atacados pelo homicida. E, numa leitura mais extensiva, o próprio papel da Educação nas sociedades modernas foi colocado em causa por quem considera que ela deve estar ao serviço de uma única visão do mundo, assim como a História deve ser apresentada de forma instrumental, para exaltação dos “escolhidos”.

É verdade que os fenómenos mais recentes (como o massacre na redacção do Charlie Hebdo em 2015 ou as ameaças ao cartoonista dinamarquês Jyllands-Posten em 2005 que levaram a que tivesse de viver anos sob protecção policial) colocam o foco principal no fundamentalismo islâmico, mas é bom relembrar as ameaças, certamente com consequências menos trágicas, feitas em 1992 ao cartoonista português António quando caricaturou o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz ou a recente situação (Junho de 2019) de proibição de cartoons na edição internacional do The New York Times e a dispensa dos serviços de Patrick Chappatte e Heng Kim Song após a publicação em Abril de uma caricatura considerada “anti-semita” do mesmo António.

A morte de Samuel Paty, apesar das manifestações em sua homenagem que se foram sucedendo, em breve será apenas uma memória, esperando que mesmo essa memória não se desvaneça ou apague progressivamente, à medida que a História vai sendo encarada como uma disciplina menor, sem grande interesse, da qual se tem sistematicamente desinvestido devido à sua alegada natureza arcaica para aqueles que acham que a Humanidade do século XXI não precisa conhecer o seu passado, muito menos acontecimentos ou processos que ajudem a entender como chegámos ao presente. O professor de História é, neste contexto, o representante de uma espécie que se pretende em extinção, residual, portador de um saber inútil a menos que aceite colocar-se ao serviço da exaltação dos protagonistas do Poder. A História é encarada como uma espécie de apêndice curricular, a merecer menos atenção (descontemos os elogios públicos hipócritas) do que qualquer modismo passageiro (como o “empreendedorismo”) ou saber instrumental (a “prevenção rodoviária”), porque estes são “úteis para a vida diária”.

O papel dos historiadores ou dos professores de História na recuperação do passado é incómodo para os regimes baseados numa Fé ou Verdade Única, pois a sua missão é a de apresentar diferentes olhares sobre o que se passou, não apenas o dos vencedores transitórios. Mas a História e os seus agentes com sentido ético do seu ofício também incomodam os defensores da fragmentação da Verdade a um ponto que se torne impossível legitimar mais do que “verdades funcionais”.

A História “comprometida” é uma História truncada. Mesmo se não há História “pura”, totalmente neutra ou asséptica. Mas para o ser com maiúscula deve procurar sempre alguma forma de equilíbrio, mesmo quando não se impede de tomar partido. A História ajuda a compreender, exige esforço, resiste às simplificações, Incomoda. Tal como o Humor.

Samuel Paty era um professor de História com Humor e morreu por causa disso.


[i] https://www.leparisien.fr/faits-divers/attentat-de-conflans-qui-a-informe-le-bourreau-de-samuel-paty-20-10-2020-8404191.php