6ª Feira

Morreu Jorge Sampaio, o mais pacífico dos nossos presidentes, provavelmente o mais sério dos nossos presidentes civis, o que teria mais conflitos internos ao tomar decisões e, por isso, seria mais prudente. Mas foi ele que se “fartou” de Santana Lopes e acabou por nos deixar nas mãos de Sócrates. Um homem decente, um democrata no sentido mais essencial da palavra mas, como tudo o que é humano, com as suas falhas naturais. Paz à sua alma, se é que isso existe.

Otelo (1936-2021)

Não vou entrar em grandes considerações, porque estes são tempos muito propícios a elogios oportunistas e a ajustes de contas póstumos. Direi apenas que é um dos raríssimos casos em que o que lhe devemos supera, em muito, os erros que cometeu.

Mas é preciso perceber que eu cresci na zona onde ele teve mais de 40% dos votos em 1976.

In Memoriam – Luís Cruz Guerreiro (1962-2021)

O meu mais antigo amigo em exercício permanente, desenhador da BD O Deserto da Educação dos tempos do Umbigo e autor da minha caricatura de umbigo de fora no livro do blogue, morreu hoje, vítima de covid-19. Tinha 58 anos; era azulejista e, mais especificamente, paineleiro (no nosso dicionário particular) por gosto e vocação, com vasta obra, exposta por cá e no Brasil.

Bedéfilo inveterado, ficou marcada na fachada da sua oficina o nosso gosto comum, que em meados dos anos 70 nos fez romeiros à papelaria da “vila”, todas as 5ªs feiras, em busca do Mundo de Aventuras da semana. Numa das nossas últimas conversas, tinha-me oferecido algumas revistas trazidas do Festival de Angoulême, onde tinha ido finalmente, como uma espécie de peregrinação, sem a qual não poderia sentir a sua missão cumprida por aqui. Autor de uma infame BD inovadora, em azulejo, (Capitão Bacalhau) e de outra (Jerilío) que concebeu para papel e azulejo, estava hospitalizado há mais de um mês e passara do Hospital do Barreiro para o Garcia de Orta. no que eu já adivinhava ser uma mudança pouco auspiciosa.

Em sua honra, não vou alinhar ladaínhas muito adjectivadas, mas apenas dizer que esta é uma putavida e que há por aí uma cambada de gente que não merece o oxigénio que gasta, de tanta dúvida que vomita sobre tudo e nada, incluindo a vida e morte alheias. Com a morte do Paulo Gil há menos de quatro anos, já se foram dois dos três com que dava para partilhar a memória de tantas parvoíces de outros tempos. Acho que o outro já não está preso.

Gabba Gabba Hey!

3ª Feira

Morreu o único Intelectual digno de maiúscula que entre nós compreendeu a transição da ditadura para a democracia e como os portugueses, enquanto colectivo, experimentaram esse período e a posterior integração europeia. Que me lembre, assim de repente, deixa apenas um herdeiro (José Gil), enquanto outros se afadigam a demonstrar como nem chegam a sê-lo com minúscula. Alguns que próximo lhe poderiam chegar, mesmo se em outros ângulos (Vasco Graça Moura, por exemplo, ou Eduardo Prado Coelho nos dias bons, para quem vai mais pela literatura) também já nos deixaram Ao longo dos últimos 40 anos tivemos surtos de carrilhos e pouco mais. Para mim, O Labirinto da Saudade é um título a que regresso mais vezes do que gostaria, porque apenas me prova que não ultrapassámos o que lá vem descrito com enorme lucidez.

(c) Luís Afonso (Maio de 2013)