A “Inclusão” Pára à Porta Da Sala De Professores

Ao longo da semana entraram nov@s alun@s nas minhas 5 turmas. Como aos restantes, abro a porta, para os conhecer e ir trabalhando com eles. Mesmo que não andasse por aí uma catrefada de gente a fazer apelos demagógicos, é meu dever e minha convicção trabalhar com tod@s e incluí-los no grupo, à medida das suas capacidades. Nunca exigi a escolha de uma proporção de alunos em cada turma. No entanto, as “lideranças” escolares parecem sentir uma enorme incapacidade em aceitar nas suas escolas quem lhes aparece, em resultado de um concurso com uma lista graduada, combinando classificação académica (obtida em cursos que provavelmente também frequentaram) e o tempo efectivo de serviço (que no caso de muitas lideranças é de gabinete e rabo sentado, com os alunos à distância, por muito que falem em “proximidades”), pelo que pedem para escolher pelo menos um em cada três professores a recrutar para os seus agrupamentos. Isso equivaleria a seleccionar 35-40 dos meus actuais alunos. Fala-se na adequação do “perfil”. Mas então não querem “desafios” ou isso é apenas para quem anda pelas salas de aula?

De que adianta gabarem-se de acolher não sei quantas nacionalidades e condições nas suas escolas, se quem trata disso é a arraia miúda? Há quem pratique uma “inclusão” de 31 de boca. E quem queira “autonomia” só para si, enquanto a “flexibilidade” fica para os outros. Hipocrisia? Claro que sim. Mas poderíamos falar em falta de competências de liderança e, porventura, uma certa carência de “formação” em gestão de recursos humanos, numa perspectiva da deontologia e empatia.

(c) Oliviero Toscano

A Ler

A “inclusão” (que por estes dias teve um daqueles congressos em que vale tudo e mais alguma coisa) é uma matéria que vai muito para além de “capacitações” feitas em semestres e “especializações” em formações aceleradas. Existe experiência, sensibilidade e motivação. Por isso, não pode ser deixada a quem tem horas para preencher ou a quem, mesmo com “certificação”, nem deixaria tomar conta de peixinhos de aquário.

Demasiadas vezes, na Capacitação para a Inclusão, os alunos são auxiliados ao longo do seu dia por pessoal não especializado, com um efeito devastador no aumento de casos de indisciplina.

Inclusão, Sim, Mas Baratinha

Pais de crianças com necessidades especiais desesperam “há vários meses” por ajuda nas terapias

Terapeutas e pais manifestam-se perante cortes na educação especial

Como é óbvio, há sempre um desmentido com números que não conseguimos verificar: “Em declarações à RTP, a secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, diz que há mais 4% de processos de requerimentos de subsídios de educação especial deferidos”.

Mas depois, parece que afinal, não sei quê, se calhar há atrasos, porque há muitos pedidos.

Governo garante que não houve qualquer redução na atribuição dos subsídios de educação especial. Ouvida pela TSF, a secretária de Estado da Inclusão diz mesmo que no último ano foi atribuída uma verba mais alta. E o número de requerimentos quase duplicou, mas até esta altura só foram analisados metade dos processos, podendo, por isso, existir algum atraso.

Inclusão Low Cost

Educação especial: 25% dos subsídios cortados pela Segurança Social

78 mil alunos com medidas especiais de inclusão

(a maior parte das medidas não custam absolutamente dinheiro nenhum, pois os alunos são “atirados” para as aulas regulares em nome de um conceito economicista de inclusão… porque depois das pessoas “certas” chegarem à Corte, a plebe já pode ser deixada entregue a si mesma…)

A Sério?

Nunca me tinha ocorrido. Nem aos serviços do ME que não permitem a abertura de novas turmas e mandam meter quem chega em turmas já apinhadas.

Já agora… nestas notícias, quando se fala em “escolas” é naquele sentido em que, em outras, se fala nos directores e nas lideranças ou é chuveirinho?

E mesmo para fechar… o que dizer de inspecções que parecem delegações do “maia” para obrigar as escolas a usar uma metodologia específica de trabalho? Será essa a sua função?

Inclusão destes alunos em turmas com mais de 20 estudantes “prejudica o direito a uma educação inclusiva”, alerta IGEC.

As Inspecções Da “Inclusão” Já Andam Por Aí

Mas quer-me parecer que andam mais numa de ver as monitorizações em grelhas aprumadas. Embora ameacem que podem entrar pelas salas dentro, algo que sem a devida identificação, no momento oportuno, me parece uma prática algo irregular. Entretanto, já se ouve o esfregar de mãos dos “formadores inclusivos” da corte do agora ministro Costa. Há powerpoints que andam numa roda viva.

Público, 14 de Abril de 2022, artigo de Clara Viana

O curioso é que a equipa da OCDE diz que onde foi tudo é maravilhoso. No entanto, devem ter-lhes dito outras coisas e eles acreditaram. E ficamos sem perceber no que as recomendações agora publicitadas se baseiam. Na observação directa não foi, portanto… será na base do interesse do “encomendador” que se concluiu existir “segregação dos alunos imigrantes” para agora justificar medidas a preceito?

Lamento, mas conhecendo até de perto a realidade de um dos seis (6!) agrupamentos de escolas que foram visitados em 2021 e leccionando em um (a 5 minutos de carros) onde a proporção de alunos oriundos de fora de Portugal andará pelos mesmos valores, acho que estas conclusões não passam daquilo que já se sabe. Se o “cliente” pediu e pagou uma mesa com três pernas, quem são os carpinteiros para lhe dar uma com quatro?

Estereótipos De Género

A economista Peralta é uma personagem recente, mas intensa, no panorama mediático-opinativo em matérias como a Educação e as desigualdades em geral. Quase escrevia que uma Raquel Varela com menos decibéis e eyeliner, mas temi ser mal entendido e eventualmente acabar por ser acusado de ter um discurso menos inclusivo. Mas depois atentei no título do seu último artigo para o Público e fiquei mais relaxado.

Sem conseguirmos contratar médicos e professoras, não há PRR que nos safe

Já deram pela coisa?

Ainda não?

Já repararam que se formam “médicOs” e “professorAs”?

Nos meus tempos de leituras para efeitos académicos, dei com abundante literatura sobre este tipo de pensamento enviesado, quase inconsciente, em que se perpetuam esquemas mentais com base em estereótipos de género. Neste caso, a Medicina (nobre e distinta) é para os homens e a docência (uma quase semi-profissão para algumas teses sociológicas) para as mulheres. Mesmo se as mulheres são maioritárias na Medicina há cerca de uma década (e a tendência é para aumentarem atendendo às matrículas nos cursos de Medicina).

Curiosamente, no Ensino Superior, os homens continuam a ser a maioria entre os docentes. Mas claro que a economista Peralta estava a pensar nos níveis inferiores, aqueles sobre os quais os preconceitos se derramam de forma mais natural.