O Problema É Mesmo Dos “Conceitos”?

Mais de metade dos professores não compreendem conceitos do diploma da educação inclusiva

Não me venham com tretas. Isto cheira-me a um imenso esturro. Do género “não funciona, porque os professores são burros e não entendem a nossa conceptualização brilhante”. Porque uma coisa é ter problemas com a forma de “aplicar” as coisas ou de a explicar aos encarregados de educação e outra o não entender uma coisa tão básica como o “multinível” que se traduz apenas na possibilidade de, a qualquer momento um@ alun@ transitar de tipo de medidas de apoio. O que me parece a principal (única?) vantagem do novo modelo.

Um problema sério é quando existe quem, nas escolas, faz tudo para que o “multinível” não funcione porque isso lhe dá mais trabalho, mas é todo um outro campeonato que se agrava com a burocracia que implica (infelizmente) todo esse processo.

Isto é apenas mais um “contributo” para que se façam mais “formações” que só servem para replicar powerpoints conhecidos, mais slide, menos slide. Metam muit@s dess@s formador@s no terreno e nas EMAEI.

 

Dança Inclusiva? Não Seria Melhor Flexível?

Aparece sempre de tudo na minha caixa de correio.

WORKSHOP DANÇA INCLUSIVA
A formação será orientada pela CiM – Companhia de Dança

O workshop procura explorar diferentes metodologias da dança contemporânea através da prática de técnicas que configuram o movimento como extensão do corpo, e desenvolvem a consciência do mesmo por parte de cada participante.
O workshop consiste numa abordagem aos conceitos base da improvisação, assente em experiências de comunicação através do movimento partilhadas entre todos, sendo o corpo o principal instrumento de observação e trabalho.
Pretende-se criar um espaço de pesquisa de uma linguagem de movimento comum aos participantes e de percepção e integração das potencialidades de cada um, no sentido de trabalhar sobre os limites do corpo como inspiração para a criação.

Público-alvo | Aberto a todos os participantes com ou sem deficiência, com ou sem experiência anterior em dança, interessados em explorar e partilhar práticas de movimento no cruzamento entre dança inclusiva e dança contemporânea.

Entrada livre, mediante inscrição prévia.

Danca

O Grande Cisma Escolar

Que se vai agravando a cada ano (ou mesmo mês) entre as cúpulas e as bases, acabando por satisfazer de forma “póstuma” a actual “reitora” do iscte que eu ouvi, num congresso da andaep, lamentar que os directores tivessem resistido até então (já lá vão uns anos, ainda não se sabia que iam ter corda solta de mandatos até 2025, mesmo os que são contemporâneos da dinastia de bragança) a constituir-se como um “corpo” próprio no interior das escolas. É um cisma profundo entre o que sente o corpo docente e o que agora passa por ser a “voz das escolas”.

No recente inquérito da Fenprof acerca da aplicação do dl 54 veja-se a forma diametralmente oposta como respondem uns e outros.

FebprofInqEducIncl

Mas como se sabe… quem acha que está mal é porque não teve “formação” ou não a compreendeu, porque a desqualificação profissional dos docentes tem passado muito por dar a entender que eles não compreendem as mudanças em curso, coitados, pois foram formados no século XX com teses do século XIX, só faltando acrescentar que se o foram foi com aulas dadas por esta mesma malta que agora se diz muito século XXI. Ou tendo-os como colegas de “estágio”, só que não souberam aplicar as coisas.

Por Aclamação

Não fui eu que recebi, foi-me reencaminhado:

Exmo. Sr. Dr.

A Pró-Inclusão acaba de realizar o seu 6.º Congresso Internacional – Educação Inclusiva: Olhares pelo Caminho, nos passados dias 24, 25 e 26 de outubro, na cidade de Santarém.

Neste congresso foi aprovada uma Declaração Final que temos o prazer de lhe fazer chegar.

A Pró-Inclusão ao longo dos seus 11 anos de existência tem pugnado por uma educação de qualidade para todos sem exceção e considera que cabe à Educação a promoção dos Direitos Humanos através de uma escola inclusiva, equitativa e de qualidade. Estamos certos de que comunga connosco estes valores.

Mantemo-nos firmes na promoção da Educação Inclusiva e, assim, sempre saberá onde nos encontrar quando necessitarmos de cooperar.

Com cumprimentos muito cordiais,

David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão

Conselheiro Nacional de Educação

Declaração Final do VI Congresso da Pró – Inclusão

Os 350 participantes do VI Congresso Internacional “Educação Inclusiva: olhares pelo caminho”, presentes em Santarém, aprovam, por aclamação, a seguinte Declaração Final:

  1. Estamos conscientes do caminho de progresso que foi feito para a construção de uma educação inclusiva.  Para este caminho muito contribuiu uma vontade política constante ao longo do nosso regime democrático bem como o protagonismo das famílias, dos professores e de toda a comunidade educativa.
  2. Estamos agora mais conscientes do caminho que nos falta percorrer para atingirmos uma efetiva educação equitativa e inclusiva. O caminho que percorremos conduziu-nos até à situação favorável em que nos encontramos, mas também nos permite ver melhor em quantidade e qualidade as medidas que são mais prementes para que a educação de qualidade chegue a todos e a tempo.
  3. Precisamos de continuar o que se mostrou correto, de reforçar o que se revelou frágil e de inovar no que se mostrou desadequado. Citamos a urgência de consolidar as medidas legislativas que apontam inequivocamente para uma educação equitativa, inclusiva e de qualidade para todos os alunos sem exceção, precisamos de reforçar os sistemas de suporte e apoio aos alunos que dele precisam, precisamos de promover e apoiar novas formas de ensinar, de aprender e de avaliar nomeadamente através de políticas que encorajam a inovação da escola e formação a todos os níveis e para todos os agentes educativos.
  4. Assumimos o compromisso de não pactuar com modelos educativos que promovam a exclusão dos alunos que mais precisam de educação, que mais podem beneficiar de interação e de participar em processos que os levem a aprender e a se desenvolver como pessoas humanas e cidadãs. A Inclusão é um processo e não pactuamos com aqueles para quem a educação ou é perfeita ou é uma fraude.
  5. Queremos convidar todas as pessoas que se interessam por educação, sejam elas, famílias, docentes, técnicos ou alunos para que, em sintonia com a Compromisso de Cali da UNESCO proclamado em setembro de 2019, a apelar para que se criem em todas as escolas portuguesas ambientes seguros, acolhedores, positivos, humanos e livres de qualquer forma de violência de forma a assegurar a motivação, a implicação e promover resultados positivos de aprendizagem e de educação para todos.
  6. Estamos seguros de que não nos enganamos quando optamos por um sistema educativo que persegue a equidade, a inclusão, a participação e a cidadania de todos os alunos. O caminho da inclusão é o caminho da justiça social, o caminho que nos permitirá construir um país de que nos orgulhemos: mais justo, sustentável e humano e assim tornar mais próxima a consumação dos Direitos Humanos. Para todos os humanos.

Santarém, 26 de outubro de 2019

Aplauso

 

A Minha “Imaginação Sociológica” – 2

Dou continuidade, com atraso, aos meus seminais (pré?) conceitos que alguém considerou serem de “imaginação sociológica”, embora pareçam ter gostado da ideia e já reclamem, de forma equivalente, práticas imaginativas em outras áreas. Talvez o mais provocatório e inovador seja o de “Corte Inclusiva“, pois corresponde a um fenómeno que é mais recente e entrou na nossa realidade quotidiana já depois da elaboração dos grandes manuais de sociologia do século XX e ainda nos faltam referenciais dignos desse nome no século XXI.

Como é do conhecimento geral, o documento fundador de diversas tendências relacionadas com a defesa dos direitos das crianças e jovens com problemas de aprendizagem ou (como foi possível designar até 2018) “necessidades educativas especiais” foi a Declaração de Salamanca de 1994 que, como todos os textos sagrados da Humanidade, fundou una Fé mas, em simultâneo, conduziu a diferentes teologias exegéticas que nem sempre conseguiram conviver muito bem entre si, para além de despertarem o natural ímpeto para lutarem com denodo e muito arreganho pelo acesso ao Poder para melhor conseguirem impor as suas concepções interpretativas do Verbo Inclusivo.

O que significa à luz do conceito já analisado de Círculo Interno do Poder que a “Corte Inclusiva” é uma espécie de subconjunto seu, logo que os representantes da facção inclusiva dominante num dado contexto histórico-político conseguem aceder a tal posição. Não se deve confundir em nenhum momento “Corte Inclusiva” com “Educação Inclusiva” porque enquanto esta é plural e integradora, aquela é restritiva e exclusora na sua práxis. Podemos ser crentes e praticantes da “Educação Inclusiva” mas ser proscritos pela “Corte Inclusiva”, porque o estatuto de “cortesão” depende da adesão, sem reservas, aos seus dogmas particulares sobre o que é (ou não) a “Inclusão”. Não é raro o recurso nos textos de alguns dos mais destacados cortesão inclusivos o uso de binómios como “nós/eles”, “cá/lá”, “dentro/fora” ou a associação de qualidades positivas negativas aos indivíduos conforme o seu alinhamento com a Corte e as suas interpretações dos textos, em especial normativos, que, ao longo dos tempos, traduziram as verdadeiras intenções do documento fundador.

Tomemos com base este excerto:

” – as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que a elas se devem adequar através duma pedagogia centrada na criança, capaz de ir ao encontro destas necessidades,
 – as escolas regulares, seguindo esta orientação inclusiva, constituem os meios capazes para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria das crianças e promovem a eficiência, numa óptima relação custo-qualidade, de todo o sistema educativo.”

A parte final desta passagem – sim, a declaração de Salamanca já era “centeno” e preocupava-se certamente com a finitude dos recursos dos contribuintes mesmo quando ainda se podia fazer moeda sem as restrições do euro – tem servido para práticas menos sensíveis às preocupações pedagógicas inclusivas, propriamente ditas, do que à referida “optimização” da “relação custo-qualidade” do que se faz passar como “Educação Inclusiva”. Tem sido grande a preocupação em detectar necessidades de “formação” que em regra é aplicada quase exclusivamente por membros da tal “Corte Inclusiva” associada à produção dos normativos legais de que pretendem fornecer a única interpretação legítima, em vez de serem produzidos diplomas claros e materiais pelo ministério da Educação com indicações sobre o que deve/pode ser feito e quais as margens de “autonomia” de escolas e professores.

Se algo corre menos bem, não há que enganar… não foi falha legislativa e muito menos da formação, mas sim de quem não percebeu a infalibilidade da coisa e necessita de mais formação por parte dos cortesãos inclusivos.

O esquema de funcionamento é como se segue (e também se aplica à “flexibilidade curricular” pois, afinal, os 54’s e 55’s são gémeos):

Esquema Inclusivo

 

Resta esclarecer que ao poder político os cortesãos inclusivos são muito úteis e tanto mais quanto se sentirem “pais” do Modelo Único de Inclusão (conceito a definir em outro verbete) e ao mesmo tempo os seus apóstolos, funcionando como reforçada muralha d’aço contra a barbárie dos professores ou outras criaturas não imbuídas do verdadeiro espírito inclusivo.

A Tolerância Inclusiva

Parece que após o post da “marca branca” (o template deste quintal não engana!), acumulando com alguns reparos resultantes da minha “imaginação sociológica”, o David Rodrigues decidiu ter a atitude que se impõe em alguém que aprecia o debate no século XXI e desamigou-me no fbook. Está no seu direito, pois eu também “desamiguei” um par de pessoas aqui no blogue. Só que eu nem sou um tetraneto bastardo do Modelo Único da Inclusão nem um dos maiores defensores da tolerância e da flexibilidade. Se ainda consigo meter-me under their skin é um bom sinal. Quer dizer que ainda lhes resta alguma sensibilidade e há uma réstia de esperança de bom senso. Eu proponho desde já a criação de um Perfil do Professor da Escolaridade Obrigatória, com referência incontornável à cor de cada um, que é para se poder aferir da sua qualidade e adesão à nova grande fé.

Já agora… prometo post sobre alguns dos “conceitos” paródicos que usei na troca de comentários (Modelo Único de Inclusão, Cortesãos Inclusivos e Círculo Interno do Poder ou algo parecido) de há uns dias e que foram correctamente classificados como “imaginação sociológica”. Alguns são mesmo bué divertidos e retratam até melhor a realidade que vivemos do que alguma “sociologia dos tadinhos”.

Laughing2

(também poderei discorrer sobre o conceito tolerante e inclusivo de “dor de corno”, mas… o seu a seu dono…)