A Circulatura Da Interpretação Única E Legítima

  1. Há umas conversas em circuito fechado acerca da melhor maneira de lidar com uma situação que não é de solução clara e evidente.
  2. O gabinete de um governante manda cá para fora, de modo discreto ou nem tanto, uma espécie de fuga de informação sobre a solução provisória pensada após esse “diálogo”, mas de maneira que possa ser sempre negada a sua autoria ou legitimidade.
  3. Conforme as reacções, acerta-se ligeiramente a proposta oficial que agora se torna recomendação/instrução e se envia, em primeira mão, aos canais de comunicação “certos”, tradicionais ou inovadores.
  4. O documento em causa aparece publicamente por fim com chancela mesmo oficial (mas nem sempre com assinatura clara) e só então chega aos directamente interessados.
  5. Percebe-se que o documento está mal redigido, porque é pouco claro numas passagens, omisso em outras ou apenas disparatado em aqueloutras. Surgem as críticas que se acusam de apenas colocarem “problemas” e não terem lido correctamente o que foi determinado por mentes reconhecidamente preocupadas com o bem comum da Nação.
  6. O tal governante vai à televisão apresentar a interpretação legítima do raio do documento, sempre que possível sem qualquer contraditório e com um@ pivô adequadamente compreensiv@ com o interesse nacional numa situação de crise como esta.

Circo2

(o processo reinicia-se as vezes que forem necessárias e conforme as mijinhas tidas como indispensáveis para ser possível limpar as mãos à parede dos inconseguimentos e incompetências)

Dia 46 – Os Paradoxos do “Reskilling”

Ligo a televisão e vejo uma jovem especialista em recursos humanos de nacionalidade indefinida a falar em inglês “técnico” acerca da aceleração do reskilling nestes últimos meses. E não consegue esconder o entusiasmo perante o que ela diz ter sido uma transformação rápida no mundo do trabalho que antes se dizia ser matéria para anos.

diario

Indeferimentos By Default?

Recorrer ao ao artigo 266º da CRP (ou o artigo 9º do CPA) para indeferir pedidos de escusa de avaliador externo é risível porque, assim sendo, mais vale dizerem que qualquer funcionário pode fazer qualquer coisa e o deferimento de qualquer pedido é impossível. Ora… a mim parece claro que isto configura um abuso de poder, com evidente falta de proporcionalidade na aplicação da lei e uma grosseira distorção do seu espírito. A menos que aceitem, então, que o artigo 21º possa ser invocado a este respeito.

Bulldozer1

4ª Feira

Se o ME pede às escolas todos os anos, todos os meses, todas as semanas, uma enorme massa de informação sobre todos e mais alguns aspectos do seu funcionamento e acerca do seu corpo docente, que partilha com investigadores académicos certificados e comentadores do Observador, como se explica que tenham falhado de forma tão estrondosa a previsão da falta de docentes em várias regiões e grupos disciplinares (que são mais do que os anunciados)? Quando se preparam para mais outra plataforma a 360 graus, daquelas em que o mais certo é termos de passar o cartão na porta da casa de banho e assinalar o número da razão da utilização, para que serve tanta informação acumulada?

Apenas se demonstra que o acesso a informação, muita informação, de pouco vale se não se souber o que nela procurar ou que fazer com isso. O problema dos big data quando fica nas mãos de small minds é este.

Dumb

A Necessidade Da Memória Em Tempos Digitais

Regressei ao mundo real e, como seria de esperar, foi duro. Porque há coisas por pagar, outras por levantar, não sei mais o quê por resolver, tudo acrescido do facto do choque térmico de quase 10 graus em poucas horas.

Para começar a resolver algumas coisas ainda hoje, lá fui levantar duas encomendas que estavam em espera (por uma vez não eram nos ctt) e que necessitavam de códigos para ser detectadas, mesmo se uma estava bem visível do balcão onde eu me encontrava. Claro que tudo segue um protocolo e a jovem funcionária (vintes e poucos) deve ter tido formação, mas ai-jesus que não sabia de nada e lá chamou o colega. O colega queria ver a mensagem de confirmação que me tinha sido enviada. Perguntei-lhe se não chegava que eu lhe dissesse o código que lá vinha (7 dígitos, para um tipo arcaico como eu fixam-se em poucos segundos e tinham sido vários os minutos que passaram enquanto observava a funcionária incapaz de lidar com os procedimentos que não soubera memorizar. Claro que saberia clicar nos ícones e até reconhecer palavras, mas ficou evidente que fora incapaz de memorizar a sequência das operações.  Desconfiado, o que a veio auxiliar lá inseriu o código que lhe disse, não sem antes comentar que não lhe parecia normal para uma encomenda online. Azar, estava certo e deu com a coisa. Uns vinte minutos depois de tudo ter começado, lá me deram o que estava à minha vista, num expositor de encomendas com a identificação bem à vista. Ainda bem que pagara previamente ou nem tinha conseguido almoçar em tempo útil e sabeis como isso me incomoda.

No segundo caso, novamente uma jovem funcionária (vintes um pouco mais avançados) capaz de ir buscar o que era necessário onde quer que estava, depois de alguma luta para inserir o meu nome (o raio do apelido é chato para quem só espera por silvas) mas absolutamente incapaz de pelos seus meios produzir a factura do produto para que eu o pudesse pagar. Pedido de ajuda a uma outra colega, mais graduada e despachada, que deixou as coisas mais ou menos alinhavadas até eu perceber que estava a ser facturado o dobro do valor devido por duplicação das quantidades (pelos vistos cada uma terá inserido o produto de forma autónoma). Vai de refazer todo o processo e eu a explicar à minha petiza como a informática ajuda muito (até porque sou utilizador registado, com todos os dados já lá guardados na base) se as pessoas a souberem usar E tiverem capacidade para memorizar os procedimentos correctos a adoptar.

E é no quotidiano que se percebe que a imensa facilidade em descarregar e usar apps no telemóvel ou publicar as férias, festas e felicidades nas redes sociais, podendo corresponder a “competências digitais”, está longe de satisfazer necessidades básicas de um quotidiano laboral que exige, apesar de todas as modernidades, o mínimo dos mínimos de alguma malfadada capacidade de memorização.

Mas eu é que estou velho e não percebo mesmo nada disto.

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Pois… Por Cá Vamos Nesse Caminho… Cantando E Rindo…

Mas é complicado que gente intolerante e ensimesmada se dê ao trabalho de tentar compreender os erros evidentes que outros já detectaram. Os “perfis” e “competências” para o “século XXI” podem estar apenas a prejudicar mais exactamente aqueles que se diz querer beneficiar com as pedagogias pretensamente “inclusivas” das soft skills.

Elementary Education Has Gone Terribly Wrong

In the early grades, U.S. schools value reading-comprehension skills over knowledge. The results are devastating, especially for poor kids.

(…)

All of which raises a disturbing question: What if the medicine we have been prescribing is only making matters worse, particularly for poor children? What if the best way to boost reading comprehension is not to drill kids on discrete skills but to teach them, as early as possible, the very things we’ve marginalized—including history, science, and other content that could build the knowledge and vocabulary they need to understand both written texts and the world around them?

calvinyhobbes-leer-ingls

Eu Vi O Futuro da Educação E Assustei-me (Um Pouquinho)

Está aqui, tem uma ficha técnica que merece exploração, quase tanta quanto a lista de constructs no final ou o plano de implementação (a apresentação por uma das colaboradoras nacionais é mais fofinha) É que em 2030 eu ainda nem cheguei à idade da reforma…

The list is not exhaustive but constructs are selected that are closely related to the key concepts underpinning the framework.

‒ Adaptability/ Flexibility/ Adjustment/ Agility
‒ Compassion
‒ Conflict resolution
‒ Creativity/ Creative thinking/ Inventive thinking
‒ Critical-thinking skills
‒ Curiosity
‒ Empathy
‒ Engagement/Communication skills/Collaboration skills
‒ Equality/ Equity
‒ Global mind-set
‒ Goal orientation and completion (e.g. grit, persistence)
‒ Gratitude
‒ Growth mind-set
‒ Hope
‒ Human dignity
‒ Identity/Spiritual identity
‒ Integrity
‒ Justice
‒ Manual skills for information and communication technology (related to learning strategies)
‒ Manual skills related to the arts and crafts, music, physical education skills needed for the future
‒ Meta-learning skills (including learning to learn skills)
‒ Mindfulness
‒ Motivation (e.g. to learn, to contribute to society)
‒ Open mind-set (to others, new ideas, new experiences)
‒ Perspective-taking and cognitive flexibility
‒ Pro-activeness
‒ Problem solving skills
‒ Purposefulness
‒ Reflective thinking/Evaluating/Monitoring
‒ Resilience/Stress resistance
‒ Respect (for self, others, including cultural diversity)
‒ Responsibility (including locus of control)
‒ Risk management
‒ Self-awareness/Self-regulation/Self-control
‒ Self-efficacy/Positive self-orientation
‒ Trust (in self, others, institutions)

Já perceberam que o tal Perfil de Competências para o século XXI ainda poderia ser pior?

Orgasm

Um Texto de 1996 Sobre Competências

Que fazia um interessante balanço do debate tido nas décadas anteriores sobre o tema. O aflitivo é que, por cá, há partes que poderiam ser usadas em powerpoints para “formação” com evidentes ganhos sobre o que circula como sendo pensamento inovador.

What is competence? What is competency?

Competence and competency. What is competence? How has it been reduced to competency? What is the impact on education and training?

Ler