Dia 70 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 3

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Nos últimos meses, tendeu-se a apresentar como se fosse uma “revolução” o processo de substituição das aulas presenciais nas escolas por variantes que procuraram replicá-las da forma mais fiel possível, só que à distância. O maior exemplo disso é o das aulas da “Telescola”. No fundo é uma “aula” dirigida ao mesmo tempo a todos os alunos, com o problema de não ter interactividade com o seu “público”. O mesmo se passa com as sessões “síncronas” em que tantas escolas parecem ter colocado ênfase, obrigando alunos e professores a estar ao mesmo tempo a realizar uma determinada actividade. No fundo, tirando o meio pelo qual se concretiza a “aula”, pouco acontece de verdadeiramente novo e há mesmo importantes perdas em relação às aulas presenciais.

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diario

Comunidade Youtube – #Estudo Em Casa

Professores convidados a disponibilizarem as suas aulas em plataforma universal

O #EstudoEmCasa chega ao YouTube através de 5 novos canais, com aulas para crianças e jovens da Educação Pré-escolar ao ensino secundário.

Num momento em que as atividades letivas presenciais estão suspensas, multiplica-se a oferta de conteúdos pedagógicos, para lá da resposta via televisão concebida para os alunos do ensino básico, a qual será formalmente apresentada amanhã, quarta-feira.

Resultado da parceria entre o Ministério da Educação, YouTube e Thumb Media, é criada uma plataforma assente no YouTube, que permite que os professores disponibilizem as suas aulas, possibilitando que elas fiquem acessíveis à comunidade educativa alargada.

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No YouTube os canais poderão ser encontrados fazendo a pesquisa por “DGE #EstudoEmCasa”, ou nos seguintes links:

Pré-Escolar: https://www.youtube.com/channel/UChcfiTs4sqjwRS6fzaxKyog
1.º Ciclo: https://www.youtube.com/channel/UCTzWCFMxJ4wWmWlh-Gzewfg
2.º Ciclo: https://www.youtube.com/channel/UCyhocJbYZIOehpISd7yyNqQ/
3.º Ciclo: https://www.youtube.com/channel/UCmweZLU2OEU-FOBtLBLJ84w/
Secundário: https://www.youtube.com/channel/UCJdh52Zkf0u0qvYOfCWd3gg

Estes canais irão também incorporar os conteúdos que vão passar na televisão, para que fiquem acessíveis (on-demand ou de forma individualizada) sempre que professores e alunos precisarem.

Ora bem… eu já fui ver e… já conhecia o endereço dos vídeos da Khan Academy.

Quanto a outras coisas… ficarei feliz se os meus alunos forem ver algumas destas aulas profundamente “inovadoras” irão dar (ainda) mais valor às deste velho e arcaico professor, se me permitem a presunção. Não é tão mau quanto as webinars da DGE, mas… Às vezes há coisas que, nem obrigado, um tipo se deve prestar a fazer. Não há xalente que justifique.

pop corn

 

 

A Tele-Narrativa – 2

Eu em matéria de reinvenções prefiro aquelas que se fazem pelo exemplo e o que é chato é que a maioria d@s reiventor@s da roda têm tendência para serem péssimos exemplos disso mesmo. Basta ver algumas das apresentações/comunicações dos arautos da “inovação”.

E depois querem “toda a Escola Pública” a reinventar-se como se fosse mesmo isso o essencial. Não, lamento, mas não é. O que é prioritário é desenvolver a sociedade para que ela possa corresponder a um nível diferente de exigências que tem muita dificuldade em acompanhar. Basta ver as queixas ao fim de um mês de confinamento, sendo que duas semanas já seriam de férias para os alunos.

Uma “nova Escola Pública”? Deixem-me rir… vocelências sabem lá o que isso é em larga escala, fora dos vossos nichos e zonas de conforto

E se toda a Escola Pública usar o período da quarentena para se reinventar?

Quem não fez já um curso on-line sobre as ferramentas para as quais não tinham tido a formação e a preparação prévia necessária ou adequada, como o caso do moodle, zoom, classrrom [sic] , entre outras?

Haddock

A Única Saída É Mesmo Rir

Como me dizem que estamos em tempo de ser “construtivos” e de “remar todos para o mesmo lado” (desde que se mantenham a distância de segurança, para que não se pegue o vírus da parvoíce, desculpem, da cerveja corona) vou abster-me de comentar desde já isto e ignorar toda a evidente falta de liderança na área da Educação neste momento, porque um não sabe, o outro não gosta de aparecer durante os temporais e a outra chegou agora mesmo e não foi para isto que aceitou o cargo.

Exm.s (as) Sr.s (as) Professores (as)

No âmbito da utilização das tecnologias colocadas ao serviço do cidadão, a DGAE criou uma nova modalidade de comunicação por e-mail, apostando na inovação, na modernização e no aumento da qualidade dos serviços prestados, o E72. Com esta nova funcionalidade não apenas nos propomos responder até 72 horas às questões que nos sejam colocadas, como ficará disponível a cada um o histórico das suas comunicações.

Fizemos testes com várias escolas para melhor percebermos o nível da sua funcionalidade, incorporámos várias sugestões de melhoria e o resultado confirmou a importância desta nova funcionalidade.

Assim, a partir de hoje todos poderão utilizar o E72, acessível através do SIGRHE.

Estamos certos de que esta nova funcionalidade constituirá um reforço na qualidade das comunicações, num momento em que muitas das questões serão relacionadas com o novo (COVID-19). A todos desejo uma ótima comunicação!

A Diretora-Geral da Administração Escolar

Susana Castanheira Lopes

E72

(as 72 horas devem ser para preparar/consultar o menu de respostas automáticas produzidas para o efeito, tipo indeferimento de pedidos de escusa…)

O Problema É Que Não Há Meios Para Todos

E depois as experiências são muito interessantes, mas restritas a algumas salas, algumas turmas e a uma minoria de alunos.
Se estas opções me agradam muito? Claro que sim… Tomara eu não ter cadeiras e mesas quase do século XIX na maioria das escolas não intervencionadas durante a “festa” da senhora reitora.

Designing flexible learning spaces

FEM 2020: 3 – Inovação

Outro termo que é atropelado e tropeliado a cada esquina sem dó nem piedade é “inovação”. Porque parece que há quem não perceba o que “inovação” quer propriamente dizer. O termo tem etimologia no latim innovatio (não se espantem, isto até a wikipédia diz) e significa criar algo novo (ideia, processo, aparato) que se distingue do que antes existia, mesmo se pode resultar da combinação de elementos antes já conhecidos. Mas é algo que difere do que já foi feito.

Assim sendo, quase tudo o que vejo ou ouço tratar nos dias que correm como “inovação” não o é, não passando de “repetição” (repetitio), mais ou menos cosmetizada ou envernizada apressadamente. Mais do que voltar a fazer o que foi feito, servem-me como vnoas fórmulas há muito testadas e praticadas. Não é por terem sido abandonadas tais práticas ou abandonados os objectos que a sua reutilização ou recuperação se torna “inovação”. Não é porque recombinamos graficamente os procedimentos de planificação, implementação e avaliação de um dado “projecto” ou “actividade” que eles se tornam “inovadores”.

Tudo bem, podemos passar de uma grelha quadriculada para um fluxograma um determinado processo, mas isso não traz qualquer “inovação pedagógica”. Não é porque se apresenta a coisa numa app ou programa mais recente que ela se torna nova. Um lifting ou uma injecção de botox deixa a senhora (ou senhor) com a mesma idade, apenas muda a sua “aparência”. E nem sempre para melhor.

Por caridade, não me cansem com banha da cobra como se fosse toda uma new school. O marketing está bem pensado em termos de repetição (hoje levei com outra apresentação que nem tirou lá em cima a tarja do pafismo educacional, mesmo que estreitinha e discreta), mas só engole quem é muito verdinho nisto ou já foi atacado pelo senhor Aloísio (e agora? vá de correr ao google…). Ou já está por tudo, desde que se calem antes de falecermos de tédio.

Inov

Eu Tenho Aqui Um Cenário D (Ou 4) À Atenção Do Conselho Nacional Da Educação Sobre O Recrutamento Dos Professores

É um cenário inovador e o de maior proximidade em relação aos interessados, não há como o negar. Seria o do recrutamento dos educadores e professores por comités de alunos desde o pré-escolar até ao Secundário. Três ou cinco futur@s alun@s, a quem os candidatos à docência nas suas escolas, após completarem a sua formação académica, profissionalização e com eventual experiência prévia na docência, pudessem apresentar os seus projectos e a quem, já agora, pudessem oferecer umas maçãs bem enceradas, uma pá de borrego ou um cestinho de chupas e gomas. A decisão seria tomada com o clássico sistema de bolas pretas e brancas mas, em nome dos tempos inclusivos, com as bolas pretas a significarem o sim. No caso da contratação de educador@s para os bebés mais picarruchos, poderia medir-se a competência pela capacidade de os fazer gargalhar deliciosamente.

apple

Aula Integral Ou Com Linha De Horizonte Muito Curta?

Em vez de uma parafernália de quizzes e zingarelhos tecnológicos para abordar o Sistema Solar, “revolucionário” seria levá-los lá para fora, à noite e ensiná-los a ver as estrelas reais, a imaginar “um pouco mais de azul”, fazê-los libertar a imaginação ao observar o infinito celeste. Ensinar-lhes a usar um telescópio e a verem as constelações sem ser com identificação automática numa app.

E falar-lhes de Galileu.

Nada contra as aplicações em causa, de que aprecio e pratico em especial o Quizizz, mas… o Céu e não o ecrã é que deve ser o limite.

Imagine o leitor uma aula em que o assunto é o Sistema Solar. Cada aluno cria uma pequena apresentação sobre um planeta, o Sol ou o que quer que seja, e dá à turma uma palestra de cinco minutos. A turma debate sob a orientação do professor e, ato contínuo, resolve um quiz numa aplicação chamada Kahoot, ou uma consolidação em grupo numa outra funcionalidade, o Quizlet!. Quando chegam a casa, recebem no telemóvel os códigos para jogarem entre eles com novos quizzes numa outra aplicação, o Quizizz. Muitos dos jogos contêm variações que nem foram abordadas nas aulas, mas que fazem parte da tal estratégia de autoaprendizagem. E os miúdos conseguem porque estão envolvidos e, acima de tudo, gostam do que estão a fazer! Na aula seguinte, eliminamos conceções alternativas através do Mentimeter e fazemos um novo Kahoot. Apesar de o programa da disciplina se ir desenrolando, os quizzes antigos vão sendo disponibilizados, de modo a dar a oportunidade a todos para consolidarem aprendizagens anteriores, ficando reservada ao professor a tarefa de moderador das aprendizagens

A aula integral, com toda a ligação direta ao mundo da tecnologia de que os jovens já não abdicam e o seu manancial de ferramentas facilitadoras, não é apenas uma proposta pedagógica alternativa, mas um conceito revolucionário no que concerne a ensinar e aprender.

Telesc