O Oposto De “Pensamento Único”…

… é a aceitação da pluralidade de “pensamentos”, em especial se devidamente fundamentados e não uma outra narrativa de “pensamento único”. Ora, o que mais encontramos nos críticos do “pensamento único” são defensores de outro “pensamento único”. Criticam o totalitarismo intelectual, praticando o mesmo pecado, só que o seu acham-no virtuoso. Seja pandemia, seja utopia, o que não é um simples troca e ideias sobre o assunto.

Ok, discordamos sobre esse assunto… e se utilizássemos argumentos baseados em factos demonstráveis, sem derivas relativistas morais sobre os ditos cujos ou causalidades que vão quase desembocar do Adão e na Eva ou nos pais da Lucy?

É Assim Tão Mau Viver Num Regime Dominado por Talibãs?

Não me parece coisa complicada, desde que se aceite que nos digam como pensar da única forma certa, como falar de modo aceitável em público para não ser ter problemas, como nos devemos vestir, como comer, como ocupar os tempos livres e, principalmente, desde que aceitemos que o sistema educativo seja dominado pelas crenças de um grupo fortemente ideologizado que o use como ferramenta doutrinária dos mais jovens.

É mesmo uma pena que tudo isso me desagrade (mais aquela moral sexual muito à frente e exigente em termos de desempenho, com aquilo das 72 virgens) ou já tinha ido ver se há voos low cost para Cabul.

A História E O Humor Importam

O texto deste mês para o JL/Educação.

JL/Educação, 4 de Novembro de 2020

No dia 16 de Outubro, o professor francês de História e Geografia Samuel Paty foi decapitado por ter mostrado duas caricaturas de Maomé numa aula sua, alguns dias antes. Não conheço o contexto específico em que essa apresentação aconteceu, mas nunca poderá justificar o que se passou, desde logo porque se baseou em parte no alegado sentimento de ofensa de uma aluna que se veio a saber nem ter estado na referida aula (cf. “Attentat de Conflans : qui a informé le bourreau de Samuel Paty?”, Le Parisien, 20 de outubro de 2020[i]).

O caso levanta mais questões do que apenas o dos excessos do fundamentalismo islâmico, porque questiona directamente o papel do professor na sociedade e na própria escola, bem como aquilo que cada vez mais lhe é vedado fazer sob risco de diversas ameaças, das menos problemáticas às mais perigosas, como o despertar da fúria intolerante de grupos que se revelam incapazes de lidar com a diversidade, o confronto de olhares sobre a realidade ou mesmo o humor.

Como professor de História e fã confesso de banda desenhada e cartoons, costumo usar caricaturas em apresentações em algumas das minhas aulas, particularmente no caso da História Contemporânea. É verdade que, talvez por um mecanismo de censura inconsciente, não uso esse tipo de materiais quando abordo temas relacionados com a religião. Mas uso-as com alguma extensão em temas de tipo político, incorporando o humor na abordagem de questões polémicas e sobre as quais é importante ir para além das leituras áridas e maniqueístas. Apenas a título de exemplo, recordo as caricaturas que, desde finais do século XVIII caracterizaram a luta ideológica entre liberais e absolutistas, mais tarde entre as correntes socialistas ou de inspiração marxista e os seus adversários burgueses ou entre as diversas potências em conflito na I Guerra Mundial, não esquecendo a fortíssima componente visual da propaganda nos regimes autoritários de entre as guerras ou dos tempos da Guerra Fria.

Da caricatura mais descomprometida, como comentário à actualidade, à sátira que visa estereotipar de forma negativa os adversários, num contexto de luta ideológica (desde a tentativa de ridicularizar as sufragistas à oposição entre republicanos e monárquicos) esta é uma prática que em Portugal tem, desde as últimas décadas do século, tradição no combate político. Claro que o vulto maior foi e será sempre Bordallo, mas muitos se lhe seguiriam e muitas foram as publicações que deram espaço crescente à sátira política, com maior ou menos alinhamento político-partidário. Durante a I República, em especial nos anos da participação na Grande Guerra, assim como nos anos da Ditadura Militar e do Estado Novo, o jornal humorístico Os Ridículos foi uma das maiores vítimas da censura menos discreta (as “bexigas” durante o período republicano, com os espaços em branco das imagens cortadas) à mais hábil (que exigia, no período da ditadura, que os conteúdos censurados fossem substituídos por outros ou pelo menos por anúncios).

Não é por acaso que os regimes autoritários são os que mais dificilmente lidam com o humor, pois este representa a realidade sob um prisma que a intolerância considera criminosa ou blasfema. Seja no plano religioso ou no político, o riso aberto ou o simples sorriso aflorado é algo que atemoriza quem quer encenar um poder forte e sem contestação, pois causa insegurança, porque ridiculariza o que se pretende sério. Muito sério. Os fundamentalismos de qualquer tipo não deixam espaço para a auto-crítica, pelo que não admitem a derisão, a menos que seja dirigida aos que quer amesquinhar ou demonizar.

O que se passou com o professor Samuel Paty resultou da confluência de fenómenos que estão longe de ser modernos, como a intolerância, a distorção dos factos para diabolizar e “construir o inimigo” ou o incitamento a fenómenos de violência “justiceira” contra as alegadas ofensas ou blasfémias, com os mecanismos modernos da transmissão rápida das mensagens destinadas a acicatar a súria das massas até que alguém (indivíduo ou grupo) decida passar a uma acção de que nem sempre é assumida a responsabilidade, sendo comum a afirmação de ter sido um acto de inspiração divina. Foi uma “voz de Deus” que deu a ordem, foi a “mão de Deus” que a executou, sendo os indivíduos meros agentes de uma vontade que os transcende. Mas Umberto Eco também alerta para o facto de esta construção do inimigo ser quase uma necessidade identitária, difícil de ultrapassar em grupos que se procuram afirmar num ambiente que sentem como hostil.

«Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.” (Umberto Eco, Construir o Inimigo e outros Escritos Ocasionais. Lisboa, Gradiva, 2011, p. 12)

Samuel Paty, professor de História que a tentou abordar através do humor foi o “inimigo” que alguém decidiu construir para, na sua comunidade, afirmar a sua identidade e os seus valores. Acusando-o de mostrar “desenhos pornográficos” aos seus alunos, alegando a ofensa de alguém que nem esteve presente na aula, exigindo castigo do pecador blasfemo, até que esse incitamento acabou na sua decapitação.

Literal e simbólica, porque para além do Homem, também o Humor e a História foram atacados pelo homicida. E, numa leitura mais extensiva, o próprio papel da Educação nas sociedades modernas foi colocado em causa por quem considera que ela deve estar ao serviço de uma única visão do mundo, assim como a História deve ser apresentada de forma instrumental, para exaltação dos “escolhidos”.

É verdade que os fenómenos mais recentes (como o massacre na redacção do Charlie Hebdo em 2015 ou as ameaças ao cartoonista dinamarquês Jyllands-Posten em 2005 que levaram a que tivesse de viver anos sob protecção policial) colocam o foco principal no fundamentalismo islâmico, mas é bom relembrar as ameaças, certamente com consequências menos trágicas, feitas em 1992 ao cartoonista português António quando caricaturou o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz ou a recente situação (Junho de 2019) de proibição de cartoons na edição internacional do The New York Times e a dispensa dos serviços de Patrick Chappatte e Heng Kim Song após a publicação em Abril de uma caricatura considerada “anti-semita” do mesmo António.

A morte de Samuel Paty, apesar das manifestações em sua homenagem que se foram sucedendo, em breve será apenas uma memória, esperando que mesmo essa memória não se desvaneça ou apague progressivamente, à medida que a História vai sendo encarada como uma disciplina menor, sem grande interesse, da qual se tem sistematicamente desinvestido devido à sua alegada natureza arcaica para aqueles que acham que a Humanidade do século XXI não precisa conhecer o seu passado, muito menos acontecimentos ou processos que ajudem a entender como chegámos ao presente. O professor de História é, neste contexto, o representante de uma espécie que se pretende em extinção, residual, portador de um saber inútil a menos que aceite colocar-se ao serviço da exaltação dos protagonistas do Poder. A História é encarada como uma espécie de apêndice curricular, a merecer menos atenção (descontemos os elogios públicos hipócritas) do que qualquer modismo passageiro (como o “empreendedorismo”) ou saber instrumental (a “prevenção rodoviária”), porque estes são “úteis para a vida diária”.

O papel dos historiadores ou dos professores de História na recuperação do passado é incómodo para os regimes baseados numa Fé ou Verdade Única, pois a sua missão é a de apresentar diferentes olhares sobre o que se passou, não apenas o dos vencedores transitórios. Mas a História e os seus agentes com sentido ético do seu ofício também incomodam os defensores da fragmentação da Verdade a um ponto que se torne impossível legitimar mais do que “verdades funcionais”.

A História “comprometida” é uma História truncada. Mesmo se não há História “pura”, totalmente neutra ou asséptica. Mas para o ser com maiúscula deve procurar sempre alguma forma de equilíbrio, mesmo quando não se impede de tomar partido. A História ajuda a compreender, exige esforço, resiste às simplificações, Incomoda. Tal como o Humor.

Samuel Paty era um professor de História com Humor e morreu por causa disso.


[i] https://www.leparisien.fr/faits-divers/attentat-de-conflans-qui-a-informe-le-bourreau-de-samuel-paty-20-10-2020-8404191.php

Irmãos De Samuel – A História Importa

Passa uma semana sobre o assassinato de um professor de História francês (Samuel Paty), por ter mostrado aos seus alunos caricaturas de Maomé. Como comprador antigo de banda desenhada satírica francesa (sim, do Charlie Hebdo muito antes da fama pelas piores razões, da L’Echo des Savannes, da Fluide Glacial, porque cá é o que ainda se acha), consumidor assumido de cartoons que alguns consideram blasfemos e professor de História que recorre muitas vezes a este tipo de suporte para ilustrar episódios e fenómenos da História mais recente (e não só), sinto que a violência se exerceu sobre uma parte de mim, mesmo se de forma alguma me sinto no perigo que ameaça outros colegas, em outras paragens.

Há um par de dias, a Anabela Magalhães chamou-me a atenção para a importância de assinalarmos esta data com algum tipo de iniciativa, em especial com um grafismo evocativo que nasceu de uma muito breve sessão de brainstorming virtual. Quase tudo se deve a ela, embora quem se lembrar de uma bd produzida nos tempos do Umbigo possa reconhecer os pássaros como metáforas de professores, só que agora estão bem negros, num luto bem literal. Como professores, em particular de História e muito em especial com o gosto de usarmos o humor e fontes de todo o tipo para ilustrarmos as nossas aulas e transmitirmos aos alunos a percepção da diversidade das experiências humanas através do tempo, do espaço e das sociedades, sentimo-nos “irmãos do Samuel” porque, no fundo, apenas temos a sorte de viver num cantinho onde, apesar de nem sempre ser muito bem frequentado, nos sentimos em segurança para ensinar e, ao fazer isso, recorrer a materiais que pensamos não colocar a nossa vida em risco. E esperamos que assim aconteça, apesar de sabermos que a intolerância se espalha velozmente e o desprezo pela História e a sua menorização no currículo corre a par com a nem sempre assumida vontade de truncar a memória das gerações, para ser mais fácil dar-lhes uma versão asséptica ou monocromática – seja de que sentido for – do passado humano.

Pessoalmente, acho quase tão perigosos aqueles que fazem tudo pela calada e com um discurso sonso a favor da “diversidade” que desmentem na prática, quanto os que vozeiam por aí contra moinhos de vento ideológicos que existem apenas residualmente nas convicções mesmo dos que ainda parecem ortodoxos. Os tempos são de marca cinzenta ou de extremismos meio afantochados, sejam os da destra ou da sinistra. Os autocolantes na porta do gabinete da deputada joacine são para mim tão caricatos quanto o retorno às teses pré-científicas de algum conservadorismo cultural, pois dos dois lados apenas promovem uma mal disfarçada intolerância. Aquela que, no fundo, levou ao martírio do professor Samuel.

Por isso, fica aqui o apelo para quem aguentou ler isto, no sentido de escreverem também algo sobre o tema ou, pelo menos, divulgarem a imagem que a Anabela produziu para este dia. Para todos os dias.

A História Importa. A Memória importa. O Humor importa. Muito. Porque a Liberdade Importa.