Não Se Deu Por Nada Enquanto Esteve No Governo

Percebe-se que andam a promovê-la, até com chancela do Pacheco Pereira que a decidiu elevar a um patamar curioso, para quem diz coisas perfeitamente óbvias: só que parece que isso é muito original quando se pertence ao partido que governa. O que é triste e só revela a enorme pobreza da nossa classe política.

Só quem não se lembra do modo como ela defendeu de modo acérrimo a gestão draconiana dos horários dos professores contratados é que pode achar que a senhora deputada é vagamente como agora se pretende apresentar. Palavras, vão com as ventanias e oportunidades, já as acções, em especial as de governante, têm efeitos concretos na vida das pessoas e são mais difíceis de negar.

Diz que “claramente” integra a ala esquerda do PS e assume-se “pedronunista”. Mas será uma carta fora do baralho quando um dia se discutir a sucessão de Costa? “De há uns meses para cá falam-me nisso.”

Pois…

Mais uns que andaram a assinar de cruz.

Associação de Professores de Português reconhece que o AO90 falhou

(…)

Em resumo, saúda-se a iniciativa da APP. Só falta a esta associação a honestidade de reconhecer que este problema constitui mais uma prova de que o AO90 é um falhanço vergonhoso. Só falta, portanto, honestidade.

Foi Rápido O Processo De Conversão Do PS À Liberdade De Escolha

Os directores devem escolher os seus professores.

As Universidades devem escolher os seus alunos.

Falta o lógico passo final para se tornarem a Iniciativa Liberal de Esquerda.

(não… não se trata de escolherem melhor as camisas e as gravatas, embora possa ser a primeira ideia que nos surge…)

A Sério?

Mas então, andam há 20 anos a mentir-nos, tanto políticos do alargado arco da governação (estou a incluir as muletas que se destacaram pela inacção), como um alargado naipe de opinadores mediáticos, subitamente preocupados com a Saúde e a Educação, quando levaram anos a catequizar-nos acerca do que se fazia lá fora e pelos vistos não é nada disso??

Não é cá que os funcionários públicos ganham muito e progridem sem qualquer travão ou mérito? qualquer dia, ainda dizem que até trabalham menos horas lá fora (e é verdade).

Melhores salários e rápida progressão: eles trabalham na função pública lá fora

O Grande Líder Apresenta-se – 1

João Costa chegou ao governo em finais de 2015. Eu tinha 50 anos. Chegou a ministro em inícios de 2022. Eu estava a fazer 57 anos. Em finais de 2015 eu sabia que em inícios de 2022 faria 57 anos. Apesar de ser de Letras, consigo somar números com poucos dígitos e usar um calendário. Aparentemente, o secretário agora ministro e a equipa do ME em 2015, apesar de incluir um cientista, não estavam em condições de fazer somas assim tão simples.

Em finais de 2015, sabia-se que existia já um enorme desgaste na classe docente, que os problemas de saúde estavam a aumentar, assim como o mal-estar psicológico estava instalado. Nada ou pouco se fez a esse respeito e, quase sempre, o pouco que foi feito, provocou mais desânimo e irritação do que alguma melhoria, pois a sensação de injustiça permaneceu, para além de que qualquer questão relacionada com os professores surge sempre envolvida em considerandos pouco favoráveis e uma muito mal disfarçada acrimónia.

A pandemia e o fracasso rotundo do ensino não-presencial pareceram reforçar a imagem dos professores, mas o sol durou pouco e as nuvens agruparam-se de novo. Mal terminou oficialmente a pandemia nas escolas, abriu o período do “faltam professores”, como se de novidade se tratasse. Não, não era nenhuma novidade e desde 2018 que os efeitos já se sentiam. E a previsibilidade da situação vinha ainda mais de trás, porque, como acima escrevi, somar um ano de cada vez à idade dos professores e analisar os números de pedidos de aposentação antecipada não carece de estudo encomendado a qualquer instituição externa ao ME, a menos que exista dinheiro para gastar e entregar nas mãos certas.

Sei que vozes de zecos não chegam aos céus olímpicos dos decisores iluminados, mas não fui o único a escrever repetidamente que a escassez de professores não tem a ver com o modelo de concurso, com as mobilidades por doença ou outras ou, sequer, com a falta de gente habilitada para a docência (basta ver os números do concurso externo). A escassez de professores resulta da degradação objectiva, material e simbólica, da docência, feita de modo deliberado por uma clique política alargada (que surge de recantos só inesperados para quem não conhece as figuras e os modos de pensar de pseudo-elites com pretensões intelectuais, de muitos “radicais de esquerda” aos liberais de direita), com forte ancoragem na comunicação social.

As condições de exercício da docência foram precarizadas em termos de vínculo e proletarizadas em termos materiais, fazendo com que poucos desejem entrar em tais condições e muitos desejem sair o quanto antes. O modelo de concurso só se tornou parte do problema quando o tentaram “aperfeiçoar”, no sentido da desregulação. Quando começaram a acontecer, de forma repetida coisas “extraordinárias” e ultrapassagens em diversas faixas de rodagem. Ou quando a colega de governo do actual ministro Costa, considerou que era tempo de tornar ainda mais draconianas as regras para os docentes contratados. Pelo meio, minguando a recuperação do tempo de serviço dos que estão na carreira e mantendo um modelo de avaliação de desempenho vulnerável aos maiores abusos e injustiças, ia-se desmoralizando os resistentes.

Recordemos que há 20 anos se decidiu que só poderia ser professor quem tivesse formação pedagógica, incentivando-se o que chamei muitas vezes “formação de aviário”, em que alguém sai certificado para a docência sem ter dado aulas. Foi uma opção errada, que derivou da confluência de muita gente numa ideologia da docência essencialmente como pedagogia e não da docência como actividade intelectual com forte componente académica. É a ideologia do actual ministro, que anda sempre a repetir uma ladaínha anti-conhecimento científico, muito new age, patchouly e mindfulness com granola ao pequeno almoço. Mas agora já se quer aceitar na docência qualquer pessoa, com qualquer formação de base e depois logo se vê se há seis meses para lhe pincelar uma “formação pedagógica” que legitime a designação de “professor”. Continuo a achar que o modelo está errado e que se deveria ter mantido aquele em que as pessoas se formavam numa área disciplinar específica, entravam no ensino e depois faziam a sua formação em exercício/serviço ao obterem um lugar no quadro. Em condições decentes. Com uma carreira em que todos pudessem ter o seu tempo de serviço contado. Não ter um par de gerações que perderam mais de seis anos da sua vida profissional, em virtude de congelamentos decretados por governos do partido do actual ministro.

João Costa “vendeu” uma entrevista ao Expresso em que aparece com a imagem de alguém que sabe o rumo a tomar. Pena que só o tenha descoberto mais de seis anos depois de estar no governo e não adianta vir dizer que não era ele a decidir. O ministro Tiago é que não era, que entrou e saiu da pasta sem perceber da missa o introito. E se à secretária Leitão deixaram fazer as asneiras de que agora se percebem os estilhaços, também a ele teriam deixado ter uma intervenção positiva, se assim o entendesse e tivesse tido a coragem de a assumir.

Lamento, mas não admiro bombeiros resolutos em apagar fogos que viram acender sem mexer um dedo e estando sempre prontos para se desresponsabilizarem em off e vitimizarem-se à mais pequena crítica. Há quem ache que é sempre tempo de achar soluções e não de olhar para trás e apurar culpas. É o lema dos que sabem ser culpados.

O tanas é que não é tempo de apontar o dedo a quem aponta o dedo! Porque dar as chaves do negócio a quem o enterrou, sendo por cá prática comum na área financeira, é caminho quase completo para enxertos mal feitos.

Expresso, 20 de Maio de 2022

Sábado

Afinal, boa parte da solução para a falta de problemas devia-se às erradas regras colocadas em prática nos governos anteriores. Por isso, de sabre em riste, o novo ministro declara que “Não nos preocupa que as regras sejam diferentes. O que interessa é que alunos tenham aulas”. Como explícito e precoce crítico de algumas das regras anteriores, só posso saudar esta nova alvorada de um governo novo, com um novo ministro, com a folha limpa em relação ao passado recente, porque, há que o admitir, nestes últimos seis anos e picos, foi feita muita m€rd@ que agora é preciso varrer (para que as moscas fiquem as mesmas).

Que Pena Este Homem Só Ter Entrado para O Governo Este Ano!

Porque o anterior ministro e o secretário não percebiam nada do assunto e deixavam a secretária Leitão decidir tudo. Andavam uns parvos por aí a dizer isto há anos e a ser ofendidos como “radicais” e “despesistas” e nada, até chegar este extraordinário homem ao ME e tudo já ser possível.

A possibilidade foi admitida esta sexta-feira pelo ministro da Educação. no Parlamento: a renovação de horários incompletos vai ser alvo de negociação com os sindicatos. A aposta do Governo quanto à atratividade da carreira, explicou João Costa, é na previsibilidade e fixação. “Queremos acabar com a casa às costas”, afirmou.

Cartoon de Amarelhe. Visionário em relação ao que se passou desde 2015 na 24 de Julho. A culpa era só dela, a “assertiva”:

6ª Feira

Algumas das medidas que agora se apresentam para contrariar a escassez de professores parecem-me óbvias. Mas já pareciam óbvias antes, há um ano, dois anos ou mesmo mais. Chegam atrasadas e seria interessante saber porquê, pois não partilho da teoria do “não sei, nem quero saber”, muito habitual em que tem culpas bem visíveis no cartório. Andou-se a dizer que a falta era localizada em termos geográficas e circunscrita a alguns grupos disciplinares. mesmo que assim fosse, era algo grave. Mas nada se foi fazendo, antes pelo contrário, se pensarmos na acção de terraplanagem da secretária Leitão quando esteve na Educação. Foram delas medidas de “boa governança” na questão dos horários incompletos dos colegas contratados, seguindo uma lógica que em nada se distinguia do “mais com menos” dos tempos da troika. O que agora se propõe (completar horários de colocações tardias ou em substituição de horários com reduções) é a negação do que foi imposto em 2018, exactamente quando o problema se começou a agravar e não julgo estar errado se considerar que esse esforço de “racionalização” e “eficácia” ajudou muito à recusa de colocações de gente que ficou impedida de concorrer. E que agora já vai poder concorrer de novo. Mais uma vez, invertendo medidas de Alexandra Leitão que na altura receberam forte oposição de quem estava por dentro do problema. O que significa que ou o então secretário Costa anuía a tudo com a objecção de consciência que nega a outros, ou concordava com tudo e agora já discorda. Ainda bem que mudou de opinião, se assim é. Pena que continue tão casmurro em outras matérias. Como parece que veio para ficar, é bem possível que daqui a um par de anos se percebam outras asneiras. Mas aposto que a culpa vai ser toda atirada para a pandemia que, sendo ninguém, é fácil de responsabilizar por tudo.