O Retrato Possível

Das condições de vida das crianças em Portugal, a partir dos dados estatísticos disponíveis, nem sempre actualizados à realidade mesmo presente.

Tem dados muito interessantes, em especial sobre as condições de habitação e de vida dos alunos fora das escolas. Depois, claro, tem ali uma extrapolação final completamente hiperbólica, com um valor mais do que hipotético dos “reais custos” acumuladas até 2100 (!!!) em termos económico-financeiros do encerramento das escolas em 2020, a partir de um estudo em que se mostra que Portugal até foi dos países que menos dias de aulas tinha perdido quando recomeçou o Secundário. Se fosse com base nesse indicador teríamos sido o 12º menos afectado pela pandemia na amostra de 34.

Ahhh! “Eles” Vão Agarrar-se Aos Efeitos Colaterais!

Estudo suíço mostra que o encerramento de escolas pode reduzir em 21,6% a mobilidade das pessoas e travar o ritmo de circulação do vírus, com crianças e pais confinados em casa. Mas há também muitos possíveis efeitos colaterais negativos da medida.

(…) O artigo explica que “a mobilidade humana num determinado dia prevê casos comunicados com 7-13 dias de antecedência” e que “uma redução de 1% na mobilidade humana prevê uma redução de 0,88-1,11 % nos casos comunicados diariamente de covid-19”. “Se as escolas estiverem fechadas, podemos esperar uma grande mudança de comportamento”, referiu Stefan Feuerriegel à AFP.

O estudo original, com muita matemática para a minha carroça, mas uma conclusão evidente e que alinha com outras de estudos de final de 2020: o encerramento das escolas é das medidas mais eficazes para a redução da mobilidade e dos contágios.

The mediation analysis shows a large direct effect for bans on gatherings of more than 5 people,
bans on gatherings of more than 100 people, and school closures
(4). Pronounced indirect effects
are found for all policy measures. In particular, the indirect effect of venue closures makes up about
a third of their total effect at several lags. Moreover, border closures are estimated to only have
reduced the reported number of new cases indirectly through mobility

Investigação Em Forma De Viés

Há projectos de “investigação” que são todo um programa ideológico à espera da evidente confirmação das suas teses de partida. Que, mesmo quando dizem que não resposta certas ou erradas, trazem questões onde está mais do implícito o que se pretende.

Recebi há pouco um questionário, reenviado por uma colega que abandonou o preenchimento, e muito bem, optou por questionar as autoras acerca do “método” de construção e encadeamento do questionário.

É sobre “Crenças sobre a retenção escolar” e tem perguntas para graduarmos a nossa posição (de “discordo” a “concordo totalmente”) sobre certas atitudes como “É oferecendo a todos os alunos – dotados e pouco dotados [mas sem definir estes conceitos] – as mesmas oportunidades de aprendizagem que se constrói uma escola justa” ou “A instrução deve ser alicerçada em torno de problemas com respostas corretas e claras em torno de ideias que a maior parte dos alunos possam assimilar rapidamente”. Ou “quanto maios [sic] o professor demonstrar confiança na capacidade da criança mais ela desenvolverá a inteligência”.

Claro que são questões com respostas encavalitadas e, já agora, quando eu consultei literatura sobre a elaboração de questionários deste tipo, aprendi que se deve ser conciso e claro no que se pergunta, em vez de fazer uma espécie de “manifestos”. A maioria das “perguntas” estão formuladas de um modo que dá claramente a entender o que se pretende concluir, ou melhor, o que se considera ser a atitude “certa”. Dificilmente se descobre algo novo, quando se expõem de forma tão óbvia os pressupostos ideológicos da “pesquisa”.

Se as autoras quiserem, eu posso elaborar já introdução e a conclusão do estudo, mesmo sem acesso aos resultados do inquérito. Porque já vi este caminho ser percorrido tantas vezes, que o faço de olhos fechados.

Meta-Análises

A systematic review and meta-analysis of published research data on COVID-19 infection fatality rates

Clinical, laboratory and imaging features of COVID-19: A systematic review and meta-analysis

Predictors of COVID-19 severity: a systematic review and meta-analysis

Há mais, mas só estas já chegam para fazer doer a cabeça.

A Ciência Explica…

… que o encerramento das instituições educativas é a segunda medida mais eficaz no combate à pandemia. O que confirma outro estudo, igualmente com uma amostra muito alargada. Mas por cá, fala-se em “estudos”, assim no “geral” e diz-se qualquer coisa.

Dá trabalho a ler para perceber que a “eficácia” é medida com base em quatro factores e não a “olhómetro”, que é a especialidade nacional.

Ranking the effectiveness of worldwide COVID-19 government interventions

2ª Feira

Na TSF, no noticiário das 8, dava-se conta da tentativa de um estudo de investigadores do Porto sobre a pandemia com base nos dados da DGS (ainda não encontro o link para a notícia). Pelos vistos, chegaram à conclusão que a qualidade é tão má que torna quase inviável qualquer tipo de conclusões devidamente fundamentadas.

O que dizer então dos dados das escolas? Seria interessante analisar as faltas justificadas no E360 por “isolamento profilático” e tentar comparar com os dados públicos e – isso seria mesmo giro – com o que se tem passado na realidade (haverá muitas justificações com outros motivos como apenas “doença”?).

A Ler

Em especial por aquelas senhoras “pela verdade” que dançavam uma espécie de folclore urbano ontem em Lisboa, sem máscaras, à molhada, perante as câmaras.

The temporal association of introducing and lifting non-pharmaceutical interventions with the time-varying reproduction number (R) of SARS-CoV-2: a modelling study across 131 countries

(…) An increasing trend over time in the R ratio was found following the relaxation of school closure, bans on public events, bans on public gatherings of more than ten people, requirements to stay at home, and internal movement limits, especially after the first week after relaxation; the increase in R ranged from 11% to 25% on day 28 following the relaxation (figure 3). The relaxation of school closure was associated with the greatest increase in R on day 7 (R ratio 1·05, 95% CI 0·96–1·14) and day 14 (1·18, 1·02–1·36). The relaxation of a ban on gatherings of more than ten people was associated with the greatest increase in R on day 28, with an R ratio of 1·25 (95% CI 1·03–1·51) on day 28. Negative interaction––ie, towards an R ratio of 1—was identified when multiple NPIs were introduced or lifted simultaneously (appendix p 42).

De acordo com a tabela que é dada sobre o impacto das medidas “não-farmacêuticas” na contenção ou propagação do vírus, a reabertura das escolas tem um efeito equivalente ao da proibição dos ajuntamentos superiores a 10 pessoas. O efeito sobre a propagação dos contágios é superior a, por exemplo, o fim de confinamentos ou à obrigação de ficar em casa e ainda mais em relação a medidas como as proibições de viagens de avião ou mesmo o uso dos transportes públicos.

Claro que isto contraria as “narrativas” internas (a do oportunismo político e também a do irracionalismo anti-científico), baseia-se em pesquisas empíricas alargadas que, mesmo admitindo as suas lacunas, tem um valor probatório muito superior a “opiniões pela verdade” ou teorizações sobre uma conspiração global para limitar os movimentos das pessoas mas, ao mesmo tempo e paradoxalemnte, exigindo que andem de um lado para o outro a trabalhar e levar e ir buscar os filhos à escola.

Seria de esperar que o “ministro-cientista” ou o pessoal nomeado para a DGS conseguisse perceber isto, em vez de conversas de chacha que, para mim, são equivalentes às cantorias beto-hippies de certas manifs muito chiques.

O Maior Problema Não É O Contágio Entre Alunos

Teens, Tweens More Likely to Spread COVID-19, Study Finds

Children and teens between ages 10-19 are more likely to spread the coronavirus among family members than adults and children under 10, according to a new study in South Korea. The results were published online as an early release article from the journal Emerging Infectious Diseases and could be updated before the official release in October.

A revista que tem o estudo é, nos últimos meses, um manancial imenso de estudos sobre o tema.

Finger

A Ver Se Começamos A Conhecer, Em Escala Útil Para Conclusões Fundamentadas, O Que Se Está A Passar

Experiências de Ensino à Distância

Este questionário tem como objectivo caracterizar o ensino online, os seus actores e destinatários. Não será solicitada nenhuma informação que permita identificar nominalmente os respondentes. Naturalmente, pode desistir de responder ao questionário em qualquer altura sem qualquer tipo de penalização. Os dados serão armazenados em Portugal e serão analisados apenas de forma agregada para fins estatísticos.

Finger