É Uma Forma De Iniquidade Como Outra Qualquer

Escolas onde, em especial no Secundário, e para se provar que tudo correu mais melhor do que bem durante este período e que as metodologias foram supé-adequadas, as notas estão a ser engordadas como um peru nas semanas antes do Natal. O que é uma inflacção como outra qualquer, privada ou pública, e uma iniquidade (o contrário de equidade) extrema para com os alunos de escolas onde ainda resta algum bom senso e sentido deontológico mesmo em tempos de emergência. Os santos populares já terminaram, mas o arraial só está a começar.

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Mas Ontem À Noite Não Disse Que Confiava Nas Autoridades De Saúde Do País, As Quais Acabavam De Recomendar Que Não Fechassem?

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), anunciou esta quinta-feira, em conferência de imprensa após reunião de sindicatos de Educação, que o “interesse da Educação” é o encerramento imediato de todas as escolas.

Mas… talvez…

“Reconhecemos, porém, que na decisão a ser tomada haverá outros critérios e outros interesses mais abrangentes, designadamente de saúde pública, que devem ser tidos em conta”, explica Mário Nogueira. “Não temos dúvida nenhuma, e isso foi discutido na nossa reunião, de que o encerramento total de escolas vai acontecer. Só não nos podemos pronunciar e não nos compete a nós dizer qual é o momento. Não nos compete dizer se o momento é este, se é mais à frente ou se já devia ter sido…”

Acho que o vírus é outro.

Parvo

 

Sim, Descobrimos O Caminho Marítimo Para A Índia, Em Busca De “Cristãos E Especiaria”, Mas Acabámos Falidos E Nem O Camões Deixou Descendência Para Ganhar Com Os Direitos De Autor Da Epopeia Maior

Tenho sempre um problema fundamental com o uso e abuso demagógico da História para efeitos de agit-prop. Neste caso é por causa da questão do “digital” na Educação. Como se meia dúzia de “salas do século XXI” equivalessem a chegar a Calecute, João Couvaneiro vai por ali abaixo e esquece-se que se o Gama conseguiu glória, honrarias e extensão generosa para o título majestático de D. Manuel, não é menos verdade que a meio do século XVI estávamos falidos e que países que pouco ou nada descobriram souberam ser empreendedores de outro modo (Holanda, só para dar o exemplo de um pequenito em extensão) e conseguiram manter-se ricos desde então. Embora eventualmente com poetas de menor qualidade.

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João Couvaneiro in JL/Educação, 26 de Fevereiro de 2020

Não é que eu ache que a grande Poesia valha menos do que uma balança comercial razoavelmente favorável desde o século XVII, mas talvez fosse bom irmos além da superfície dos chavões históricos.

E depois, claro, lembro-me sempre do Magalhães e do duplo inconseguimento, seja o do próprio Fernão, frechado ao serviço de Castela na ilha de Máctan, seja o do aparato digital dos tempos dos engenheiro e seu muito mitigado aproveitamento pedagógico.

(ninguém está contra o uso de tecnologias que há quem use antes dos concursos para professor do ano, apenas contra um certo deslumbramento meio apatetado que por aí anda…)

Estou A Modos Que Coiso…

A situação tem o seu quê de caricato, confesso, mas quem acha que se pode dar TIC apenas com uma qualquer acção de formação feita (e nem sequer uma medalha olímpica) está pronto para tudo.

Professores de Educação Física indignados pela funcionária municipal Manuela Machado dar ‘aulas’ de atletismo!

O que também me incomoda mesmo muito é o medo demonstrado em assumir as coisas. O que receiam? Perder o apoio para certas atividades?

Os signatários, que solicitaram a confidencialidade das suas identificações, afirmam que «estamos a entrar no segundo período do ano letivo e seria uma enorme insensatez da nossa parte permitir que os próximos voltem a funcionar nos mesmos moldes. Nem nesta, nem, eventualmente, noutras regiões do País».

Aguardem pelo avanço da municipalização e aposto que até o sobrinho do vizinho do senhor autarca poderá dar música a todos.

Não sei se ria, se chore.

LAughing

Pelo Jornal de Letras – O Triunfo da Lógica Feudal nas Escolas

Dois anos depois de começar a colaboração permanente com o JL/Educação, comecei a colocar alguns dos textos mais antigos (2017, mas irei em breve acrescentar os de 2018), ali a partir da ligação sob o título do blogue. Como é a única colaboração paga, procuro não divulgar os textos na íntegra, mas já é tempo de os ir deixando arquivados para “memória futura”.

O desta semana é sobre a fase final de instalação da lógica feudo-vassálica no sistema educativo e nas escolas. Por amanhã ser 25 de Abril deixo um excerto mais longo do que o habitual.

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No sistema educativo e no interior das escolas passou a predominar um modelo feudal, em que o suserano distribui os seus favores aos vassalos, mas que os pode retirar a qualquer momento. Os directores e todos os órgãos internos de administração das escolas e agrupamentos podem a qualquer momento ser exonerados das suas funções por parte da tutela, assim como os directores podem exonerar dos seus cargos os elementos escolhidos numa eleição restrita para coordenadores de departamento. Em que o Conselho Geral tem uma lógica de Câmara Corporativa, mesmo se os representantes do pessoal docente e não docente (ainda) são escolhidos por voto directo.

Estando no quarto ano de um governo apoiado por uma maioria parlamentar de “Esquerda”, incluindo as forças partidárias onde se concentra a larga maioria daqueles que se declaram como os mais legítimos herdeiros do “espírito de Abril”, nada, absolutamente nada, foi feito na área do modelo de gestão escolar para recuperar os mecanismos democráticos que foram sendo perdidos. Pelo contrário, aprofundaram-se medidas que são completamente incompatíveis com um regresso da Democracia às escolas, como seja a sua colocação na dependência de estruturas autárquicas que, embora eleitas, não o foram para se sobreporem, no agravamento de uma lógica de hierarquização, aos órgãos internos das escolas.

O que a chamada “descentralização de competências” trouxe foi apenas mais um degrau na estrutura da hierarquia feudo-vassálica que tem o Ministério da Educação no topo como “suserano dos suseranos” e os professores como meros súbditos, que se querem arregimentados sem discussão, uma espécie de vavassalos dos directores que são suseranos no seu domínio, mas ao mesmo tempo vassalos, se desobedecerem às indicações do seu suserano (que em crescentes partes do território começa a ser o presidente da câmara ou em quem ele delegue as questões da Educação).

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Polígrafo Com Ele

O actual PM sabe que mente com estes valores, mas também sabe que eles se tornaram um chavão graças à repetição e a alguns artigos manhosos de “opinião” de operacionais mediáticos do PS ao ponto de evitar que alguém verifique de forma independente estas contas, considerando que muita gente nunca progrediria o tempo em causa (casos de quem está no 9º e 10º escalão) e que em outros existem quotas para a progressão (2º, 4º, 6º). Assim como no valor total, se refere apenas a parte da “despesa”, omitindo-se que uma parte significativa desse valor entra depois como “receita” por via do IRS e da CGA/SS, nunca saindo dos cofres do Estado.

Gostava de ver a agulha a saltar quando António Costa diz estas barbaridades com a descontracção de quem nada viu de estranho na governação de Sócrates.

António Costa critica uma eventual coligação negativa no Parlamento para responder às exigências dos professores e garante que não há 600 milhões de euros no orçamento para pagar essa medida.

Esta Posição do PCP é Absolutamente Lamentável…

… e faz lembrar o que algumas das suas práticas têm de pior no lançamento de suspeições sobre tudo o que não controla. Só o excerto que transcrevo contém suspeições não fundamentadas em quaisquer factos, informações falsas e outras truncadas. Uma das passagens é objectivamente difamatória para os promotores da ILC. Pessoalmente não me surpreende ou sequer ofende, porque conheço bem os meandros da “máquina”.

Mas uma coisa é querer defender o papel da Fenprof e o protagonismo do herói da luta Mário Nogueira, outra o mentir ou lançar assim um manto de poeira (para não dizer lama) sobre o tema. O PCP sabe que no OE para 2018 não vem nenhuma “lei” que exija a reposição do tempo de serviço. Isso é falso. O PCP sabe que um processo de revisão do ECD não depende em nada de uma iniciativa legislativa como esta e que pode ser aberto a qualquer momento, com ou sem acordo dos sindicatos.

Mas o que é mesmo pior é que acenando com o medo da revisão do ECD, o PCP demonstra que, por si, os professores não teriam qualquer estatuto de carreira específico.

Independentemente das dúvidas quanto à sua origem e autores, trata-se de uma iniciativa que, invocando a defesa dos professores, contribui para prejudicar os seus direitos e interesses, servindo os objectivos e o discurso do Governo em todo este processo. [mentira]

A Iniciativa Legislativa de Cidadãos pretende recolocar em discussão a questão da contagem do tempo de serviço quando esta já ficou decidida no OE 2018. Pretende remeter para 2019 aquilo que ficou decidido no OE iniciar-se já em 2018. [mentira] Pretende remeter para a Assembleia da República a aprovação de (mais) uma Lei quando o que se exige é o cumprimento pelo Governo da Lei do OE 2018. Pretende utilizar o descongelamento da progressão na carreira como pretexto para abrir um processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente [mentira]. Pretende estabelecer por via de Lei regras que podem ser prejudiciais aos professores [mentira] e que, sendo discutidas na negociação colectiva, podem ter soluções específicas mais adequadas. Pretende ainda fixar para os professores uma solução de excepção face aos restantes trabalhadores da Administração Pública, incluindo os das restantes carreiras especiais, ocultando todos os problemas que levantaria uma decisão dessa natureza e os pretextos acrescidos que assim se davam ao Governo para o seu não cumprimento.

Com que então pretendemos uma “solução de excepção”? A sério… as carreiras gerais recebem o tempo todo de serviço que prestaram e pedir o mesmo é que é “excepção”. Não é de agora que algum sindicalismo acorrentado ao PCP defende a “unidade dos trabalhadores da Administração Pública” no sentido da diluição das suas especificidades e da indiferenciação. “Somos todos Arménio Carlos” é o que se pretende. No meu caso, gostaria antes que no PCP existisse a coragem de não promover o sindicalismo como profissão vitalícia na classe docente.

E, já agora, para que não exista qualquer confusão, acho que este comunicado é dos nacos mais vergonhosos da estratégia recente do PCP de andar pela trela do Governo, fingindo que não. E uma manifestação objectiva do desdém ancestral que certos sectores políticos revelam pelo “trabalho intelectual” quando não colocado ao serviço da sua propaganda.

No caso da ILC apostaram em manobras algo subterrâneas de boicote nas redes sociais e em comentários nas escolas em reuniões sindicais. Soubemos disso, mas fomos ficando calados. Em especial quem sabia do que se passava por múltiplas fontes. No meu caso, fui ficando à espera de ver até que ponto desceriam quando fossem ultrapassadas as 20.000 assinaturas, o que era mais do que previsível perante um estrondoso fracasso negocial de alguns sindicatos que pensavam que reuniões trimestrais diziam alguma coisa aos professores.

“Independentemente das dúvidas”.

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