4ª Feira

Primeiro dia de Fevereiro e primeiro dia de “serviços mínimos” acerca dos quais, segundo Filinto Lima, há pouco, na TSF, só foram esclarecidas dúvidas na noite de ontem, sem o devido tempo útil para uma convocatória adequada e em tempo legal – já que estamos agora numa de extremada preocupação legalista – de quem tiver de cumprir os ditos “serviços”. A menos que tenham andado pela noitinha a telefonar, que mails não é hora de ir consultar, muito menos dever. Claro que já se viu que há maximalistas dos serviços mínimos das escolas e, por outro lado, também vai ser curioso ver como certos poderes locais vão agir. Há um ou outro caso que já ajudou a estabelecer a confusão, pois, entre os docentes, estando as greves da Fenprof, SNPL e SIPE fora da decisão, parece-me difícil impor seja o que for. A Fenprof andou a ufanar-se disso mesmo, enquanto há quem já esteja, em outros quadrantes, a birrar que coiso e tal, não faz greve porque há discriminação.

A questão é que se esta investida, “em nome do interesse dos alunos” contra o direito à greve fosse feita por um governo à direita do PS (como está a acontecer em Inglaterra), cairia o Carmo e a Trindade e teríamos a historiadora pimentel, o matusalém barroso, a doutora pedrosa, o comentador baldaia e todo o porfírio ac hado em saldos para lamentar, a falar em fascismo e tudo o mais que se lembrassem. Assim, parece ser do “interesse público” e até há sindicatos a aplaudir, para nossa vergonha colectiva.

Teachers join mass walkout in Britain after decade-long pay squeeze

Teachers’ strikes: school closures in England and Wales explained

(…) Striking teachers are not required to give advance notice, so many schools may not have a full picture until early on Wednesday morning. Some headteachers have told parents to check first thing on Wednesday morning to see if their child can come to school. Others have already informed parents the school will be closed to most pupils, allowing them to arrange childcare, take annual leave or work from home.

Aos Poucos, Lá Por Fora

Em busca de hard evidence. E sem ser com petizes de 2º ou 5º ano.

Online GCSEs ‘by 2025’, as AQA launches major pilot

Up to 2,500 secondary school students from between 60 and 100 schools will trial online GCSEs

(…) AQA wants ‘pragmatic hard evidence’

E já agora, por onde anda isto?

A nine-month trial of “digital progression tests” in 16 countries, involving 1,500 students and 120 teachers, has just been completed.

A “Fabricação” Do Caos Como Oportunidade Para A Total Desregulação

Lá fora, há quem admita sem grande receio o objectivo de tornar a docência um trabalho como outro qualquer, naquela lógica de indiferenciação da mãos de obra, típica do neoliberalismo. Um trabalho “generalista”, com o eventual apoio remoto de “especialistas”. Mas ao menos ainda têm a “delicadeza” de qualificar o nosso tempo como “precioso”.

The national teacher shortage presents a once-in-a-generation opportunity to rethink the shape of schools and the delivery of teaching, which has changed little over the past 100 years, in a way that brings them more into alignment with modern workforce design.

Modernising the delivery of education would also have knock-on benefits in freeing up time and resources that would ultimately benefit the educational progression of Australia’s school students.

Mike Hennessy, chief research and insights officer with school workforce analytics company PeopleBench, says schools need to consider experimenting.

“We need to look at different models, which is going to mean more flexibility and experimentation with how the school workforce is structured. If we are going to make the best use of precious teachers’ time, then education needs to look at adopting organisational processes used by other sectors,” he said.

This might, for example, include hybrid models which have generalist teachers in schools and some specialist teachers working remotely to deliver courses to students across a wide number of schools.

E lá por fora, o fenómeno também não é novo, nem sequer as razões são muito diferentes.

The real reasons behind the U.S. teacher shortage

There’s a teacher shortage across the United States — but that’s not exactly news. The U.S. Department of Education maintains an annual list — state by state — showing the subject areas in which there are too few teachers going back to the 1990-91 school year. What’s new is the size of the shortage and the reasons for it.

(…) The reasons why this is happening are important. Teachers always come and go, but in recent years there are some new reasons for the turnover. Polls show that public school teachers today are more disillusioned about their jobs than they have been in many years. One 2013 poll found that teacher satisfaction had declined 23 percentage points since 2008, from 62 percent to 39 percent very satisfied, the lowest level in 25 years. Fifty-one percent of teachers reported feeling under great stress several days a week, an increase of 15 percentage points reporting that level in 1985.

Report: National Teacher Shortages A Result Of Low Wages, Tough Political Environments

A new report has found that a combination of low salaries, tough political environments and accountability measures are contributing to a national teacher shortage, leading some classrooms to be led by instructors with little experience.

Em outras paragens ainda há uma discussão sobre o tema, ao contrário de cá, onde a larga maioria dos políticos está de acordo, pois aquilo que o ministro Costa apresentou poderia ser qualificado como ir “muito além da troika”. Imaginem que em 2012 alguém propunha quadros de professores intermunicipais, sem vínculo permanente a qualquer escola/unidade orgânica.

NSW parliamentary report reveals deep political divisions over fixing teacher shortages

(…) Inquiry shows ‘disdain’ to teachers

(…) The committee heard from teachers whose mental and physical health was suffering, and one who said they had become dependent on alcohol to cope with burnout.

Interessante

Mas não seriam preciso dez pessoas para escrever um “comentário”. Ok… será uma espécie de manifesto. Também lá por fora se começa a perceber que a narrativa sobre a “falta de professores” serve outros propósitos que não o interesse dos alunos, a melhor qualidade do ensino ou sequer uma decente gestão dos recursos existentes.

From “Teacher Shortage” to Resistance: A Critical Perspective on Political Discourse, Education, and Imagining Otherwise

Political discourse shapes how we understand society. It is therefore crucial for us to pay particular attention to how we use language to portray social problems. This commentary employs a critical perspective, enabling us to unpack how logics and assumptions are embedded in recent “teacher shortage” discussions, debates, and policy forums. Critical scrutiny reveals how “teacher shortage” discourses often reproduce individualism, neoliberalism, and deficit understandings of marginalized groups and workers. We call for a departure from this framing toward one that transforms the teaching profession by addressing the exploitative nature of teaching under capitalism and a fundamental shift in the economic conditions shaping our line of work.

Por Cá, Esperamos…

… que se faça algo vagamente parecido (seja pela economista Peralta, pelos seus colegas da Nova SBE, pelo ex-ministro Justino que já fez um Atlas e tudo ou pelo CNE), por muitas reservas que tenha quanto à exequibilidade da coisa (e apesar da dimensão do nosso país nem ser vagamente comparável à dos E.U.A.), atendendo ao modo como andamos a tratar a avaliação das aprendizagens, mais do ponto de vista ideológico e com toda a prioridade na legitimação das políticas e nada no sentido de questionar o que foi feito a nível das orientações políticas. fazem-se uns estudos de caso, uns inquéritos quanto á opinião de umas amostras cuidadosamente seleccionadas e as conclusões escrevem-se sozinhas.

Created by experts at Stanford and Harvard, the Education Recovery Scorecard offers the first comparable view of district level losses during COVID

De Regresso (Em Grande) À Guerra Fria

A retórica de Putin conseguiu atingir ou mesmo ultrapassar a retórica de um qualquer discurso dos anos 50 aos 80. Só falta mesmo colocar mísseis na fronteira da Bielorrússia e na Crimeia. Claro, já sei, a culpa é do Grande Satã americano que não reelegeu o amigo Donálde.

Não deixará de ser curioso ver que “coligação” de “movimentos revolucionários” (acho que foi a expressão que ele usou) o irá apoiar na Europa na sua cruzada pela mora e bons costumes internacionais.

5ª Feira

Não é muito difícil antecipar que a eventual vinculação directa pelas escolas terá muitos efeitos que, mais tarde, serão considerados “indesejados” e que se dirá terem sido imprevisíveis à data da tomada da decisão. Claro que não é bem assim porque as coisas estão estudadas para outras paragens e são mais do que conhecidas. Uma delas é uma variedade do efeito “porta giratória”, em que se aproveita o “mecanismo” da vinculação directa em determinado tipo de escolas, em nome de assim ser mais rápido ou “atractivo” o seu recrutamento, para depois delas sair o mais depressa possível para outras com melhores condições. Há forma de “mitigar”, como agora se diz, esse efeito mas o que a abundante “literatura” sobre o tema nos descreve é que a tal “vocação” ou “perfil” para determinados contextos escolares “desafiantes” (eufemismo para “muito complicados”) raramente resiste a melhores condições de trabalho, curiosamente até podendo sacrificar-se uma parte do salário (há casos em que existe um acréscimo salarial para trabalhar em determinadas zonas escolares). É o problema da “retenção” dos professores nas escolas mais problemáticas que abunda em estudos com conclusões muito semelhantes.

Essa “literatura” também nos explica, com algum detalhe, que o recrutamento directo pelas escolas pode ter um efeito positivo num período de tempo muito limitado, mas que a médio prazo não ajuda a combater qualquer tipo de desigualdades e até pode ter a consequência de as aumentar. A experiência demonstrou isso já no século XXI de forma muito clara. Em especial, quando se achou que seria a “localização” das políticas educativas a solução para um crescente problema de inclusão de grupos de imigrantes, mas rapidamente se verificou que isso estava a conduzir à criação de uma maior discriminação e mesmo “guetização” das comunidades escolares, em especial as que se começaram a fechar cada vez mais em si mesmas e cada vez mais indesejadas como ambientes de trabalho.

Não é por falta de estudos sobre estas questões que irão ser tomadas decisões que se revelaram pouco ajustadas em outras paragens. O mais curioso é que nuns momentos se elogia o avanço que os alunos portugueses tiveram em matéria de testes internacionais em relação aos de outros países, aparentemente mais desenvolvidos, que têm estado em acelerada descida ou incapazes de melhorar, mas não se estabelece a relação – óbvia – com a existência ou aumento da difusão de certas políticas alegadamente “descentralizadoras” na gestão do currículo e da gestão dos recursos humanos. Se tudo isso funcionasse, os resultados não teriam estagnado em alguns países anglo-saxónicos (incluindo os EUA) ou entrado em declínio (como nos longamente elogiados casos da Finlândia e Suécia).

Curiosamente, em Inglaterra o início da recuperação nos resultados é associado a medicas como “[a] massive shifts of schools from local authority (municipality) control to direct contractual relations with central government.”. Por cá, lê-se pouco e aprende-se menos ainda, porque não há nada como políticos para não realizarem ou consolidarem novas aprendizagens que contrariem os seus credos e preconceitos.