Eyes Wide Shut

O Índice de Digitalização da Economia e da Sociedade para 2019 (IDES2019) demonstra a verdadeira escala da nossa entrada no tal mundo digital que muitos parecem avaliar pelo seu próprio quintal (ou escola). Somo 10ºs a contar do fim e muito longe daqueles que em certos dias queremos emular. Mais de 20% da população sem terem alguma vez acedido à net, preços elevados e fortes assimetrias na cobertura. Mas os indicadores quantitativos não esgotam o que é evidente: o verniz da modernidade ensaiada nos tempos do engenheiro, com a ajuda do seu secretário para a energia e inovação Zorrinho, não passou disso mesmo e em termos de qualidade há muitos serviços, teoricamente disponíveis, que funcionam em modo de lástima. E em alguns casos em grandes empresas agora privadas com milhões e milhões de lucros. Foi uma modernidade para europeu ver que não entrou em profundidade na sociedade e muito menos se consolidou, tendo decaído, por falta de manutenção e investimento, em muitas das zonas mais periféricas e necessitadas.

Quem desconhece o país, acha que se pode erguer uma Educação Digital desta forma, acaso sonhando que são empréstimos ou ofertas de equipamentos a descontinuar que chegarão para minorar as desigualdades (ou “diferenças” como a novilíngua costista manda agora dizer que é) de acesso, literacia e muito mais. Para variar, querem ensaiar uma representação de “sucesso” e “inovação” a partir da Educação, porque são incapazes de transformar a realidade de um mercado de trabalho frágil e precário. Quando a única medida que têm para elevar os que estão pior é ir sacar aos que estão “remediados”, que aos que estão mesmo bem não se deve chegar, pois todos podem ser amigos de amigos ou conhecidos de conhecidos.

Quem conhece o país a partir do funil das tabelas de excel e das fórmulas da ciência oculta da adivinhação económica pode delirar com os arrojas, os duques, os camilos, senadores da treta instalada, a que se seguem os petizes que escrevem para o observador porque o tio conhece alguém na administração ou andaram na escola com o filho ou sobrinho de outro alguém com apelidos fidalgos, se possível com copulativa a ligá-los, duplas consoantes ou sonoridade além-pirenaica. E proclamar a enésima “oportunidade” para o país se refundar. Da esquerda à direita, passando pelos assis e tantos outros da terceira via e meia, há demasiada gente que parece uma caricatura das elites estrangeiradas queirosianas. Queixam-se da piolheira, mas negam ter piolhos. Porque compraram o último galaxy ou aifone com 27 câmaras e a possibilidade de se dobrar e caber numa mala de viagem.

Piolheira

Cidadania E Subdesenvolvimento

Após semanas de uma obra ao ritmo autárquico (em regra, pedras e ferramentas a serem lançadas de forma a produzir o máximo de ruído ainda antes das 8 da matina, seguindo-se períodos muito irregulares de laboração ao longo do dia), a rampinha ficou feita para as pessoas com problemas de mobilidade. Assim como as restantes, paralelas aos prédios, servem mais para juvenis corridas de bicicleta do que para utilização por idosos ou carrinhos de bebé, esta já se revelou muito útil para a criatura que assim chegou e estacionou pelo menos todo o domingo, sem ter de se preocupar com maior tempo de busca de lugar ou desgaste dos pneus. Sim, depois há quem tenha por missão ensinar civismo aos jovens que crescem a assim ver os seus modelos adultos a agir.

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Da Parolice

Há umas semanas tivemos entre nós a realização de uma Skills Summit destinada a muitas coisas e mais algumas sobre competências, tecnologias e isso tudo com uma bambúrrio de convidados (claro que com a OCDE pelo meio), no montante de mais de 65.000€ só para comes, bebes e dormes. A acreditar no Twitter parece que foi uma animação, com muita gente notável e mesmo o ministro Tiago.

Lembrei-me disto – nem sei porquê – ao constatar que o Portal das Escolas em período de pico de tráfego (11 da manhã, 3 da tarde) tem capacidade para suportar o acesso de toda a população infoincluída da localidade de Courelas do Arreganho (freguesia de Arrepios no Espinhaço do Lobo), ou seja, da dona Ifigénia do Rastelo, da dona Zulmira da Venda, da Ti’Micas do Monte Baixo e da Ti’Luzia dos Ovos Moles, quando passam em revista a actualização do instagrame do garboso Ti Zé das Fracas, mocetão vistoso e cheio de vitalidade nos seus 82 verões, porque o 83º teima em não aparecer ou o mural do feice do Bernardo Pito, o rapaz da farmácia da sede do concelho, capaz de fazer reviver até a nefertiti mais defunta.

Velhotas

 

146 Caracteres São Demais

Para muita gente, alinhavar duas ou três linhas de texto é um esforço imenso quando é para ir além de uma parvalheira qualquer. Em tempos, ainda liguei o blogue ao twitter para divulgação dos posts, mas nem isso tenho mantido porque, mesmo para quem não tem traumas com redes sociais, é de uma indigência extrema, só agravada com a entrada em força de políticos com pouco para dizer para além da piadola de escasso gosto e estilo ou a “picadela” de mosquito, muito longe da dignidade de uma qualquer farpa de outrora. Não é por acaso que se tornou o método de “comunicação” por excelência do trump.

Por cá, sucedem-se as trapalhadas, ampliadas com aqueles tuítes do actual PM, apenas reveladores de alguma iliteracia funcional. Agora, outra vez pelo lado do PS, um imbecil qualquer com acesso à conta oficial do partido (provavelmente um daqueles políticos comentadores em jornais de bola) decidiu comentar as garotadas do presidente do clube de que sou adepto. Não percebo quem será mais burgesso, se o actual presidente do SCP que quando embala parece uma diarreia falante (olha a piscadela d’olho à piada parva e escatológica), se quem decide comentar a coisa com a conta do PS aberta revelando toda a imensa saloice da modernidade digital do nosso mundinho político-futebolístico.

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(terá sido tuíte para valer um lugar na tribuna de honra em algum estádio?)

Leis Há, Falta o Resto

Mas a construção legislativa da realidade para afago das consciências é o jardim muito particular em que se auto-satisfazem aqueles que preferem a verborreia à acção concreta.

O relatório sublinha que as leis até podem ser boas, mas de pouco servem se não existir fiscalização que garanta, de facto, o direito à saúde física e psicológica no local de trabalho, não sendo por acaso que o mesmo documento do Conselho da Europa diz que Portugal tem altos níveis de acidentes profissionais fatais e não-fatais em comparação com o resto da União Europeia.

A EARHVD não poupa o Ministério Público. Considera que a denúncia nunca foi tratada como um efetivo caso de violência doméstica mercê, é sublinhado no relatório, da falta de preparação de quem ficou com este caso em mãos. A burocracia sobrepôs-se à urgência com que a denúncia deveria ter sido tratada. Foram desperdiçadas três oportunidades de ajudar esta mulher. É recomendado ao Ministério Público que elabore um “documento hierárquico de boas práticas”.

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(exemplos de más práticas. uma sinalização para a CPCJ quase a completar um ano sem resposta, mesmo se isso implica riscos para outros alunos… um serviço que está seis semanas para dar despacho a algo que nas escolas deve ser resolvido em seis dias… esta é a realidade… temos políticos de ocasião, parlamentares incontinentes e uma inacção enorme perante a arrogância dos poderosos, como o minion catroga, que terá sempre espaço para as suas diarreias particulares enquanto existirem órgãos de comunicação social a necessitar de promover eventos com retorno)

Que Conversa Tão Pobrezinha

Mas sabe, senhor ministro, que quem põe em causa são os professores que disseram que não estavam satisfeitos e que querem que contem o tempo que esteve congelado.

Eu não acredito que algum professor não esteja contente com o facto de a carreira descongelar no dia 1 de janeiro.

Querem mais.

Essa é outra questão. Eu acredito que quem gosta de futebol, por exemplo, um portista ferrenho – imaginemos a vitória do Porto contra o Benfica -, fique contente ainda que não seja o campeonato. E não vai dizer que não vai ficar contente, porque isso implica logo uma coisa, é o jogo, o clássico, e vai ficar contente com esse clássico e com essa vitória. Se ganhar o Benfica, serão os benfiquistas ou se houver um empate ficarão todos. Isso não implica que na próxima etapa não tenham outras pretensões. Essa é uma outra etapa e é uma outra pretensão, isso é o que tem de ficar absolutamente claro e, com isto, não estou a desvirtuar, nem a desvalorizar, essa outra etapa e essa outra pretensão.

(já agora… e quem é do Sporting como eu? Pode ficar-se nas tintas para esta conversa de programa de 2ªa à noite com grunhos de fato?)

E depois aparecem as perguntas baldaiadas (eu traduzo… perguntas que são afirmações de preconceitos do entrevistador, pois nem sequer são interrogações, hã as que acabam em ponto final que até podia ser ponto de exclamação!) que é impossível não esperar.

Ainda gostava de voltar ao modelo de avaliação dos professores para lhe perguntar se, em sua opinião, ele é suficientemente bom, se pode ser melhorado ou se acha que os professores que avaliam alunos têm, no fundo, medo de serem avaliados?

(…)

Ela não é feita, basicamente, e sempre que um ministro tentou fazer correu-lhe mal: Maria de Lurdes Rodrigues, como ministra da Educação, teve problemas sérios com os professores quando tentou fazer a avaliação; o último ministro, no Governo PSD/CDS fez uma avaliação que foi praticamente boicotada. Isso significa que os professores têm uma avaliação para poderem progredir na carreira, mas que praticamente não é feita.

Para que conste… a afirmação sobre o que se passou com Nuno Crato é objectivamente falsa. Se alguém tentou boicotar a avaliação dos professores foi o próprio para apagar um fogo no início do seu mandato, cedendo à tentação de um novo simplex, sem coragem para acabar com um modelo errado e erguer um novo. Baldaia deve saber disso, se não sabe anda muito mal informado e deveria ser avaliado pela sua ignorância na preparação de entrevistas.

Pensando bem… ele já é avaliado pelos leitores que nos últimos anos  debandaram aos milhares do DN. Só que enquanto existir uma missão a cumprir, a avaliação é outra.

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Parentalidades

Na RTP3, ao que parece, uma vice-presidente da Confap esforçou-se por relativizar a porcaria feita por finalistas do secundário de cá em hotéis espanhóis ao ponto de, apesar da longa tradição de labreguismo juvenil por estas ocasiões, os terem mandado de volta para casa. Pelos vistos, a senhora confapiana acha mal e que o erro está em quem não quer as suas instalações vandalizadas e tomadas de assalto pela malta que por cá tem de ser contida em quatro paredes para não levantarmos a ira deste tipo de mamãs (há uma, certamente laica e muito progressista, que acha tudo normal, a menos que seja em Fátima) para quem os filhinhos estão sempre certos, mesmo a vomitar em piscina alheia.

A este respeito, nem de propósito, adequa-se muito bem um recente artigo do Filinto Lima.

Imagem da esquerda colhida no Faceprof.

Analfabetismo Disfuncional

Este é o segundo parágrafo de uma comunicação por parte de alguém que me aparece como sendo da administração de uma empresa.

Quanto ao atraso no envio da missiva que recebeu o mesmo é nos alheio, não considerando por isso mesmo a data limite de pagamento, solicitamos que se prenuncie quanto ao pagamento do valor peticionado a V/Exas.

Nem o tradutor do google conseguiu colocar isto de forma a que percebesse em que língua está.

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O Vira-Casacas Profissional

Não é a primeira e muito menos será a última vez que os princípios e a coerência se subordinarão ao pragmatismo e à sofreguidão por uma qualquer outra coisa. Não comento de forma mais extensa, em especial porque ainda me lembro da intempestiva intervenção em Aveiro, por ocasião do seminário do CNE sobre este assunto e ainda me podiam sair alguns impropérios do teclado sobre a “municipalização boa”.

O sindicalista frisou ainda que os professores vão participar no processo de transferência de competências de toda a escolaridade obrigatória para as autarquias.

Afirmava, há dias, o presidente da Associação Nacional de Municípios que a transferência de competências para os municípios avançaria até 2018 e que esperava que as coisas chegassem a bom porto ‘sem perturbações colaterais’. Não sei se esta referência se dirigia aos docentes e à sua indispensável participação neste processo”, observou Mário Nogueira.

Falando para “os decisores políticos”, o sindicalista assegurou que, “com ou sem gestão e colocação de professores pelos municípios”, os docentes “não deixarão de participar no processo, mas para defender uma verdadeira descentralização”.

Para a Fenprof, esta ação deve ser “uma forma de adequar as respostas educativas aos contextos locais e de combater as desigualdades que decorrem das diferenças económicas e sociais entre as diversas regiões”.

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Imoralidade Assumida

É interessante – só admira que não tenha sido o MarcoGelAntónioLacaCosta  a prestar declarações nestas matérias que conhecerá bem – que um vice-presidente do PSD assuma que em democracia só interessa o cumprimento da lei (feita pelos próprios políticos com as lacunas bem distribuídas pelas alíneas dos articulados) e não a moralidade. Porque, a bem dizer, nunca esteve em causa que comessemos todos. Afinal,a pocilga não é assim tão grande e até há míopes que nem a conseguem distinguir.

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