Ora Bem!

Todo o artigo, cuja referência agradeço à AC, merece um leitura cuidadosa.

What Differentiated Instruction Really Means

(…) Educators have been anticipating “learning loss” for the past 18 months. But focusing on “loss” assumes something was “had” in the first place. If students “lost” their learning, did they ever really have it? Instead of focusing on “loss,” let’s focus on determining whether or not students have met learning targets.

How To Stay Sane In An Age Of Division

Um livrinho de pequeno formato, com 90 páginas rápidas de ler que consumi em suporte físico, porque sou antiquado. Quem o quiser em formato digital, até paga menos. É da anglo-turca Elif Sharaf e explica-nos como as identidades monolíticas são uma ilusão e o mundo da leitura e escrita nos pode unir, em vez de nos isolar (perante ecrãs, por exemplo). Fala-nos de forma muito elegante sobre as ansiedades de um tempo em que cada vez se grita mais, mas menos eficaz é a nossa “voz”, e sobre os equívocos de quem não percebe que certos extremismos e fundamentalismos só ajudam a criar os fenómenos pelos quais, depois, a maioria gosta de se desresponsabilizar. Ajuda-nos a perceber que a sanidade é possível, se não nos desligarmos do passado, de tudo o que nos ajudou a criar enquanto seres que não se definem por um único traço (geográfico, político, étnico, religioso), mas de forma compósita. Um livrinho que só na aparência poderá parecer ligeiro ou defensor de uma tolerância inconsequente. Pelo contrário, ensina-nos que a inconsequência está em encerrar-nos em câmaras de eco, nas quais a verdade aceite é apenas a que nos faz sentir confortáveis.

Domingo

Dia de balanço das leituras terminadas ou em desenvolvimento, porque só leio “notas informativas” da DGAE e despachos ou decretos por necessidade, própria ou alheia 🙂 .

Chantal Mouffle, Por um Populismo de Esquerda apresenta umas teses interessantes sobre uma reconfiguração de parte da Esquerda, através da aceitação do sistema político liberal democrático, mas mantendo a crítica ao sistema capitalista neoliberal, de que se percebem apenas umas penugens no Bloco de Esquerda. Não sendo grande fã da autora, confesso que algumas partes são mais lúcidas do que a média e infinitamente superiores a qualquer “reflexão” nacional sobre o tema, entregue a vultos que se limitam a papaguear chavões.

Nigel Warburton, Liberdade de Expressão – Uma breve introdução é um livrinho curto mas interessante para leitores menos habituados a discutir opiniões de forma “aberta”. O capítulo sobre a pornografia é, curiosamente, o mais longo e o menos interessante.

Com alguma relação, A Morte da Verdade – A Falsidade na Era de Trump de Michiko Kakutani, bvale a pena, até porque a autora não esconde o seu “lado” na questão.

Emmanuel Carrère, Je suis vivant et vos êtes morts é uma espécie de biografia de Philip K. Dick que podia ser mais interessante se não se preocupasse tanto em descrever as histórias dos livros do biografado. Ficou em banho-maria entre a página 150 e a 200.

A Cidade das Palavras de Alberto Manguel é uma demonstração de virtuosismo erudito, que se lê muito bem e com o prazer de se saber que a leitura pode ser mesmo só isso, admirar o que os outros sabem e gostam de nos comunicar.

O Desassossego da Noite de Marieke Lucas Rijneveld é um livro de leitura difícil, não pelo estilo, mas pelo quotidiano e sentimentos que aborda. Um negrume desconfortável. Mas uma extraordinária experiência, muito longe das xaropadas que fazem a maior parte dos tops e mesmo de muitos prémios literários.

De Afonso Cruz vou lendo as coisas algo fora de ordem. Para Onde Vão os Guarda-Chuvas é muito bom na sua falsa leveza. Daquelas páginas que apetece sempre ler um pouco mais.

A Minha Irmã é uma Serial Killer de Oyinkan Braithwaite é uma história original, que se lê muito bem, mas parra a qual a autora não conseguiu achar um final à altura, o que é pena.

The Man in the Red Coat de Julian Barnes é uma delícia, escrito com uma elegância que quase só ele consegue manter e um livro de História que muitos historiadores não saberiam escrever no modo como recria um ambiente específico (a Belle Époque na França e Inglaterra), a partir de um conjunto de personagens sobejamente conhecidas e outras nem tanto (o homem do casaco vermelho, desde logo) e de temas que mostram como pouco do que agora se apresenta como “fracturante” vem de muito longe.

Dulce Maria Cardoso, Autobiografia Não Autorizada. Livro de crónicas, ideal para leituras rápidas que se agarram quando apetece. Já tinha lido O Retorno, agora comecei a comprar o resto.

My Dark Vanessa de Kate Elizabeth Russell, ainda no início. Alguma curiosidade por revisitar um tema complicado em termos literários desde o Lolita, com a esperança que fuja aos lugares-comuns muito habituais nestas coisas.

Também no início, adiado demasiadas vezes, o Índice Médio de Felicidade do David Machado. às primeiras páginas, não nos faz desanimar, o que já é uma boa qualidade.

Comprei, apesar das quase 800 páginas do formato de bolso, o Night, Sleep, Death, Stars da Joyce Carol Oates, porque até agora ela raramente me falhou.

Em matéria de BD, os volumes 3 e 4 da série Stumptown de Greg Rucka são agradáveis, até porque o grafismo mudou. Nada de excepcional, mas pelo menos deixa-se ler bem, sem grandes pretensiosismos.

O azul é uma cor quente de Julie Maroh foi uma muito agradável surpresa, no estilo, já não tão novo como isso, da novela gráfica mais ou menos autobiográfica.

Mais fora da caixa, Garra Cinzenta, 1937-1939, é uma reedição da que é considerada a primeira HQ (História em Quadrinhos) de terror brasileira de Franscisco Armond e Renato Silva. Para nostálgicos de outro tipo de traços e do estilo pulp original

Na Immanquable, este mês continua a nova reencarnação do Bob Morane (Les 100 Demons de L’Aube Jaune), série que nunca apreciei excessivamente, mas que renasceu com algum interesse, e o episódio mais recente d’As Torres de Bois-Maury do Hermann. O resto não é mau, mas estas são as duas razões principais para o investimento.

Leituras (Pouco) Natalícias

Pela extensão, já não vai a tempo de entrar da luta pelas melhores leituras de 2020, mas deve vir a ser a primeira boa leitura de 2021. A edição portuguesa saiu há pouco, mas o preço empurrou-me para o paperback americano (10 euros em vez de 25), menos robusto, mas também mais portátil.

Uma Vida Inglesa

Ficcionalmente, Adrian Mole é dois anos mais novo do que eu porque, ainda ficcionalmente, nasceu a 2 de Abril de 1967. Somos ambos Carneiro e partilhámos muitas das inadequações da adolescência e início da idade adulta. As suas memórias escritas por Sue Townsend acompanharam-me de forma irregular até aos “anos da próstata”. A sua autora não viveu até aos anos do Brexit, o que teria dado um volume tão ou mais hilariante do que os melhores da série. Revisitar cada um deles, relembrando o contexto, é voltar ao prazer inicial. Para mim, um “clássico” (com melhores e piores momentos) do meu tempo.

Quase (Mas Apenas Quase) Me Apetecia Dar Razão Ao MEC…

… mas li tudo o que disse e só lha posso dar de forma muito minguada.

Miguel Esteves Cardoso. “Os portugueses não leem e a culpa é dos professores”

(…)

Faz-me imensa pena quando as pessoas não dão valor a uma coisa que está ali. Acho que a culpa é toda dos professores! A maneira como se estuda os autores portugueses castiga! “Tens de saber isto e aquilo”. A maneira como o tornam técnico, é uma espécie de vingança dos professores sobre os escritores.

Os professores tornam a escrita uma coisa chata e obrigatória. Uma espécie de sacrifício que é preciso fazer. No meu tempo, era dividir as orações. É uma crueldade, um sadismo. O que é que interessa o que o autor pensa ou pensava?!

É verdade que alguns(mas) professor@s são capazes de tirar o gosto por muita coisa a qualquer alma, de tanto não gostarem el@s mesm@s do que ensinam ou de aprenderem mais do que a sebenta do curso.

É verdade que o gosto pelo sabor da literatura tem sido estragado pelo ensino de aspectos técnicos e factuais (alguém está a pensar em linguistas especialistas em advérbios? ou em adept@s da velha TLEBS?) em detrimento da fruição dos aspectos literários.

É ainda verdade que quem perde tempo a comprar livros das doutoras ariana e cohen (ou do gustavosantos ou do paulocoelho ou do zézédossantos ou do émeéssetê ou aquelas m€rd@s pseudo-espirituais ou inspiracionais), dificilmente consegue ter a disponibilidade e o gosto para ler um ensaio decente ou boa literatura que não apareça nos topes de cá.

Mas é completamente falso que isso resulte de uma “vingança” dos professores quanto aos “escritores”. Apesar do que escrevi acima, os professores adoram os escritores. Provavelmente, não os professores do MEC, não sei se em algum colégio inglês, com aquelas pancadas todas que eles têm por lá (cf. a série que recomendei há uns dias com base nos livros do Edward St. Aubvn). Mas os professores, em especial os de Português e os mais “envelhecidos” são leitores ávidos e adoram mesmo os escritores. E é aqui que o MEC se esparrama todo, exibindo um preconceito maior do que aquele de que acusa os outros.

E o preconceito é o de que os professores não sabem escrever e que por isso invejam os “escritores” por isso se “vingam” deles. Nada de mais errado.

É pena. Tomara eu que o MEC produzisse mais do que crónicas por encomenda e não andasse agora sempre a publicar coisas requentadas para ver se revendem. Para quem o lê desde o Se7e e o tem em forma de livro desde o Escrítica Pop há falta de um MEC a escrever mais do que dois parágrafos de cada vez. E quantas vezes sem nada de novo. Por rotina. Por mero automatismo de sobrevivência. Não foram só os professores que envelheceram.

5ª Feira

O ensino não-presencial é um remendo, nada aconselhável para a miudagem mais pequena, mesmo se a alguns só pareceu evidente quando era impossível negá-lo. A conversa do mundo digital do século XXI mostrou toda a sua vacuidade. Mas já é esticar um bocado a corda dar a entender que todos os males da Educação, este ano, resultam do confinamento. Os alunos têm problemas de leitura há muito tempo e não é apenas no 2º ano. Aliás, o raro é encontrar fluência generalizada na leitura e na compreensão de textos escritos mesmo no 5º ou 7º ano. A pandemia teve muitos efeitos negativos, mas começa a ter as costas demasiado largas. Neste momento, em muitos ambientes sociais, os miúdos crescem em famílias em que a leitura, para além de conteúdos funcionais muito simples, quase desapareceu.