Desculpem-me, Mas Vou Ali Ler Um Bocado

Nada como aproveitar as promoções online da 20/20 para comprar finalmente um livro de que só fui lendo passagens. Mas, até por causa da situação que travessamos, gostava de perceber melhor, entre outras coisas, a tese inicial dele do “medo do contacto” e de como ele se esbate nas massas compactas.

Só que o livro também é compacto e vai demorar um bom bocado. Mas hoje até está agradável e tenho ali um velho sofá confortável à sombra, mesmo à medida para o efeito.

Leituras (Pouco) Natalícias

Pela extensão, já não vai a tempo de entrar da luta pelas melhores leituras de 2020, mas deve vir a ser a primeira boa leitura de 2021. A edição portuguesa saiu há pouco, mas o preço empurrou-me para o paperback americano (10 euros em vez de 25), menos robusto, mas também mais portátil.

Domingo

Manhã soalheira e propícia a tentar ignorar papeladas inúteis e rotinas que fazem os delírios de quem gosta de andar em círculos e avançar sempre até ao mesmo ponto de irrelevância.

Ficam algumas sugestões para ocupar o tempo de forma menos estéril, em tempos de uma espécie de confinamento.

Em primeiro lugar, nos 200 anos da Revolução Liberal, um livro sobre dois ideais que continuam por cumprir, que me chegou por mão amiga e familiar da autora.

A seguir, acabado de ler, um dos livros mais originais que li nos últimos tempos, [parece que em breve] com tradução portuguesa, vencedor do National Book Award, seguido de outro, também premiado, mas com o Booker deste ano, ainda por começar. Chineses na América e Escoceses em tempos de Thatcher, respectivamente.

A seguir, a continuação de duas excelentes séries de banda desenhada:

A por fim, uma amostra dos vestígios de uma colecção que agora anda a renascer por aí, mas longe deste títulos, na altura de autores muito alternativos, com capas deliciosas.

Leituras Para O Semi-Confinamento

O Born Standing Up do Steve Martin e o Creativity do John Cleese só devem chegar para o próximo.

Amis, Martin – Inside Story (vai durar mais)

Barral, Nicolas – Ao Som do Fado (quota de novelas gráficas do Público)

Peixoto, José Luís – O Caminho Imperfeito (vai em bom ritmo)

Rucka, Greg e outros –Stumptown (quota de comics da G. Floy)

Smith, Patti – Devotion (curtinho)

Já Em 2004 Isto Estava Certo

Por maioria de razão agora, depois de não sei quantas investidas dos burocratas da língua, dos herdeiros da TLEBS e mais uns quantos nichos de gente que, por vezes, quase dá razão às críticas do MEC, não por odiarem escritores, mas por terem da escrita (e da língua) uma visão puramente mecanicista e utilitarista.

Eu não passo de professor “emprestado” e muito “básico” de Português a quem colegas prestimosas, em tempos diversos, do alto da sua formação académica específica, não hesitaram em questionar a capacidade para ensinar a nossa língua. Mal sabiam elas, prisioneiras de sua sapiência, que um adorador de História é, quase por inerência, um adorador da palavra, dos textos, velhos e novos, da comunicação, da literatura. Embora, no meu caso particular, um muito pouco afeiçoado aplicador de normativos que têm tanto de “rigor científico” quanto o não tem uma língua viva e vivida na literatura.

Gosto de ensinar a ler, mas a ler algo que traga prazer, assim como a escrever, quando se consegue que esse também seja um acto que traga satisfação e não apenas transpirada obrigação.

Dizem-me que agora, nas aulas de Português, os alunos, entre outras coisas, lêem regulamentos e aprendem a escrever cartas, requerimentos, declarações. Aparentemente, a escola adapta-se a níveis baixíssimos de iliteracia; já ensina, não apenas o português normal ou padrão, mas o respectivo uso em modalidades convencionais. (…) Os mais afoitos não hesitariam em inferir que, afinal, nem se trata de ensinar a língua, mas de preparar cidadãos mais aptos a lidar com o Estado, que por sua vez também lidaria com eles mais eficazmente.

(…) Como quer que seja, atendo-se a escola ao propósito de uniformizar a língua, de estabelecer um padrão de comunicação actual, a literatura só atrapalha. Ou seja, há um ensino da língua que se tornou realmente incompatível com a literatura. A mudança parecerá brusca a quem confunda ensino da literatura com história literária. Uns poucos rudimentos de história literária, que junto com a gramática normativa formam a mais recente e a mais consistente imagem do ensino tradicional do Português, ajudavam a amenizar a distância relativamente aos clássicos: enquadravam-nos cultural e historicamente, criavam a ilusão de que se ensinava literatura e de que se preservava um laço constitutivo entre língua e literatura, mas na verdade já serviam para o que afinal servem: dispensar a leitura dos textos.

(…) Acresce uma segunda ideia decisiva: a literatura não é simplesmente uma arte entre outras e um conjunto de textos escritos no seu âmbito, assim preservados e catalogados nas bibliotecas. A literatura é uma possibilidade da língua, mas não uma possibilidade ao lado de outras: é aquela em que a língua se mostra algo que nos sujeita e algo que procuramos dominar, algo que nos escapa e algo que procuramos aprisionar num idioma.

Abel Barros Baptista, Ensaios facetos. Lisboa: Cotovia, 2004, pp. 128-130, 132)