E Lembrem-se Que No Sudão Do Sul Não Há Quase Água Canalizada E Electricidade, Por Isso, Trabalhem E Calem-se!

Tenho alguma dificuldade em lidar com estas mentalidades “inclusivas”. Mas lá porque há quem esteja pior, os outros devem calar-se? Sim, na guerra, os soldados estão na linha da frente, mas na rectaguarda nem se pode piar?

É aqui que se percebem algumas limitações… digamos assim… na forma como a liberdade de expressão e a democracia são encaradas ao primeiro solavanco. E que tal eliminarmos as notícias sobre tudo o que corre menos bem? Em nome do Interesse da Pátria?

O grupo é del@s, claro, fazem as regras de etiqueta que entenderem, mas ao menos cuidem melhor da justificação.

Rolha

Impotências

“Liberation is a possibility, and in our time at the beginning of the twenty-first century, it seems to be an unlikely one.

(…) Liberation is not an absolute necessity, but a possibility that needs potency in order to be actualized. And sometimes we don’t have the potency.”

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Franco ‘Bifo’ Berardi, The Age of Impotence and the Horizon of Possibility, (Londres, edição em paperback de 2019, p. 9)

Sente-se Um Certo Bafio…

Está suspenso, mas não está. RTP diz que Sexta às 9 só volta depois das eleições

Direção de informação (liderada por prima de António Costa) fala em “ajustes de programação em função da cobertura da campanha eleitoral”. Programa, repleto de casos envolvendo o Governo, nunca tinha tido paragem tão longa.
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(e já nem admira nada que a PGR dê cobertura a tudo… com pézinhos de lã e a a omissão dos “radicais” as coisas foram mais longe do que há uma década e poucos parecem já ter energia para o denunciar e combater porque a teia distendeu-se de tal modo que nem são tanto as ameaças, mas a sensação de que “eles” se não são impunes, pelo menos acabam sempre por cair em pé ou até promovidos…)

O Texto Para O JL/Educação de Setembro

E que destoa um bocado do enorme optimismo das restantes prosas envolventes. Publico-o na íntegra apenas agora, porque a edição já está em venda desde 4ª feira, pelo que não haverá problema. E porque amanhã é o arranque mesmo a sério-sério.

Sei por onde não vou…

Não me lembro do facto em si por razões naturais, mas sei a partir do que os meus pais me contaram que o primeiro televisor entrou na minha casa quando eu tinha apenas três meses de idade.

A programação ocupava poucas horas do dia, mas era seguida com atenção pelo petiz que eu era, fosse o que fosse que estivesse a passar quando o aparelho se encontrava ligado. Até o boletim meteorológico cativava, nas suas linhas brancas de baixas e altas pressões sobre um oceano negro. Desenhos animados eram poucos, a horas e dias certos. A escassez, aliada à novidade da tenra idade, fazia com que o interesse redobrasse e as memórias se inscrevessem com nitidez. Entre elas uma voz de alguém que dizia poesia e que cativava pela expressão com que o fazia, parecendo que contava uma história como ninguém então contava. Só mais tarde soube que o dono da voz já tinha então morrido e que se tratava de reposições do programa de 1959 e a verdade é que também não consigo localizar com exactidão no tempo os momentos em que me diverti com A procissão ou a primeira vez que ouvi a vibração crescente como Villaret declamava o Cântico Negro de José Régio. Só sei que recordo a forma encantatória como ouvi as palavras em ondas a sucederem-se e a culminarem no “Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!”

O “não” repetido foi o que mais me impressionou então e me voltou a impressionar de cada vez que ouvi de novo o cântico, pela voz de quem erradamente pensava ser o autor do poema, impacto que só teve aproximação quando ouvi o Manifesto Anti-Dantas pela voz de Mário Viegas, coisa de uma década depois.

Acima dos detalhes e pormenores impressionou-me a certeza da dúvida de quem não sabe por onde quer ir, mas que sabe com toda a determinação por onde não quer que o levem. E essa certeza do que não se pode aceitar de modo algum, mais do que do que se está disponível para aceitar, esse cepticismo irredutível, foi ganhando mais e mais sentido à medida que fui crescendo, ganhando algum entendimento das coisas, do mundo em meu redor e de toda a escuridão que nos querem fazer passar por caminho luminoso.

E é assim que me encontro no arranque de mais um ano escolar/lectivo, em plena campanha eleitoral em que muito se promete, para pouco cumprir ou fazê-lo de forma distorcida ou truncada. Em que a Educação desapareceu das prioridades, objectivos, temas, propostas nucleares de quase todos os partidos com assento parlamentar. Como se o caminho traçado nos últimos anos fosse, tanto para os partidos que sustentaram a actual situação governativa como para os que se lhe opuseram, o único possível e aquele que teremos de necessariamente trilhar em várias dimensões da política educativa, do modelo de gestão escolar ao processo de esvaziamento curricular, não esquecendo a erosão das práticas de avaliação externa.

Encenam-se algumas discordâncias pontuais, mas o essencial tem permanecido quase de modo inquestionável nos últimos 15-20 anos com um claro agravamento na última década. E esse é um caminho que me desagrada e que me recuso a trilhar sem manifestar com clareza a minha discordância a cada nova convergência estratégica dos actores em presença que por mais sedutores que se apresentem apenas querem domesticar toda a diferença, toda a desconformidade com o seu modelo único de pensamento que em nome de uma teórica tolerância e flexibilidade se traduz em práticas de uma extrema intolerância e rigidez. Que defende algo e pratica o seu inverso. Que desvaloriza o conhecimento. Que afirma defender a simplicidade e aposta na complexidade, em especial como forma de punir quem não adira aos credos dominantes de uma clique ideológico-académica que defende há décadas uma novidade que secou há muito, apenas sobrevivendo porque se agarrou ao poder com mínimos interregnos.

Num trabalho pessoal assinalável, a minha colega Maria de Fátima Patranito (62 anos de idade, 44 de serviço público, mais de 32 como docente) fez a síntese possível e sempre incompleta de todo o trabalho que os docentes desenvolvem em torno do essencial que deveria ser o do contacto com os alunos. Para além de diversas tarefas que se realizam na sequência de exigências sucessivas, que em nada se reduziram com os meios digitais, ela identificou cerca de uma dezena de tipos de reuniões, que se repetem diversas ao longo dos períodos num total que ela estimou entre as 60 e 90 por ano, conforme as funções desempenhadas. E eu acrescento que deixou de fora algumas, talvez por na sua escola ainda as não terem inventado como necessárias. Relatórios e questionários de preenchimento obrigatório identificou 17, mas também aqui terá pecado por defeito e deixou de fora toda uma panóplia de planificações que nestes tempos vão muito além da disciplina original de cada docente, em virtude do desdobramento de áreas curriculares. A envolver tudo isto contabilizou cerca de 750 mails enviados e recebidos ao longo do ano no seu correio institucional, embora admitindo que apagou alguns (por exemplo, de entidades a solicitar divulgação de atividades de tipo cultural ou outro) e deixou de fora os contactos com os encarregados de educação da sua direcção de turma.

O caminho da híper-burocratização do quotidiano docente é um dos que mais rejeição me desperta, dividindo-se a responsabilidade pela tutela que tudo quer controlar  numa lógica de micro-gestão assente em plataformas digitais e os poderes instituídos nas escolas quando adoptam a lógica da representação dos actos e optam por sobrecarregar quem ousar não produzir o sucesso nas quantidades previamente definidas em planos quasi-quinquenais.

E é inevitável lembrar-me do início do Cântico: “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/Quando me dizem: “vem por aqui!”/Eu olho-os com olhos lassos,/(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)/E cruzo os braços,/E nunca vou por ali…”.

Ou tento não ir até aos limites do possível, mas cada vez se torna mais complicado, porque a democracia fugiu das escolas e deixou em seu lugar um espartilho de dependências hierárquicas que recompensa a domesticação e a adesão acrítica a lógicas de obediência e penaliza a diversos níveis todo o tipo de comportamento crítico e divergente. Em nome de uma eficácia financeira e administrativa, muitos pretensos defensores da docência reflexiva e das pedagogias emancipatórias estão a consolidar um sistema de ensino público que cerceia a liberdade individual dos docentes e promove a subordinação e as práticas de tipo feudo-vassálico na distribuição de horários e créditos horários. Sabendo-se que os serviços administrativos centrais do ministério da Educação perderam toda a sua autonomia técnica, capacidade de regulação e poder para fazer cumprir as leis em vigor (mesmo as que padecem de evidentes falhas e “alçapões”) para se tornarem meras extensões da tutela política, subvertendo por completo a lógica de uma administração pública ao serviço dos cidadãos, idealmente neutra e respeitadora da Lei acima da conveniência política.

Sim, tornou-se mais fácil e cómodo abdicar de princípios e trair convicções, na esperança da nomeação, do favor, da tença tida por merecida por quem nos quer à força no seu caminho. Mas… “Não, não vou por aí! Só vou por onde/Me levam meus próprios passos…/Se ao que busco saber nenhum de vós responde/Por que me repetis: “vem por aqui!”?/Prefiro escorregar nos becos lamacentos,/Redemoinhar aos ventos,/Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,/A ir por aí…”.

Ainda não desisti de seguir pelo caminho que me leva à minha escola, às salas de aula e aos alunos, bem como aos muitos colegas que ainda me merecem um imenso respeito pela forma como insistem em sobreviver numa realidade transformada em simulação, em matrix dominada por indicadores de “sucesso” e “eficiência”, em que a enunciação de pedagogias inovadoras corresponde a práticas de formatação servidas por guiões com caminhos pré-definidos e metas únicas e em que o pretexto do combate ao insucesso e abandono escolar é um manto com que se ocultam negócios diversos, de autarcas a ex-governantes e burocratas transformados em consultores e alegados especialistas em tudo aquilo que não conseguiram fazer enquanto decisores ou suas extensões.

E é neste momento que o Cântico cede lugar ao Manifesto em pessoal adaptação aos novos tempos:

“Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Caminho Único, morra! Pim!”

PG Verde