Sábado

Dia para o ritual da primeira visita à Feira do Livro, que o ano passado abstive-me. Todos os anos ouço falar em coisas novas, mas já me chega que não mudem para pior. Ok, há agora uns quiosques onde se podem comer umas coisas giras a preços algo parvos, mas é a Lisboa do Medina, pelo que há que ter sempre a carteira à mão.

Valham-nos os alfarrabistas e algumas promoções ocasionais, que em outros casos se consegue comprar online mais barato e foi isso que tentei dizer a um par de simpáticas funcionárias que, cada uma em sua banquinha, me chamavam a atenção para os produtos. Não faz sentido ter quase tudo a 40% na livraria online e depois a 20% na Feira. Ou ter tudo a 10%, como em qualquer grande superfície e deixar monos para livros do dia. Tempos novos, velhos hábitos.

Como escrevi, valham-nos os alfarrabistas onde é possível encontrar coisas perdidas ou em falta, como as tirinhas do Guarda Ricardo de 1975-76, então publicadas pela Bertrand, a preço lógico e não especulativo.

(não fotografei o pequeno monte de aquisições, para não ferir susceptibilidades e autoestimas)

How To Stay Sane In An Age Of Division

Um livrinho de pequeno formato, com 90 páginas rápidas de ler que consumi em suporte físico, porque sou antiquado. Quem o quiser em formato digital, até paga menos. É da anglo-turca Elif Sharaf e explica-nos como as identidades monolíticas são uma ilusão e o mundo da leitura e escrita nos pode unir, em vez de nos isolar (perante ecrãs, por exemplo). Fala-nos de forma muito elegante sobre as ansiedades de um tempo em que cada vez se grita mais, mas menos eficaz é a nossa “voz”, e sobre os equívocos de quem não percebe que certos extremismos e fundamentalismos só ajudam a criar os fenómenos pelos quais, depois, a maioria gosta de se desresponsabilizar. Ajuda-nos a perceber que a sanidade é possível, se não nos desligarmos do passado, de tudo o que nos ajudou a criar enquanto seres que não se definem por um único traço (geográfico, político, étnico, religioso), mas de forma compósita. Um livrinho que só na aparência poderá parecer ligeiro ou defensor de uma tolerância inconsequente. Pelo contrário, ensina-nos que a inconsequência está em encerrar-nos em câmaras de eco, nas quais a verdade aceite é apenas a que nos faz sentir confortáveis.

Continua A Retoma

Gosto muito do Afonso Cruz e este livro, ao fim da primeira centena de páginas, é muito bom de forma consistente. O policial nórdico do conjunto é o terceiro de uma série bastante boa. Já o policial sul-coreano no feminino vem na sequência da descoberta de outros autores orientais do género, como Natuso Kirino (japonesa), Kim Young-ha ou Hideo Yokoyama. O resto é na base da descoberta, porque em regra os prémios Booker e Goncourt são valores seguros.