Honestidade

Contra o que tem sido habitual nos últimos anos, tenho metade das turmas com 50% ou mais de negativas. Como acho que é feio exigir que os alunos não digam mentiras e fazer o contrário, a minha justificação foi-lhes transmitida em primeiro lugar nas aulas em que conversámos sobre a avaliação. E, que me desculpem, não é no terceiro período que vou reformular estratégias como se até agora tivesse andado aos papéis ou a zanzar. Faltam 9 semanas de aulas, o que significa que faltam dois meses para muitos deles se preocuparem minimamente com o que andam a fazer pela escola, fora dos intervalos e dos furos. O que significa que vai preto no branco que, do meu lado, já faço tudo e mais alguma coisa, falta agora a parte deles. E nem sequer me vou refugiar no acompanhamento das famílias, porque isso é esperar que o horizonte venha deitar-se aos meus pés. Acho que quem quer que os outros sejam honestos, deve dar o exemplo e não se refugiar em eufemismos ou naquele ondulante e adjectivado linguajar típico de actas e agora de pêtêtês. E ainda bem que escrevi a coisa antes do raio da dor de dentes desta tarde.

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Concorrência a Tempo Inteiro?

Em defesa da chamada “Escola a Tempo inteiro” há argumentos medianos, mas que representam uma rendição de uma certa “esquerda” à inevitabilidade do capitalismo e à estratégia micro-reformista de adaptação às realidades de mercado, mas depois há aqueles que são mesmo muito mais, agarre-se-lhes por onde agarrarmos.

O mais ridículo para mim é o de, estendendo aquela prática que dá pelo nome de AEC até ao 9º ano, será possível às escolas públicas competir com as escolas privadas que garantem actividades desse tipo aos seus alunos e lhes permitem ficar mais tempo na escola, depois das aulas.

Deixemos de lado a questão da adopção da lógica concorrencial e de mercado por malta que se diz anti-capitalista.

Concentremo-nos no aspecto concreto das “actividades” quanto ao tipo de propostas aos meios para as implementar e horários previstos. Eu acredito que há quem tenha ao seu dispor escolas da (agora amada) Parque Escolar e não tenha a minha experiência como encarregado de educação (escola sem pavilhão desportivo) ou professor (pavilhão fora do recinto escolar com imensos problemas de manutenção admitidos, mas nunca resolvidos, pelos burrocratas de serviço no ME que por lá passaram). E nem é bom falar em salas com condições especializadas para certas actividades como aquelas que eu passo a indicar estarem disponíveis nos colégios com quem certos inteligentes querem colocar as escolas públicas a competir.

E depois há outra coisa curiosa… os colégios privados que promovem esse tipo de actividades, têm instalações apropriadas, cobram inscrição e mensalidade e não as desenvolvem em horários nocturnos (no Inverno) ou quase (no Verão), como podem consultar nesta tabela de um dos colégios de topo do Porto. Veja-se como funciona o prolongamento no Colégio São João de Brito (45 euros mensais para saírem depois das 16.30 até ao 1º ciclo, mais pagamentos à hora para ficarem na Biblioteca, valores que similares aos do colégio do Rosário, no Porto), veja-se o caso das extra-curriculares do Planalto, veja-se ainda o leque de actividades do colégio privado mais próximo da escola da minha petiza e digam-me lá se no novo modelo de concorrência do ensino público eu poderei dispor de equitação, natação, esgrima, canto lírico ou ballet clássico.

Ó pessoazinhas bem intencionadas, vamos lá ver um par de coisas: não há família fidalga ou arrivista com dinheirinho fresco que vá deixar de colocar os seus filhos num colégio com pedigree para a mandar para a escola pública da zona, só porque a miudagem pode ficar um par de horas com um monitor qualquer a fazer qualquer coisa considerada pouco diferenciada; assim como quem não tem meios para pagar propinas e actividades extra em escolas privadas vai deixar de andar nas escolas públicas se essas actividades não existirem. Até porque, existindo, os miúdos as encararão como mais do mesmo ou apenas uma brincadeira adicional. Mesmo se os promotores fizerem relatórios a destacar o imenso sucesso da iniciativa ou do projecto.

Vamos lá ver uma outra coisa… os alunos que querem ficar nas escolas públicas até às 18.30 ou mesmo um pouco mais já o podem fazer. Se isso é feito de um modo não enquadrado em “actividades” resulta em muito dos constrangimentos colocados em termos de horários aos professores, que já estão mais do que sobrecarregados, bem como o pessoal não docente. Colocar tais actividades a concurso, a tostão à hora, com obrigação de aceitar a proposta mais baixa é um convite à falcatrua (fancaria é um termo que também já usei e se adapta muito bem) na ocupação dos tempos livres dos alunos.

Querem mesmo concorrer com os privados e tornar as escolas públicas mais concorrenciais? Permitam a existência de transportes escolares mesmo escolares e não apenas a frequência dos transportes públicos, quantas vezes com trajectos afastados do espaço escolar o que tem implicações na segurança com que se deslocam e nos horários praticados. Equipem as escolas de forma permanente com espaços e meios humanos para que certas actividades não sejam descontinuadas a cada novo ano em que se renova todo o pessoal e se inicia tudo de novo ou de cada vez que um novo ministro aparece com ideias de racionalização dos procedimentos e encargos. Não brinquem aos pobrezinhos, tratem destes assuntos com seriedade. O problema é que sabemos, pelos antecedentes, que esta Escola a Tempo Inteiro é uma enorme treta que tem tanta capacidade de concorrência como o meu velho e fiel Fiat 127 dos anos 80 com os audis mais turbinados do que a malhoa no novo vídeo. E todos sabemos disso e apenas se agravam preconceitos.

Existisse mesmo coragem para concorrer e este tipo de propostas nunca aconteceriam, porque a Escola a tempo inteiro é a falência de qualquer modelo social desenvolvido.

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O Segredo

Do sucesso educativo.

Das sociedades escandinavas ou orientais.

Não foi dar mais do mesmo, obrigar os alunos a estar do nascer ao pôr do sol nas escolas, em aulas ou “actividades”. Não foi tornar tudo muito “interessante” ou “divertido”. Não foi determinar esse sucesso por decreto. Nem foi carregar de burocracia as escolas e professores.

O segredo esteve em algo muito diferente e é comum a esses tipos tão distintos de sociedade nos momentos em que se tornaram líderes neste tipo de comparações internacionais. Foi a auto-disciplina e auto-exigência dos alunos em relação ao desempenho, a capacidade das famílias os apoiarem fora do horário escolar, a motivação e valorização do papel dos professores, um conceito de Escola que não se confunde com o de outras organizações sociais, uma visão política a longo prazo não determinada por calendários eleitorais, interesses de facção partidária ou meras racionalizações economicistas e, finalmente, a existência de um sentido social para a Educação, não vista apenas como um espaço de colheita de diplomas. Foi a combinação desses factores que permitiu o sucesso.

Por cá preferem-se os truques de curto prazo, a pressão administrativa e burocratizante sobre as escolas e os professores para fabricarem sucesso estatístico ou então precisam de 24 folhas de impressos para se justificarem, abdicando-se de interligar o progresso educacional à mudança social no sentido da melhoria das condições de vida dos alunos e famílias e do combate (a sério) à desigualdade. Parece que dá mais trabalho fazer isso do que produzir portarias, despachos e decretos a partir do ME.

Desculpem-me lá a franqueza, mas uma batata é uma batata e a sua lógica é a mesma, seja ela branca, roxa ou às pintinhas.

Kramer

Treino

Um dos argumentos mais toscos, mas muito popular, contra a existência de “exames” é que se andaria a “treinar” os alunos para os fazer, opondo isso ao desenvolvimento de “aprendizagens” e “competências”.

Este tipo de raciocínio é um bocado redutor e choca-me especialmente quando usado por professores porque parece que dão razão a uma prática desse tipo, que reduziria um ciclo de aulas a treinos para um “jogo” final. Quando é usado por políticos, dou o desconto habitual e inerente ao desconhecimento do assunto sobre o qual palram.

Vamos lá ser mauzinhos um pouco… mas então eu não “treino” os meus alunos para lerem e escreverem bem? Para entenderem o que lêem? Não repetimos aulas de leitura e interpretação de textos? Ou não se realizam exercícios de produção escrita (hesito em usar termos como “redacções” ou “composições” porque me podem chamar nomes esquisitos)? Em Matemática, não se “treinam” exercícios para que os alunos saibam resolver os problemas? Ou para reconhecer as formas geométricas e as características dos sólidos? Não são “competências” a capacidade de leitura ou resolução de exercícios? “Aprendizagens” não são aquisições de conhecimentos pelos alunos que depois se concretizam pela sua demonstração prática? Há alturas em que me interrogo se as pessoas compreendem exactamente aquilo que estão a dizer ou se sou eu mesmo que fico com um problema de desvinculação cognitivo-linguística.

Ou “treinar” é só quando os meninos e meninas são artistas ou atletas e se esfalfam, fora da escola “regular”, em academias, ginásios, conservatórios ou pavilhões?

Kramer

Todos Iguais?

Já não me admiro por ler/ouvir gente que passa por inteligente defender teses do género “vamos lá e rebentamos com aquilo tudo! todos para fora! quero lá saber de moderados ou inocentes”. Já começa a ser rotina.

Acaso não perceberam que é isso que se anda a fazer desde as Cruzadas e sem funcionar muito bem?

E, já agora, que essa é a mesma lógica dos que assassinam inocentes em Paris, Kobani, Madrid, Peshawar, Londres, Garissa, Nova York, Bagdad ou, qualquer dia, quem sabe onde mais?

Bomb2