Algum Bom Senso

Permitam-me acrescentar a necessidade de flexibilização do modelo de gestão escolar.

Os diretores escolares pedem ao Governo “sinais” que permitam afastar a “nuvem cinzenta” que paira na Educação e valorizar os professores. Em causa está o arranque do segundo período, que será marcado por greves de docentes e não docentes. Para esta terça-feira, a FENPROF agendou uma concentração junto ao Ministério da Educação. Os diretores consideram “justas” as reivindicações dos professores e há quem aponte para a necessidade de os ministérios da Educação e das Finanças se sentarem à mesa com os sindicatos.

“No início do ano letivo, em setembro, eu dizia que o ano ia começar com uma nuvem cinzenta. Referia-me à escassez de professores. Esta nuvem cinzenta está cada vez a ficar mais escura”, afirmou ao JN Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, sublinhando que “os professores têm motivos mais do que suficientes para estarem desagradados”.

“Há fatores que, na minha opinião, deram razão aos professores para enveredarem por este tipo de luta. A avaliação de desempenho dos professores e dos diretores é injusta, o vencimento dos professores é baixo tendo em conta a sua responsabilidade e há uma enorme burocracia na qual os professores estão envolvidos e que os obriga a trabalhar muito mais do que as 35 horas”, exemplificou.

Sim, Falharam!

Mas ainda não morremos (todos).

Mas, até que enfim que, de “fora”, chega uma análise decente da situação. Obrigado.

A morte dos professores

Falhámos por omissão e conivência. O resultado? Uma classe desmotivada, revoltada e humilhada.

(…) Versamos muito em torno da questão financeira, da instabilidade e, sendo certo que constituem factores explanatórios da crise na Educação, torna-se manifestamente insuficiente e superficial analisar o problema apenas por este prisma porquanto todos estes pontos mais não são que derivações de uma ferida mais profunda e, quiçá, mais difícil de tratar: a desvalorização social da classe.

Tornámo-nos cegos ao sofrimento de milhares de profissionais que, diariamente, são rebaixados no exercício da sua actividade. Normalizámos os esgotamentos, ou, como agora é gíria, o burnout. Banalizámos a violência das famílias que irrompem escola dentro. Demitimo-nos de dar às nossas crianças a educação que deveria vir de casa na expectativa que, à Educação que deveria ser função da escola, se somem os valores e princípios que não trazem de berço.

Canibalismo Profissional – Carlos Santos

Um texto muito lúcido e claro, publicado originalmente no fbook e que pedi para reproduzir neste quintal. Contra a demagogia e o populismo mal disfarçado dos salta-pocinhas, que falam de barriga cheia e traseiro fofo à porta de casa.

Só quando virmos a última gota de água sair das torneiras nos daremos conta da falta que ela faz. E assim será com os professores numa terra que atravessa uma severa seca de valores sociais.

O sistema de ensino em Portugal não é mais do que um navio a afundar-se onde os sobreviventes, num salva-vidas à deriva num mar de gente indiferente que não os quer nem vai salvar, em desespero, acabam por cometer canibalismo começando a se comerem uns aos outros por considerarem ser essa a única solução para sobreviverem. Os professores que parem de procurar nos outros explicações para o afundamento da classe, porque ela própria é a maior culpada pelos males que a afligem, pela desunião que a caracteriza e tem prejudicado a todos ao longo dos últimos anos e nos trouxeram até esta situação decadente de instabilidade, precariedade e más condições profissionais.

Não é uma andorinha que faz a primavera; não são alguns casos fraudulentos na mobilidade por doença que podem pôr em causa todos os outros que estão realmente doentes. Foi com essa perigosa mentalidade e tendência em generalizar que se cometeram as maiores atrocidades e crimes ao longo da história da humanidade. É, por isso, com grande preocupação que assisto ao começo de uma campanha difamatória contra os professores em mobilidade por doença, doentes ou com familiares a necessitar de apoio.

Será, porventura, assim tão difícil estabelecer a ligação do envelhecimento da classe, a crescente sobrecarga de trabalho e o prolongamento dos anos de deslocações para escolas longínquas, com o aumento de problemas de saúde dos professores? Será que alguém se pergunta como é que um professor sexagenário aguenta fazer diariamente centenas de quilómetros nas estradas a acumular a todo o imenso trabalho profissional que lhe é exigido? Claro que não, pois é bem mais fácil falar mal dos outros, algo tão característico do nosso povo.

Que, de uma vez por todas, se entenda que isto não é vida que se aguente. Até há uns anos os ciganos eram conhecidos pelo nomadismo que caracterizaram a sua cultura e os fizeram povoar os quatro cantos do mundo; hoje em dia os professores são os ciganos dos tempos modernos – nómadas a percorrer o país durante toda uma vida.

E que se desmitifique que o maior problema dos horários que não são preenchidos são os horários incompletos numa profissão mal paga sem ajudas de custo, que não são aceites por mal darem para pagar uma renda e que nada têm a ver com os professores em mobilidade por doença.

28 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, cirurgias, um joelho que nem sequer me permite correr e me dificulta a condução e mais de 600 mil quilómetros nas estradas em deslocações para a escola, são a explicação para recorrer à mobilidade por doença. Se preferia não ter de recorrer a este género de concurso? Claro que sim, pois seria sinal que teria saúde, algo que não tem preço e só se dá o devido valor quando se perde. Por isso, numa situação destas, colegas serem obrigados a escutar da boca de dirigentes escolares e associativos e da comunicação social, que os professores nestas circunstâncias são fraudulentos e oportunistas!? E, pior, colegas de profissão a alimentarem as redes sociais com um ar carregado de maledicência dos seus pares, é revelador da desunião de uma classe malformada que se maltrata a si mesma.

Se hoje pudesse voltar para trás no tempo, nunca teria enveredado por ser professor. E isso nada tem a ver com a qualidade profissional. Quem me conhece sabe que sou um bom profissional, gosto do meu trabalho (embora hoje menos do que noutros tempos), com excelentes relações com pais, alunos, professores e funcionários, com elevada capacidade pedagógica dentro e fora da sala de aula. Mas não é isso que define uma escolha de vida acertada quando o preço a pagar é elevado numa fatura diária e perpétua, numa terra onde não há reconhecimento profissional nem mesmo no seio da classe onde cada um faz tudo para poder ficar com o quinhão dos outros. Sinto o desalento de quem deu tudo de si ao ensino, incluindo literalmente sangue, suor e lágrimas, e em troca recebeu tão pouco da sociedade.

A minha esposa, com 29 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, mazelas, uma vida na estrada sem fim à vista, nem esperança de algum dia poder vir a ficar colocada perto do domicílio, é o exemplo acabado daquilo que se espera de um professor nos dias de hoje – um missionário que abdica tudo por uma causa sem gratidão social. Um número descartável que, quando estiver esgotado, simplesmente se esquece e se substitui.

Será a qualquer título assim tão difícil entender que o que está verdadeiramente em causa não são os professores, mas as condições de trabalho desumanas a que são sujeitos? Longe vão os anos em que um professor trabalhava meia dúzia ou, quando muito, uma dúzia de anos longe do domicílio até ficar colocado perto da sua residência. Atualmente, espera-lhe toda uma vida a trabalhar longe de casa com a expectativa de, talvez, um dia, quiçá perto da idade da reforma, poder vir a ser colocado perto de sua casa.

E quem paga a despesa de décadas nas estradas e em estadias com famílias a pagarem duas e três rendas? Quem paga o desgaste de centenas de milhar de quilómetros ao volante?

Com condições tão pouco atrativas, não é de admirar que, nos dias de hoje, não se consigam aliciar os jovens para virem a ser professores.

Não me espanta nada que a muito anunciada falta de professores já esteja aí com mais de trinta mil alunos sem professores neste ano letivo, mais de cem mil no próximo e mais de trezentos mil dentro de 2 a 3 anos.

É, para mim, muito natural que sejamos um país sem grande progresso em comparação com os seus pares, com baixos índices de escolarização que se irão agravar enormemente nos próximos anos, fruto do indecente ataque aos profissionais da educação iniciado em 2005 por Maria de Lurdes Rodrigues e o governo Sócrates e habilmente continuado pelos governos que se lhe sucederam.

Um país que, no futuro próximo, apenas irá colher aquilo que semeou; sem futuro, a que está condenado pela postura política e social de perseguição e injúria à classe fundamental para o desenvolvimento e progresso de uma nação. Mais do que um flagelo económico, este é um flagelo social numa terra movida por um monstro corrosivo que turva a razão e ataca com o ódio da cegueira chamado “inveja”. “Os professores ganham muito, trabalham pouco e têm muitas férias”, a isto se reduziu o imenso e importantíssimo trabalho de grande investimento e sacrifício pessoal e profissional desempenhado pelos professores.

Está a chegar, a passos largos, o dia em que o país irá implorar por professores e não os terá. Depois, irão providenciar-se remendos para tapar a enorme cratera aberta diante de todos, recrutando-se profissionais sem habilitação profissional especializada nem qualificações à altura, recorrendo-se a professores dos PALOP, espanhóis, entre outros, quando se negligenciou e perseguiu excelentes professores que o país formou ao longo de décadas. Alguém deveria responder perante a justiça por este e outros crimes que a nossa classe política tem cometido contra a nação ao longo de décadas.

E quanto ao povo, longe de estar inocente, apenas terá aquilo que merece pagando por ter acreditado nas mentiras disseminadas pela máquina de propaganda política sendo conivente com esta matança profissional que encurralou o ensino neste beco sem saída.

Relativamente a esse clima de suspeição, o que dizer daqueles que, com responsabilidades acrescidas, vêm a público falar mal da classe? Comecem por investigar o obscurantismo por detrás de certas nomeações para cargos públicos, políticos e editoriais de órgãos de comunicação; comecem por averiguar a transparência dúbia na eleição de certos dirigentes escolares; comecem por dar a devida atenção a tantas irregularidades, atropelos à lei, cunhas, corrupção, peculato e crime, antes de se virarem para os professores.

E a ávida língua afiada de alguns docentes, seria muito mais útil se a apontassem na direção do envelhecimento da classe e do elevado desgaste a que está sujeita, com excesso de trabalho e de trabalho burocrático, de instabilidade e baixos salários. Afirmarem que professores em mobilidade por doença não lecionam, só alimentam falsas ideias sobre os professores. Muitos, coitados, mesmo em mobilidade por doença, ainda acabam por ser obrigados a meter baixa médica por não aguentarem, sendo o mais doloroso o azedume e má-língua dos colegas de profissão.

Em vez de exigirem melhores condições de trabalho, maior estabilidade profissional, redução dos quadros de zona, aposentação mais cedo por desgaste profissional, vinculação mais célere, ajudas de custo para alojamento e deslocações, menos burocracia, mais proteção social e judicial, valorização da classe, da carreira e salarial, fim de cotas e de obstáculos à progressão na carreira, devolução do tempo de serviço roubado e a resolução de tantos problemas reais e diários dos docentes, estupidamente, os professores continuam a preferir embarcar nestas ciladas que colocam professores contra professores e mancham a profissão na praça pública optando por dar tiros nos próprios pés. Guarda-se o mal dos outros num cofre longe da nossa consciência e dizem-se as maiores blasfémias com a mesma facilidade com que se respira.

Que se investiguem os oportunismos de alguns e não se tome a parte pelo todo, apenas isso.

De quando em quando, num país onde quase tudo funciona mal, num exercício de fuga da realidade lá se volta novamente a atenção para os professores como culpados de todos os males… e o pior é que alguns facilmente alinham nisso.

Carlos Santos

Por Outro Lado…

… Manuel Carmo Gomes nem sempre conseguiu criar uma imagem cool. E acabou por sair das reuniões do Infarmed irritado (por muito que ele tente suavizar as coisas na entrevista à Isabel Leiria do Expresso) com aquilo que teve de enfrentar na preparação das reuniões com o Infarmed, nomeadamente as reuniões com “as senhoras ministras” (Marta Temido, Mariana Vieira da Silva)que ele, de forma elegante, apresenta “como desgastantes”. Discordando da posição que ele tomou mais recentemente, porque continuo a achar que o 1º ciclo (e talvez o 2º) deveria(m) ter esperado mais um par de semanas, há que reconhecer que foi dos que mudou de posição quando as circunstâncias da pandemia mudaram, não no sentido de se manter popular ou capitalizar seja o que for. Como ele declara, teve acesso a informação, mais nada.

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COVID-19

Covid-19. Carmo Gomes: “Não fechar logo as escolas em janeiro de 2021 foi o erro maior. Teve consequências em termos de mortes”

O título refere-se à vaga de Janeiro de 2021, quando o governo cedeu mais à pressão de meia dúzia de articulistas inflamados do que aos aconselhamentos científicos.

A Ler – José Morgado

DAS APRENDIZAGENS

(…) É neste contexto que emerge a razão destas notas. Do meu ponto de vista, a questão central não deve ser definida em torno da recuperação dos efeitos da pandemia nas aprendizagens ou no bem-estar através de planos de recuperação finitos, mas sim, na mudança ao nível das políticas públicas dos diferentes países, incluindo Portugal, que, para além de forma mais imediata “recuperarem aprendizagens”, tenham impacto a prazo através de recursos suficientes e competentes, definição de dispositivos de apoio eficientes e de acordo com as necessidades, apoios sociais que minimizem vulnerabilidades que a escola não suprime, valorização da educação e dos professores, diferenciação e autonomia nas respostas das instituições educativas, etc.