Ainda Sobre O Insucesso

Contra algumas ideias feitas, há factos que acho difícil ignorar e ainda mais complicado adulterar de forma sistemática para a opinião pública. Mesmo não partilhando a crença da autora acerca do “contexto favorável” que se viverá (que interpreto de outra forma). gostaria de destacar algumas das evidências que recolheu.

Vejamos o que pensam os alunos que mais insucesso têm do que se passa com eles nas escolas:

Sobre a melhor forma de combater esta situação:

Os alunos que não aprendem necessitam de colo e atenção em casa. Necessitam de programas de sensibilização das famílias, porventura antes do início da escolaridade obrigatória. Necessitam de ir mais cedo para o jardim infantil. Necessitam de programas que reduzam a desvantagem dos agregados familiares. Necessitam que a comunidade esteja atenta ao bullying. Necessitam de modelos para se comportarem melhor. Necessitam de não ser segregados em escolas estigmatizadas. Necessitam de aprender a ler para poder criar o gosto pelas histórias e pela criatividade. Necessitam que não desistam deles.

Os professores tentam dar um contributo positivo para que estes alunos continuem. Sempre os professores como o melhor ativo do sistema de educação.

Já agora, matizando a teoria de que só os pobrezinhos é que são protagonistas do insucesso, típica daquele determinismo simplório pseudo-sociológico:

Embora o sucesso das aprendizagens esteja ligado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias (educação dos pais, qualidade do emprego, poder de compra, hábitos culturais), esta realidade pode atingir todas as classes sociais, incluindo 6% pertencente à classe social mais favorecida. Por outro lado, dentro da classe social mais desafortunada há 42% de alunos que atinge nível “3 “ou mais. Cada um destes alunos adquiriu competências para entrar no elevador social, tem capacidades que permitem manter as portas do futuro abertas.

profpardal

Domingo

É importante que existam cada vez mais professores sem medo das consequências de ir contra o diktat do costismo educacional. Que tenham a coragem de denunciar as mentiras oficiais e de apontar o dedo com clareza aos responsáveis por políticas desastrosas com a cosmética da pós-modernidade. Maria do Carmo Vieira fez isso há uns dias e agora foi o Luís Filipe Torgal. Bem-hajam aqueles que não receiam tresmalhar do rebanho das conveniências instaladas e do desejo de ficar num qualquer canto de uma fotografia para o twitter do ME.

A atual autonomia escolar impôs às escolas menos liberdade e mais dependência dos intricados decretos e portarias ordenados por este ME e a flexibilidade educativa pouco acrescentou ao que já se fazia.

Quanto a acrescentar, acrescentou mais uma camada de burrrocracia inane e idiota a que aderiram, mesmo que por vezes com algum discurso auto-desculpabilizador, muitas criaturas com vértebras amolecidas.

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A Ler – Maria Do Carmo Vieira

As sucessivas mentiras na Educação e o futuro dos nossos filhos e netos

Até quando deixaremos que nos iludam, como na fábula de O Lobo e O Cordeiro, pondo em risco, com a nossa ingenuidade, o futuro dos nossos filhos e netos? Aos professores se apontará depois o dedo acusador pelas nefastas consequências de tal propósito.

(…)

Digamos NÃO! a esses “peritos”, nacionais e estrangeiros, que, nas palavras de Agostinho da Silva, “amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; […]. Vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro […].” Caber-nos-á a nós estragá-lo, insurgindo-nos activamente contra a Mentira!

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Bom Senso, Lucidez

É aqui que entra o senso comum. O senso comum não está fechado em gabinetes a analisar estatísticas. O senso comum sabe que alunos de 12 anos, se puderem, preferem não estudar, porque a escola é uma seca. O senso comum intui que os encarregados de educação preocupam-se mais se tiverem medo que os seus filhos falhem. O senso comum pressente que os professores tenderão a relaxar, se tiverem de aprovar toda a gente. O senso comum baseia-se no conhecimento da natureza humana, que só reage a estímulos do tipo prémio versus penalização. É isto mesmo: ao contrário dos teóricos, o senso comum conhece a natureza humana.

Dando de barato que professores motivadíssimos e imbuídos do mesmo espírito missionário do senhor ministro estariam disponíveis para a tarefa. Que teriam tempo, disponibilidade mental, as circunstâncias e os meios para passarem ainda mais horas a ministrar ensino personalizado e a la carte a este e àquele aluno em dificuldades – e o conseguiria fazer sem negligenciar os restantes: pode a aprendizagem em idade escolar ser a única atividade humana que funciona sem o estímulo do chicote e da cenoura? Deve a escola ser um perpétuo recreio ou, pela exigência do esforço e do trabalho, é mesmo suposto que, de quando em vez, seja uma seca? Será que queremos formar cidadãos sem preparação para as muitas secas da vida futura? Aprender a lidar com o stresse (por causa de exames, por exemplo) não deve fazer parte da formação da criança?

Mas isto não é ainda o principal. O principal é saber se, de facto, alunos que não aprenderam o A, conseguem juntar A+B. A experiência pessoal de cada um de nós falará por si. E eu falo da minha. Eu era um excelente aluno de matemática, desde a aritmética da escola primária ao final do primeiro ciclo do meu tempo (5.º e 6.º anos de escolaridade). Mas ali algures entre o 7.º e o 8.º, perdi o fio à meada e não consegui acompanhar a matéria. Ainda assim, sem saber como, apanhei uma professora que passava toda a gente, soubesse ou não soubesse. Cheguei ao 9.º ano, e não só não consegui entrar na matéria – faltavam-me noções básicas -, como tomei a decisão de me livrar o mais rapidamente possível da disciplina, passando “cortado” a matemática e “fugindo” para Humanísticas. Poderia, é certo, como “aluno em dificuldades”, ter tido um “acompanhamento especial”, logo no 8.º ano. Mas, garanto que, aos 14 anos, se me dissessem que iria passar de qualquer modo, jamais me empenharia em aproveitar tal “acompanhamento”… O que devia mesmo era ter repetido a disciplina, no 8.º ano, uma e outra vez, até apreender as competências necessárias para progredir. Estaria, então, em condições de frequentar o 9.º ano, lutar, de novo, por ter aproveitamento e, quem sabe, construir um futuro nas ciências exatas. O facilitismo do 8.º ano, a minha “não retenção”, fez de mim um ignorante. O meu obrigado ao Tiago Brandão Rodrigues daquela escola.

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Duas Crónicas Lúcidas

De Pacheco Pereira e Eduardo Dâmaso na Sábado desta semana. Publico dois excertos, embora as crónicas mereçam leitura integral (sendo especialmente divertida a forma como PP relata a forma como a comunicação social distorceu por completo a sua ida até ao piquete de greve dos motoristas).

O primeiro de PP sobre a solidão dos grevistas perante uma comunicação social adversa e rendida ao discurso do poder.

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O segundo de ED sobre a forma indecorosa como a classe política (parlamentar, neste caso) se encerra sobre si mesma num casulo de excepção e inimputabilidade.

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