Medo Ou Não Medo, Não É Bem A Questão

Um colega dizia-me como a “cultura do medo” ajuda a alimentar a indústria dos testes ao vírus a 100 euros a urgência no dito. Sim, concordo que há áreas de negócio em resplandecente prosperidade. E é verdade que já disse aos meus alunos, que não temo propriamente por mim, eles ou familiares mais próximos abaixo da minha idade ou por aqui, quando os mando meter o nariz para dentro do raio da mascarilha,

Mas há uma coisa que vos garanto… fosse vivo algum dos meus progenitores (e teriam 88, cada qual, nessa feliz eventualidade) eu não estaria na escola a dar aulas ou a fazer outras coisas, por vezes à mesma das 9 às 4 ou 5 da tarde como antigamente, apesar de me terem garantido, do alto ao baixo, que se iriam evitar cruzamentos e que isso é que justificava certas medidas.

O Texto Completo Do JL/EDucação

De acordo com Jacob Bronowski, “a ciência é um retrato do Mundo. Não é uma técnica; não é uma forma de poder; não é sequer apenas uma acumulação de conhecimentos que produz uma visão do Mundo”. Para ele, o conhecimento científico é desde o Renascimento a melhor maneira que temos para formar uma imagem do conjunto da Natureza e todo “um novo empreendimento [que] difere dos empreendimentos precedentes pelo facto de não ser mágico”. (J. Bronowski, Magia, Ciência e Civilização. Lisboa: 1986, p.49)

O desenvolvimento do método científico – discípulo no tempo longo da transição do mito para a razão na Grécia Antiga – foi a forma de operacionalizar esse novo “empreendimento” (que alguns preferem designar como “paradigma”) que permitiu à Humanidade conhecer a Natureza para além de intuições e de práticas encantatórias em busca dos favores dos deuses ou da natureza.

No entanto, o pensamento racional de base científica, herdado do espírito renascentista e dos princípios iluministas está actualmente sob forte ataque em diversas frentes, umas em que isso é feito de forma consciente e deliberada, mas em outras apenas na sequência de uma atitude de superioridade complacente de quem se deixa reduzir por um certo relativismo ajustado a conveniências políticas. Uma lista dessa constelação dispersa de detractores da Ciência pode encontrar-se, por exemplo, na obra A Ciência e os seus Inimigos de Carlos Fiolhais e David Marçal (Lisboa: 2017).

Os ataques mais deliberados têm origem num sector com fortes tradições no mundo anglo-saxónico, em especial nos E.U.A., que se opõe a grande parte do pensamento científico por motivos de Fé religiosa ou de preconceito anti-intelectual cf. Richard Hofstadter, Anti-intellectualism in American Life, edição original de 1963), tendo ganhado relevo nas últimas duas décadas com a “causas” como a da anti-vacinação, da recuperação do criacionismo ou, nos tempos mais recentes, de negacionismo perante as medidas de prevenção da expansão da pandemia de covid-19. Em diversos casos, estas posições surgem com a “legitimação” de serem defendidas por personalidades cuja formação académica parece trazer consigo credibilidade, mas que estão a obedecer em primeiro lugar a lógicas de outro tipo, como é o caso notável, dos médicos-políticos Bem Carlson ou Rand Paul. Na Europa e em Portugal, este tipo de posições tem menor visibilidade e presença junto ao poder político, mas tem vindo a reforçar-se de forma crescente neste período de pandemia. Em redes sociais como o Facebook  multiplicaram-se os grupos com apelos que conjugam a emoção com a pretensa credibilidade de alguns dos seus aderentes, por serem médicos ou mesmo “cientistas”. O combate ao uso de máscaras nas escolas pelos alunos é apresentada como uma variante da tortura e quem ache por bem afirmar a inconstitucionalidade da sua obrigatoriedade.

Em paralelo, embora muitas vezes se apresentem como arautos dos princípios iluministas da Razão, e na sua esteira da Justiça Social, da Igualdade/Equidade, temos uma investida contra a Ciência com motivações de oportunidade política e demagogia com traços populistas, mesmo quando paradoxalmente os nega. Chega a ser penoso como pessoas com um robusto currículo académico se deixem seduzir pela espuma dos dias e pelas honrarias transitórias, ao ponto de escreverem e afirmarem tiradas que apenas visam objectivos instrumentais do curto prazo político-mediático, abandonando os princípios mais elementares de qualquer atitude científica perante o mundo que nos rodeia, seja o natural ou o social. Recordo gente com responsabilidades políticas e formação “científica” a apresentar argumentos que pouco se distinguem da proclamação de desejos e anseios ou da ampliação de cartilhas de carácter político demagógico. O “tudo vai acabar bem” como lema que pretende tranquilizar e transmitir confiança, mas que a breve prazo se percebe ser desajustado à realidade. Ao finalizar Setembro batem-se novos recordes de contágios em países como Espanha, França e Inglaterra e entre nós os valores estão ao nível da primeira vaga pandémica, mas há quem pareça não reconhecer o erro de desprezar os dados científicos acumulados nos últimos meses.

Pelo meio, ficam aqueles que podemos qualificar, de forma talvez redutora, como sinceros e “ingénuos” herdeiros de diferentes variantes do pensamento mágico. Há quem considere que técnicas de auto-ajuda ou coping com as ansiedades do mundo moderno devem ser elevadas à categoria de Ciência, como se bastasse a força da meditação ou do “pensamento positivo” para alterar a realidade e não apenas o equilíbrio ou bem-estar individual. E chegam a reivindicar que tais disciplinas incorporem o currículo escolar como se estivessem no mesmo plano da Química, da Biologia, da Filosofia ou da Matemática, confundindo o currículo escolar com um albergue para a promoção de estilos de vida. Mas também temos os que, fiéis à deriva pós-moderna que alia a desconfiança do modelo capitalista de sociedade à crítica a uma Ciência encarada como construção histórica de uma parte da Humanidade, eurocêntrica e caucasiana. Como se isso fosse motivo suficiente para a sua recusa ou para a considerar apenas como mais um mecanismo de dominação global das sociedades ocidentais sobre o resto do mundo.

Talvez o irracionalismo nunca tenha deixado de estar entre nós. Popper queixava-se em 1982 de ele ter voltado a estar na moda e contra isso afirmava que embora o conhecimento científico-natural não seja o único existente, ainda é o melhor e mais importante que possuímos (Karl Popper, Em Busca de um Mundo Melhor. Lisboa: 1989, p. 17). Mas atravessamos de novo tempos em que, apesar das conquistas evidentes da Ciência há quem considere que se deve relativizar o seu contributo para a melhoria das condições de vida da Humanidade. Há uma “coligação negativa” anti-Ciência que vai desde quem parou na Geografia ptolomaica e ainda crê numa terra plana ou oca e uma intelectualidade que se revê numa atitude de desconfiança global contra “o governo mundial das corporações” e de denúncia de uma “cultura do medo”, mas que acaba por nos servir à mesa apenas uma outra modalidade de medo global. E não faltam herdeiros de uma ideologia internacionalista a criticar os malefícios da globalização. Afinal, a revolução global foi substituída pelo consumo global. E a “cultura do medo” combate-se com mais medo, mas nem sempre se percebe o paradoxo.

O combate contra esta frente irracionalista e anti-científica deve começar na Escola, permitindo aos alunos desde cedo um contacto próximo e profundo com o melhor da herança da Humanidade em termos de conhecimento acerca do Mundo. Sem verdades absolutas, mas também sem dúvidas irredutíveis. A atitude científica define-se pela permanente revisão crítica, pela busca do erro para conseguir um melhor “retrato do Mundo”, como afirmou Bronowski, na esteira de Kant para quem a Verdade era a concordância entre a cognição ou conhecimento e o seu objecto. E não uma qualquer variação semântica mais ou menos criativa. Claro que nos últimos 200 anos se avançou muito para além do que em dado momento era considerado como a melhor descrição da realidade, mas esse é o caminho da Ciência. Que se deve aprender nos bancos ou ecrãs das escolas. Não apenas “verdades” tidas por imutáveis, mas a evolução que fez com que se fossem apurando os nossos conhecimentos. “Foi o pensamento racional que permitiu encontrar tanto os problemas como sobretudo as soluções, não o pensamento irracional” (Fiolhais e Marçal, Op. Cit., p. 156). O aparente medo da Ciência, a menorização da Filosofia, o desdém pela História que marcam a atitude de muitos especialistas e decisores na área da Educação e da definição do currículo, são cúmplices do avanço do irracionalismo.

Não podemos ficar reduzidos à atitude de seguirmos os ensinamentos da Ciência, apenas quando é possível.

Contra esta atitude anti-científica, Steven Pinker sumaria de forma magistral a necessidade de, mesmo sabendo que nunca teremos um mundo perfeito e que procurá-lo até se pode revelar perigoso, apostarmos na via do conhecimento para desenvolver a Humanidade. Porque, afinal, “a vida é melhor do que a morte, a saúde é melhor do que a doença, a abundância é melhor do que a escassez, a liberdade é melhor do que a coerção, a felicidade é melhor do que o sofrimento e que o conhecimento é melhor do que superstição e a ignorância.” (Steven Pinker, Enlightenment Now – The Case for Reason, Science, Humanism and Progress. New York: 2018, p. 453)

As Transformações Do Medo

Apesar de ser um claro simpatizante de alguns teorizadores do medo como estratégia de dominação das sociedades pelas elites políticas e económicas, acho que a generalidade dos que agora escrevem sobre o “medo da covid” ou “medo do vírus” se andam a enganar no diagnóstico da situação.

Em resumo, simplificando com o risco natural da caricatura, entre os vários núcleos que denunciam o “medo da covid” (dos que acham que uma futura vacina inserirá um chip subsutâneo destinado ao controlo das mentes aos que consideram que este “medo” é a forma de anestesiar a sociedade perante uma ameaça externa omnipresente e obsidiante de que só o Estado nos pode salvar) há um ponto comum que é o de acharem que é a ameaça da doença que está em presença, quando desde Maio que se acena com outro tipo de medo.

Desde finais de Abril que a ameaça é a do “medo da economia parar”, em especial quando, de um modo com muito de cruel (mas inegável) muita gente achou que, final, quem morria eram “outros” e, em especial, aqueles que já morreriam de qualquer modo (os “velhos”, os que “já tinham patologias mórbidas pré-existentes). E há uma união perversa entre os que acham que qualquer confinamento lhes reduz os lucros, pelo que devem ameaçar a malta com despedimentos, com os que consideram que, no fundo, morrem os mais fracos e que não merecerão tanto investimento para a esperança de vida que apresentam e com aqueles que, de um ponto de vista mais intelectualizado, receiam a extensão dos poderes de controlo dos indivíduos pelo Estado, como se a NSA (ou equivalentes) precisasse de um novo pretexto para devassar a privacidade de quem bem entender.

Se reparem com alguma atenção, há meses que a tónica maior do discurso político (e não é apenas no Brasil ou nos E.U.A. é que a “Economia não aguenta outro confinamento”, em especial se do outro lado da balança tivermos a morte de uns velhotes ou doentes que até custam muito dinheiro e trabalho ao S,N.S. e/ou à Segurança Social.

E, de repente, o número de um milhão de mortes a nível mundial torna-se uma abstracção, porque quase nenhum caso foi perto do nosso quintal e até há este ou aquele, mas era gente rija que se curou num instante, foi como se fosse uma gripe.

O medo económico substituiu o medo pandémico nuns sectores, enquanto em outro se ergueu o medo do grande irmão… como se fosse necessária uma pandemia para já nos andarem a remexer em tudo o que escrevemos, enviamos, fotografamos, vemos ou mesmo defecamos.

(ahhhh… dizem que a dona Gertrudes morreu de covid, mas ela já estava toda entrevadinha e era diabética desde pequenina. E o senhor Tibúrcio já era asmático e só respirava com uma bomba de encher pneus; já não durava muito, aquilo da covid foi só um empurrãozinho para a cova…)