Estava-me Aqui A Lembrar…

… que tinha 43 anos em 2008, o Ilídio pelos 45, o pessoal da APEDE (o António, o Francisco, o Mário, o Ricardo, etc) andaria por aí ou pouco mais, o Prudêncio, idem; do Octávio não me lembro da idade, mas não parecia fora desta “geração”, quase toda nascida até meados dos anos 60, que formou os movimentos independentes de professores ou esteve perto deles. Das senhoras não digo, como é natural, a idade, mas eram todas novíssimas. Agora, estamos todos – que estranho! – mais velhos 14 anos, tirando as senhoras que se mantiveram perfeitamente na mesma. Por isso, é tempo de passar a tocha a gente mais nova, desde que tenham aprendido com os nossos erros e evitem queimar-se ou deixar-se tentar por outro tipo de lealdades. Quem avisa, jurássico é.

Memórias de 2018

Repousavam no meu cacifo desde Julho de 2018 as escalas de duas semanas de greve às avaliações de então. Sou conhecido por ser uma espécie de acumulador de recordações, físicas ou apenas no sótão dos meus macaquinhos. Feitas em parceria com o meu colega e amigo Vítor Barros, ao final de cada dia, tiveram a participação e colaboração de toda a gente, de um modo espectacular, que eu gostaria que fosse repetível, mas há nomes naquelas listas que já foram embora. Devo também ter por aí as tabelas com os dinheiros do fundo de greve criado que permitiu devolver cerca de um terço a metade do que as pessoas deixaram de receber então. Não deu para mais e só foi assim, porque houve quem prescindisse de receber fosse o que fosse.

Agora, para 2023, até porque entre mim e o Vítor começamos a ter uma média de idades acima dos 60 (e um acumulado de cerca de 70 anos de docência), expliquei a algumas colegas que é tempo de passar o testemunho à “nova guarda” que anda ali pelos 30-40 (não quero ofender ninguém, ok, parecem todas ter 25), porque precisamos de sangue novo ou, pelo menos, mais novo um par de décadas.

Memórias

À conta de uma conversa paralela, recordei-me de algo com uma dezena de anos. De todo o livrinho e do meu prefácio, cujo conteúdo continuo a subscrever sem reservas.

AS NOVAS ESCOLAS

(…) Os defensores de cada nova tese, teoria ou, nos casos mais ousados, paradigma, aparecem como legitimamente convencidos de terem encontrado receitas infalíveis para a resolução da maioria, quando não a totalidade, dos problemas e bloqueios detectados de forma recorrente no nosso sistema educativo e, por isso mesmo, com a aspiração de a sua receita ser aplicada e rapidamente generalizada. Não é raro ouvirmos falar na necessidade premente de um “novo paradigma”, sendo o passado apresentado como uma sucessão de erros, fracassos, actos falhados, paradigmas arcaicos e anquilosantes. Para promover esse novo paradigma, colhem-se exemplos “de sucesso” no exterior e põe-se em prática uma estratégia de conquista do poder ou de posições relevantes no aparato político-administrativo com poder decisório na área da Educação. Organizam-se grupos de pressão, procuram seduzir-se os decisores (ou substituí-los) e a opinião pública com um conjunto de “evidências”.

Este processo aplica-se tanto a aspectos pedagógicos como organizacionais, não desprezando a própria estruturação curricular e o tipo de ofertas educativas. Determinados por princípios mais filosóficos ou mais economicistas, tais paradigmas prometem sempre o melhor dos mundos ou, pelo menos, um mundo incomparavelmente melhor do que aquele que existe, apostando no carácter apelativo da utopia.

(…) Perante estas dúvidas, estes resultados ambíguos, estaremos condenados de forma inapelável a não avançar na direcção certa? A ficarmos imobilizados e estagnados, à espera da solução ideal com todos os parâmetros certos? A não ousar a mudança, a inovação, com receio do erro?

Não necessariamente. Estamos é avisados quanto aos obstáculos que é necessário remover para que avancemos com um mínimo de segurança, quanto aos erros cometidos por outros, e principalmente estamos mais do que alertados quanto aos erros em que somos reincidentes e que nos habituámos a lamentar a posteriori, sem que alguma vez alguém seja responsabilizado. E esses erros passam, em muitos casos, por uma utilização parcelar da informação disponível e pela adopção de soluções em que se ocultam os aspectos negativos.

Desmemória

A colega em causa que me desculpe, porque não a vou identificar, mas, ontem, numa mensagem privada no fbook, alguém me mandava um texto em que se apelava à memória de 2008 e mais umas coisas que achei um pouco a despropósito, sobre como dinamizar movimentações à imagem do sindicalismo convencional porque eu me lembro bem de 2008. Claro que ninguém é obrigado a lembrar-se, se lá não esteve, se na altura tinha outras prioridades, se ainda não dava aulas ou estava em algum casulo protegido. Ainda me lembro de alguém que passou como cometa na blogosfera que me respondia sempre “ahhh… isso não é do meu tempo”, quando eu lhe chamava a atenção para a redundância de algumas posições em relação não só ao que se passou em 2008, mas mesmo em 2003, nos tempos do Justino, ou em 2000 (e antes) com a gestão flexível do currículo.

Desta vez, com a maior candura, alguém me escreve “Paulo, só hoje tive conhecimento destes Movimentos (APEDE, PROMOVA, etc) por uma fonte fidedigna.”

Mas a que ponto chegou o desconhecimento do passado, não assim tão remoto das lutas dos professores nos últimos 15 anos, para não ir mais longe?

Esse desconhecimento é crítico porque se podem voltar a cometer erros desnecessários (a infiltração de “submarinos” em certas organizações) ou a não se aprender com experiências que falharam ou não são replicáveis no presente. Quando os próprios professores, que querem dinamizar uma nova vaga de contestação revelam desconhecer o que se passou há 14-15 anos, como se tudo tivesse começado no “seu tempo” é como eu aparecer e dizer que não faço ideia do que foi a “gestão democrática das escolas” ou os debates em torno da Lei de Bases do Sistema Educativo, da origem histórica do ECD ou mesmo de coisas já inclusivas como o mítico – e tão simples – “319”, que a malta “velha” recordará, mas nada significa para milhares e milhares de docentes mergulhados no “54” ou, no limite, a “lei 3/2008”.

Um dos grandes problemas que vejo na “preparação da luta” é algo paralelo ao que se passa quando se pretende que os alunos “construam o seu saber” a cada nova formada, como se antes nada existisse, em cima do que podemos construir algo novo e mais avançado, em vez de repetirmos caminhos.

Sobre a memória de 2008 já escrevi na altura e depois. Não me apetece estar sempre de volta ao que deveriam ser outros a tentar saber, antes de falarem do que não partilharam para – repito – evitar erros passados.

Em 2022 ou 2023 gostaria que fossem construídas novas memórias e, se possível, com maior sucesso, porque ninguém que por lá andou – tirando os representantes inoxidáveis do regime que são quase todos os mesmos – acha que o saldo de 2008 e 2009 foi um grande sucesso. É perguntar ao António (Ferreira), ao Mário (Machaqueiro), ao Ilídio (Trindade), ao Ricardo (Silva), ao Octávio (Gonçalves), para nomear apenas alguns cujo papel muito importante parece já ter sido esquecidos na voragem do tempo médio, nem sequer do tempo longo.

O que talvez sirva a quem tanto se tem esforçado por apagar a memória do que efectivamente se passou. Não apenas na classe política.