Eu Já Fui Novo

E consultar o meu registo biográfico é um exercício quase doloroso quando se percebe que nos primeiros quatro anos em que concorri, sem profissionalização, ao 10º A, (actual 400) nem consegui acumular um ano de serviço para efeitos de concurso. Tudo contadinho ao dia consegui 286 dias em substituições. Infelizmente, agora a situação é semelhante e não tenho muita dificuldade em compreender o que se passa porque já passei por isso e gostava muito que as coisas tivessem melhorado. Pelo meio, um ano em que fiz a cruzinha para ter apenas horário nocturno (para ir às aulas de mestrado de Descobrimentos de dia, mas lixei-me e não fiquei colocado) e quinze meses de serviço numa câmara que lá contarão para a aposentação (espero).

O primeiro ano em que concorri ao 1º grupo (actual 200) estive desde 9 de Outubro com 21 horas e nunca me completaram o horário. No ano seguinte, fui colocado apenas em Novembro com 18 horas, que mantive até final do ano, pois a colega substituída renovava mensalmente o atestado e só o dizia ao Conselho Directivo mesmo na véspera (foi onde conheci o “velho” comentador “motta” dos tempos do Umbigo), pelo que nos primeiros meses as duas colegas do CD (o presidente limitava-se a sorrir por trás da farfalhuda barba) me chamavam com um ar muito compungido como se me fossem mandar embora, para depois dizerem que ficava mais um mês. A meio dos anos 90 lá a coisa estabilizou. Mas cada um deve aguentar com as consequências das suas decisões e eu aproveitava para ir de Fiat 127 até à Nova ter aulas ou à Biblioteca Nacional da parte da tarde acabar as pesquisas para o mestrado (nesta altura, já trocara os séculos XV e XVI pelo século XX).

Se por passar por isto, gostaria que outros passassem pelo mesmo? Nem por sombras. Lamento muito que as coisas se tenham revertido no pior sentido. E também não invejo quem tem a folha limpinha sempre com 365/366 e quem, tendo começado depois de mim, me tenha ultrapassado em pouco tempo. Foram opções. Não quis estrear o Ramo de Formação Educacional à saída da licenciatura, não tenho de apontar o dedo a ninguém, agora que sou praticamente um matusalém no 6º escalão,

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Da Evidência Da Erosão Da Memória Docente

O preenchimento/validação do “recenseamento docente” tem causado, em certos ambientes de “proximidade social” (ou em espaços desesperadamente em busca de audiências distraídas) uma agitação equivalente à motivada pelo covid-19.  E depois ainda temos uns “espertos” por aí a fazer observações que só demonstram que vale a pena ser velho e memória. Nem vou falar do facto de, antes da “Idade do Gelo” o pessoal ir assinar o registo biográfico em papel e verificar a causa da colocação (no meu caso muitos anos com alíneas variadas conforme o motivo da substituição), o tempo de serviço e os cargos ocupados. Depois, passou a ser quase irrelevante, excepto a contagem do tempo de serviço para quem concorria. Com o mitigado “degelo”, quando foi preciso verificar tudo isso, por causa de reposicionamentos, faseamentos e outros divertimentos, muita gente parece ter-se esquecido por completo do que se passou. Como se a criogenia tivesse paralisado as sinapses.

Este modelo de recenseamento nasce de uma coisa chamada “E-Bio”. Eu recebi às 22.10 do dia 29 de Novembro de 2012 um mail que publiquei poucos minutos depois. Semanas depois andava-se a discutir a obrigatoriedade da coisa, porque entretanto o discurso da dgae mudara perante a indiferença que se verificava e o facto de alguns sindicatos dizerem que não era obrigatório o preenchimento. Em Janeiro de 2013, a FNE estenderia a mão ao MEC para apoiar o preenchimento da coisa, ao mesmo tempo que surgia o esclarecimento abaixo reproduzido.

Em Março (após relembrar o mail de Novembro com a data errada) anunciava-se o fim do prazo do preenchimento e “nova funcionalidades”.:

Na sequência do mail de 30 de Novembro de 2012 (e-Bio/Registo Biográfico) e com o aproximar do início dos processos concursais e de mobilidade, vimos informar que a aplicação vai ser fechada no próximo dia 28 de Março de 2013, pelas 18 horas. Esta será disponibilizada após esta fase e já com novas funcionalidades.

Em Abril a ideia parecia querer estender-se ao resto da Administração Pública.

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Sim, eu sei que o meu estatuto de ancião docente – aliado à “base de dados” do Umbigo – me permite verificar tudo isto e não ficar excitado com a “novidade” (desde 2017 que o “recenseamento docente” existe nesta modalidade”) ou algo agitado por perceber que isto pouco nos interessa, mas que também não é (agora que está preenchido) o que mais nos ocupa o tempo.

Recordando…

… quando para terem um seguro de saúde, tentaram que os professores da Virgínia Ocidental tivessem de usar Fitbits e cumprir metas para não serem multados. Embora as causas fossem muito além disso. E os professores tivessem de avançar para lá dos “acordos” feitos pelos seus “representantes”. E fizeram-no nos 55 condados. Independentemente do cheque ao fim do mês.

The West Virginia Teachers Strike Shows That Winning Big Requires Creating a Crisis

The strikers won all five of their demands by shutting down every public school in the state.

(…)

The teachers understood that to win, to not go down in the record books as another huge defeat, they had to stay on strike and escalate the crisis. They could not have achieved the victory without having the community firmly on their side. Educators, like health-care workers, have an incredibly powerful, organic relationship with their communities—relationships so strong they are durable against sophisticated right-wing attacks. The solidarity built in West Virginia was built in a strike that united the state against the power structure. The sooner the progressive movement understands that, to save our democracy, people must rebuild robust unions—that means a strong embrace of teachers and education and public-service workers—the sooner we all start winning.

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(o problema é que por cá os ataques “sofisticados” não surgem apenas da “direita”… tantas vezes são bem mais “próximos”…)

Para Memória Passada

Porque em 2008 e 2009 nem todos estávamos a dormir, quietos ou a bater palmas aos resultados de certas negociações.

Fica aqui, um pouco mais de 11 anos depois da publicação original o parecer do doutor Garcia Pereira acerca do modelo de carreira docente decorrente do ECD de 2007: Parecer-preliminar-garcia-pereira. Ainda tenho por aí os recibos da coisa… e do aluguer de uma sala do Altis para o apresentar. Como ficou registado na altura, mais de 1500 colegas contribuíram para este e outro parecer acerca do modelo de gestão escolar. Batalhas perdidas, mas travadas no tempo certo, com a honra possível.

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