6ª Feira

Andamos cá por casa, numa espécie de ritual diário, a ver ou rever a já clássica série Monk, sobre um detective com um transtorno obsessivo-compulsivo maior do que a cidade de São Francisco onde a acção se passa e uma memória de tipo eidético. A esse respeito, de se lembrar de quase tudo o que viu, leu ou ouviu, ele costuma dizer “it’s a gift… and a curse” ou “it’s a blessing anda a curse”.

Felizmente, os meus distúrbios mentais estão à escala da minha vilória original e a minha memória tem altos e baixos, embora muitos dos pontos altos sejam realmente uma benção (não preciso de ir à pressa googlar uma série de coisas ou imediatamente à procura do livro ou revista onde li determinada coisa), mas também uma maldição (lembro-me de coisas que muita gente gostaria que ficassem no esquecimento, em especial quando remontam a tempos pré-internet de banda larga).

Isto a propósito de me lembrar que, há quase 20 anos, o ministro David Justino ter tentado reformular o concurso para colocação de professores, introduzindo diversas alterações, algumas das quais visavam acabar com o que foi designado como “os horários dentro da gaveta” que os conselhos executivos não tornariam disponíveis de imediato, guardando-os para os mini-concursos, altura em que apareciam a concorrer as pessoas “certas”. Uma outra justificação era que alguns desses horários apareciam propositadamente incompletos, para que nem toda a gentes a eles se candidatasse, enquanto @s conhecedor@s sabiam que, mal chegassem à escola em causa, as 4-6 horas em falta surgiriam quase por milagre. Não era uma acusação descabida, pois se chegasse alguém imprevisto as horas nem sempre apareciam, como poderá confirmar o meu registo biográfico que contém pérolas como 11 meses com 21 horas, enquanto no grupo disciplinar ao lado (e que permite leccionar uma disciplina comum) alguém saltou rapidamente de 12 para as desejadas 22 horas.

Desonestidade? Corrupção? Não me parece. Em alguns casos, mera preocupação com o destino de pessoa estimada. O bom e velho modo de estar português, que permite “desenrascar” as coisas. Ou… se fosse agora… o cuidado em esperar/escolher a pessoa com “o perfil de competências certo” para o lugar. Naquele meu caso específico, ninguém por lá me conhecia… até tinha estado a dar aulas em outro nível de escolaridade, num “contexto” talvez não tão “desafiante”, não tinha uma “formação específica”, pois estava a fazer ainda a parte curricular de um mestrado fortemente centrado em “conteúdos” de História.

O que a mim mais espanta em tudo isto é encontrar quem fez bandeira do combate aos “horários dentro da gaveta” do lado dos que consideram que se deve “localizar” a contratação e mesmo vinculação de docentes. Mas então o sistema é “centralizado” e “ineficaz”? Mas é a “territorialização” do recrutamento dos docentes que permite abrir mais vagas ou multiplicar o número de professores? Não me parece, excepto em casos a que já nos últimos dias aludi, nomeadamente as situações de franca “autonomia” que as direcções já têm na gestão da sua busca de recursos humanos para certas “necessidades educativas” ou serviços específicos de ocupação dos alunos ou “combate ao insucesso e abandono escolar”. O curioso é ver quem achava que antes havia clientelismo e práticas de nepotismo, agora ao lado de quem, qual vestal maculada em seu manto, clama pela honestidade geral. Ou mesmo a apoiar iniciativas municipais que culminam na contratação de “recursos” á medida das conveniências pessoais ou políticas, desculpem, das necessidades dos alunos.

Claro que há aquelas pessoas que nesses tempo nem andavam por estas andanças – há quem, em funções executivas, me lembre apenas desde que fez uma curiosa primeira visita a uma escola dirigida por um velho amigo (a quem interessava muito “projectar” a sua escola em acelerado declínio), mas isso faz parte do tal modo de estar português de nos lembrarmos dos nossos amigos. Mas há quem ande há mais tempo nisto e, como acima escrevi, por vezes é uma maldição lembrar-me do que disseram e fizeram em Primaveras passadas.

No Princípio, Estava O Talão

Ou recibo. Da candidatura ao mini-concurso. Este é o que guardo do início disto tudo, da minha primeira candidatura. Sou um “guardador de memórias”, cada vez menos de sonhos e muito raramente de vacas (não me façam perguntas a esse respeito 😀 ). Há gente bem mais antiga do que eu, mas o contingente estica-se mais para o lado dos que entraram mais tarde e desconheceram, como alunos ou professores, muita coisa, pois só assim se entende tanto disparate. Sou dos que quer acreditar que o progresso ainda é possível e que a Humanidade não ficou encravada com esta malta da terceira e quarta via, no meio da auto-estrada, na lógica do “antes pobrezinhos e caladinhos, que outra coisa que não sabemos”. Mas isto já foi mau, quiçá pior, sem subsídio de desemprego, na altura a contagem ao dia do serviço (o meu registo biográfico é uma recordação deprimente de alguns anos, em especial daquele em que tive 21 horas desde a segunda semana de Outubro).

Mas não é por isso que desejo que quem agora anda por aí passe pelo mesmo e farei tudo para que isso não lhes aconteça. Nem invejo quem conseguiu ter uma carreira inteira, sorte deles, que se conseguiram aposentar quase inteiros. Temos o nosso tempo e a nossa circunstância e temos de lidar com isso, racionando as invejas e os remoques de desforço contra os outros que não têm culpa de vivermos tempos medíocres. Isso não é razão para querer arrastar todos para a mediocridade. Já sei que perdi anos de serviço, que tive de andar a saltar barreiras, como numa corrida de obstáculos e isso apenas me faz querer que isso não se repita e… esperança “micronésima”… que restasse um pingo de decoro e não andassem a mingar as aposentações antecipadas a quem delas precisa mesmo, a bem de todos, a começar pelos alunos.

Tudo começou a 20 de Setembro de 1986, ao que parece um sábado, porque então se tinham e davam aulas ao sábado, bem como se faziam outras coisas como rumar a Setúbal para meter a papelada, com duas cópias em branco para ter a certeza que se houvesse algum erro, se poderia substituir a inicial. Também estranhei, mas aquilo não é um 26, acho eu que tenho duas paleografias feitas, mais uma epigrafia. Ou talvez seja. Com os seus interregnos, já lá vão muitos anos. Que me tiraram a paciência para muita parvoíce (ia escrever “porfirice”, mas o tipo anda agora a fazer de porta-voz parlamentar e deixou a Educação para outr@s, pelo que poderia apenas escrever “sonsice”), mas me deram a capacidade de ver em perspectiva histórica o trajecto de certas figuras deprimentes que por aí andam, cacarejando a cada vez que há milho na capoeira, como se não nos lembrássemos que sempre quiseram estar do lado de quem distribui as rações.

São muitos anos, pronto.

Adenda: ler em complemento este texto do Carlos Santos.