Dia 71 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 4

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Uma “comunidade de aprendizagem”, realmente adaptada ao século XXI, assenta na possibilidade de estabelecimento, a qualquer momento, de interacções entre o professor e os alunos e entre estes. Que podem acontecer num tempo e espaço que se multiplicaram e quebraram as barreiras da sincronia e da presença, mesmo se podem manter momentos de partilha presencial na realização de algumas tarefas, em especial no lançamento das sequências de aprendizagem. A redefinição, em especial numa perspectiva conectivista, implica que o tempo da aprendizagem é balizado pelo professor nos seus limites máximos, mas pode ser gerido pelos alunos de acordo com o seu ritmo; assim como permite que o espaço seja multiplicado de acordo com as possibilidades e condições dos alunos. As salas de aula físicas tornam-se pontos de referência, mas não de presença obrigatória de acordo com uma grelha rígida diária ou semanal.

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Dia 70 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 3

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Nos últimos meses, tendeu-se a apresentar como se fosse uma “revolução” o processo de substituição das aulas presenciais nas escolas por variantes que procuraram replicá-las da forma mais fiel possível, só que à distância. O maior exemplo disso é o das aulas da “Telescola”. No fundo é uma “aula” dirigida ao mesmo tempo a todos os alunos, com o problema de não ter interactividade com o seu “público”. O mesmo se passa com as sessões “síncronas” em que tantas escolas parecem ter colocado ênfase, obrigando alunos e professores a estar ao mesmo tempo a realizar uma determinada actividade. No fundo, tirando o meio pelo qual se concretiza a “aula”, pouco acontece de verdadeiramente novo e há mesmo importantes perdas em relação às aulas presenciais.

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Dia 69 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 2

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No presente, as teses construtivistas regressaram em força e tentam mostrar-se compatíveis com a era digital, quase como se a tivessem antecipado, mas a verdade é que tentam sem sucesso colocar roupas velhas a algo novo. Tentam explicar os fenómenos do século XXI, com teorias do século XX que, na origem, desconfiavam muito da desumanização tecnológica. E não conseguem resolver o paradoxo de quererem mudar a Educação, mas acabarem por usar os novos meios digitais como se fossem apenas algo equivalente ao aparecimento do stencil, do projector de slides ou da fotocopiadora, quando está em causa uma transformação muito maior.

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Dia 67 – Não Chegam Rótulos

O ministro da Educação deu uma entrevista há um par de dias em que disse muitas coisas óbvias, mas muito pouco de concreto sobre o próximo ano lectivo. Afirmar que temos de avaliar “ tudo aquilo que não foi consolidado ou tão bem ensinado” ou que “a recuperação das aprendizagens tem de ser um dos pilares fundamentais no regresso às aulas” são evidências que se impõem desde dia 16 de Março. Por acaso, ao ministro faltou falar no que não terá sido “aprendido”, pois só referiu “consolidado” ou “ensinado”, o que é redutor.

Por outro lado, também é evidente que temos de nos preparar para vários cenários, pelo que quando afirma que “temos de nos preparar para uma conjugação entre ensino à distância e presencial” é como dizer que temos de nos preparar para a possibilidade de sol ou chuva, frio ou calor, vento ou calmaria. Sim, temos de nos preparar para quase todas as eventualidades perante a incerteza que nos rodeia.

Por isso mesmo é que é tão importante uma avaliação rigorosa, desapaixonada e não política ou demagógica do que se está passar durante estes meses. É fulcral que a análise do que se está a viver seja feita com rigor e não numa modalidade de ficção embelezada para efeitos de aproveitamento político. É tempo de ter a coragem de não se encomendarem estudos para gastar verba com cliques académicas que já sabem que conclusões devem tirar logo que conhecem o caderno de encargos. É muito importante que, já que se tornaram os quase exclusivos representantes das “escolas”, os directores optem por não querer apenas ficar bem na fotografia ou nas graças do poder, à espera de não comprometerem o futuro. E é decisivo que os encarregados de educação não oscilem entre o mais completo colaboracionismo sejam com quem for (através dos “parceiros” oficiais para estas matérias) e a reclamação descabelada e excessivamente emocional.

Porque já se percebeu que o ministro da Educação se aprendeu algo nestes anos foi a entrar no “jogo político” e a enunciar fórmulas vagas e números sem grande sustentação. Quando, na mesma entrevista, declara que se afirmou “dos cerca de 1,2 milhões de alunos, 50 mil não teriam acesso a computador ou meios de acesso, o que acontece é que esse número foi sendo reduzido”, percebe-se que ou descolou da realidade ou está a mistificar a opinião pública. Os estudos disponíveis indicavam-nos, de forma consistente, no início da pandemia, que cerca de 20% das famílias não estavam em condições de assegurar aos alunos condições para um ensino à distância em condições mínimas. Se é verdade que as autarquias (mais do que umas parcerias privadas que surgiram para consumo mediático) fizerem em certas regiões um trabalho muito meritório na aquisição e fornecimento de equipamentos, isso terá dado quase só para compensar o crescimento das bolsas de pobreza que resultaram dos despedimentos e quebra de rendimentos. A maior parte dos testemunhos indica-nos que, neste momento, o ensino remoto não passa de um remendo, que a “telescola” é um complemento muito fraco em termos pedagógicos, pois a partir do 1º ciclo são “aulas” tradicionais em que se tenta dar matéria a rodos em meia hora, e que o número de alunos “desaparecidos” ou “intermitentes” aumentou em relação às aulas presenciais.

Seria bom que tudo isso fosse avaliado, antes de nos quererem fazer acreditar que é possível, a começar pelo Ensino Básico, implementar um modelo credível de blended learning.

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Dia 59 – Mês E Meio A Treinar (Para) O Quê?

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Afirmou o primeiro-ministro, de acordo com vários órgãos de comunicação social, que este 3.º período é “essencial” para “treinar a comunidade educativa” e para “preparar” o próximo ano lectivo. O que, como escrevi, em si até parece razoável e lógico. Sim, estes meses deveriam ser de preparação do futuro a médio prazo, de avaliação do que tem sido feito, o que pode ser mantido em caso de nova emergência, o que deve ser mudado porque não está a correr bem e o que deve ser feito de completamente novo, pois algumas das soluções actuais foram de recurso e não devem ser para manter, com ou sem emergência.

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O “treino” do próximo ano lectivo é necessário, mas não se é para replicar o que está a ser feito com base no voluntarismo e improviso. Ou se é para servir de base a um modelo de Ensino Básico ainda mais truncado, desigual e de “sucesso” por decreto. Os alunos merecem muito mais do que isso.

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Dia 26 – A Semana De Todos Os Perigos

Deveria ter sido publicado ao fim da manhã, mas…

Depois dos ensaios das últimas semanas do 2º período, da chegada de documentação e recomendações diversas do ministério da Educação, dos avisos da Comissão Nacional da Protecção de Dados e da produção pelos agrupamentos e escolas de Planos de Ensino à Distância (E@D), entre outras peripécias que preencheram os últimos dias da tradicional pausa pascal, eis que chegamos à semana em que começarão a ser testadas as redes locais que foram sendo tecidas em tempo recorde para colocar professores e alunos em contacto no 3º período. Os tutoriais para uso das plataformas disponíveis começaram a circular embora, apesar de toda a boa vontade dos envolvidos, se saiba que a “formação” mais necessária seria a dos próprios alunos e muitas famílias, para não insistir nas que assim terão muita dificuldade em realizar tarefas e desenvolver aprendizagens significativas e passíveis de uma avaliação consequente conforme o desejo expresso do primeiro-ministro.

As soluções adoptadas começaram a concentrar-se num leque mais restrito das opções disponíveis, apesar de, pelos planos E@D que pude ler nos últimos dias, as metodologias de trabalho propostas estarem longe de ser uniformes. Umas vezes isso explicar-se-á pelos contextos específicos de cada comunidade educativa, mas em outros resulta de concepções muito diferentes do que deve ser um modelo de ensino/aprendizagem. Já vi grelhas de “aulas virtuais” que replicam quase fielmente o horário das presenciais e as que deixam uma relativa margem de liberdade a cada conselho de turma e docentes, atribuindo, por exemplo, um turno/dia a cada disciplina (Secundário) ou par de disciplinas (Básico) e deixando em aberto a forma de as desenvolver (sessões síncronas ou apenas horários de distribuição/recolha de tarefas).

Tudo é válido até prova em contrário, mesmo se há em alguns casos uma deriva para tentar decalcar o modelo presencial no modelo à distância. Não me parece que seja essa a melhor forma de desenvolver uma forma diferente de pensar a “Educação para o século XXI”, pois não basta adicionar o digital a concepções de fazer as coisas que são directamente herdeiras do modelo tradicional. Se queremos autonomia e flexibilidade, devemos ter confiança num modelo mais “aberto” e menos espartilhado do ensino, que permita aos alunos (em especial do 3º ciclo e do Secundário) seguirem ao seu próprio ritmo e não ficarem encerrados numa grelha saídas dos estágios das últimas décadas do século XX. Resta saber se quem tem o poder de definir alguns destes planos já aprendeu algo mais do que isso.

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Dia 14 – A Mentalidade Presencial

É impossível dar qualquer salto quando não se compreende que as ferramentas digitais e o ensino à distância não representa qualquer avanço em termos metodológicos se o que se pretende é replicar o mais fielmente possível o que se passava em modo de proximidade, perdendo o aspecto fulcral desta, que é o contacto humano e a dimensão empática da relação pedagógica com os alunos ou de trabalho com os colegas.

O ensino/aprendizagem à distância e o teletrabalho docente não pode basear-se em fórmulas fechadas e rígidas, como aquelas que pretendem que tudo seja realizado do mesmo modo e de forma síncrona. Uma das vantagens do modelo de ensino à distância e talvez a única que permite alguma aplicação dos princípios da diferenciação pedagógica é a de permitir aos alunos irem avançando nas tarefas e aprendizagens no seu ritmo, adequando os materiais que lhe são facultados às suas capacidades. 

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Uma Das Vantagens Da Situação Actual…

… é que algumas plataformas de agregação de artigos científicos (daqueles mais a sério) colocaram parte dos seus repositórios em acesso livre e até há tempo para ler algumas coisas que de outro modo ficariam para trás. Ou inacessíveis. Fica uma sugestão, a partir do campo do ensino da Medicina, sobre o confronto entre duas formas de encarar a melhor forma de promover as aprendizagens. A disputa remonta aos anos 70 do século XX, está longe de ser uma novidade, muito menos uma problemática específica do século XXI como alguns joões nos querem fazer crer.

Problem solving skills versus knowledge acquisition: the historical dispute that split problem-based learning into two camps

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