Nem Sempre Gostamos Do Que Os Espelhos Reflectem

Há um discurso anti-redes sociais com uma fortíssima componente demagógica e uma muito pouco menor de hipocrisia. E não falo apenas de ser gente que lá passa muito mais tempo do que eu a dizer mal do que lá se passa. É mais daquele género de postura “ética” a dizer que as redes sociais são uma espécie de antro do pior que existe na natureza humana e nisto incluo pessoas que até estimo bastante à distância, mas que me parecem desligadas da vida do país e que confundem o seu casulo particular com a Humanidade em geral. Ou então também não frequentam, por pouco que seja, cafés ou outros espaços públicos de convívio, o que inclui filas nos postos de correios, serviços públicos ou supermercados. A única diferença é, no essencial, a impossibilidade de se verem memes a partir do que as pessoas dizem, embora eu consiga vê-los nas suas caras.

Sim, há muita estupidez nas redes sociais, porque também há muita estupidez à solta por aí, mas, curiosamente, não foi nelas que nasceu a falsa notícia da primeira morte por covid-19 em Portugal. Foi num canal alegadamente noticioso e nem sequer a tão criticada CMTV. Assim como foram canais noticiosos tidos por fidedignos que multiplicaram a notícia de um inexistente estado de coma do escritor Luís Sepúlveda.

Claro… há as palermices em torno do mau uso de lixívias ou vinagre para matar o vírus ou tantas outras coisas da ordem das velhas mézinhas de outros tempos (poderia contar-vos uma de uma avó minha para resolver a obstipação que envolvia um talo de couve e… bem, fiquemos por aqui, restando dizer que só a ideia da concretização me faria ficar curado de qualquer pandemia). Mas não me parece que sejam coisas específicas das redes sociais, as quais são feitas do que as pessoas lá colocam.

As redes sociais são um espelho dos seus utilizadores, gente com banda larga, smartphone e nem sempre com apenas o 4º ou 6º ano de habilitações. Por observação directa, garanto que há gente bem certificada e mesmo com posições relevantes na sociedade que propaga mentiras de forma consciente em plataformas de que depois diz mal em conversas “inteligentes”. Nos últimos dias, foi um rodopio de candidatos a spin doctors ou a spinners, já não sei. E as ânsias censórias partem de muitas direcções, baseando-se tanto na ignorância como na sapiência mais sapiente. Num caso, ainda podemos explicar as coisas pela falta de (in)formação; mas no outro, apenas pela falta de carácter ou, hipótese muito válida, por ser muito incómodo o retrato/reflexo que as redes sociais fazem do que a sociedade é, pós-moderna no verniz, mas tacanha ali logo uns milímetros abaixo.

espelho

A Ler

Embora ninguém, agora, perante as evidências, assuma que asneirou, ao ignorar a História da Educação na Finlândia e o ponto onde se estava e porquê.

O logro finlandês

Os cientistas da educação não nos protegeram do logro finlandês. Muitos encontraram aqui a “prova” das ideias pré-concebidas que tinham para a Escola, gerando-se um autêntico efeito de histeria.

Barrete

Será Que Nos Andam A “Vender” A “Narrativa” Verdadeira?

Porque eu ando cansado do mito finlandês e não é por falta de informação que continuam a papagueá-lo. É por outro tipo de razões.

Finland’s recent decline in international test scores has led many to question whether its education system is truly the best.

(…)

In 2000, the Program for International Student Assessment (PISA) released the results of its first survey of education attainment. Administrated by the Organization for Economic Cooperation and Development, the triennial assessment tested the skills and knowledge of 15-year-olds around the world.

That year, Finland handily came out as a top performer, scoring high in math and science, and number one in reading. The United States’ performance that same year, for comparison’s sake, could best be described as middling. These results led many to claim that Finland had the best education system in the world. Educators and politicians swarmed to the Nordic country in the hopes of discovering the source of their golden touch.

Then things took a turn, and Finland’s standings began to slip. Between 2006 and 2012, its scores in science, reading, and math fell sharply: 18, 23, and 29 points respectively. PISA 2015 saw further drops; meanwhile, other top performers have remained relatively steady.

“Finland was on a downwards slope, not an upwards one,” writes Tim Oates, director of assessment research and development at Cambridge Assessment. “All the assumptions in 2000 seemed to be of Finland at the top and on the rise, not on the way down. And that was mistaking PISA for a longitudinal study, rather than a cross-sectional one.”

While Finland remains a top performer, it has lost its luster in the eyes of many experts, bringing criticisms of Finland’s education system to the debate.

Já em 2005, havia que explicasse a razão do “milagre” e antecipasse uma evolução problemática com base nos paradoxos que se verificavam na educação finlandesa, ou seja, que devia o seu bom desempenho em boa parte ao seu carácter tradicional, rural e herdeiro de um passado conservador e autoritário.

In conclusion, two paradoxes are identifiable in the success story of Finnish schooling. First, the model pupil depicted in the strongly future-oriented PISA 2000 study seems to lean largely on the past, or at least the passing world, on the agrarian and pre-industrialized society, on the ethos of obedience and subjection that may be at its strongest in Finland among late modern European societies. This paradox leads to the question of what will happen to teaching and learning in Finnish schools when teachers no longer believe in their traditional mission to be model citizens and transmitters of knowledge, but rather see themselves as facilitators, tutors and mentors.
What will happen to teaching and learning in Finnish schools when the pupils no longer accept their position as pupils, but rather ‘climb the walls’, as one urban primary-school principal put it?

O que aconteceu? Uma queda nos resultados!

Claro que não é isso que nos/vos contam as deslumbradas luminárias nacionais. Como aconteceu com as maravilhosas reformas descentralizadoras da Suécia que acabaram revertidas em função do aumento das desigualdades e dos maus resultados.

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O Mito Da Era Dourada

Que eu me lembre, a esmagadora maioria dos meus colegas achava a escola uma seca, desde que não fosse para jogar à bola e, a partir de dado momento, desenvolver o que agora se chamam “afectos”, mas antes tinha designações mais corpóreas. Tudo era chato, desinteressante, complicado, um horror. E chumbavam que nem tordos em dia de abertura de caça. Não se faziam sondagens, mas acredito que os valores de desafeição seriam maiores do que aqueles a que Daniel Sampaio, no JL/Educação deste mês, se agarra para reforçar as hostes que defendem uma revisão curricular. E no tempo dele também seria assim, excepto quando, já no Secundário, quem lá estava era uma minoria de alunos, privilegiados e interessados em continuar estudos.

Sim, nos tempos de Sócrates (o grego) os seus discípulos bebiam as suas lições (os do actual também beberam, mas foi uma coisa mais material) e os estudantes juntavam-se nas escadarias das nascentes universidade medievais, ansiosos por nova palestra do mestre escolhido. O que fica por dizer é que seriam entre 0,1% a 1% da população juvenil ou jovem adulta a fazê-lo (dados assim numa de “suponhamos” e não recolhidos na Pordata) e a ter interesse pelos estudos. E mesmo quando se alargou o acesso a estudos a algumas camadas da burguesia isso era mais um dever imposto em virtude da necessidade de negócios familiares do que a um gosto especial ou vocação. Mas parece que há quem ache que no passado os alunos adoravam a escola. Só quem ignora profundamente a dificuldade em espalhar a alfabetização no nosso país pode pensar isso. Ou quem vive(u) numa redoma social, económica e cultural típica as nossas estreitas elites.

No “século XXI” as coisas deveriam ser diferentes? Sim, mas raramente o futuro, os anseios e interesses dos “jovens” correspondem ao que é a sua representação em mentes que estacionaram algures nos anos 60 do século XX. É muito raro que quem foi responsável pelo estado em que se está e esteve associado ao que se tem, décadas a fio, perceba vagamente o que quer a petizada e miudagem 3-4 gerações mais novas. Não chega ter perfil no fbook ou distinguir o instagram do canal disney.

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JL/Educação, 2 de Janeiro de 2018