Também Pode Ser Um Poema

Um dia destes deveria teorizar sobre estas coisas. Lermos um poema sem preocupação com métricas, rimas ou coisas não essenciais. Apenas tentar que percebam. Aos 10 anos, antes que seja demasiado tarde.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Nem Sempre Gostamos Do Que Os Espelhos Reflectem

Há um discurso anti-redes sociais com uma fortíssima componente demagógica e uma muito pouco menor de hipocrisia. E não falo apenas de ser gente que lá passa muito mais tempo do que eu a dizer mal do que lá se passa. É mais daquele género de postura “ética” a dizer que as redes sociais são uma espécie de antro do pior que existe na natureza humana e nisto incluo pessoas que até estimo bastante à distância, mas que me parecem desligadas da vida do país e que confundem o seu casulo particular com a Humanidade em geral. Ou então também não frequentam, por pouco que seja, cafés ou outros espaços públicos de convívio, o que inclui filas nos postos de correios, serviços públicos ou supermercados. A única diferença é, no essencial, a impossibilidade de se verem memes a partir do que as pessoas dizem, embora eu consiga vê-los nas suas caras.

Sim, há muita estupidez nas redes sociais, porque também há muita estupidez à solta por aí, mas, curiosamente, não foi nelas que nasceu a falsa notícia da primeira morte por covid-19 em Portugal. Foi num canal alegadamente noticioso e nem sequer a tão criticada CMTV. Assim como foram canais noticiosos tidos por fidedignos que multiplicaram a notícia de um inexistente estado de coma do escritor Luís Sepúlveda.

Claro… há as palermices em torno do mau uso de lixívias ou vinagre para matar o vírus ou tantas outras coisas da ordem das velhas mézinhas de outros tempos (poderia contar-vos uma de uma avó minha para resolver a obstipação que envolvia um talo de couve e… bem, fiquemos por aqui, restando dizer que só a ideia da concretização me faria ficar curado de qualquer pandemia). Mas não me parece que sejam coisas específicas das redes sociais, as quais são feitas do que as pessoas lá colocam.

As redes sociais são um espelho dos seus utilizadores, gente com banda larga, smartphone e nem sempre com apenas o 4º ou 6º ano de habilitações. Por observação directa, garanto que há gente bem certificada e mesmo com posições relevantes na sociedade que propaga mentiras de forma consciente em plataformas de que depois diz mal em conversas “inteligentes”. Nos últimos dias, foi um rodopio de candidatos a spin doctors ou a spinners, já não sei. E as ânsias censórias partem de muitas direcções, baseando-se tanto na ignorância como na sapiência mais sapiente. Num caso, ainda podemos explicar as coisas pela falta de (in)formação; mas no outro, apenas pela falta de carácter ou, hipótese muito válida, por ser muito incómodo o retrato/reflexo que as redes sociais fazem do que a sociedade é, pós-moderna no verniz, mas tacanha ali logo uns milímetros abaixo.

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Dispensa Do Quê?

Dispensa para Formação
Por Despacho (descarregar aqui) de Sua Excelência a Senhora Secretária de Estado Adjunta da Educação, foi concedida a dispensa para formaçãonos termos do artigo 9.º da Portaria n.º 345/2008, de 30 de abril, para os dias 24 e 25 de outubro, aos professores organizadores e participantes no VI Congresso Internacional da Pró-Inclusão 2019, desde que sejam asseguradas as atividades letivas dos alunos, nas respetivas escolas

Já agora… como me enviarão a medalha? Os CTT Expresso ainda não me entregaram o novo Astérix e devia chegar hoje.

Na Sessão de Abertura do Congresso Internacional da Pro-Inclusão em Santarém vão ser entregues 7 Medalhas de Mérito:

Maria do Céu Roldão
Isabel Amaral
Ariana Cosme
João Carlos Gomes Pedro
João Costa
Domingos Fernandes

Professores Portugueses 

Honra ao Mérito!

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Ao Cuidado Dos Teorizadores Do Assalto A Portugal Pela Ultra-Direita Internacional Impulsionada Por Steve Bannon

A coisa já tem meses… actualizem-se.

NOBODY WANTS TO START A POPULIST REVOLUTION WITH STEVE BANNON

The nationalists have politely shunned him, and the populists worry he’s just in it for the money. “Bannon is not on the radar,” says one movement senior official.

Bannon’s Conquest of Europe Has Not Gone Well

Nationalists didn’t sweep the European Parliament election, and his lease for an Italian institute was revoked. Time to head home.

Bannon

Começou A Silly Season

A terminar o ano lectivo, quando quem trabalha tem mais que fazer, surgem anúncios em forma de notícia e outras coisas dignas de uma espécie de feira dos horrores da parvoíce.

Apareceu um Plano Nacional das Artes que, para arranque de hostilidades, começou com um daqueles lugares comuns requentados dos soixante-huitard como “indisciplinar a escola”. Anuncia-se que as escolas terão “artistas residentes” (como se eles faltassem…) e “três visitas de estudo por ano” e não sei se ria, se chore. Três visitas? Para quem? Todos ao molho? Três para todos em faseamento? Mas quantas visitas acham estas santas criaturas que as escolas fazem por ano? O novo coordenador é um alegre desconhecido fora dos círculo dos seus conhecidos; no seu currículo tem a obra Tudo é outra coisa. O desejo na Fenomenologia do Espírito de Hegel (2006) e é assistente convidado da Católica onde colabora na lecionação de “Cristianismo e Cultura” na Faculdade de Direito e na Faculdade de Ciências Humanas. Cá para mim deveria ser o novo coordenador do Plano Nacional de Educação Sexual para a Abstinência.

Ao mesmo tempo, sabe-se que as luminárias que comandam a nossa Educação, para combaterem a falta de candidatos aos cursos que dão acesso à docência, em vez de tornarem atractiva a carreira, consideram mais adequado baixar os critérios de ingresso. Querem acabar com o exame de Matemática e eu acho que deveriam também acrescentar o de Português e qualquer outro que não fosse o de Educação Física.

Entretanto, porque se ficou aqui com umas semanas sem saber o que fazer, para dar uma aparência de movimento e qualquer coisa em forma de “luta”, a Fenprof ziguezagueia e “exige” (e nós sabemos como este Governo tem sido sensível à voz grossa das exigências do camarada Mário e mais os seus outros camaradas) “medidas para combater o envelhecimento dos professores”. Eu recomendaria os implantes em silicone (peito, rabo, maçãs de rosto), as injecções de colagénio ou botox ou então um lifting em partes íntimas para quem foi sodomizado publicamente e talvez ainda tenha alguma dificuldade para se sentar sem uma daquelas almofadas ergonómicas.

bullshit-detector