Será Um “Daque”?

O professor Paulo de Português aproveitou o primeiro texto do manual do 6º ano e leu com a turma uma pequena biografia de Malala Yousafzai. Ao saber isso, o professor Jorge Alves de Cidadania e Desenvolvimento achou que seria interessante cruzar essa abordagem com o tema dos Direitos Humanos, o primeiro do semestre, e falou com o professor Guinote de História e Geografia de Portugal no sentido de saber se seria possível fazer uma abordagem transgénero, desculpem, trans e interdisciplinar com os conteúdos relativos ao estabelecimento do liberalismo em Portugal e a influência da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, inspiradora da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Embora os três sejam conhecidos por muito resmungar contra modernices e defenderem um modelo arcaico e escola onde se devem aprender algumas coisas antes de as inventar, bem como de raramente estarem de acordo seja no que for (à excepção do futebol, das sandes de choco e do extermínio das grelhas), lá conseguiram que a coisa avançasse com o indispensável interesse e colaboração dos alunos.

A primeira colheita revelou-se interessante, mas continua-se a ouvi-los protestar contra tudo e nada pelos cantos e corredores da escola (afinal queriam a ilustração de um direito e apareceu dos trinta), em especial nos dias em que chovem novas convocatórias para reuniões sobre coisas que eles dizem que, apesar dos sinais claros de precoce senilidade que revelam à vista mal a(r)mada, ainda não se esqueceram de terem estudado, aprendido e aplicado há décadas.

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Mais Uma Transversalidade

Com a curiosidade de ser promovida a partir de um ministério que produz spin e fake news sempre que lhe dá jeito, truncando ou manipulando os dados de que tem o monopólio do acesso em primeira mão, e de um governo em que um ministro acha que as leis não devem ser interpretadas literalmente (Silva 1), enquanto outro acha que nada pode ser contrário à lei (Silva 2) e o PM finaliza dizendo que só acata recomendações da PGR se forem do seu agrado.

Tudo com patrocínio do presidente Marcelo que, nos seus tempos de jornalista, ficou conhecido pela criação de “factos políticos” tirados do nada.

Encontro Nacional de Literacia para os Media e Jornalismo – 16 de setembro em Lisboa

Claro que tudo isto se baseia muito na “formação” e na rede de colaboracionistas, digo, colaboradores, designados como “formadores”.

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Mas Existe Educação Sexual Nas Escolas?

Não é aquele eufemismo da “Educação para a Saúde”? Que depois tem uns conteúdos transversais e meia dúzia de horas por ano para tratar não se percebe exactamente o quê. Hoje há por aí fartura de notícias sobre o assunto… porque as escolas “não cumprem” a lei, ou porque a dita cuja “não chega a todas as Escolas” ou porque lhe é “dada pouca atenção”.

Não sei se repararam, mas a culpa é sempre das “escolas”.

Como ainda ontem estive a escrever o meu naco de prosa para incluir no relatório de final de ano do trabalho com as turmas de 7º ano nesta matéria, gostaria de, com ressalva de excelentes exemplos e naturais excepções, deixar aqui umas breves notas, daquelas curtas e grossas, em crescendo de retórica irritação, tudo com conhecimento directo no chamado “terreno”.

  • Como está delineada a sua implementação a “Educação Sexual” é uma miragem, um simulacro, como tanta outra coisa despejada no currículo aos retalhos por políticos com mais agendas políticas do que verdadeiro interesse em servir os alunos.
  • O trabalho que muita gente tenta fazer é objecto de um notável voluntarismo e dedicação, quantas vezes dando apoio aos alunos de forma individualizada nos seus problemas em tais matérias, fora de horários e em situação informal. Há situações quantas vezes dramáticas que, por falta de um ambiente familiar estável ou estruturado, acabam por ter na escola o único apoio em termos de adultos.
  • Há encarregados de educação que, pela sua postura ideológica, recusam todo e qualquer trabalho nesta matéria com os seus educandos e educandas, chegando mesmo a fotografar a mera enunciação de temas a abordar ou sumários e a colocá-los nas redes sociais (por vezes recorrendo a terceiros por evidente falta de qualquer coisa a que se poderia chamar carácter) para “denunciar” a “lavagem cerebral” em decurso nas escolas por parte dos “radicais de esquerda”. Felizmente, nunca me aconteceu, mas já vi acontecer, incluindo a parte em que há quem manda divulgar e o operacional da divulgação.

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Flexibilizando Por Aí…

Este tipo de prosas parece mato nos dias que correm… pelo menos nos sítios onde as dão a conhecer a tempo de se discutirem:

  • O trabalho de projeto é um modo intencional que permite a articulação de saberes, possibilitando uma aprendizagem ativa e integradora das diferentes áreas curriculares (cruzar as Aprendizagens Essenciais, o Perfil dos Alunos e a Educação para a Cidadania de Escola)
  • Possibilita a realização de projetos de natureza multi, inter e transdisciplinares;
  • Valoriza o processo e centra o trabalho nos alunos;
  • Aposta no desenvolvimento das competências do Perfil do Aluno;
  • Possibilita o reforço das aprendizagens.

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Flexibilizar, Transversalizar, Articular, Partilhar, Desburocratizar, Desburocratizar, Desburocratizar…

Hoje foi o dia da minha dt (7º ano) começar a apresentar o seu trabalho de projecto sobre reciclagem – o Eco-Jogo – nas escolas do 1º ciclo onde a maioria del@s andou. O trabalho envolveu Cidadania (selecção do tema e apoio logístico), Ciências Naturais (tratamento dos conteúdos) e Educação Visual (tratamento gráfico). Transversalizou e articulou horizontalmente, portanto. E ao envolver esta semana turmas da pré, do 1º ano e, a breve prazo, do 3º, articulou verticalmente e, para além de saciar nostalgias (“professor, posso ficar e dar uma volta pela escola”), promoveu a partilha de experiências entre várias escolas do agrupamento e alunos de diferentes ciclos.

Nada disto é especialmente inovador. Pelo contrário, é algo mais do que conhecido e praticado. Não é por causa disso que escrevo. Escrevo porque tudo foi conseguido sem ser necessário qualquer tipo de papelada típica dos “projectos” do pafc, sendo tudo organizado com base naquele método arcaico do contacto pessoal, da conversa, entre docentes envolvidos (na horizontal na preparação, na vertical na aplicação), entre estes e os alunos. Não foram necessárias grelhas de preparação. de monitorização dos progressos, de avaliação intermédia etc, etc. Ou seja, sem aquele acréscimo de “representação dos actos” tão típico do que voltou a ser moda. Apenas foram gastas 6 folhas A4 de papel para formalizar a autorização dos EE (várias por folha) para a saída nos dois dias, assim como para o seguro escolar.

Todos os envolvidos concordam em que tudo correu conforme planeado, mais ou menos detalhe, e estão satisfeitos com isso. Nem a mim apetecia que fosse de outra forma.

 

E Se Existir Um Apagão E Os Computadores Se Desligarem?

O problema de certas visões do futuro é que estão ultrapassadas ou abdicam de saber pescar, acreditando que os algoritmos nos colocam o peixe na mesa e apenas temos de exercer um olhar crítico sobre a ementa.

Pensamento crítico e colaboração são mais importantes que fórmulas de matemática na educação do século 21, diz especialista do MIT

O que eu acho caricato é mesmo insistir em que não há espaço para se saber a tabuada e ter pensamento crítico. Conhecer as regras básicas do funcionamento dos seres vivos e colaborar com os outros.

Fico sempre com a sensação que as pessoas que assim acham são um pouquinho poucochinhas. Ou então querem os outros assim… com “pensamento crítico” mas sem capacidade de sustentação nos argumentos.

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O Pafismo Educacional e a Transversalidade do Sucesso

Claro que é a minha mente que é demasiado tortuosa e conspirativa. Mas com os actores em presença justifica-se que eu pense que muitas destas coisas andam ligadas. Pelo que não me espanta nada que esta coisa dos “projectos” da autonomia e flexibilidade que depois são avaliados de forma “transversal” tendam a fazer diluir as avaliações disciplinares de cada professor numa “avaliação global”. Ou que as avaliações disciplinares tenham de se submeter à lógica do “contributo para o projecto”. Acredito que, assim sendo, os níveis de insucesso a Matemática sejam transversalmente empurrados para níveis mínimos históricos em muitas paragens. Podemos sempre confirmar no fim deste ano nas escolas-piloto. E ver se foi a “transversalidade” e “flexibilidade” que contribuíram para a “mudança dos métodos de ensino” e para o irrevogável “aumento do sucesso”.

Não adianta é falarmos na questão das aprendizagens, porque isso vai tornar-se uma espécie de coisa fluída, muito em especial quando existirem alunos da escola A, com o projecto X, a transferir-se para a escola D com o projecto K. A menos que toda a gente acabe a copiar os projectos dos manuais que algumas editoras já enviaram.

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Educação Para a Cidadania, Dizem Eles

Mas praticam muito pouco. Adoram estas transversalidades, para serem aplicadas por quem nada teve a dizer sobre o assunto, entregue a “especialistas”, a maioria dos quais encerrados nos seus casulos muito particulares. Fazem publicar “estratégias” feitas por grupos de trabalho como esta sobre a Educação para a Cidadania (Estrategia Nac Educ Cidadania), mas depois na sua prática política e administrativa corrente espezinham essa mesma cidadania. E não pensem que os alunos não entendem isso desde cedo. Que os professorzecos lhes ensinam teorias e princípios que na vida pública quotidiana são letra morta para a larga maioria da elite política.

Cidadania

 

Barreiro, 1994/95

Mais papeladas que aparecem com as arrumações, daquelas que ainda ficaram em disquetes de 5 1/4 e a que é difícil aceder em formato digital (só a partir de 1995 passei as coisas para discos rígidos de forma quase sistemática).

Tem a curiosidade de ser algo feito na única escola (agora em agrupamento) por onde passei que aderiu ao pafismo curricular e umas das poucas em todos estes arredores, porque aqui a malta é céptica, a menos que seja dos escuteiros.

Foram projectos (sim! já tinham sido descobertos) desenvolvidos com turmas nocturnas do 2º ciclo, muito complicadas a vários níveis, com articulação entre todo o Conselho de Turma que era curto para quem se lembrar do regime desses tempos (com disciplinas que agora fariam as delícias das abordagens transversais como O Homem e o Ambiente em par pedagógico com os professores de Português e Matemática).

Percebe-se bem pelo grafismo que a coisa é mesmo muito datada com aquelas grelhas, muito angulares, que ameaçam estar de volta. Ainda bem que guardei isto… está sempre actual e no segundo projecto basta mudar uns detalhes sobre o concelho d’agora, que é mesmo ao lado.

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