Quem Diz Que Não Há Prendas De Natal Úteis?

Ou lamentos que não são ouvidos? Com o que me ofereceram na escola, já posso deixar de corrigir a verde fichas ou testes (se não desistir de os fazer, transferindo-me para a ideologia maiata-holística-ubuntu) até, no mínimo, à Páscoa.

Estou prestes a queixar-me da falta de barras de ouro para servir de pisa-papéis. 😉

Domingo

Para quem diz que o Natal não é quando uma pessoa quiser, é favor ler esta notícia. Claro que ficamos com a sensação de que o nosso mundo político empresarial é um lameiro, mas isso já sabíamos. O essencial é mesmo perceber que no currículo se deve colocar que se foi technical account manager, chief procurement and real estate officer e procurement director em vez de “gerente de contas”, “chefe” ou “gerente de compras”, por exemplo, porque pode parecer que se trabalhou apenas no minipreço. O que entre nós não será propriamente um impeditico a ter um cargo na administração de uma companhia aérea ou algo parecido. Afinal, o vara não chegou à administração da cgd apenas com uma pós-graduação em robalos?

Se estiver com a sensação de termos voltado atrás 15 anos em tudo isto não está sozinh@.

O Natal Das Escolas

Quase como dos hospitais, mas sem o Marco Paulo, a Àgata, a Lara Li ou o Eládio Clímaco. De um coordenador de estabelecimento, prosa que acho merecedora de destaque devido a uma qualquer razão que já esqueci. Mas não podia deixar de partilhar esta reflexão em forma de coiso e tal, plena de positividade e aconchego.

Olá colegas

Chegados ao final deste ano civil, que coincide com o final do 1º período, é sempre bom fazer uma reflexão, sucinta, prática e precisa.

Enquanto ser humano, enquanto coordenador, é muito fácil verificar a diversidade de personalidades existentes na nossa comunidade escolar.  Esta curta, ainda, experiência permite-me aferir que todos os seres humanos são possuidores de uma força de vontade, de uma dedicação sem igual, em causa própria, sem margem de dúvida. Em causa profissional, essa mesma dedicação é posta em causa por múltiplos fatores e variáveis que nos tentam, a todos, desviar da nossa essência e de igual forma retirar energia e cumplicidade no processo. Mas não esqueço quem somos, e como somos, na nossa essência e em causa própria, pelo que não posso deixar ninguém esmorecer ou ficar para trás.

A questão que me surge, dia após dia, é como fazer convergir uma pequena parte dessas forças, numa só, a do ensino, a de uma escola feliz, a de uma escola onde todos se consigam sentir (minimamente) realizados, sobretudo numa escola com características tão especiais e peculiares como a nossa. Acabaram de ler neste parágrafo o meu foco de luta diário.

Alguém disse, o homem sonha a obra nasce, eu sou esse homem, a sonhar, desculpem esta utopia, mas é assim que quero viver.

Aproveito este momento para pedir desculpas a quem não consegui chegar na plenitude das minhas faculdades. Estas falhas, palavra de honra, não caíram no vazio, acabaram por ser aprendizagens. De igual forma partilho convosco uma confidência, é extremamente gratificante perceber que consegui chegar a alguns de vós, e sentir, que juntos, somos uma parte, de algo muito maior, a construção de uma peça do amanhã.

Gratidão é uma palavra que está muito na moda, é essa mesma palavra eu deixo aqui para todos os meus colegas, ao seu companheirismo, pela suas partilhas e profissionalismo.  De igual forma faço aqui um reconhecimento, as técnicas, pela sua postura e apoio, em todas as iniciativas, quer à pessoa do coordenador, quer sobretudo aos diretores de turma, mesmo quando mergulhadas nas imensas solicitações e em simultâneo. Finalizo este parágrafo de gratidão, aos assistentes operacionais que me disseram e vos disseram, presente, sempre que o momento justificou, criando os mecanismos próprios para que o nosso dia a dia funcione sem constrangimentos.

Nesta pequena pausa de interrupção letiva, desejo que descansem, que aproveitem os vossos, que espalhem boa disposição, que recebam sorrisos. Não vos desejo isto de forma totalmente inocente, faço-o, porque pretendo arrecadar juros de todos estes sentimentos e vivências, recebendo-vos com as baterias bastante carregadas e prontos para abraçar a minha utopia.

Se com estas minhas palavras conseguir atingir uma população considerável da nossa comunidade escolar tenho a certeza que, com a vossa força, com vosso empenho e com a vossa dedicação, vamos de certeza atingir patamares de sucesso mais elevados, assim como de bem-estar, de amizade, que em conjunto fazem atingir um dos pequenos itens da felicidade.

Agora é tempo de parar de ler e viver a quadra natalícia da forma mais adequada que só cada um sabe como o fazer, de uma forma muito própria e personalizada.

Saúdo-vos, com um enorme e caloroso abraço, a vós e aos vossos familiares, num momento muito curto de partilha de fraternidade deste vosso amigo omnipresente.

Como tal, que tenham umas Santas Festas e como alguém disse, façam o favor de ser felizes!

Com os melhores cumprimentos,

(…)

p.s. por favor, se verificarem que este e-mail não chegou a todos os colegas, reencaminhem. Obrigado.

Reencaminharam e, já agora, para a próxima o colega que use o bcc, porque assim fica tudo à vista.

Sábado, 24

Véspera de Natal que, mesmo para quem não é cristão ou adepto de tradições, deveria ser um momento de pausa para aproveitar e pensar um pouco sobre a melhor forma de ser e agir e, já agora, de dar como “prenda” a si mesmo um pouco de bom senso, mercadoria rara nos tempos que correm, mas que muita falta faz. Para isto não ficar um post muito choninhas, digamos que o bom senso pode exemplificar-se, pela negativa, com a entrevista em chocarreiro do actual primeiro-ministro à Visão. Digamos que aquilo tem tanto espírito natalício quanto uma piada do senhor scrooge.

Portanto, comemorem ou não a data, ao menos aproveitem o fim de semana para pensar nisso. No tanto que nos faz falta o bom senso.

(c) Christopher Weyant

6ª Feira

Entrada em serviços mínimos porque, se foi desempacotado, estraga-se se não for consumido em tempo útil. Aquela garrafa está vazia, mas é uma piada privada. Atrás ainda se consegue ver pelo menos uma por “descobrir”, cortesia de uma mão amiga que por aqui passou a deixar um par delas, para apreciar na consoada. Os próximos dias manterão, em princípio, apenas o diário, para qualquer eventualidade mais ou menos natalícia. E agora, divirtam-se se conseguirem, que o 2023 vai ser complicadito.

6ª Feira – Véspera De Natal

Para a véspera de Natal, crentes ou não, o único desejo possível é que não aumente o clima de irracionalidade e de aberta intolerância perante as posições alheias, de um lado a coberto de uma falsa tolerância condescendente e do outro de uma hipócrita defesa das liberdades. Sim, estou mais de um “lado”, mas incomodam-me alguns “companheiros de estrada”; só que, do outro lado, quase me assustam a sério as atitudes de quem se afirma “independente” mas aparece subitamente com dinheiro disponível para organizar a “resistência”. Posso estar a ser parcial, mas encontro mais dúvidas dos que são acusados de positivistas do que do lado dos relativistas, que tudo colocam em causa, nem sempre pelas razões que publicamente enunciam. As minhas críticas à democracia que temos não são de natureza a pactuar com quem a tenta corroer ainda mais para erguer qualquer coisa que não se percebe bem o que é. As minhas reticências quanto ao neoliberalismo e capitalismo e à apropriação de todos os mecanismos possíveis para a acumulação desigual do capital não significam que pretenda regressar a uma espécie de pré-história dourada da Humanidade porque, no plano politico, nunca existiu. Não sou dos que acham que vivemos no melhor dos mundos possíveis mas, atendendo às alternativas passadas, estes tempos estão muito longe de ser os piores. A democracia ateniense assentava na escravatura e exclusão das mulheres e estrangeiros; Roma inventou o “pão e circo”; no Renascimento singravam os que bajulavam ou convenciam os mecenas a financiá-los; o Iluminismo era para as elites e que me desculpem mas a “pureza original” de certas sociedades ditas “primitivas” tem muito que se lhe diga em matéria de costumes que não pretendo recuperar.

Por isso, neste Natal, gostava da prenda impossível que não passa por uma qualquer comunhão universal de boas vontades, mas apenas pela não progressão descontrolada das hipocrisias e da irracionalidade, não designando enquanto tal um só grupo de opiniões ou ideias, mas todo um modo de debater que cada vez mais despreza qualquer tipo de verdadeira discussão que vise esclarecer em vez de calar ou denegrir o “outro lado”. Exemplifico com algo que lia ontem… alguém recusava ser designado como “negacionista”, mas a sua primeira publicação era explicitamente dirigida aos “aceitacionistas”. Para equilibrar as coisas, também posso referir que não adianta acusar alguém como irracional, se em vez de argumentos lógicos se apresentam posições de autoridade absoluta. Não há prova maior de desorientação do que a incapacidade de manter uma discussão sem a escalada das acusações e ofensas pessoais e o abandono de qualquer sentido ético.

Como escrevi, gostava da prenda impossível, por isso tenho poucas ilusões acerca do que vai ser a variante dominante na discussão pública acerca do que há quem ache ser apenas uma invenção das televisões, como se avida e a morte equivalessem ao destino futuro de um treinador de futebol.

Apesar de tudo, Feliz Natal e não abusem nas rabanadas.

6ª Feira, 25 De Dezembro

Hobsbawm escreveu um livro muito interessante sobre a “invenção da tradição” e sobre o processo através do qual se criam, em poucos anos, “tradições” que se dizem ancestrais. Alguns aspectos do Natal são seculares, mas outros nem tanto. E nestes tempos estranhos, muitos se queixaram da quebra das “tradições”, mas algumas delas estão longe de serem assim tão ancestrais. Ou então, em momento de insegurança, houve quem sentisse a necessidade de um conforto que a sensação de se integrar em alho que vai para lá do presente ou futuro imediato consegue transmitir.

Por aqui, houve momentos em que se fez questão de sublinhar uma “nova tradição”, através da troca de compotas no quintal/patamar da casa com amigos que, para além disso, tiveram a bela ideia de iniciar uma área de merchandising para este “quintal”.

5ª Feira, 24 De Dezembro

Não sou crente, não encaro o Natal como uma festividade propriamente religiosa, mas como um momento de paragem, respiração e partilha familiar. Em que se procura recuperar alguma pureza nas relações humanas, o que se foi tornando cada vez mais raro e quase ocasional. Este ano, por todas as razões, poderia ser o momento quase ideal para muita gente fazer uma pequeníssima introspecção e reconsiderar os seus valores e acções e pensar se estas correspondem aos princípios que explicitamente proclamam (eu incluído). Ia escrever mais umas coisas, mas acho que fugiria ao espírito natalício que tanto se pretende. Fica para daqui a uma semana um balanço das hipocrisias do ano. Por estes dias, serviços mínimos.

A ilustração é do colega Alexandre Trindade, que todos os Natais

E como banda sonora a música que o politicamente correcto andou a censurar lá por fora, por enquanto na Inglaterra.