4ª Feira

Temos um país pequeno. Com as novas tecnologias de informação a rapidez de contacto não é um problema. A população total é a de uma grande cidade em outras paragens. Com a crescente uniformização dos modos de vida, nem podemos alegar uma enorme diversidade cultural, mesmo se temos significativas comunidades imigrantes. Poderíamos tentar ter um sistema de ensino coeso e coerente, mas há que distribuir verbas europeias e avançar com chavões demagógicos, como a autonomia e a descentralização. Claro que a coisa oscila conforme os humores locais, em especial se há envelope financeiro que agrade ao caciquismo e clientelismo local. Ou se há jogos políticos em decurso.

Claro que isto já foi experimentado em outras paragens. Nos países com mais forte tradição descentralizadora (Holanda, Suécia) correu bem até ao momento em que o aumento da diversidade cultural da população (com comunidades imigrantes com menos peso do que em Portugal) e o aumento de alguma desigualdade socio-económica potenciou as falhas de um sistema que tende a tornar mais desigual e distante o topo da base do sistema.

Por cá “descentralização leva 146 municípios a colocarem dúvidas sobre saúde e 168 sobre educação”, A outros municípios, juntam-se agora Abrantes e a Guarda na recusa de competências. Já Sintra, aceita a Educação, como outras autarquias da zona de Lisboa com mais meios financeiros e lideranças mais ambiciosas (Cascais, Oeiras). A manta de retalhos geográfica junta-se à manta de retalhos curricular. A nível europeu já se conseguiu inibir a comparação das matrizes curriculares. Antes já se destruíra a hipótese de acompanhar uma série longa de resultados dos alunos em provas finais de 6º ano e penso que a breve prazo se acabará com as de 9º e com os rankings, num salto atrás de duas décadas que se apresentará como progresso, dando exemplos de países que os abandonaram. Só que ocultando que esses países os abandonaram ou vão abandonar depois de terem atingido o topo dos testes comparativos internacionais. Não a meio do processo, antes de lá chegarem.

Mas se os rankings são maus e se o desempenho final do produto é menos importante do que o processo, porque todas as “inovações” trazem consigo o arcaísmo burocrático da multiplicação documental dos registos de tudo e nada. Porque se registam os “progressos” se o que interessa é o “caminho”?

Na Educação, em vez de reversão, experimentamos uma regressão, muito apoiada por uma corte de criaturas de laca e gel (para a selfie da praxe dos eventos com o SE Costa ou mais directos colaboradores) que se armam em modernaços, mas são de uma indigência intelectual atroz. E os que assim não são é porque são os puppeteers de uma enorme encenação que vai em cascata pelas escolas a partir de direcções que receberam recentemente a garantia de poderem estender os seus mandatos quase até ao infinito, porque os efeitos das leis são para respeitar apenas a partir da data de publicação nuns casos, mas não em outros.

A “formação” em “novas ferramentas de gestão” é circunscrita às cortes locais que assim reforçam as suas vantagens comparativas em relação ao vulgo que queria 9 anos, mas já aceita 11 meses a correr (desculpem, sobre isto terei de ser desagradável em outro texto). A ideia, directamente herdada do mandato de MLR, é tornar as direcções e em especial as suas lideranças, meros transmissores hierárquicos das vontades políticas de sucesso da tutela central ou das crescentes tutelas locais. A manipulação dos créditos horários para beneficiar apenas os que colaboram é uma prática que se generaliza, isolando um grupo restrito que cada vez exerce menos a docência e acumula os cargos da cadeia hierárquica dos poderes. O debate alargado de opções a aplicar por todos uma inexistência ou um processo condicionado por uma variante do centralismo dito “democrático”. A “Autonomia” é cada vez mais assimétrica e a “flexibilidade” aplica-se aos invertebrados.

Em breve – já hoje em alguns locais – a aprovação dos projectos dependerá da adequada obediência à cosmovisão dos autarcas de serviço e da adequada consultoria contratada. Sim, isto está praticamente entregue à bicharada, sem pingo de decoro, and I don’t feel fine.

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Pela Blogosfera – Incluso

Ainda os alunos com necessidades educativas especiais e as turmas reduzidas

(…)
Se o enquadramento é claro quanto ao limite de alunos por turma, já não o é relativamente às turmas com número inferior a 20 alunos e, simultaneamente, com mais de dois alunos com necessidades educativas especiais. Sobre esta situação, o entendimento da tutela, designadamente da Direção de Serviços da Região Centro da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, é de que quando as turmas são constituídas por menos de 20 alunos, não se aplica a condicionante dos dois alunos com necessidades educativas especiais por turma, podendo, por isso, estas turmas incluir mais do que dois alunos com necessidades educativas especiais.
Neste cenário, e em teoria, uma turma pode ser constituída apenas por alunos com necessidades educativas especiais desde que não ultrapasse os 20 alunos por turma. Naturalmente, na nossa perspetiva, a tutela está a efetuar uma leitura abusiva do normativo, determinada por fins meramente economicistas, sem atender aos fins pedagógicos nem às especificidades dos alunos.
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Mas o governo é das esquerdas e a equipa do MEC tem validação sindical, nunca poderia legitimar este tipo de coisas, tanta que tem sido a estreita colaboração entre a tutela e as “escolas”. Neste contexto, ainda valerá de alguma coisa denunciar estes atropelos que em outros tempos seriam bem mais graves do que os livrinhos azuis e cor-de-rosa?

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A Grande Fábrica dos Números – 3

Alguns textos recentes aqui no quintal poderão dar a sensação de eu não gostar de analisar as estatísticas da Educação ou de tentar perceber a realidade a partir de indicadores numéricos. Nada de mais errado, pois sempre gostei de o fazer, na justa medida e sempre me desagradou muito a fraca qualidade, escassez de dados ou a divulgação truncada da informação estatística disponível no ME sempre que isso podia servir objectivos políticos. Boa, má ou assim-assim, a minha tese de doutoramento sobre a Educação Feminina no século XX tinha o subtítulo de “discursos, números e olhares”. A recusa da informação estatística é tão prejudicial quanto a submissão às tabelas do excel.

O que me desagrada é quando, fora da época oficial de caça aos rankings, dos relatórios dos testes PISA ou da OCDE, aprecem de repente uns números atirados para a comunicação social, em exclusivo ou à molhada, aparentemente resultantes de estudos menos ou mais desconhecidos nos seus detalhes e divulgados apenas nas partes que parecem passíveis de provocar maior comoção pública. Sei que parece mania relembrar os tempos de Maria de Lurdes Rodrigues, em que os indicadores sobre o sistema educativo eram divulgados conforme a agenda política. Mas foi nesse período, em especial desde 2007, que os números da Educação se tornaram armas de luta política e as estatísticas foram torturadas até dizerem o que era necessário dizer do ponto de vista político. E em que era necessário um esforço, em algumas alturas quase diário, de desmontagem de milhões de faltas, de rácios manhosos e de tanta outra coisa de péssima memória.

Só que isso não terminou, apenas se sofisticou, porque os tempos são menos claros, as trincheiras de outrora parecem ter evaporado e agora temos uma espécie de regime feudal, seja na estrutura hierárquica feudo-vassálica de uns sectores (caso da geringonça político-sindical), seja na fragmentação dos poderes, com a multiplicação de meso-poderes intermédios que pretendem influenciar as políticas educativas através da demonstração “científica” das suas razões. Por isso, quando aparecem novos “estudos” eu procuro saber quem os fez e em que enquadramento institucional ou financeiro. Um pouco como devemos fazer com os estudos que comprovam a bondade suprema de dados medicamentos, por acaso financiados pelas farmacêuticas que os comercializam (aos estudos e aos medicamentos).

Quem, onde, como, quando, pago por quem, com dados obtidos onde e com que autorizações? São questões essenciais para se descodificarem títulos, parágrafos, quadros, evidências. A “Ciência Social” raramente é inocente mas existem (deveriam existir) alguns limites para o comprometimento dos “cientistas sociais” com causas políticas, em especial quando as pretendem santificar com a cobertura académica. Há excelentes trabalhos sobre Educação em Portugal, alguns deles com forte componente estatística. E, depois, há um número variável de “produtos” ao serviço de causas mais ou menos explícitas que nos são servidos como se fossem o pináculo da investigação, quando muitas vezes são trabalhos que resultam de acesso privilegiado a dados, tornando quase impossível fazer a verificação da sua fiabilidade ou das amostras usada.

Que isto não é novo, eu bem sei. Que parece um certo retorno a uma mentalidade conspirativa, também me parece evidente. Mas, infelizmente, as coisas são o que são, com mais ou menos aparato.

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Que Jornalismo?

Neste quintal não é nada habitual cultivo alheio, mas há sempre excepções e esta justifica-se.

Não compro o “Correio da Manhã”. Mas leio-lhe, quando me aparecem, os títulos na internet ou nas bancas e estou minimamente atento à sua política editorial e não deixo de considerar esta doentiamente asquerosa, oportunista e cobarde, porque lança a pedra, mas esconde a mão. E deve haver muita gente que gosta desse estilo a fazer fé nas sondagens.

O que eu não aceito, mas sou impotente para um duelo à moda antiga, é que um gajo qualquer ou mais gajos ou um diretor parvo ou quem quer que seja, queira vender mais jornais à minha custa através de títulos falsos, de afirmações não comprovadas (já não há ética e deontologia?!) e nunca ou raramente desmentidas:

O título é: Editoras seduzem docentes com prendas, Editoras oferecem iPad e máquinas fotográficas para convencer docentes a adotar manual.

Que editoras são? Eu fartei-me de proclamar alegremente que escolhia democraticamente o manual da editora que me oferecesse uma sonhada viagem às Seychelles!!! Mas nada! Que desilusão! Fui a muitas sessões de apresentação de manuais e confesso que não me apercebi de iPads e de máquinas fotográficas, mas fui a correr às muitas caixas e sacos que as editoras me deram (e que eu ainda tinha) à procura da prova da minha corrupção. Nada. Bem, o meu gato, o Bonny, andava todo lavadinho. Desconfio que foi ele quem me desviou a máquina fotográfica para usar numas intimidades com a Mimi, a gata da vizinha do lado.

É verdade que fui a várias sessões de apresentação de manuais do 5º ano. É verdade que comi umas bolachinhas e tomei café. Ou um sumo derivado de concentrado. Mas também é verdade que gastei gasolina para me deslocar a essas sessões (não as houve na minha cidade). Mas também é verdade que ainda hoje padeço de dores num pulso por excesso de carga dos artigos corruptores.

O “Correio da Manhã” não irá publicar esta minha opinião. Mas se quiser que eu vá a um daqueles debates da CMTV em que a substância demora duas horas a ser mastigada, eu vou. Com despesas pagas, claro. E se puderem a tal viagenzinha às Seychelles…

José Fernandes (Barcelos)

batmannthink

E os Outros?

Nunca o conhecimento deste tipo de traficâncias ficará vagamente completo se não quiserem que saibamos quem também recebeu (nada de milhões, bastavam 3000, quiçá 300, em espécie ou passeios por conta) para que ficassem calados, não noticiassem, fizessem parangonas, dessem prémios, abanassem o rabinho e estendessem a patinha, anos a fio, a estes senhores, que podem ser justos alvos da nossa ira mas que não podem esconder todo o rol de figurinhas que se acoitaram longamente na sua sombra e ainda hoje beneficiam do estardalhaço em torno dos que caíram em desgraça para que muito do mesmo pudesse continuar e muitos pudessem sobreviver.

O mais ridículo é ler por aí – nas afamadas “redes sociais” – quem ainda ande a tentar branquear parte da coisa, dizendo que para uns há provas de fraude e para o outro – o santo –  não há. Ou seja, benefício de dúvida selectivo, conforme a cor.

Lama

 

Ano Sim, Ano Não

É a média que resulta da análise da evolução das alterações legislativas em relação à avaliação das escolas e alunos do Ensino Básico nos últimos 25 anos. Se existe continuidade em algumas mudanças, outras são de molde a tornar impossível estudar-se de forma séria a evolução do desempenho do sistema a partir dos indicadores internos. São raros os ministros que sacrificam o seu ego ao interesse em manter uma orientação que permita aproveitar o que vem de trás, melhorando-o, preferindo introduzir mudanças que, em muitos casos, só servem para marcar a agenda política do seu mandato.

Estabilidade?

E o mais giro é que aparecem antigos governantes a dizer coisas tão certas que nunca fizeram. A minha teoria é que não é totalmente inconsciente ou involuntário o esforço por destruir qualquer hipótese de estabelecer tendências de médio-longo prazo que nos permitam alcançar conclusões que ultrapassem os bitaites de falso senso comum ou a repetição de chavões que, por não ser possível comprová-los ou infirmá-los de forma empírica sólida, permanecem como pseudo-verdadades para a Escola do século XXI baseadas em case studies feitos à medida das conveniências.

Labirinto

Se?

Foi ao ler uma publicação do E. Cintra Torres no fbook que dei com esta passagem do artigo de opinião de Pedro Santos Guerreiro no Expresso de ontem. Como acho que este mês foi uma lição magistral sobre como tornar desinteressante uma matéria altamente controversa, não me espanta nada que muito acabe encoberto porque quem andou a pagar o exclusivo (como no caso wikileaks) não o terá feito de borla e já se percebeu que a base de dados não será completamente disponibilizada.

Sem TítExp7Mai16ulo

Expresso, 7 de Maio de 2016

Castrati

“O critério editorial do Expresso em relação à existência de jornalistas na lista foi, é e será rigorosamente o mesmo usado em relação a todas as profissões referidas. Retirar qualquer uma delas seria fazer uma diferença de classe. Assim escrevemos sobre a existência de ‘mais de uma centena de nomes que constam nessa lista de várias páginas’, que ‘incluem várias pessoas influentes’, ‘políticos’, ‘pagamentos durante vários anos a gestores do BES e da Portugal Telecom’, ‘ex-gestores, autarcas, funcionários públicos, gestores, empresários e jornalistas'”, adianta.

bullshit-detector