Sábado

Uma das palavras agora em voga é “transição”. Transição digital, transição energética, transição seja o que for. O que significa que estamos em trânsito de um ponto para outro. Mas isso estamos sempre, queiramos ou não, porque faz parte da ordem natural das coisas. De forma mais rápida ou mais lenta. O problema é que ouvimos e lemos muito sobre transição, mas raramente a que sentimos é a anunciada. Eu senti, por exemplo, uma transição fiscal bem forte e nem por isso gostei. Muito menos que sinto que essa transição é regressiva, no sentido da perda de direitos ou capacidades. “Transição digital” é um dos chavões que agora se aplica a tudo e nada. Nas escolas até se fazem planos, mesmo que não existam meios para a assegurar. Fora delas, não se explica que muitos dos avanços na circulação da informação se baseiam em tecnologias pouco amigáveis com a Natureza. Já no caso da energética, receio muito que a deriva para a “descarbonização”, se for feita na base da destruição da cobertura vegetal para colocar painéis solares em todo o lado e mais algum, não acabe muito bem. Como aconteceu a desflorestação no Brasil para produzir etanol. Usa-se o termo como se significasse progresso, para cativar apoios e adesões. Mas em alguns casos, talvez fosse bom esclarecer que talvez signifique um regresso. Ou as suas verdadeiras implicações a médio e longo prazo, para além da propaganda e de novas áreas de negócio.

Linguagem As(s)inina

Novo manual de linguagem inclusiva. “Em 95%, os documentos são iguais”, refere Francisco Assis

Este argumento de serem só 5% as alterações não é paradoxal em si mesmo em que pretende defender as minorias? Alguém terá coragem de lhe perguntar se defende que 5% sejam o limite para praticar outras tropelias como de pouca coisa se tratasse?

Este homem é um homem para todos os poleiros.

Dia Da Língua?

Estes dias servem para se dizerem umas coisas cheias de aparentes boas intenções, mas zero consequências. O ensino do Português foi tomado de assalto há anos por duas claques muito aguerridas que o tornaram (desde a tentativa semi-falhada da TLEBS, agora retomada de modo mal disfarçado) um campo para o exercício de virtuosismos linguísticos e para a depilação ortográfica. O PNL é um sucesso como negócio para alguns interesses, mas pouco mais, porque o carimbo aparece mais do que os das promoções dos supermercados. O ME transformou tudo numa espécie de esqueleto a que chama “aprendizagens essenciais” e depois lamenta-se que a miudagem não gosta de ler.

Não gosta de ler?

Gostam de ler e não é pouco, só que é na base das mensagens com a reprodução fonológica do que seriam palavras e muitos emojis pelo meio. E ouviram dizer que os livros é para professores velhos, em especial se forem apenas com letras. Que agora é tudo no ecrã, porque é assim que se está bem.

E depois, há sempre aquela relação complicada do ministro Tiago com a língua ou a relação muito distorcida do secretário Costa com o significado das palavras que, na maioria dos casos, aprendi que queriam dizer coisas muito diferentes do que ele e os seus cortesãos dão a entender que significam. O significante e o significado têm uma relação algo desfocada. Eu ouço-os a falar, mas não entendo a ligação entre os sons que produzem (e têm toda a aparência de palavras reconhecíveis) com aquilo que eles parecem querer dizer na realidade.

Lemtrete?

Será que querem dizer lembrete para a retrete? Será que não há ninguém a rever isto? Aqui no blogue asneiro, mas é tudo na base da boa vontade cansada e com revisão sempre que me puxam as orelhas.

DGEEC: DEGADI/2021: Lemtrete do preenchimento do Inquérito aos Doutorados (CDH20 – Careers of Doctorate Holders)

(é o terceiro que recebo e confesso que comecei a fazer o primeiro, mas desisti, porque tudo isto me parece profundamente inútil)

Ena, Pá! Desta Vez É Que É!

Ainda vou na página 65 e e já levei com uma “integração transversal” (a escoliose deu-me logo uma pontada), um “upgrade tecnológico” (em vez de Lenovo vão emprestar Mac’s?), uma digitalização ubíqua” (onde está, onde está?) e um “robustecimento da resiliência societal” (e aqui, até emudeci) que até fiquei a rodopiar de modernidade (também há “novos paradigmas”, no plural, que a gêntchi é ambiciosa) e ansiar por nova volta a Portugal do SE Costa e umas conferências do senhor da OCêDêÉ.

Finalmente, a componente C20 corporiza a resposta do PRR no domínio da educação, criando condições para a inovação educativa e pedagógica através do desenvolvimento de competências em tecnologias digitais, da sua integração transversal nas diferentes áreas curriculares e da modernização do sistema educativo português, bem como através da modernização do espaço escolar e da melhoria dos meios para a educação e capacitação digital.

(…)

Por sua vez, na componente C20, face à necessidade de adaptar os currículos e as formas de ensino aos novos paradigmas da sociedade do conhecimento e da informação e de corresponder às novas e futuras necessidades do mercado de trabalho, a Reforma para a Educação Digital prevista assenta na digitalização de conteúdos pedagógicos e avaliativos, competências digitais do pessoal docente e nas infraestruturas de educação e equipamentos didáticos e tecnológicos existentes. Esta componente enquadra-se também nas dimensões do Digital Economy and Society Index – DESI “capital humano”, e revela-se igualmente alinhada com os objetivos da Comunicação “Shaping Europe’s Digital Future”, em particular, com o objetivo “Tecnologia para as Pessoas”.

(…)

Por último, são de salientar os contributos do plano para a promoção de um upgrade tecnológico da comunidade educativa nacional (C6 e C20), independentemente da região, capaz de criar condições para a inovação educativa, pedagógica e científica, e com isso promover avanços concretos no caminho para uma sociedade mais bem preparada para um contexto de digitalização ubíqua e do ensino experimental das ciências e das técnicas. Este processo de educação e capacitação digital dos alunos, professores e instituições de ensino será da maior importância para o reforço da coesão social, para o robustecimento da resiliência societal e para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, onde as condições socioeconómicas de partida não poderão condicionar as perspetivas de vida, pessoais e profissionais, das crianças e jovens. Requer um reforço continuado na promoção da cultura científica de toda a população, continuando a facilitar e a democratizar o acesso ao conhecimento.

Manual Para Eunucos Linguísticos

Confesso que de qualquer organismo dirigido pelo Francisco Assis (aquela “população que um dia, quando era de noite numa localidade portuguesa do norte do país, foi atingida ou esteve para ser por uma manifestação de intolerância cívica, protagonizada por mãos em movimento rápido”) espero todo o tipo de parvoíce, armada em inovação. O homem gosta de estar em lugares, fazer coisas, parecer modernaço.

Por mim, os responsáveis por este tipo de iniciativas “neutras e inclusivas” podem bem ir fazer amor consigo mesmo, se ainda tiverem equipamentos anatómicos em condições de desempenhar essa função que permite algum prazer aos indivíduos de todas os credos, etnias e géneros.

Gestor é substituído por ‘população com cargos de gestão’ e trabalhadores passam a ‘população trabalhadora’. Tudo pela inclusão e pela linguagem neutra. Proposta retirada antes da votação

A imagem seguinte deve ler-se, numa perspectiva inclusiva, da seguinte forma “população caucasiana com capacidades intelectuais moderadas em relação à média desejável para a população em geral, atendendo a padrões padronizados de forma convencional, de acordo com parâmetros a carecer de revisão, tenta atingir um inocente insecto que decidiu descansar no seu órgão olfactivo, com artefacto produzido em contexto artesanal, havendo ainda a possibilidade de, com esse acto, estimular a sua actividade neuronal”.

“Descriminações”

Todos cometemos erros e eu sou daqueles que escreve muito depressa, publica e só depois vai rever (ou alguém me avisa que a dislexia digital atacou em força). Mas quando se trata de documentos oficiais (mesmo que não assinados), com origem no Ministério da Educação, a coisa fica um bocadinho mais feia, até por causa da responsabilidade acrescida da coisa. Neste caso, seria bom que a pessoa responsável da DSTSI, até porque apresenta um mestrado em Ciências da Educação, com especialização em Informática Educacional e se diz que “exerceu diversos cargos em escolas básicas e secundárias, a par da atividade letiva: diretor de turma, diretor de curso, orientador de estágios curriculares, coordenador TIC, coordenador de diversos projetos curriculares e de complemento curricular” (a impressão digital ficou no documento), soubesse usar pelo menos um corrector ortográfico.

Eu não uso, porque escrevo com AO para a escola, sem AO para o resto e com outras grafias quando transcrevo documentos coevos. Mas ficaria bem que não enviassem coisas neste estado para todas as escolas do país. Não se trata de nenhum policiamento ou fundamentalismo da ortografia. É apenas porque quem em poucos anos subiu tantos degraus na hierarquia TIC do ME, deixando para trás pouco mais de meia dúzia de anos de docência, poderia mostrar-nos como se faz mais do que explicar logins.

Acontece? Claro que acontece, mas… fica mal.