Uma Questão De “Prevalência”

O ministro Tiago foi prestar esclarecimentos ao povo pelas 20.15, mas em matéria televisiva só a RTP3 lhe deu antena. Nada de novo, o nervoso miudinho a descompor-lhe ali o canto do sobrolho direito, palavras em rajadas quase em parar, um esforço imenso para dar a entender que isto só é assim porque a “prevalência” do bicho inglês estragou o belíssimo trabalho que ele acha que tem sido feito em grande parte por si mesmo. Há momentos em que quase tenho pena das figuras em que este pessoal se coloca. Não há mordomias ou futuras portas abertas (ainda acaba em “reitor”?) que compensem este tipo de prestações. Ou melhor, há para quem valha, mas somos de estirpes muito diferentes.

(o secretário, claro, anda em modo stealth…)

Escritor/Leitor (E Uns Remoques)

Como merece ir sendo lido, sem pressas, vou saboreando a “novela” autobiográfica de Martins Amis que referi há uns posts (Inside Story), cujo único defeito até ao momento é ter sido recomendado pela Clara Ferreira Alves nos únicos 2-3 minutos a que assisti ao Eixo do Mal no fim de 2020. Mas ido a coisas sérias… escreve ele que o tempo em que o escritor poderia esperar do leitor (alg)um esforço para ir além do que é escrito de forma literal terminou. Agora, ou fica tudo muito explícito, ou a generalidade dos leitores (eu diria que não será a totalidade, mas ele é menos benévolo), ou o leitor recusa-se a fazer qualquer esforço adicional para compreender o que lhes está a tentar ser transmitido. E isso não se nota apenas na literatura. Ao fim de 15 anos de escrita diária em nome próprio (há outros em heterónimo que agora não interessam nada) tenho percebido a que ponto avançou a erosão daquel@s que estão para ir um pouco mais além do que o que fica escrito no branco (literalmente, como se percebe pelo layout), o que me desgosta mais do que deveria, porque nem sempre me apetece (ou posso) explicar tudo por extenso. Este quintal é muito mais pequeno e aconchegante do que o umbigo e, não recusando gente desconhecida, assumi que quem cá passa terá alguma familiaridade com as formas como escrevo e, muito em especial, com as intenções com que o faço. E estranho sempre quem me parece com aquela do “olha, lá está ele a exagerar” (ou modo mais diplomático de dar a entender que estou a distorcer os factos por esta ou aquela razão). E, por acaso, na maioria das situações estou a fazer o inverso, a evitar descrever o que de pior vou tendo conhecimento, porque umas vezes me é confidenciado com pedido de completa privacidade e outras sou eu que acho demasiado mau para ser publicitado assim às claras. Eu sei que há quem coloque reservas (o que é saudável!), mas muitas vezes isso acontece por evidente desconhecimento do que se passa pelo país, em especial em termos de malfeitorias diversas que lá por serem “locais”, não deixam de o ser. Sejam essas reservas colocadas em comentários aqui ou veiculadas em outros “ambientes”, públicos ou semi-privados (tudo acaba por se saber… isto é um país de vizinhanças…).

Portanto, car@s leitor@s, embora eu saiba que a maioria que por aqui passa com regularidade, sabe que o que por aqui se faz não é o que certas personagens menores da nossa vidinha político-educativa quiseram dar a entender mais tempo do que o necessário (em particular, desde o final de 2015), gostaria de deixar explícito (outra vez) que não me move qualquer perseguição pessoal, particular ambição política ou qualquer outra aspiração venial. Escrevo sobre o que sei, que me é relatado com detalhe e clara identificação, e escrevo a minha opinião sobre isso ou outras coisas, sem exagerar para obter efeito, até porque (e repito-me ao ponto de me entediar a mim próprio) se quisesse ser mais “impactante”, fazia coisas simples e elementares para ampliar a divulgação dos blogue e dos posts. Até há manuais e tutoriais para isso.

E quem quiser enfiar o barrete, esteja à vontade. Um dia, eu dar-me-ei ao prazer de colocar o nome às criaturas.

(resumindo, não gosto que me chamem “mentiroso”, de forma mais ou menos implícita ou explícita, em especial por parte de quem tem por prática mentir ou fazer-se eco de mentiras úteis a outrém…)

A “Legislação Vigente”!

Falava ontem com alguns colegas, a pretextos vários, sobre a forma como (não) se têm resolvido situações de acordo com a legislação em vigor, mesmo quando é isso que, informalmente ou em suportes inválidos em termos dos procedimentos mais básicos a respeitar na administração pública por agentes do Estado com autoridade sobre outros, é invocado como razão para certos “actos”.

O problema é que as leis e normativos servem apenas num sentido, mas raramente no outro, não sendo raro que perante pedidos formais (requerimentos, pedidos de escusa, de impedimento ou reclamações perante evidentes atropelos das regras em horários ou funcionamento interno das organizações) surjam contactos informais para tentar resolver as coisas na base da “compreensão”, do “bom ambiente”, do “estamos todos numa situação difícil”. O problema é que isso é o argumento, em regra, de quem sabe que não tem razão, que fez o que não devia, que extrapolou das suas competências ou fez uma leitura abusiva da “legislação vigente”, sabendo que não pode passar a escrito, em resposta para arquivo, aquilo que diz oralmente, mesmo que sinta as “costas quentes” dos serviços político-administrativos centrais da tutela.

O abuso despudorado dos poderes, a tentativa de imposição de soluções de facto, vão a par das tentativas de “sedução” com voz mais ou menos maviosa, para tentarem que se outrem faça aquilo a que não está obrigado e aceite “colaborar” e contribuir para a “solução”. E nem falta, em casos de maior escassez de vergonha, o indecoroso argumento da “pandemia”, do “estado de excepção em que vivemos” e que, pelos vistos, serve para justificar todos os desmandos.

E quase tod@s @s colegas com que falei sentem-se indefesos perante isso, desanimados com os efeitos de qualquer resistência, reclamação ou recurso, sendo poucos os que ainda exigem que tudo seja colocado preto no branco e que a “legislação vigente” seja claramente referida e extensamente citada ao que se aplica e não como muleta automática de operacionais que muitos de nós ouviram clamar contra tudo e mais alguma coisa, até o seu lugarzinho à volta do tacho estar em risco. Porque as leis podem ser “flexíveis” para umas coisas, mas não para outras. Ou vice-.versa, conforme as conveniências de quem acha que defeca d’alto e só borra os outros.

Sim, o exemplo vem de cima. Mas não é justificação. Muito menos o aceitarem-se conselhos em off para agirem assim ou assado, apenas para entalarem o próximo e o distante, caso não colaborem a bem (a tal abordagem sedutora e maviosa) ou a mal (as ameaças de procedimentos disciplinares e imposição da lei da rolha).

E o que descrevo cada vez são mais a regra do que excepções.

A Desconfiança

Já escrevi várias vezes sobre a importância da credibilidade e da necessidade de confiança em quem governa ou em que surge publicamente a prestar “informações” ou a fazer “recomendações”. Seja na questão pandémica, seja nas suas ramificações, por exemplo, nas escolas.

A confiança perde-se quando as cabeças falantes dizem agora uma coisa e depois outra, sem explicarem claramente o porquê ou admitirem que antes erraram ou divulgaram conselhos que já então sabiam não ser os mais ajustados. Ou quando nos estão a tentar convencer que aquilo que estamos a ver não é o que estamos a ver. Ou que só sabemos o que nos rodeia e eles é que sabem tudo. Os últimos meses foram de comunicação política eficaz no curto prazo, mas algo desastrosa numa perspectiva menos míope.

Não é de espantar que os indicadores de confiança na resposta à pandemia estejam em acelerada erosão. Da senhora da DGS ao PR, passando por todo um leque de personagens mais ou menos secundárias, já tudo foi dito e o seu contrário também, mais umas posições intermédias. Se em alguns casos isso resultou do avanço dos nossos conhecimentos, em muitos outros dá para perceber que foram apenas umas mangueiradas para tentar apagar fogos que, percebia-se, mais tarde ou mais cedo reacenderia.

Lamentável é que muita gente ainda reaja a estas coisas com base na cor da camisola, como a sondagem revela. Porque há mesmo quem tenha abdicado de pensar por si mesmo, preferindo ser encaminhado pelos pastores do rebanho a que aderiram há muito, como se fosse traição imensa o que apenas revela alguma inteligência, ou seja, perceber que sobre a pandemia tem predominado a “comunicação política”. Muita dela desastrada, incoerente e, principalmente, desajustada, por pensar apenas no prazo curto. A verdade é que se está a perceber que a abordagem casuística não chega. Que apelar nuns dias à precaução, enquanto nos outros se trata como se fosse cobardia quem se quer precaver ou se tomam medidas que dificultam qualquer precaução mínima, é meio caminho andado para se perder a credibilidade e, mais grave, deixar grande parte da população desorientada ou mal orientada.

Vamos atravessar um período pior do que o vivido entre Março e Maio. Não adianta muito lançar às 2ªs, 4ªs e 6ªs apelos à “responsabilidade” e agir nos restantes dias de forma irresponsável. Ou tentar ocultar ou manipular informação. Ou estarem mais preocupados na forma como se vão alambazar com os milhares de milhões da bazuca do que no que podem fazer de útil com eles, para além de estudos de opinião, consultorias ou campanhas de comunicação.

É muito dinheiro, mais uma vez, para ser encaminhado para as escápulas do costume. Tudo se parece encaminhar para mais uma festança à tripa-forra dos cortesãos ou eminências pardas do regime, enquanto se minguam os “gastos” com despesas mais do que justificáveis. Ou se atrasam pagamentos com base em procedimentos que o povinho tem muita dificuldade em seguir sem ter quem “interceder”, cobrando avultada comissão. Se o dinheiro é para responder aos efeitos da pandemia, não é para meter nos bolsos, novamente, de escritórios de advogados, consultoras ou empresas criadas de propósito para o efeito, com as conexões certas e o recrutamento adequado do pessoal a ser pago.

É que já vimos este filme muitas vezes. O que admira é que ainda reste alguma confiança, sem ser nos que já estão com a conta aberta para as transferências, enquanto a maioria está de mão estendida.

Uma Questão De Liberdade?

Sim, podemos prescindir de regras básicas destinadas a travar contágios e a maioria sobreviverá. Morrerão os mais velhos e mais frágeis, mas isso até apurará a raça, desculpem, a Humanidade, certo? A sobrevivência dos mais fortes. A destruição criativa.

Sim, podemos prescindir de fechar escolas ou de mandar a miudagem para casa, para que os pais possam trabalhar em paz. Ou ficar em paz, em certos casos, porque há entre quem protesta muito, gente desocupada, que não se deve confundir com desempregada. Ou que até pode trabalhar em casa, mas estar com os miúdos o dia todo é uma chatice. Até podemos, contra o “pânico injustificado”, reservar informação e dar espaço aos boatos, podendo tudo acabar nisto.

Mas, depois, se as coisas correrem pelo pior a quem defende isso, acham que ficarão calados e não quererão apurar “responsabilidades”? Sim, porque muitos dos primeiros a clamar por “liberdade” contra a conspiração global das máscaras e do confinamento, serão dos primeiros a apontar o dedo. Aos outros.

Infelizmente, Esta Parece Ser Agora A Regra (Ou O Grau Zero Da Decência)

Estado nega apoio a recibos verdes com regra que não está na lei

Agora reparem na notícia de há perto de dois meses sobre o mesmo assunto:

Segurança Social vai corrigir indeferimentos de apoios a recibos verdes

Culpa-se a base de dados num primeiro momento e no segundo usa-se uma “regra” que não existe na lei.

A ADSE (mas não só) anda pelos mesmos caminhos… tudo o que pode evitar pagar ou empatar, mesmo aplicando regras retroactivamente sem qualquer pudor.

A ordem deve ser para, sempre que possível não pagar, e esperar que o cidadão se canse.

Em caso de necessidade, há sempre a possibilidade de, indo a Tribunal, existir um juiz complacente como aquele que deu à administração a competência para determinar que uma copulativa não copula.

Shame

(tenho estado a ver o mundial de snooker… perto do fim de um jogo que poderia significar a perda do acesso à meia-final, pois perdia por 12-10 à maior de 25, Mark Williams toca com a mão numa bola e avisa o árbitro, que nada vira tal como o adversário e mesmo nós na repetição televisiva temos dificuldade em perceber, da falta cometida… e a seguir mudo de canal e vejo a notícia acima e percebo tudo o que separa gente decente desta gentalha que nos “administra”…)

“Atendendo Ao Número De Chamadas Em Espera, Esperamos Atendê-lo Em Cerca De Dois Minutos”

Cerca de 35 depois, desliguei, porque as músicas que colocam nestes casos são quase sempre irritantes para estarem em alta voz, enquanto esperamos. Mais de dois minutos foi apenas para me explicarem todas as opções que tenho para os contactar e que teclas usar. A mim, bastava clicar no 1 desde o início. E é isto o mundo da “economia digital” de – claro – uma grande empresa de comunicações à distância, net, fibra com olhos e tudo o mais.

O século XXI começou há 20 anos, mas não consta dos registos.

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