Primeiro, Vieram Com As Aprendizagens “Essenciais”…

… agora querem impingir as habilitações “mínimas” para se dar aulas, nomeadamente de disciplinas como Português, porque pouco se precisa saber para ensinar quase nada e entreter a miudagem até ao 9º ano e quem diz 9º ano até pode dizer 12º.

O ministro Costa irá levar, se assim o deixarem, este mandato a ser o coveiro da Educação Pública, com a complacência de muita gente. Ao ministro Costa, tão amante da Educação, dos alunos, dos professores e das “aprendizagens” e de tudo não incomoda quase nada na sua missão de terraplanagem dos “saberes enciclopédicos”. Mete os pés pelas mãos, atira propostas ao ar e depois manda esclarecer que o flato que que cheirou mal não foi ele que deu. e não há nada como ler que Título e notícia alterados na sequência de esclarecimentos do Ministério da Educação, sendo que nada de verdadeiramente significativo foi esclarecido, a não ser que que se manda dizer que o patamar é o “mínimo”, como se isso não significasse, como no caso das aprendizagens “essenciais”, que o objectivo é que seja a norma. Que não arrepiará, por certo, aquel@s director@s com ligação privilegiada ao governante, que tanto clamam por “olhares novos” sobre o recrutamento dos docentes, ao mesmo tempo que querem apagar a existência de rankings que revelem que andam a vender pardal por perdiz.

Parecendo que não, tudo isto está ligado, porque a rede da mediocridade está já fortemente instalada nos circuitos dos poderes centrais e locais e em processo de acelerada sedimentação.

Sábado

A absoluta desordem. Uma maioria que deveria começar com algum ímpeto, discordemos do sentido das políticas ou não, começa a esboroar-se por dentro, incapaz de apresentar um programa consequente para acudir às situações de maior emergência pós-pandemia. Na Educação, medidas avulsas, sem critério, para resolver uma situação de carência pelo lado errado (parece que não perceberam que não é falta de gente certificada, mas sim de condições de atracção da carreira, mesmo para os que cá ainda estão); na Saúde, uma completa subordinação a interesses privados (mascarados com uma multa aparecida nos últimos dias que, mais mês ou ano, acabará reduzida a décimos em disputas judiciais, nas quais só ganharão os escritórios de advogados contratados, á vez, pelas partes), com os quais se contratualizam a preços exorbitantes os serviços que se pagam a custo mínimo a quem está no SNS; na Justiça, o contínuo prolongar de processos que, mais ou menos percalço, já se percebeu que acabarão, na instância adequada, com a decisão esperada pelos arguidos; nas Obras Públicas, o conflito entre as clientelas (centrais e locais) ávidas dos milhares de milhões. Tudo misturado com uma “descentralização” manhosa e a erosão permanente do poder de compra da maior parte da população, dizem que por culpa do Putin (uns) ou do Zelensky (outros).

Uma maioria rapidamente à deriva, num país há muito sem rumo. E depois a culpa é dos “populismos”? Mas quem é que prometeu a Terra da Cucanha à esquina e só serve casca seca de amendoins?

Se Até Os Liberais Capitalistas Da Gallup E Da Harvard Business Review O Dizem…

Pensava que era só pelos meus lados, mas parece que não. Pelos vistos, @s alegrinh@s e pipilantes (que @s há, mesmo quando encenam cenho franzido) é que devem ter algo para nos explicar.

Stressed, Sad, and Anxious: A Snapshot of the Global Workforce

While some leaders may feel like things are beginning to return to normal, data from Gallup’s new State of the Global Workplace report suggests that the emotional side of work has not healed from the pressures of the last two years. Under the surface, people around the world are stressed and anxious: 44% of employees say they experienced stress a lot during the previous day.

These negative emotions are at a new high. In 2020, the world’s employees saw an increase in stress, worry, anger, and sadness. In 2021, worry, anger, and sadness remained above pre-pandemic levels, and stress continued to climb to a new high.

Então, Dia 21, Lá Irei Vigiar…

… a inútil prova de Matemática para alunos do 9º ano. Eu e mais outro colega na mesma sala, mais umas dezenas pela escola, acrescendo o pessoal suplente, o secretariado e mais a polícia que traz e leva as provas e depois os classificadores (codificadores?), tudo multiplicado pelo país para fingir que se está a fazer alguma coisa a sério. Porque até os alunos já perceberam que é um total fingimento. Ao não terem consequências na progressão dos alunos e os “resultados” só chegarem às escolas no início do próximo ano lectivo, desaparece qualquer efeito com interesse para os alunos que fazem estas provas, pois no caso das Básicas até ao 9º nem sequer lá estarão, na sua esmagadora maioria (só algum distraído que fique retido, mas esses quase nunca aparecem sequer). E mesmo no caso de Secundárias, para quem for para áreas de estudos sem Matemática, é a mesma coisa em termos de utilidade zero. Ahhh… deixam ensinamentos para os alunos dos anos que ainda aí estão por vir… sim, pois, mas para isso não chegará “maiar” no sentido do sucesso?

Estas pseudo “provas finais”, que só servem para “aferição”, são a preparação para a eliminação de qualquer avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico, de modo a regredirmos até ao início dos anos 90 do século XX, quando esta clique ideológica já estava quase a passar do primor da idade (e agora, tirando o seu ministro Costa, já estão bem para lá do prazo de validade dos danoninhos em termos de “inovação” intelectual). E depois teremos psicólogos como os de ontem a recuperar as teses da Educação finlandesa de então, associando-a a níveis de felicidade míticos e de desenvolvimento humano que esquecem todo o contexto envolvente e um espírito ético que (mesmo que Weber não estivesse plenamente certo) por cá escasseia mais do que professores abaixo da trintena.

Mas lá irei eu (mais o colega contratado, acima da quarentena) “vigiar” algo que é de uma inutilidade atroz e que só servirá para que este envelhecido professor perca duas horas da sua vida, enquanto reprime a vontade de perguntar a quem aparecer, porque raio se deram ao trabalho de o fazer. Acaso serão éticos finlandeses disfarçados de descontraídos latinos? Lá irei vigiar uma prova que espero consiga ter sido feita sem necessidade de erratas de última hora, prova essa que, com todas as outras feitas este ano no Básico, servem mais para justificar parte da existência do Santo Iavé do que outra coisa. Não sei se, como em ocasiões anteriores, com o calor que está, os alunos só poderão levar garrafas de água descaracterizadas, para não fazerem as cábulas que o próprio enunciado fornece em forma de formulário.

Isto é tudo muito parvo, mas, como escrevi, é uma necessária fase preparatória para o decretar do fim definitivo de qualquer prova externa no Ensino Básico que não seja “de aferição”. A pandemia, a este respeito, foi mesmo uma “oportunidade”. Pena é que me façam perder duas horas da minha vida que podia levar a ler um bom livro ou a observar o movimento das nuvens ou poeiras no céu azul. Como dizia uma pessoa da minha família, gente do antigamente, “mais valia estar a ***** em pé do que a fazer isso”, se é que me é permitido o plebeísmo arcaizante.

Já Que Chegámos Até Aqui

Aguentemos até ao final. A preparação do próximo a o lectivo vai-nos revelar até que ponto chega a pressão da tutela para as soluções únicas e o fim de qualquer verdadeira autonomia. Antecipo uma certa guerra de trincheiras, que nada tem a ver com as greves gerais, mas sim a necessidade de guerrilhas locais, se queremos manter algumas bolsas de irredutível sanidade e lucidez, não terraplanadas pelos truques formais e pelo relativismo da pós-verdade costista.

Porque, não tenham qualquer dúvida, entrámos num período de vale tudo a que só falta a cara azeda da “reitora”, que nem em público escondia os humores.

6ª Feira

Vão ser, tudo o indica, cerca de onze anos de costismo educacional, o que significa um prolongado e quase irreversível mergulho em algumas das mais deploráveis concepções da “educação do século XXI”, construídas a partir de um conjunto de teses do início da segunda metade do século XX, que por cá vieram mais à superfície nos anos 70 e 80. A década cavaquista bebeu em parte também nessas fontes, mas ao menos com Roberto Carneiro havia alguma coincidência entre o tempo mental e o tempo cronológico. agora, por muito que falem em gamificação e digam que os zingarelhos são o futuro (já foram, agora são o presente), andamos todos os anos a ficar atrasados em relação ao tempo real. Quando chegarmos a 2026 estaremos ainda, em temos intelectuais, no máximo em 1996 e quando falo em 1996 nem sequer falo em Marçal Grilo, mas nas segundas linhas de então.

Mas vai ser um tempo bom para o “mercado da Educação”, algo que sempre existiu, apenas mudou parcialmente de “actores”, conforme as conjunturas. O período da troika trouxe alguns realinhamentos, mas desde 2005 que, com esse interlúdio, se foi tudo acomodando ao que vinha de 1995 e ao discurso do “sucesso”. Há nomes que são transversais a várias décadas e outros que se foram juntando e agrupando em nichos que são tertúlias preferenciais do poder que está.

Tanta conversa porque ontem dei de caras com este evento maravilhoso que nos mostra o perímetro e indica um dos centros maiores da Situação em Educação, explicando a recuperação da “reitora” e o circuito preferencial dos oleodutos financeiros em termos de “Academia”. Só sinto aqui alguma falta de certas personalidades que se esforçaram muito por #sersolução.

Carreiras

Já se percebeu que vem aí revisão do ECD e pelo caminho uma eventual reformulação da carreira docente. Podemos perder-nos em detalhes, mas existem duas questões centrais a tratar. Uma é do interesse maior do poder político que está, tem estado e estará e outra da classe docente.

Do lado do poder político existe o interesse já muitas vezes confessado de “aplainar” a carreira, reduzindo o número de escalões e aumentando a sua extensão temporal. A decisores políticos ou representantes de grupos de pressão li e ouvi com estas orelhas de tísico em primeira mão, que o desejo seria no sentido de tornar mais “previsível” e espaçada no tempo a progressão salarial dos docentes por razões orçamentais. O que é meio falaccioso porque os docentes vão progredindo à medida que cumprem os requisitos legais e não toos ao mesmo tempo. Não é de 4 em 4 anos que todos progridem. Parece que o modelo desejado seria o de 6 ou 7 escalões de 6 anos. Com o que discordo por diversas razões, sendo que uma delas é o facto de esse modelo ser muito menos “progressivo” e implicar degraus maiores, seja no tempo, seja no eventual acréscimo salarial. Com toda a sinceridade, preferiria muito mais uma carreira até com mais escalões, com menor espaçamento temporal e menor progressão salarial em cada degrau. por exemplo, 12 escalões de 3 anos podem ser operacionalizados da mesma forma, com a mesma base e topo e permitindo uma subida progressiva na carreira, permitindo uma maior motivação. Sim parece um número excessivo de escalões, mas também podemos ficar pelos 8, dos quais a primeira meia dúzia de 5 anos e os restantes de 6, mais ou menos acerto de contas.

Do lado dos docentes há a questão inamovível das quotas colocadas para a progressão e de um modelo de avaliação do desempenho docente que não reconhece qualquer mérito que não seja transformável em “evidências” concentradas anualmente em relatórios de 3 páginas que, no seu espartilho, depois só servem para entalar quem é avaliado. Se faz considerações gerais ´e mais teóricas sobre os seus métodos de trabalho é porque não especificou; se especifica em detalhe é porque não produziu uma reflexão adequada. Tudo isto cozinhado em moldes que variam daqui para ali, acolá com descritores ao milímetro, acoli com quase total ausência de referenciais úteis para qualquer avaliação. Para além de que temos o paradoxo de um exacerbado culto do sucesso para os alunos que, se tiverem a triste ideia de ir para um curso de formação de professores, lhes é negado ao chegarem à vida profissional activa. Por isso mesmo, a questão da progressão com base no sistema de quotas é um tema desagradável a todos aqueles que de forma demagógica falam naquela de nem todos poderem chegar a generais sem a devida avaliação, a menos que seja na carreira de reitora do ISCTE. Sim, esta é uma canelada dirigida, porque é na prática que se vê a coerência de certa gente. Como quem, dentro da própria classe docente, não quer entender que cortar o horizonte de progressão em troca de migalhas, é um frete que a tutela agradece de mãos estendidas. O sistema de quotas para a progressão está errado, porque se baseia, há 15 anos, em argumentos falsos, muitas vezes repetidos.

Sim, claro que há a questão do recrutamento, das condições de acesso à docência, dos concursos, da definição de vagas, do cálculo do horário lectivo real, das reduções para o exercício de certos cargos, do tão criticado artigo 79º por parte de quem dele acha não vir a precisar, do próprio conteúdo funcional da docência que não pode ser invadido por obrigações de tipo administrativo para poupar no pessoal dos serviços administrativos. Mas aquelas duas questões mais acima serão as que vão concentrar a polémica. Haverá a tentação para fazer “trocas”, “negociatas”, “entendimentos”, mas uma coisa parece-me clara: ninguém começa uma negociação assumindo como sua uma posição que é tida como central para o “outro lado”.

E há ainda um par de aspectos essenciais na “metodologia” desta discussão: as decisões não devem ser tomadas com a pressão das vistas curtas do momento ou tendo em vista situações particulares, como aconteceu em diversos momentos da história da carreira docente, dos concursos, da regras de progressão, de vinculações, do próprio estatuto. O assunto é demasiado sério, envolve demasiadas vidas profissionais, para que um enquadramento legal global tenha artigos, alíneas ou vírgulas destinadas a resolver a vida de um pequeno grupo, seja ele qual for, nem contra qualquer outro grupo, maior ou menor. Isto não é um jogo de prós e contras. Ou melhor, não deveria ser. E muito menos deixado ao quase livre critério de quem não gosta muito de ver as salas de aula a partir de dentro, com a petizada lá dentro.

5ª Feira

O Paulo ainda tem esperanças que, da exposição racional de argumentos, possa resultar uma alteração de políticas ditadas por preconceitos, maus humores, fraca “ciência” e muita demagogia (texto completo, sem exclusivos em cima de contributos graciosos aqui). Eu já entrei em processo de desistência, até porque o tempo se nos vai surgindo como mais precioso à medida que fica mais para trás. Não é desistir das causas, calma, é apenas desistir de esperar algo de gente que, de vários quadrantes, se poderia agremiar em dois opostos vocais, do género Chega de/para Professores, ou Iniciativa para (acabar com) os Professores. Entre a gritaria e a hipocrisia. Do que decorre que acho que deve ganhar o hipócrita que adjective mais alto.

Quanto ao Partido Socialista, esperanças nenhumas. Preferem as “famílias” que os docentes são todos orfãos, celibatários e estéreis.