Pensamentos Da Pandemia – 11

Há quem elabore teorias sobre a forma como “sairemos” desta situação de pandemia e como isso vai influenciar a Humanidade e a forma de sermos e nos com portar os, como se grandes alterações fossem acontecer e tivesse acontecido uma mudança radical em menos de um punhado de meses na natureza humana. Talvez isso aconteça a uma minoria. Mas quem já tinha um fundo bom, de compreensão, empatia e solidariedade, assim continuará e até poderá melhorar, mas quem o não tinha, muito dificilmente se transformará numa madre teresa ou num mandela. Basta olhar à volta… a proporção de comportamentos idiotas ainda se nota mais, agora que há linhas que separam com maior clareza o bom senso da imbecilidade. Antes ainda poderiam beneficiar de fronteiras difusas entre o aceitável e o estúpido. Agora, fica tudo bem à vista.

Human

(disclaimer: i’m no mandela…)

A Lusitânia Já Foi Toda Tomada?

É uma página rodeada de sete outras, em tons de cor de rosa, de loas e elogios à solução encontrada, à bondade de tudo e mais alguma coisa e auto-congratulação do seu principal mentor no JL/Educação deste mês. Um tipo olha à volta e sente-se quase tão solitário quanto nos tempos dos primeiros artigos para o Público em 2008.

Mas enquanto puder, vão ter de me aturar.

(…)

Quem cometeu o erro de usar grupos do WhatsApp para estabelecer uma linha imediata e rápida de comunicação com os alunos, viu-se obrigado a desativar o som das notificações ao fim de pouco tempo, ao perceber que os “horários” para enviar dúvidas ou comentários, nem sempre muito propositados, não respeitam nenhuma parte do dia ou noite. Para quem fez isso com duas ou mais três turmas começou a amaldiçoar o momento em que comprou o smartphone. Pelo que uma das prioridades deveria ter sido a da inclusão de aulas para desenvolver as competências dos alunos em ambientes ditais de tipo educativo, não chegando aceder à primeira página do doutor google ou à página da doutora wikipédia.

(…)

A forma como a área artística das Expressões volta a ser menorizada é coerente com o modo como o currículo, que se afirma pretender que os alunos desenvolvam competências estéticas e humanistas, tem maltratado em todas as mais recentes reformas as disciplinas ligadas às Artes e Humanidades, como se fossem uma espécie de resquício de um passado arcaico, sem interesse para o futuro digital e cibernético.

A Filosofia foi truncada no Ensino Secundário, a História e a Geografia passaram a ser servidas, por quem assim entende, em fatias semestrais no 3º ciclo do Ensino Básico. A Educação Musical está reduzida a dois tempos semanais e restrita ao 2º ciclo do Ensino Básico e quem a quiser explorar terá de recorrer a instituições exteriores ao ensino público. A Educação Visual e Tecnológica foi desmembrada no 2º ciclo e agora as suas componentes desaparecem, enquanto disciplinas autónomas, da versão televisiva/digital do currículo do Ensino Básico.

Se estes são sinais do que será um futuro currículo para os tempos digitais, são péssimos sinais para todos os que querem uma verdadeira Educação Integral das novas gerações.

JL 22Abr20

Nem Sempre Gostamos Do Que Os Espelhos Reflectem

Há um discurso anti-redes sociais com uma fortíssima componente demagógica e uma muito pouco menor de hipocrisia. E não falo apenas de ser gente que lá passa muito mais tempo do que eu a dizer mal do que lá se passa. É mais daquele género de postura “ética” a dizer que as redes sociais são uma espécie de antro do pior que existe na natureza humana e nisto incluo pessoas que até estimo bastante à distância, mas que me parecem desligadas da vida do país e que confundem o seu casulo particular com a Humanidade em geral. Ou então também não frequentam, por pouco que seja, cafés ou outros espaços públicos de convívio, o que inclui filas nos postos de correios, serviços públicos ou supermercados. A única diferença é, no essencial, a impossibilidade de se verem memes a partir do que as pessoas dizem, embora eu consiga vê-los nas suas caras.

Sim, há muita estupidez nas redes sociais, porque também há muita estupidez à solta por aí, mas, curiosamente, não foi nelas que nasceu a falsa notícia da primeira morte por covid-19 em Portugal. Foi num canal alegadamente noticioso e nem sequer a tão criticada CMTV. Assim como foram canais noticiosos tidos por fidedignos que multiplicaram a notícia de um inexistente estado de coma do escritor Luís Sepúlveda.

Claro… há as palermices em torno do mau uso de lixívias ou vinagre para matar o vírus ou tantas outras coisas da ordem das velhas mézinhas de outros tempos (poderia contar-vos uma de uma avó minha para resolver a obstipação que envolvia um talo de couve e… bem, fiquemos por aqui, restando dizer que só a ideia da concretização me faria ficar curado de qualquer pandemia). Mas não me parece que sejam coisas específicas das redes sociais, as quais são feitas do que as pessoas lá colocam.

As redes sociais são um espelho dos seus utilizadores, gente com banda larga, smartphone e nem sempre com apenas o 4º ou 6º ano de habilitações. Por observação directa, garanto que há gente bem certificada e mesmo com posições relevantes na sociedade que propaga mentiras de forma consciente em plataformas de que depois diz mal em conversas “inteligentes”. Nos últimos dias, foi um rodopio de candidatos a spin doctors ou a spinners, já não sei. E as ânsias censórias partem de muitas direcções, baseando-se tanto na ignorância como na sapiência mais sapiente. Num caso, ainda podemos explicar as coisas pela falta de (in)formação; mas no outro, apenas pela falta de carácter ou, hipótese muito válida, por ser muito incómodo o retrato/reflexo que as redes sociais fazem do que a sociedade é, pós-moderna no verniz, mas tacanha ali logo uns milímetros abaixo.

espelho

Exclusivo Cósmico – A Transcrição De Uma Hipotética Reunião De Um Gabinete De Inexistente Emergência/Crise – Parte 1

Aqui o Quintal, através de poderosas ferramentas de espionagem rural, conseguiu aceder à gravação em banda magnética analógica (cassetes basf das boas, com caixa prateada e tudo) da reunião ocorrida ontem por esta hora no Palácio do Santo Benzido, com a presença do primeiro dos ministro António de Costas (AC), do seu desconhecido chefe de gabinete (FA), do ministro do Eurogrupo, Mário das Centenas (MC), do ministro da Inegurança Social, José António Vieiras e Silvas (VS) e sua filha Maria Ana (MVS), do ministro de qualquer coisa política, Pedrinho Nuno e Santos da Casa (PNS), do ministro da Propaganda e Negócios Estrangeiros, Augustíssimo Santos e Silva (SS), do ministro virtual da Educação, Tiago com Brazão dos Rodrigues (TBR), do ministro da Economia, o outro Siza Vieira (SV) e ainda de um secretário de Estado para levar o guarda-chuva do PM, Tiago Antunesinho (TA) e de uma senhora com um cargo importante no PS por impedimento do esposo, Ana Catarina Mentes.

O registo, pela sua natureza, tem muito ruído que pode ter causado erros de transcrição e eventuais omissões do que possa ter sido dito em voz baixa ou transmitido por bilhetinhos ou por mensagem em suporte moderno, dito digital para os leigos.

Início da primeira cassete. Hora: 10.45. 

(ruído de papéis, cadeira a arrastar, disparos rápidos de máquina fotográfica).

AC: Vamos lá a começar, tomem as vossas posições para as fotos, pá. Temos de dar uma imagem de unidade, firmeza, trabalho e força. Vá lá, sentem-se, ponham um ar de seriedade e de quem tem uma crise séria para debelar. Pensem na Síria, pensem na Venezuela, pensem em Winterfell antes da grande batalha.

PNS: Senhor PM, eu vi o episódio, quer que faça ar de John Snow?

AC: Do que é que está a falar? Senta-te, pá. A única coisa que te mandei fazer, que era acalmar as tipas do Bloco, tu não conseguiste. Senta-te direito e cala-te quando eu não falar contigo, que já me desiludiste o suficiente.

MC: Senhor PM, eu tenho aqui as minhas contas… com quadros e tudo.

AC: Mete-as à vista, aí em cima da mesa.

Várias vozes: já estamos sentados, senhor primeiro dos ministros, e agora?

AC: Agora deixem-me ver se apanho o Augustíssimo que nunca mais aparece, ele é que percebe bem destas coisas, nunca mais me esqueci de quando ele em 2008 disse que os professores nem sabiam distinguir o Salazar dos democratas. Grande homem, ele é que nos vai esclarecer sobre o rumo a ter. Eu é mais cataplanas.

SV: Senhor primeiro dos ministros, amigo, o que estou eu aqui a fazer? Eu sou da Economia, que já me custa a perceber…

AC: Cala-te, pá. Estás aqui porque eu precisava de ter gente suficiente à volta mesa para as fotos do Instagram. Os baldaias e os tipos do jornal do meu irmão não me largam a pedir uma imagem para colocar online. Queriam que ficasse aqui com meia dúzia de gatos pingados? Não pode! Senta-te direito, olha para mim com ar compenetrado e podes ficar sem falar nada como o Pedrinho. Ó Vieiras, tu que meteste os gajos na ordem em 2008, o que é que me dizes enquanto não chega o Augustíssimo? Arranjas-me aí para uma frase para os achetagues do Insta?

VS: Mmmmrrrffff…. ahrum, ahrum…  (sons de bocejo), o quê, o que se passa?

MVS: Paizinho, acorda, já começámos, olha o António…

VS: Hã…? O quê? O Carvalho das Silvas já chegou? E o das Nogueiras? Tenho sono…

AC: Rais parta isto que ninguém leva esta crise a sério e o Augustíssimo que não me aparece.

MC: Eu tenho aqui as minhas contas…

AC: Já sei, já sei, 250+600 igual a 800 e tal… só não percebo porque não chegaste aos mil milhões, era bem mais fácil.

MC: Posso tentar, rmrmrmrm, vou ver se faço aqui mais umas contas.

ACM: Posso dizer alguma coisa, em termos de coordenação política?

AC: Hmmmm? Olha-me outra! Fica aí sossegada que é preciso outra foto e dá jeito colocar alguma igualdade de género no topo da mesa. Não é para sorrires, isto é sério, faz a cara que fizeste para o Espesso. Assusta qualquer um.

(som de porta a bater, passos)

AC: Ahhh… finalmente! Augustíssimo. Nunca mais chegavas…

SS: Então, camaradas, tudo bem? António, estava aqui com o Pater Cesare ao telefone que diz que isto das demissões lhe está assustar uns quantos primos e enteados de amigos e pergunta se isto é mesmo a sério porque ele tinha umas ideias para mais umas quantas associações cívicas…

AC: E a sério, é a sério. Tem de parecer, temos de meter estes ingratos no lugar, pregar-lhes um susto. Querem lugares nas câmaras ou verbas para projectos? Vou já avisar o Merdinas que acabam os tachos à discrição. Acaba-se já isso. Temos de ser firmes e mostrar que defendemos a Escola Pública e não interesses corporativos de uma gentinha sem nível armada em doutores. Lá porque tiraram um curso já acham que podem ganhar acima de um dos meus motoristas.

TBR: Ouvi falar em Eshcola Pública? Exchelentchimo shor primeiro dos ministros, eu tenho aqui umas ideias muito boas para emagrecer já os shenhores profeshores, tirando as amigas lá de casa que já eshtão pró velhote como a shodona Maria do Céu, coitada. Mete umas bishicletas e uns patins para quem quiger progredir…

AC (som abafado): Mas que raio fiz eu em convidar este tipo. (em tom alto) Ó Tiago, pá, tu és outro que só me desiludiu, então não era suposto controlares o das Nogueiras? Não tinhas autorização para gastares em mais do que água e bolachinhas de água e sal para as reuniões?

TBR: Shor primeiro, eu bem que tentei, mas ele disse que era mais bitoques ali na esquina e que tem saudades de uns copos no metro e meio e eu estou a ver se emagreço. E shempre o tratei por shor professor das Nogueiras, que é dos tempos das amigas lá de casa por quem tenho o mais reshpeito. E ele diche quage sempre muito bem de mim nas entrevishtas…

(ouve-se o som de olhos a revirar de forma repetida, claramente de AC e SS)

Fim da primeira cassete. Hora: 11.30. 

(continua…)

Animalfarm

 

 

 

 

Dissonância Completa

O secretário de Estado João Costa dá uma entrevista ao suplemento de Educação do JLetras na qual, com a previsibilidade esperada, elogia imenso o que tem feito e o que será feito, se seguirmos as suas iluminadas orientações que ele insiste muito em dizer que são assentes num enorme “diálogo” com as escolas, os directores e os professores. As palavras são bonitas, como sempre, mas eu concentro-me nos actos e é neles que não vejo correspondência com a retórica humanista.

Está em decurso uma não muito explícita guerra em torno do currículo (nomeadamente do Básico), com evidentes ganhos por parte de uma concepção utilitarista da Educação, que nega alguns dos elementos que ao longo dos tempos mais distinguem o ideal clássico da Paideia como educação integral do corpo, mas em especial do espírito.

Foi sobre isso que escrevi nesse mesmo suplemento e de que agora transcrevo um excerto.

Atenas vs Esparta?

A situação que vivemos de combate pelo domínio do currículo do Ensino Básico lembra uma espécie de luta entre o modelo educativo ateniense, baseado na Filosofia e no culto do Espírito (incluindo as Ciências e a Matemática, sem descurar o corpo e as áreas mais técnicas), e o modelo espartano, assente no culto do corpo, da força e do seu utilitarismo guerreiro.

A primeira disciplina a ser trucidada nestas “guerras do currículo” foi a Filosofia, menorizada no Ensino Secundário perante outras áreas que associo mais à promoção de estilos de vida do que a ensinar a pensar e muito menos criativamente. É para mim impensável que um aluno possa entrar num curso superior na área das Ciências Sociais e Humanas sem que a Filosofia faça parte do seu currículo obrigatório para esse acesso. Em boa verdade, a Filosofia, como disciplina estruturante do pensamento, crítico, criativo ou outro, deveria ser considerada obrigatória para qualquer candidato à Universidade, mas parece que isso é cada vez mais tido como arcaico.

O alvo seguinte, ao nível do Ensino Básico, tem tentado centrar-se na História, que se gosta de apresentar como coisa só de memorização e cheia de coisas inúteis para o presente. O cerco tem tido avanços e recuos, mas não tem parado, beneficiando de algumas inimizades de proximidade com posições chave na definição do chamado “desenvolvimento curricular”. Se perguntarem aos governantes se isto é assim, negarão e poderão mesmo dizer que eles são os maiores defensores das Humanidades e até devem ter alguma História do Círculo de Leitores nas estantes para confirmar a sua devoção. Filosofia e História são disciplinas “malditas” para os cultores do Agora, do Futuro, do Homem Novo Saudável e Tecnológico a quem não interessa como aqui chegámos e detestam que alguém lhes relembre que a fatiota agora desempoeirada é velha e, pior, que se tenha a capacidade para o demonstrar sem a wikipedia à mão.

IMG_5481

 

Aulas Digitais

Temos hoje ao dispor um manancial de recursos que permitem tornar as aulas algo completamente do que foi em tempos e esse “em tempos” é tantas vezes apenas 15-20 anos. Embora nem sempre as redes ajudem e os bloqueios ministeriais e locais sejam por vezes de bradar aos céus (é impensável, por exemplo, que me bloqueiem o acesso a sites destinados a criar banda desenhada online como o Pixton quando ouço governantes a clamar por inovação e utilização das tiques), temos agora possibilidade de mostrar com bastante qualidade e detalhe muito do que antes era apenas transmitido pela palavra. Acho que já por aqui escrevi o prazer que dá leccionar certas matérias relacionadas, por exemplo, com a Arte e poder mostrar quase todas as obras imagináveis sob os mais diversos ângulos, entrar nas grutas de Lascaux ou na Capela Sistina em 360º, analisar pormenores a cores de pinturas que eu aprendi a apreciar a preto e branco ou em cores meio-coiso em edições de outros tempos (a História da Arte do Janson editada pela Gulbenkian nos anos 70 do século passado é um bom exemplo de um grande livro que agora é visualmente arcaico).

Claro que isto só funciona se existir o gosto e o prazer por partilhar esse mesmo gosto e prazer. Claro que um calhau será sempre um calhau, pelo que quem antes não conseguia encontrar transmitir grande coisa a preto e branco dificilmente se tornará um diamante da comunicação a cores. Mas esse é um outro problema, A tecnologia é um poderoso meio para melhorar e expandir o que antes era limitado. Mas não a parte humana da coisa. Pessoal e profissionalmente, as tiques têm-me facilitado muito o trabalho. Na parte técnica. Que vai muito para além de inserir o cd (antes) ou a pen (agora, enquanto as dão) da editora x.

Klimt